Somente à noite

34 O grande guerreiro segurando a espada!


Notas iniciais
Tá quase acabando! Espero ter a companhia de alguém ainda ♥

Anna

Há muito tempo, eu li em um livro de romance água-com-açúcar que um dos motivos para as moças não se “entregarem” aos moços era o fato de que isso acarretaria mudanças físicas e perceptíveis em seus rostos e corpos. Lembro-me bem de uma cena, na qual a garota voltava para a sua casa, e a mãe na mesma hora descobre que ela dormira com o galã simplesmente após olhar para a cara menina. Como tinha sido escrito no século XVIII ou XIX, não me lembro, por conta desse “deslize” ela ficava desamparada, desgraçada, e com isso toda a triste trama do livro se desenrolava...

A lembrança era bizarra, mas me perguntei se tinha algum fundo de verdade. Porém, quando me olhei no espelho, nada havia mudado. A mesma pele, o mesmo cabelo, o meu mesmo jeito de ser. Tudo ainda estava lá. A única mudança ocorrida em mim tinha acontecido em meu coração, pois eu parecia estar flutuando em pequeninas nuvens fofas de algodão com glitter cor-de-rosa.

O que eu e Davi tínhamos feito tinha sido tão bonito.

Eram duas pessoas com vontade própria, se amando, e fazendo o que queriam por livre e espontânea vontade. Fiquei me perguntando como em algum momento da humanidade, e ainda o é até hoje, isso fora considerado algo sujo e errado. Até mesmo destruidor. E eu sei disse porque acontecera bem perto de mim.

Recordo o dia que vovó me contou sobre o seu passado. Que estava apaixonada por um rapaz, e que por isso “cedeu” aos encantos dele. Então, quando o seu pai descobrira, ela fora expulsa de casa e obrigada a sair da cidade pequena, para não lhe causar vergonha. Porém, a capital não fora gentil com ela, e por isso tivera que se prostituir por um tempo para poder sobreviver...

Era uma história amarga, cruel. Tão diferente do que eu passava agora. E nem mesmo tinha acontecido há centenas de anos, mas há apenas pouquíssimas décadas atrás.

Eu tinha nascido com mais sorte do que a moça do livro e do que a minha avó, pois não havia nada com o que me preocupar. Eu poderia continuar com a minha vida do mesmo jeito que um dia antes de tudo, e o meu futuro ainda estava garantido. Eu estava feliz. A vida era feliz.

Ninguém ia me mandar embora e eu não precisaria sofrer por simplesmente ser um ser humano mulher.

— Está tudo bem? — Vovó me perguntou quando me viu analisando o meu próprio reflexo no espelho. — Algum problema, meu amor?

— Você é a pessoa mais incrível e forte de todo o universo. E eu agradeço todos os dias pelo privilégio de te ter na minha vida — disse quando me virei para abraçá-la, e ela ficou surpresa. Fiquei ali um bom um tempo para poder sentir o calor e o familiar aroma de rosas do perfume que ela tanto gostava e que me confortava, e a apertei tanto que ela arfou.

— O que foi que aconteceu? — Sarah se afastou para me olhar nos olhos, preocupada, e eu fitei aquela criatura maravilhosa enquanto sentia vontade de sorrir e chorar ao mesmo tempo. — Por que você está dizendo essas coisas, Anna?

— Porque é verdade, vovó — disse e ela sorriu ao perceber que eu estava bem.

— Hum, você está me agradando demais. Isso significa que ou você aprontou algo, ou quer me contar alguma coisa. Acertei?

— Sim, acertou. — Respondi e Sarah passou a mão no meu rosto de um jeito tão maternal que meu coração doeu. Eu realmente tinha sorte, pois sabia que aquela mulher perfeita jamais me faria qualquer mal. Pelo contrário, sei que ela daria a própria vida pela minha se um dia isso fosse necessário. — Então, vamos conversar em particular? — Falei e ela deu uma gargalhada, provavelmente já fantasiando quais segredos iríamos partilhar.

Ao contrário do que imaginei, contar para minha avó sobre a perda de minha virgindade não fora constrangedor. A conversa era séria e Sarah apenas me escutou, me aconselhou, e depois me abraçou bem forte, dizendo que ali começava uma nova fase da minha vida. Ela também reafirmou o quanto me amava e que eu podia contar com ela para qualquer coisa sempre que precisasse.

Nada poderia ser mais perfeito.

Mas, obviamente, o que era segredo rapidamente já não era mais tão secreto assim, pois Conchito e Jeferson logo ficaram sabendo. E, como o esperado, eu passei tanta vergonha que achei que a minha cara iria estourar devido a quantidade de sangue que subira até as minhas bochechas.

— Vocês são muito xeretas!

— Queremos detalhes, ué? — Conchito pediu enquanto Jeferson dava pulinhos de alegria. — Conta tudo e não esqueça nada! Por favor, não mate a gente de curiosidade!

— Pois que morram! — Eu encerrei a conversa, depois de ter ouvido os maiores absurdos, e eles ficaram para trás, indignados.

