Somebody To You
15 O Caso de Juvia Lockser. - Vingança.
Notas iniciais
Depois de apresentar a sua ideia, Gajeel ficou perambulando pelo quarto, desenvolvendo-a. Ele buscava aumentar a minha moral e “vingar-se” do que havia ocorrido comigo, mas seu divertimento era evidente. Senti-me culpada por traze-lo para a realidade.
– Como assim? – perguntei.
– Como assim o que? Não há o que explicar, nós só vamos derrota-los. Mas, para isso, você precisa se animar um pouco. – ele observou minha expressão. – Bem, talvez não agora, mas com certeza é necessário. Imagine: pela primeira vez seremos capazes de humilhar Jose sem termos que nos preocupar com suspensões e expulsões.
– Nós quem, Gajeel? Se você pensa nessa grande revanche, e olhe que eu acharia incrível, eu e você não somos suficientes. Nós conseguiríamos tirar dois troféus deles, no máximo. E eu definitivamente não quero envolver mais ninguém nisso.
Gajeel franziu as sobrancelhas.
– Verdade. Mas e se eles quiserem, Juvia? Talvez todos queiram tomar alguma providência a respeito disso, te ajudar intimidando eles. São seus amigos, não?
Me levantei da cama e encarei-o. Gajeel, eu sabia, pensava como eu — talvez até com maior maturidade — , mas eu simplesmente não concordava.
– É exatamente por eles serem meus amigos que eu não quero. Ninguém sabe de nada, e não é só por vergonha. E não finja que não entende. Imagine se... fosse a Levy, sei lá? Você iria deixar ela se envolver?
O garoto não precisou pensar muito. Com uma expressão presunçosa, deitou-se na minha cama, tão envolvido no momento que não corou pela constatação implícita no meu comentário.
– Verdade, nesse quesito você tem razão. Eu não iria estimular ninguém com que eu me importasse a se envolver com coisas ruins. Mas a questão é: eu também não me vejo no direito de as impedir. Eu também faria coisas não tão inteligentes por pessoas de quem eu gosto. E prefiro uma pessoa que enfrente tudo ao meu lado, enquanto possível, do que alguém que simplesmente se deixe ser protegido. Imagine-se nessa posição: o que você não faria se esse seu novo lar corresse algum tipo de perigo?
E eu não tive uma resposta concreta. Eu tentei contra argumentar, mas Gajeel (ao contrário do que parecia) era muito bom com as palavras quando queria. Depois de uma longa e inútil discussão, nós finalmente descemos para o andar debaixo. Eu não o impediria, mas faria todo o possível para evitar um envolvimento desnecessário ou excessivo dos outros.
Tentando recuperar um pouco da minha dignidade, eu lavara o rosto e prendera os cabelos sujos, dando-me, segundo Gajeel, um aspecto mais limpo e confiante, ainda que eu respirasse pesadamente. Ao menos, para encarar a todos e de certo modo “esclarecer” o ocorrido, eu tinha de estar mais apresentável. De espírito, eu estava apenas um pouco melhor: a conversa com o lutador me animara, e Gray me permitira relaxar.
Na cozinha, os outros pareciam ter parado no tempo no momento em que eu subi, pois estavam todos calados e sem olhar para um ponto fixo, meio desatentos a tudo. Bem, a tudo menos eu. Por que quando eu entrei pela porta, me encararam com um olhar preocupado. Gray, como sempre diferente, inicialmente franzindo as sobrancelhas em algo que aparentemente era irritação e depois balançando a cabeça, como se para afastar os pensamentos. Não sabia se fora por conta da situação de mais cedo. Eu realmente não fora das mais educadas, chorando em seu ombro para então rejeitar a sua presença.
Ultear postou-se ao meu lado, e eu agradeci mentalmente por ela não ter tentado me abraçar ou me consolar novamente: isso só iria retroceder toda a situação. Ela segurou minha mão, encorajando-me a continuar. Apertei-a.
– Acho que... tenho algumas a dizer. – eu me forcei a dizer as palavras seguintes. – Aqueles garotos... eu já os conhecia, eles estudavam na Phantom também. Mas, está tudo bem.
– Mas por que eles vieram atrás de você? E ainda mais para te intimidar? – Indagou Cana, que estava na casa naquele horário por mera coincidência.
