“Quanto mais eu os via, maior se tornava meu desejo de reivindicar sua proteção e bondade. Meu coração ansiava por ser conhecido e amado por essas criaturas amáveis, ver seus doces olhares dirigidos a mim com carinho era o limite máximo da minha ambição. “

Frankenstein — Mary Shelley

No vale verde, onde o sol brilhava naquele verão, podiam se ouvir risos de duas crianças que corriam por todo aquele campo até o rio que dividia a área de onde ficava sua casa até alguns quilômetros num vilarejo aonde iam à escola e, muito raramente, faziam compras com seus pais.
Sabiam que a partir dali não podiam ultrapassar sem estarem acompanhados de um responsável.

A jovem de sete anos com um longo cabelo esverdeado bem escuro e olhos lilases, olhava para seu irmão mais velho de dez anos.
O vento batia gentilmente nos cabelos negros dele. Enquanto isso, ele, com olhos, cor âmbar como os de sua mãe, também olhava sua irmãzinha. Eles tinham um sonho que há muito tempo compartilhavam: queriam sair do vale. Queriam conhecer duas pessoas das quais seus pais sempre falavam, porém, não tinham permissão para isso.
Seus pais os protegiam demasiadamente e eles não sabiam corretamente o porquê disso.
Logo, bem distante, eles conseguiam ouvir seu pai chamando por eles.

Então voltaram para casa. Uma grande casa de madeira adornada com motivos típicos da região.
Era hora do almoço.

Eles iam até à sala de jantar onde havia uma mesa redonda à qual se sentavam com seus pais.

Zoe e Oliver tinham muitas dúvidas em suas cabeças infantis.
Por que não podiam viajar até os locais dos quais seus pais sempre falavam? Por que não podiam ver o restante de sua família? E porque seu pai Lelouch abandonou o trono de Britannia?

Lelouch e C.C. sempre falavam a respeito de diversas coisas do seu passado para seus filhos, mas omitiram a grande maioria. As crianças verdadeiramente mal sabiam sobre o passado de seus pais e sempre que perguntavam, C.C. e Lelouch tinham a tendência a desconversar.

— Você pode tocar neles quando seu geass estiver ligado,Oliver.

Dizia Zoe animada, jogando xadrez, enquanto Lelouch e C.C. arrumavam a casa no andar de baixo.

— Você sabe que isso é expressamente proibido!

Dizia o menino mexendo uma peça naquele tabuleiro de xadrez.

Com a janela aberta, bateu um grande vento e o sol iluminou uma antiga pintura que havia naquela biblioteca. Eles então olhavam para aquela pintura de um metro e meio que conheciam tão bem.
Ali estavam retratados sua mãe e seu pai como imperador e imperatriz de Britannia. Ao fundo, podia-se ver o cavaleiro Suzaku, o melhor amigo de seu pai.

Oliver então virou para sua irmã olhando-a seriamente.

— Você os sente ainda?

— Sim. Sempre.

O geass dela estava ativado no momento.

Eles nasceram com aquele poder. E a maior preocupação de seus pais era que eles ainda não conseguiam controlar seus geass.


— Talvez, com seu geass ,a gente possa achar o caminho.

Dizia Oliver para sua irmã, depois de mover mais uma peça do tabuleiro.

— Como uma bússola?

Ela olhava um pouco espantada para a cara de seu irmão enquanto fazia a sua jogada.

— Exatamente.

— Mas não podemos sair daqui.

— Papai e mamãe não precisam saber.

Dizia o menino que era tão parecido com seu pai em aparência, enquanto derrubava a última peça da irmã, vencendo o jogo.

— E o que podemos levar?

— O álbum de fotos, é claro! Eu também posso fotografar as pinturas para provar quem somos nós.

— Eu não sei. Ainda não sabemos controlar o geass, Oliver, e se eu não conseguir ativá-lo e perdermos a rota?

— Isso não vai acontecer. Com o álbum, seu geass consegue achar mais facilmente a rota só de olhar para as fotos. Assim como você os sente quando passamos pelas pinturas.

— Você não poderá tocar em ninguém então!

— Meu geass não vai me controlar.

Disse o menino com certa raiva em sua voz.

— Sempre diz isso, mas quando seu geass ativa, você fica tão mal a ponto de ficar doente. O que você vê?

— Você sabe bem o que eu vejo, por isso nosso pais não se deixam tocar quando meu geass está ligado. Eles têm muito a esconder e eu quero respostas.

— Você acha que vamos achar essas respostas em Britannia?

— Não vejo outra possibilidade.

Eles então saíram da mesa de xadrez e foram ao quarto que compartilhavam.
Ali Oliver pegou a sua máquina fotográfica portátil que havia ganho de seus pais e voltou à biblioteca com Zoe que procurava pelo álbum.

— Tira uma foto boa.

— Não confia em mim. Zoe?

Disse o menino, ajustando a máquina para tirar uma foto de uma pintura de Nunnally como imperatriz, que também havia na biblioteca.