Aquelas lembranças jamais seriam partilhadas, pois seriam minhas.

Para sempre.

Apenas minhas.

****

Lembrei de como tinha começado, apenas toques e beijos um pouco mais ardentes. Lembrei de como o meu corpo ansiava por estar em contato com o corpo dele, porém parecia que ainda não estávamos próximos o suficiente, pois eu queria mais. Então tiramos as roupas e eu senti todo o calor de Davi, a pele quente em contato com a minha me fazendo arder. No começo fora estranho, doloroso, então o ato em si não fora tão bom. Mas todo o restante tinha valido a pena, e eu sabia que com o tempo e a prática tudo iria melhorar.

Davi sempre vinha à minha casa e isso nunca era motivo de preocupação. Geralmente ficávamos deitados na cama, ouvindo música e conversando, e de vez em quando rolavam alguns beijos assanhados. Mas agora que havíamos aberto todo um leque de possibilidades de “coisas para fazer”, eu me vi nervosa novamente. Para minha sorte, todos haviam saído para a boate, mas não sem antes me oferecerem novamente variadas camisinhas e darem todo tipo de conselho embaraçoso.

*

— Oi. — Davi me disse acanhado, assim que abri a porta para ele.

— Você parece melhor da catapora. Sua babá já te deixou sair?

— Claro que não. Como sempre, eu esperei a noite cair e então fugi.

— Vem, vamos conversar. — Eu sorri e o levei pela mão até o meu quarto. Estranhamento todo o meu nervosismo foi embora e eu passei a me sentir leve e tranquila com a presença dele ali.

Davi se sentou na minha cama, apoiando as costas na cabeceira, e eu sentei entre as suas pernas, com as costas viradas para ele. Ele me abraçou forte e só ficamos ali, quietos, sentido amor e todo o resto.

— Como você está se sentindo em relação a tudo isso? — Perguntei e senti ele fungar no meu pescoço e beijar minha nuca, enviando arrepios para todas as partes do meu corpo.

— Eu nunca tinha sentindo tanta vontade de viver, de existir, quanto sinto agora. — Ele respondeu. — Parece que tudo vale a pena, que cada coisa que acontece é boa. Eu fico dentro de casa, olhando o sol lá fora, e nem ligo mais para o fato de que ele fode com a minha pele. — Davi deu uma risada engraçada, como se estivesse muito satisfeito consigo mesmo. — Eu descobri que há coisas que eu posso fazer, e que por sorte eu tenho não só a noite, como também tenho você. Anna... — Ele me empurrou de leve para que pudesse olhá-lo. — Estar com você daquele jeito foi a coisa mais sensacional que eu experimentei. Eu te amo. É isso. Tô ferrado, não é?

— Acho que sim. Não paro de pensar em você e no que aconteceu.

Davi me beijou, mas foi um beijo casto e amoroso. Nós então nos acomodamos na cama, deitados, e eu fiquei ouvindo o som do seu coração.

— Eu não vou estar aqui no natal. Vou visitar meu pai e meus irmãos, no interior. Estou com tanta saudade deles... — Comecei a contar. Davi ficou um tempo em silêncio antes de falar alguma coisa.

— Anna, seu pai é do tipo fazendeiro armado? Ele atiraria em mim e eu fosse até lá?

— Não, o Carlos é super deboa. Já a Camila, minha madrasta, é bem mais cuidadosa. Ela iria te fatiar inteiro se você me machucasse. E os meus irmãos... Você jamais aguentaria o pique de cinco pestinhas criados na roça, da forma raiz. — Eu ri à lembrança deles nadando no lago, todos gritando enquanto eu vigiava, com medo de se afogarem.

— Parece perfeito. — Davi não estava triste, mas seu olhar foi para longe, provavelmente pensando na própria família.

— Sim, é tudo tão maravilhoso. Um dia eu te levo lá. Prometo. — Eu queria tanto compartilhar as coisas boas com ele... — A propósito, a Maraísa tá chegando daqui a alguns meses.

— Quem?

— Minha madrasta está grávida de novo. Acredita nisso? E só me contaram agora, pois queriam saber primeiro se era menino ou menina. Eu ralhei meu pai, pedi para ele comprar uma televisão e parar de superpopular o planeta, então ele me prometeu que depois dessa a fábrica será fechada. Eu queria que a bebê se chamasse Samantha, mas papai quis manter a tradição de colocar nomes de cantores sertanejos e eu não tive nenhuma chance. Tadinha da bichinha. — Contei, e foi impossível segurarmos o riso.

— Nossa, Anna, quando eu penso que a sua vida não pode me surpreender, você vem e me conta uma novidade. E você é tão amada e ama tanto também. Tudo em você é tão forte e tão intenso. E eu sou tão... eu. Tem certeza que vai aguentar esse encosto chato perto de você? Porque eu não sou uma pessoa muito interessante.