Gajeel me olhou de soslaio. Com um olhar cumplice, eu concordei com a cabeça. Ele não concordava com o fato de eu não querer contar tudo, mas respeitava meu desejo e me compreendia.
– Não sabemos ainda...
– Eles... sabe como é, os alunos da Phantom nem sempre se dão bem entre si. Isso é normal em todos os colégios. – Gajeel tentara dar uma desculpa melhor. – E eles sempre tiveram uma certa antipatia pela Juvia. Por nós, na verdade. Apesar de também termos sido destaques, não quisemos entrar para o “clubinho”. E agora a Juvia foi embora, o que só fez atiçar esse desejo de provocação deles. Na Phantom, quando alguém sai por vontade própria, é considerado suspeito, traidor, repugnante.
Os outros me olharam surpresos. Provavelmente imaginavam uma cena de bullying ou de briga, afinal as últimas palavras de Gajeel não tinham ajudado a amenizar a situação. A explicação era superficial, mas o suficiente para convencê-los. E não havia ali um pingo de mentira. Apenas de omissão.
– E o que eles queriam com você? – perguntou Ul. – Fizeram algo?
– Eles... acho que queriam intimidar, sabe? Para que eu me sinta ameaçada e não compita de verdade. Ele pegaram o meu uniforme.
Nesse momento, o olhar lançado a mim por Ul, Lyon e Chelia foi interessante: um misto de raiva e estranhamento. Acho que não se espera que se aborde alguém para roubar um uniforme escolar. Mas a mensagem havia sido passada: segundo eles, eu não duraria ali. E foi isso que disse aos três.
O ódio estava presente no olhar de todos. Parecia ser considerado inaceitável alguém me tratar de tal modo. Supostamente, ali eu deveria estar livre de todos os males externos.
Gray e Ur se mantinham em silêncio. Eu o achava bem parecido com ela em momentos como o que se passava. Eles ficavam quietos e preferiam averiguar a situação por completo antes de agirem. E com sua expressão um tanto quanto estranha no momento, Gray perguntou:
– E você vai deixar que isso fique assim? Como tem certeza que isso não vai acontecer novamente?
Gajeel tomou a palavra mais uma vez.
– É sobre isso que viemos falar. Eu tenho uma ideia. E, infelizmente, vou precisar da sua ajuda.
...
Gray nos acompanhou, juntamente com Cana e Freed, para os fundos da casa. Os outros também desejavam ouvir o que tínhamos a falar, mas afirmamos que o que aquilo se referia apenas aos alunos da Fairy Tail.
Cana e Gray sentaram-se juntos, como normalmente faziam na escola, e nos encararam esperando uma explicação. Gray, novamente, parecia se controlar para não dizer algo.
– Digam logo. – Cana estava impaciente.
– Concordo totalmente com o senhor-sama quando ele diz que não temos garantia que tudo ocorrerá bem a partir de agora. A Phantom não é de começar algo para não terminar. Por isso eu queria a ajuda de vocês, tanto para ajudar a Juvia quanto para não deixarmos eles saírem impunes. O que acham de derrotarmos todos eles nas estaduais? Se juntarmos alguns clubes, podemos mostrar que não somos tão frágeis assim.
Os olhares voltaram-se para mim:
– Vocês não precisam participar disso, Juvia pode lidar com os problemas dela. – e apesar de dizer isso, eu mantinha certo olhar de esperança em sua direção.
Era meio adverso, mas ao mesmo tempo em que eu não desejava que eles se envolvessem, eu esperava que ao menos tentassem me ajudar. Eu queria que alguém se importasse ao ponto de colocar a mão no fogo por mim, além de Gajeel. Queria ver se era possível ter um grande grupo de amigos, fiéis e gentis, como sempre ocorre com as garotas dos filmes e livros, sejam elas populares ou as mais miseráveis. E eu tinha raiva de mim mesma por isso. Era natural o desejo humano de se ver como importante para alguém, mas me lembrava a todo momento que uma decisão ali tomada poderia prejudica-los mentalmente, competitivamente, academicamente.
– É claro que nós vamos fazer todo o possível. – falou Cana. – Não podemos deixar isso passar, ou você vulnerável a coisas como a de hoje.
Freed colocou uma de suas mão sobre os meus ombros, e sorriu gentilmente, mostrando o seu apoio. Gray se mantinha parado ao lado de Cana, em silêncio. Ele levantou a cabeça, sério:
– O que você quer fazer?
