Somebody To You
31 O Caso de Lisanna Strauss. - Estive muito ocupada sendo sua.
Notas iniciais

− Não há nada de errado em ficar com raiva, sabe? – disse o garoto, ao se postar na minha frente.
− Como? – eu franzi as sobrancelhas enquanto ele arrastava uma cadeira, colocando-a na posição contrária e se sentando apoiando os braços na cabeceira dela.
− Deles. – ele disse simplesmente, apontando para o casal do outro lado da rua, que caminhava de mãos dadas e de vez em quando trocava carinhos.
Eu estava no L'heure du Thé, na mesa mais próxima à janela. Minha irmã estava fazendo uma limpeza geral, trocando alguns lustres, acrescentando objetos, mudando louças... Por ser um sábado, ninguém da equipe habitual estava trabalhando, o que fez com que meu irmão e eu fossemos “convidados” a ajudar. Na verdade, ele seria o único de nós dois a realmente fazer algo, uma vez que o necessário era força bruta e organização (coisa que Mira mantinha melhor do que ninguém). Laxus, é claro, também fora chamado.
O que acarretou o aparecimento de mais três figuras na lanchonete.
− Por que você está aqui, Bickslow? – bufei em irritação.
Ele exibiu um misto de sorriso amarelo com misterioso. Ficou me encarando por alguns segundos.
− Não vai responder?
− Estou preocupado com você.
A expressão dele e o seu biquinho fizeram com que não demorasse muito até que eu perdesse minha postura e risse.
− Laxus está muito ocupado com a minha irmã?
Ele revirou os olhos.
− E como. O Freed só falta começar a berrar de ciúmes... Mas e aí?
− O que?
− Você podia parar de fugir do assunto. – ele fez um movimento com a cabeça, indicando minha pessoa.
− Isso não é da sua conta, sabia?
Do outro lado da rua, voltei a observar, estavam Natsu e Lucy, caminhando. Eu não fazia ideia de que eles estariam por aquela parte da cidade, estaria em casa se soubesse. O modo como eles agiam apaixonadamente, de um jeito que eu imaginava ser impossível para Natsu, fazia com que algo se agitasse dentro de mim.
− Eu não tenho raiva deles. Ou dela.
− Mas tem ciúmes. – ele olhava na mesma direção que eu, de vez em quando analisando minha expressão.
O adolescente na minha frente poderia ser avaliado como o tradicional “rebelde” ou “badboy moderno” − por mais que o segundo termo soe tosco. Além de ser alto e consideravelmente forte, tocar em uma banda de rock e tudo mais, ele tinha conseguido a proeza de convencer os pais a deixá-lo tatuar algo que parecia um boneco de papel em seu rosto, que cobria partes de sua testa, nariz e bochechas. Nunca conseguira entender o significado daquilo, se é que havia algum. Para finalizar, o boné de aba reta invertido cobria a maior parte dos cabelos azuis arroxeados parcialmente raspados, que contrastavam com seus olhos verdes.
A respeito da personalidade, eu só podia dizer que ele sabia ser bem intrometido. E me entendia mais do que deveria.
− ... É uma reação natural.
− Não quando se está há mais de um ano tentando esquecê-lo.
“A visão daqueles dois me deixa ligeiramente incomodada.”, foi o que passou pela minha mente. Não era novidade eu achar que já tinha superado Natsu até um acontecimento especial me lembrar de todos os bons momentos que me fizeram amá-lo e esquecer-me de todas as razões para evita-lo. E, no dia do jogo, aquela cena teve esse papel.
É claro que eu queria que fosse para mim, mas isso não era algo que eu poderia expor. Eles eram tão adoráveis que eu me sentiria mal se fizesse algo que complicasse sua relação. O fato de eles terem sentimentos mútuos era uma coisa tão especial, que fez com que eu, e todos naquela quadra, por um momento não se lembrassem de que poderia haver mais alguém naquela história. Uma terceira pessoa, alguém que foi excluído.
Era horrível pensar que esse alguém era eu. A personagem com quem a maioria das pessoas não se importa quando se trata do romance. Por que sempre existe o casal que deve ficar junto, e quando há um (a) rival amoroso (a) e este é rejeitado, o máximo que pensamos é: “foi realmente uma pena que esse personagem ficou sozinho, mas eu simplesmente amo o casal protagonista.”. Assim, a outra pessoa seria deixada de lado, sofrendo por ser possivelmente o vilão, ou chorando e ficando sozinha, ou simplesmente se apaixonando magicamente por outro alguém.