— Claro que é. — Eu respondi, chateada por ele se considerar tão pouco. — Eu não parei de pensar em você desde o primeiro dia que te vi, naquele corredor escuro. Eu gostei de você desde o primeiro momento, da sua voz, do seu jeito e dos seus desenhos. Quer saber? Gosto de pensar que você é como a noite: é quieto, sossegado, soturno, misterioso. Eu preciso de você, pois você é a única coisa que me traz paz no meio de todo esse caos.

— Então, se eu sou a noite, você é o dia?

— Quente e barulhenta? Pode apostar que sim. — Mordi o ombro dele e ele sorriu.

— O dia e a noite... tão poético isso. São tipo como duas partes extremamente opostas, mas que no final se completam.

— Ai, credo. E eu que prometi que nunca ia ficar com essas melosidades. — Disse, parecendo reclamar, mas na verdade eu tinha gostado dessa conclusão.

— Tá vendo só como a gente se equilibra! — Davi riu e eu ri também. — O dia e a noite, duas metades da laranja, a tampa e a sua panela...

— Eu é que vou dar com a panela na sua cabeça se você não parar. — Reclamei, e como sempre Davi nem ligou para o meu protesto.

Logo estávamos nos beijando, gasolina e fogo se misturando. Suas mãos em mim, me apertando, sua boca explorando a minha pele. Era como se tivéssemos feito aquilo a vida toda, pois não precisávamos dizer nada para um saber o que o outro queria. Davi sorriu quando tirei a camisa dele, e meu coração pareceu errar as batidas ao vê-lo tão lindo. Logo nossas roupas voaram pelo quarto e o tempo pareceu não existir.

E a segunda vez foi mais perfeita e ainda melhor.

***

— Bom dia, gente. — Eu cumprimentei meu bando, embora ainda sonolenta. O tempo lá fora estava chuvoso, frio, então tudo deveria parecer escuro e sombrio. Porém, dentro de mim, tudo estava ensolarado e o dia reluzia como milhares e milhares de diamantes. — Café quentinho e bolo? Adoro! — disse, ao sentir o cheirinho no ar, e aquelas três figuras que eu tanto amava me olharam espantadas.

— Hummmmmmmmmmm. — Conchito gemeu, com a boca cheia de pão. — Quanto bom humor! Quem te viu, quem te vê, hein?

— E quem não ficaria de bom humor depois de receber a visita daquele bofinho lindinho. — Dessa vez foi vovó quem falou e eu concordei. Porém, me dei conta de que não tinha dito nada a eles sobre Davi ir me ver e fiquei curiosa.

— Como você sabe que ele veio aqui ontem à noite? — Perguntei.

— Simples, baby. Quando chegamos em casa, às três e meia da manhã, quase demos de cara com ele saindo daqui. Eu bem que reconheci aquela bundinha dura quando ele virou à esquina. — Conchito alfinetou, fofoqueiro, e eu inspirei fundo e expirei mais forte ainda.

— Ele é um fofo, não é, Anna? — Jeferson continuou os elogios, o que me ajudou a recuperar o foco. — Tão bonitinho! Indo embora antes do pôr do sol, tipo uma Cinderela misteriosa...

— Ah, querido, que inocente. Se ele fosse mesmo um fofo ela não estaria com essa cara de felicidade. Aquele rostinho tímido dele jamais me iludiu. Deixa eu adivinhar: aposto que ele usou alguma posição ninja erótica de combate, não foi? — Conchito recomeçou com as bobagens, mas eu é que não iria estragar o meu dia perfeito caindo nas provocações dele dessa vez. Então, quando eu respondi que sim, que tínhamos feito uma posição chamada “o grande guerreiro segurando a espada”, o queixo dele quase caiu no chão; e vovó gargalhou tanto, mas tanto, que se engasgou com café.

— Na verdade, Davi tem um manual inteiro, que vem sendo passado de geração em geração. — Continuei a brincadeira. — Na próxima vez faremos “a flor de lótus invertida no cume da montanha”. Parece que eu vou precisar de manteiga.

— Socorro! — Vovó arfou, meio rindo e meio se engasgando, e logo todo mundo, até a cobra venenosa do Conchito, estava rindo.

— Onde está a Anna vergonhosa e puritana? Eu não posso acreditar no que está acontecendo! Que safada!

— Cala a boca, Conchito! — Sentenciei, mas a minha voz não parecia séria o suficiente para ele me acatar. — Eu vou te bater!

— Você vai bater é uma... — Ele tentou falar, mas eu peguei um pedaço de pão e enfiei na boca dele, o que piorou o estado de engasgo de vovó.

— Acode aqui! — Jeferson gritou e a gente foi salvar Sarah das garras da morte. Dei um copo de água para ela beber, e ela tinha que pausar a cada gole para respirar.

— Vocês ainda vão me matar! — ela falou, entre uma respirada e outra. — É por isso que não sei viver sem vocês.

— Xii, que velha doida! — Conchito insultou. — Esse lugar é um hospício!

— Doida é a tua avó, aquela velha! — Sarah devolveu.

Eles então começaram a brigar e trocar ofensas, como sempre faziam todo o santo dia, e eu pensei no quanto os dois tinham razão.

Aquele lugar era um hospício, e eu jamais conseguiria viver sem eles.