A menina apenas sorria e, depois de ele tirar as fotos, ela botava a mão na pintura e seu geass ativava.

— Eu sinto ela, bem distante!

Aquele domingo passou normalmente e logo a noite chegou
Lelouch e C.C., com seus filhos, estavam fazendo um pic-nic sob as estrelas que brilhavam intensamente.
A pizza que sua mãe havia feito já estava quase toda devorada e C.C. tinha seus filhos deitados próximos a ela.
Lelouch olhava aquela cena com um sorriso em seu rosto.
A vida tinha se tornando maravilhosa e o passado triste e sombrio havia ficado para trás. Tudo o que importava agora era a família que ele tinha com C.C.
Ainda pensava em sua irmã. Tinha notícias dela apenas pelos noticiários da TV onde ela sempre estava acompanhada por Suzaku como Zero.

Ele olhava para as estrelas e lembrava de doze anos atrás quando recuperou a consciência graças a C.C. Depois de uma última batalha, sua irmã pediu para ele ficar em Britannia. Entretanto, ao virar para o lado, ele viu o principal motivo de ele ter recusado a proposta de sua irmã.
C.C. dormia tranquilamente com sua filha ao lado de Lelouch. Oliver estava deitado com um dos braços sobre seus olhos.

— Oliver, está se sentindo bem?

Perguntava Lelouch ao seu filho. Sabia que ele tinha uma grande tendência a passar mal quando seu geass ativava descontroladamente.

— Sim.

Respondia apenas isso.Na realidade ele estava pensando. Pensando em como ele e a irmã realizariam seus sonhos.

Lelouch então se sentava e olhava para os lados. Não sabia que horas eram, mas, sem dúvida, já havia passado do horário de Oliver e Zoe estarem na cama.
Ele então, gentilmente acordava C.C.
Logo Oliver e Zoe eram levados para dentro por sua mãe enquanto seu pai arrumava a bagunça no gramado. Depois, voltava para a casa para dormir.

Oliver acordara repentinamente e vira que estava em sua cama. Ele olhou para o relógio na parede e viu que ainda era muito cedo. Com certeza seus pais estavam dormindo naquela hora.
Virando se para o lado, via que sua irmã que ainda dormia abraçada na pelúcia que havia ganho de sua mãe. Uma pelúcia amarela e disforme que elas chamavam de Chesse-kun.
Ele se levantou e olhou para fora. Os primeiros raios de sol mal surgiam no horizonte e muito do vale ainda estava escuro. Atravessando o céu, ele podia ver Mechas de várias formas.
Havia alguns apenas terrestres e outros que voavam

Naquele momento, ele se lembrou de uma vez em que se aventurara com sua irmã por toda aquela extensão de campo, encontrando em meio a uma área próxima às árvores longínquas, um antigo Mecha que parecia ser da época da guerra.

— Será que... ?

— Oliver, O que faz acordado?

— Zoe, prepare-se! Vamos realizar nosso sonho.

— Mas como?

— Siga-me apenas. Eu sei o que fazer.

— Será que conseguiremos voltar antes da hora para ir à escola?

— Vamos ter que faltar a escola.

Dizia Oliver sentando-se em uma escrivaninha e escrevendo um bilhete.

— Vista-se e pegue o álbum. Vai ser uma longa caminhada.

Após pegarem o que precisavam abriram a porta. Viram que a porta do quarto de seus pais ainda estava fechada naquele corredor escuro, o que indicava que, muito provavelmente, eles ainda estavam dormindo.
Tentavam ser o mais sorrateiros possível. E logo eles estavam fora de casa.

— Vamos! Precisamos ser rápidos.

Zoe começava a caminhar atrás de seu irmão. E quando chegaram ao destino o sol já havia se formado no céu.

— O Mecha antigo? E sério, Oliver? Isso é uma ruína!

— Talvez funcione.

— Você nem sabe pilotar direito isso. O pai só te deu poucas aulas quando visitamos a cidade.

— É mais que o suficiente.

Dizia ele com um sorriso petulante olhando para o Mecha.
Ele então se aproximou e viu que a cabine não estava totalmente fechada. Isso foi uma enorme sorte. Ao abri-la totalmente o cheiro de mofo exalou.

— Eu não vou entrar aí não.

— É nossa única chance. Zoe.

Ao ver seu irmão entrando na cabine, ela se angustiou um pouco. Isso podia dar tudo errado. Mas o seu desejo era tão grande quanto o do seu irmão. Então ela também entrou na cabine, sentando-se um pouco atrás e acima da área de pilotar, onde Oliver se sentara.
O menino olhava para todos os cantos, até que lembrou, pelo menos, como dar a partida naquilo.
Ao ouvirem a cabine se fechando e o Mecha ligado, eles sorriram um para o outro.
Ainda havia muito o que fazer
.

— Zoe, abra o álbum e seja minha bússola.

Dizia o menino com um grande sorriso tão semelhante ao seu pai.