Virei-me para ele com um olhar cortante.
− Você não sabe o que aconteceu.
A lembrança do dia em que eu praticamente verbalizara uma declaração me veio à mente. Aquela de qual apenas eu, Natsu, Mirajane (e talvez Lucy) tínhamos conhecimento.
Uma tarde de sexta-feira. Dever de ciências e a casa do rosado. “Você... Já ficou com alguém?”. Uma negação e uma nova experiência. Para completar, o esquecimento total do acontecimento pela parte masculina envolvida, que tentava reatar uma amizade que passou a fraquejar.
Fechei os olhos com força.
− Exato. E é por eu saber que a história é pior do que imagino que acho que você deveria seguir em frente. Ache um cara, por mais que ele seja diferente do seu ideal. Você não vê seu irmão e Ever?
Ele apontou para a porta da cozinha, onde era possível ver os dois discutindo. Assim como todos em todos os romances da minha geração da família, a relação deles era complicada o suficiente para eu não saber dizer o que eles eram.
− O que quer que seja que ele fez de bom a você, outra pessoa pode fazer isso. E melhor. – ele semicerrou os olhos. – E quem sabe te fazer esquecer-se das partes ruins.
− Você não acha que eu já tentei? Outra coisa... – disse rápido. − Essa conversa já está cansando. Parece um interrogatório.
Bickslow colocou uma de suas mãos na frente do meu rosto, como se pedisse um tempo para expor seu último argumento.
− Acho que é muito fácil dizer que você vai parar de gostar dele e deixar tudo por isso mesmo. Se você não se movimentar, começar a mudança, qualquer coisinha pode arrebentar essa barreira aí. – ele apontou para o meu peito. – Você tem que se ocupar, e não ficar pensando em todas as outras possibilidades que poderiam poder te fazer estar no lugar da Lucy agora.
Eu podia apostar que eu tinha uma carranca no meu rosto, e que ele provavelmente estava bastante vermelho. Porque ele tinha acertado tudo. Por cima do ombro, ouvi minha irmã me chamar pelo que eu achava que fosse a décima vez, e tudo indicava que era para ajuda-la com algo.
− Essa fala foi inesperadamente poética e meio brega. E você sabe demais sobre mim. – eu sussurrei, desconfiada.
− Eu sou músico. – ele abriu os braços, como se esse fato explicasse a sua anormal percepção. – Consigo aprender muito sobre as coisas que observo de perto.
Demorei alguns segundos para desmembrar e compreender a sua última sentença, o que me fez falar antes de me dar conta da situação em que estava.
− Alguma sugestão de uma “distração”?
Ele me lançou um olhar questionador, como de duvidasse que eu não estivesse captando suas intenções.
− Sério isso? – indaguei.
− Com certeza.
Ele se postou na minha frente, sério, esperando a resposta. Demorei cerca de um minuto.
− É bom que você me leve para algum lugar legal.
Bickslow sorriu como se tivesse ganhado na loteria. Sem demonstrar se preocupar muito com o fato, passou uma de suas mãos sobre a minha cintura e me puxou para perto, andando até a saída. Era a primeira vez que eu deixava que um garoto que não fosse Natsu me segurar por tanto tempo e tão perto. O calor de sua mão e o meu batimento cardíaco acelerado me fizeram esquecer um pouco dos pensamentos anteriores.
Sabia que aquilo não passava de atração física, mas ainda assim tinha a impressão que a situação não podia ficar pior.
− Pode deixar. – ele cantarolou, cheio de si.
− Ah, e sem movimentos engraçadinhos, senão eu te acerto com a primeira coisa que eu ver.
− Ok.
− E...
− Mira, estamos de saída!
Ele gritou logo antes de atravessarmos a porta, o que me obrigou a parar de falar e a fugir, rindo, de uma adolescente que saía da cozinha com uma panela na mão, irritada e nos perguntado onde pensávamos que estávamos indo.
Levaram alguns dias até que eu chegasse à conclusão (e Bickslow me contasse) que eu não precisava de cara algum para esquecer Natsu. Mas o processo já estava em curso – nós saíamos juntos sempre que possível −, e depois de gritar com ele por algumas horas achei melhor deixar as coisas seguirem seu fluxo natural.
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