Sombria

1 Zero — O segredo dela.


Notas iniciais
Revisão em um futuro próximo.

Dia dos namorados! Para os acompanhados, esse é um dia exclusivo para homenagear a pessoa amada com presentes, ou um pretexto para um programa diferente com sua pessoa especial. Um dia de alegria!

Mas não para certa pessoa que vos narro.

Miura Haru corria com a força que suas pernas lhe permitiam. Ela já havia perdido a conta de quantas vezes se permitiu aquela “brincadeira de esconde-esconde” com a outra. Não era divertido. A garota tinha nervosismo ao simples pensar na proximidade desses dias, que era sempre quando a lua cheia apontava no céu.

Imagine então como estaria se sentido quando fosse o próprio? O nível de desespero que se passava pelo seu corpo naquele momento poderia ser previsto pelo movimento frenético de seus olhos em busca de um lugar que pudesse se ver livre...

Várias portas estavam trancadas devido ao pouco movimento na hospedaria, ou seja, poucos lugares que pudessem ser usados como abrigo. Seu objetivo era ir embora da grande construção, mas à medida que chegava próxima à recepção se preocupava que o demônio tivesse previsto esse movimento e estivesse a sua espera... Embora não possuísse a mesma inteligência de quando possuía sua sanidade dos dias cotidianos.

O demônio chamado Sasagawa Kyoko, sua namorada há um ano.

Aquele deveria ser o dia em que comemorariam o dia dos namorados, desse modo, havia se esquecido de que não era saudável ela estar próxima de Kyoko aquele dia, a outra também se esquecera, apenas quando a transformação de Kyoko se fez evidente que a ficha caiu. Não antes que pudesse impedir que seu ombro recebesse uma mordida daquela que amava.

Porque algo assim teria acontecido? Ah, claro, fora esquecido de revelar um detalhe importantíssimo a respeito de Sasagawa Kyoko...

A família Sasagawa vinha de uma família amaldiçoada que a tornava incapaz de comer nada além de carne humana em dias de lua cheia. Como os homens que se tornavam lobos nesse mesmo dia específico. E assim, amaldiçoados, eles viviam isolados e cuidavam de uma hospedaria como forma de sobreviverem com sua renda.

Não. Se você pensou que os Sasagawa assassinavam e se alimentavam de seus poucos clientes... Quando a situação exigia, eles adquiriam seu alimento profanando os túmulos de falecidos que ainda possuíam carne em seu corpo. Foi o destino dos corpos dos pais de Haru, motivo para que ela surgisse naquele lugar sombrio, pois os Miura e os Sasagawa eram colegas... E possuíam um antepassado comum.

Certo. E porque Kyoko estaria atrás de Haru?

E porque Haru não a deixou após descobrir o segredo que rondava ambas as famílias?

Porque elas se amavam.

Haru não conseguiu se imaginar sem Kyoko e essa era a única forma que os canibais conheciam e podiam consumar o seu amor plenamente. Eles, que não viviam por comer, mas viviam para comer. Era o mesmo com Haru, mas ela não se transformava nesses dias por não ser um sangue puro.

E por isso elas conseguiram adiar “o dia” sempre que puderam... Não tinha como se afastarem, pois o local, como foi dito, era isolado. Então tudo dependia de quanto tempo Haru conseguiria ser a vencedora daquele “esconde-esconde”.

Já havia acontecido de Haru ser mordida, mas não de forma que tanto sangue pudesse sair do ferimento: Haru pressionava seu ombro de forma que pudesse conter, porém sentia sua vista embaçar pouco a pouco...

Ela sempre soube e sentiu que a fome, e a vontade de saciar essa fome, era um direito algo comum e irrepreensível de um ser humano. Dessa forma, mesmo que sentisse seu coração se acelerar de medo, não achava que era errado o olhar que o amor de sua vida lhe dirigia: um olhar alucinado de pura felicidade ao encontrar a sua presa.

Como temia e imaginava, a sua bela namorada diante da saída: O cabelo castanho bagunçado pela provável corrida que fez para alcançar sua presa fugitiva; a camisola fina, apesar do frio da noite, voava um pouco por causa do vento que vinha pela porta aberta...

Depois de várias vezes utilizando esse método, era provável que a versão animalesca da Sasagawa percebesse um dia, e esse dia era aquele.

Mas, ah, será que o era mesmo? A porta estava aberta e apenas consciente Sasagawa poderia fazer algo assim, pois instintivamente seus movimentos se limitavam a correr, agarrar e arrancar. O que teria acontecido...?

– Kyoko-chan...? — Haru chamou com a voz falhando.

–... Haru-chan... Desculpe... Eu devia ter prestado atenção... Eu vou ficar aqui fora o quanto eu puder para você se esconder melhor... Meus pais sabiam que isso iria acontecer e esconderam as chaves dos quartos... Não consigo acreditar... — Kyoko disse com uma voz sofrida e ela apenas se agravou ao rever a mordida profunda que tinha feito no ombro da outra.

– Não... Precisa se preocupar mais... Eu não... Aguento...

“Desculpe” era o que diria depois, mas Haru não conseguiu manter a consciência pela perda de sangue e apagou.

O dia veio e, felizmente ou não, Haru conseguiu vê-lo. Estava deitada em seu quarto, que era onde anteriormente se guardavam as vassouras e outros produtos de limpeza. Mas era grande o suficiente para que pudesse dormir confortável e mais duas pessoas adultas pudessem se sentar ao seu lado.

– Haru-chan... Consegue me entender? Como está se sentindo?

Era Kyoko que falava. A garota vestia um kimono vermelho e tinha o cabelo claro preso em suas marias-chiquinhas baixas.

– Mal... Mas não precisa ficar preocupada... — Haru disse baixinho.

– Mas é claro que eu...!

Kyoko ia terminar a frase, quando viu o olhar que o irmão lhe dirigia e se indignou:

– Você não vai pedir desculpas a Haru-chan?

– O quê? Só fiz o que nossa mãe disse, mas se você realmente quer isso... Desculpe por esconder as chaves — Ryohei falou dando de ombros.

– O que eu queria era que nos deixasse em paz! — Kyoko disse furiosa, se levantando de onde estava e fechando a porta do “quarto” com força.

– Kyoko realmente gosta muito de você... Mas desse jeito as coisas só ficarão piores. — Ryohei disse a Haru que apesar de ainda estar fraca tentava acompanhar o que era dito — Porque não para de ensinar essas coisas absurdas da sua cultura? Aqui os namorados matam uns aos outros, assim como aconteceu com nossos pais, tios, colegas... O que estão fazendo é antinatural.

– Se conseguimos até agora... Acho que é meio cedo para concluir como se fazer as coisas... Não? — Haru falou com dificuldade.

– Eu podia te matar agora — Ryohei falou com um olhar claramente irritado por ser contrariado -, mas não somos assassinos. Isso também é antinatural. Agradeça garota Sacrifício.

E com essas palavras Ryohei também deixou o quarto. Haru se pegou refletindo sobre as palavras que seu “Onii-san” disse e imaginou se não estava realmente sendo um incômodo.

Mas depois de lembrar o rosto de Kyoko quando a viu acordar... Como parecia magoada pela interferência de sua família... Haru conseguiu dormir um pouco mais tranquila. Embora, diferente do dia que passou e outros que ainda se seguiriam, não haveria nada para comemorar...

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