O calor invadiu meu peito. Era uma mistura de dor e prazer.
– Ge-he. – Gajeel se espreguiçou. – O que vocês acham de juntarmos o máximo de pessoas possível, de diversos clubes, com um único objetivo: ensinar uma lição à Phantom? Se nós os vencermos e os tirarmos do campeonato, eles vão recuar. Não acho que eles são fáceis de serem derrotados, mas é possível.
O sorriso maligno de Gajeel se espalhou pelo rosto de todos. Ao que parecia, a maioria dos meus amigos eram sados-masoquistas, e não eu, como o moreno havia dito.
Gajeel explicou então que seria necessário o estudo dos oponentes, e que é por isso que ambos eu e ele seríamos a chave para tudo. Não que nossa antiga escola fosse sair com o rabo entre as pernas, mas saberia ao menos com quem estava lidando, e que não seria tão fácil me abalar quando eu tinha tantas pessoas me apoiando e “lutando” por mim. Essas, é claro, foram palavras do meu amigo de infância.
– Acho uma grande ideia. – Freed inesperadamente se pronunciou. E isso fora um surpresa para mim, mas ele estava irado. – Eles não podem achar que podem fazer isso e irem embora sem pagar.
Ri nervosamente. Freed, a primeira vista, era extremamente tranquilo e gentil, porém, ao ver sua reação a presença de Laxus, eu entendera que a sua personalidade tinhas certas variações. Todo o grupo que seguia a Laxus, na verdade, tinham personalidades interessantes.
Cana também aceitou o plano, e Gajeel então pediu para que apenas Gray continuasse ali. Antes de sair, a morena segurou meus ombros e me virou em sua direção:
– Pode deixar que nós vamos dar conta do recado. Não precisa ficar assim não.
Ela fora uma das garotas com quem eu mais rapidamente me aproximara. Não apenas por sempre estar no Casarão, ou por andar constantemente com Gray, mas por que ela era o tipo de garota aberta a tudo. Não se importava com a delicadeza e manutenção de aparências, ela preferia a verdade, seja ela como fosse. Eu conhecera seu pai, um verdadeiro fanático pela garota, a quem ela tentava ignorar. Eles tinham uma relação adorável e cômica, se é que era possível algo ser ambas as coisas ao mesmo tempo.
Gray levantou-se e ficou em silêncio, esperando que nós falássemos tudo de uma vez. Gajeel suspirou enquanto se aproximava dele. Sem muita cerimônia, colocou uma de suas mãos, pesadamente, no ombro de Gray.
– Você é a pessoa que fica mais tempo com a Juvia, infelizmente. Vocês vão e voltam juntos da escola, ficam para os treinos e ainda moram juntos. E ela não vai ficar andando sozinha enquanto não tivermos a certeza de que essas abordagens não vão voltar a ocorrer. – eu me sentia extremamente envergonhada pelo que se passava. – Eu não posso ficar acompanhando ela o tempo todo, tenho o meu trabalho. Então...
– Se eu poderia ficar sempre ao lado dela para evitar essas coisas? – Gray indagou.
Apesar da conversa ser a meu respeito, eu era uma total excluída ali. Os dois se encaravam como se aquele fosse um momento importante, como se... Gajeel fosse um pai pedindo pela proteção da filha. Ri internamente ao realizar isso.
– Além do que você já faz, gostaria que você a levasse e a buscasse no trabalho sempre que possível, ao menos nessas duas primeiras semana. Depois, se nada acontecer, podemos voltar ao normal.
Gray assentiu, e eles novamente assumiram as expressões de desgosto um sobre o outro. Eles até que se davam consideravelmente bem, mas algo os impedia de parar de brigar ou de serem gentis um com o outro.
Gajeel discutiu a respeito de alguns outros detalhes, e eu ainda me preocupava a respeito de Gray. Com a saída do de cabelos longos, barrei o outro com uma de meus braços. Tinha algo a dizer:
– Gray-sama... – eu mantinha a cabeça baixa. – Desculpe por mais cedo. Juvia estava insegura e precisou da sua ajuda, mas ainda assim não foi capaz de te contar tudo. Espero que...
– Eu entendo. – Gray recuperara o olhar incomodado. – Eu... já disse, o passado de cada um diz a respeito dele mesmo. Você tem todo o direito de não querer dizer nada.
Suas palavras eram totalmente contrárias ao tom em que falava e a sua expressão, e eu não sabia o que fazer para melhorar o clima. Ele estava sim incomodado por algo. E eu sabia que não me diria. Talvez o melhor fosse esperar que a irritação passasse por si só.
– Se você... achou incômoda a proposta de me “escoltar”, não precisa fazer nada disso. Gajeel as vezes não percebe que está incomodando. Não é como se você fosse obrigado a me ajudar...
Gray pareceu ser tomado pelas emoções que buscava esconder. Em um piscar de olhos, ele segurara meus pulsos, prendendo-os ao lado do meu corpo.
– Não é uma questão de ser obrigado ou não. Eu, quero dizer... nós queremos te ajudar. E... – ele parou por um momento, para então me olhar nos olhos. – Eles não vão fazer isso com você e simplesmente irem embora depois.
Meu coração batia rápido enquanto eu tentava desvencilhar meus braços, apertados pelas suas mãos. Não tinha a menor noção do que ele queria dizer com aquilo. Era triste pensar que momentos como aquele poderiam me dar falsas esperanças. Gray pareceu notar a situação, e se afastou abruptamente.
– Desculpe...
Pareceu incomodado novamente, e se virou para ir embora. Pude jurar que, antes de perde-lo de vista, ouvi-o murmurar algo, mas não consegui distinguir o que.
...
A sexta feira e o fim de semana passaram voando. Na escola, muitos perguntaram o que havia ocorrido, ou se eu estava bem. Provavelmente perceberam uma mudança no meu comportamento ou ouviram a história de alguém. Inesperadamente, Lucy foi uma das que ficou ao meu lado em silêncio. Pelas minhas impressões anteriores ao seu respeito, esperava que ela fosse ser bem indelicada, como uma criança curiosa que pergunta sobre assuntos difíceis sem nem ao menos pensar duas vezes.
No Casarão, agradeci a todos por terem me ajudado e pedi que ficassem tranquilos. Ur nos levou a uma sorveteria para ver se me animava, e acabamos indo ao boliche e ao parque da cidade. Tive a oportunidade de conhecer mais Magnólia, e, com isso, na segunda eu já me sentia bem melhor.
Isso até eu passar pelos corredores do colégio. Foi estranho não notar ninguém da sala pelos arredores, então corri, esperando que fosse algum tipo de anúncio do diretor. Mas o aposento estava ocupado apenas pelos adolescentes. Olhando pela janelinha da porta, vi Natsu, Gray e Gajeel parados na frente da sala. Ao me verem, eles fizeram sinal para que eu entrasse.
– O que foi? – eu perguntei.
– Então que dizer que você queria organizar um massacre coletivo da Phantom e não nos chamou? – Natsu veio em minha direção.
A turma inteira riu.
– Gray sugeriu que falássemos logo com a turma toda. – disse Gajeel. – E parece que todos toparam ajudar.
Passei os olhos pela sala. Todos me dirigiam um olhar de conforto. Todos eles estavam ali por mim.
Ai, não. Minha vontade era de novamente tentar evitar que eles interferissem, mas a lembrança das palavras de Gray e Gajeel impediram o meu grande discurso.
– Obrigada, mas... – eu tentaria dizer que ninguém era obrigado a fazer aquilo, mas senti uma presença forte atrás de mim, que me parou.
O cheiro de morango tomava a sala. Havia uma pessoa que estivera fora até aquele momento.
– Acho que você ainda não entendeu uma coisa sobre a Fairy Tail, Juvia. Se nós somos atacados em conjunto, nós revidamos. – um sorriso maligno tomava o rosto de cada um dos alunos ali.
Mirajane se levantou, no fundo da sala, e veio em minha direção, continuando a fala com uma expressão sinistra.
– Agora, se os nossos oponentes são covardes o suficientes para atacarem um de nós sozinho... Nós esmagamos.
E notei que o desejo de vingança era coletivo. Eles não estavam nem aí para uma negociação, ou perdão. Inclusive alguns dos professores, que haviam vindo junto com a ruiva. Fiquei entre as opções de: chorar de emoção ou estremecer de medo pela Phantom. No fim, acabei por realizar as duas.
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