Sombras que vibram na memoria.

1 O imperador, a bruxa e o pião.


E se o campo estiver perdido?

Nem tudo está perdido; esta vontade inconquistável,

E estudo da vingança, do ódio imortal,

E coragem para nunca se submeter ou ceder.

O paraíso perdido — John Milton



A.T. B 2018



Por pouco não invadiu aquele casamento meses antes.

Como depois de tudo ele se torna o imperador de Britannia e casa com uma desconhecida…. Bem, pelo menos, uma desconhecida para ela.

Já havia visto aquela mulher de cabelos esmeralda e olhos, cor de âmbar diversas vezes pela academia. E realmente, na maioria das vezes, ela estava com ele. Mas nunca conseguiu pegá-los se beijando ou qualquer coisa do tipo. Então às vezes pensava que fosse apenas uma amiga dele e tudo que tinha era um ciúme bobo.

Agora os dois estavam casados.

Ela não conseguiu chegar até o casamento, mas olhava para o Palácio de longe onde o casal agora vivia. Queria vê-lo apenas mais uma vez.

Era manhã e ela nem sabia como havia conseguido passar pelos portões, já que havia guardas por todos os lados. Começava a andar por aquele jardim da frente se movendo entre os diversos arbustos e árvores. Aproximando-se mais da parte de trás do palácio, conseguia ver aquela nova imperatriz de Britannia com um nome tão incomum.

Ela vestia, no momento, um longo vestido vermelho carmim que contrastava com as flores brancas que a circundam aquela área do jardim.

Ela estava sentada próxima a uma enorme chafariz enquanto lia um livro antigo de capa dura que a princípio não conseguia identificar.

Respirou fundo e se aproximou da imperatriz.

— Majestade?

Ao ter sua atenção chamada por uma voz feminina que ela parecia reconhecer de algum lugar, C.C tirava os olhos do livro e olhava para frente de onde vinha a voz.

Naquele momento ela não conseguia acreditar em quem estava em sua frente.

Shirley fazia uma mensura a ela.

— O que faz aqui, Shirley?

Perguntava a imperatriz com a cara fechada.

Ao ouvir que a imperatriz sabia seu nome ela levantou a cabeça. Como ela sabia seu nome se nunca tiveram a oportunidade de se falar? Será que Lelouch já comentou sobre ela para sua mulher anteriormente?

— Mil perdões, Majestade, mas não estou aqui para lhe causar problemas, muito menos para ele…

— O que faz aqui então?

Dizia C.C. largando o livro que lia — Paraíso perdido de John Milton — ao seu lado.

— Eu queria apenas conhecê-la, Majestade. Sempre a vi na academia com Lelouch, mas nunca tivemos a oportunidade de nos falarmos. Mesmo Lelouch e eu sendo amigos. Bem, ele nunca comentou sobre você para os amigos.

— Eu sei, nós temos um motivo para isso….

Aquelas palavras de C.C. deixaram Shirley um pouco confusa, mas decidiu não perguntar sobre isso.

— Vocês se conheceram na escola?

— Sim.

Falava C.C. sem nenhum problema em mentir. Já estava mais que acostumada.

Ela então dava espaço para Shirley se sentar. No meio delas ainda havia o livro separando-as.

Shirley ficou depois daquilo muito tempo muda olhando ora para baixo, ora para a imperatriz que não parecia expressar nenhum tipo de sentimento no momento.

Ela parecia tão fria. Como Lelouch pode ter se apaixonado por uma mulher assim? Ou, com ele, talvez a imperatriz fosse diferente. Talvez estivesse assim porque se a imperatriz soubesse seu nome provavelmente também saberia que ela sempre amou Lelouch. Decerto, não passavam de rivais no amor.

— Ele está aí

— Está muito ocupado agora. Se você for lá ele não vai gostar. Suponho que não queira desagradá-lo.

Dizia ela de maneira um tanto seca sem sequer lhe dirigir o olhar.

C.C. olhava para o céu azul sem nuvens enquanto Shirley olhava para o chão.

— Entendi. Devia imaginar que ele estaria ocupado, afinal agora ele é o imperador. Mas e você? Às vezes participa? Ele te pede conselhos?

— Sim.

Shirley nesse momento também olhava para o céu.

— Eu admito estar muito confusa. Não sabia que ele era um príncipe da Britannia. Muito menos que viraria imperador.

C.C. olhava para Shirley naquele momento e, então, começava a falar fazendo a ruiva olhar em seus olhos cor de âmbar.

— Shirley, a qualquer momento eu e Lelouch precisaremos de ajuda. Você está disposta?

— Sim. Sempre estarei disposta a ajudá- lo…. E a você também Majestade.

Com essa resposta C.C. dava um sutil sorriso.

— Ótimo. Um dia você terá que trazê-lo para mim, aqui mesmo, nos jardins do palácio, durante a noite.

Shirley não entendeu o que isso significava. Ela olhava para C.C., claramente em dúvida.

— Acredite, você vai ajudar muito.

A ruiva, então, apenas balançava a cabeça em sinal positivo. Não sabia exatamente o que ela queria dizer, mas imaginava que haveria uma espécie de sinal para ela ter que fazer isso.

— Quer andar? Estou cansada de ficar sentada aqui.

Com essas palavras C.C. se levantou pegando o livro e começou a caminhar pelo jardim.

Repentinamente, a Imperatriz parava e botava a mão em sua barriga, naquele momento presa por um espartilho sob o vestido.

— Tudo bem, Majestade?

— Sim, apenas um leve enjoo começando.

— Você tem isso sempre?

— Bem no começo da gravidez é comum, certo?

Naquele momento Shirley parou enquanto C.C. continuou a caminhar, até que olhou para trás e viu a ruiva.

— Falei alguma coisa? —

Perguntava a Imperatriz com sua face sem expressão.

Nesse momento Shirley percebeu que havia ficado parada, pensativa e então voltou a caminhar ao lado de C.C.

Olhando para as janelas do palácio, enquanto passavam por ele, pareceu ver Lelouch em uma delas. Ele parecia discutir com alguém, porém não dava para ver com quem.

Naquele momento, ela corou e voltou a olhar para C.C. que ainda mantinha uma das suas mãos em sua barriga.

— Talvez seja melhor a Vossa Majestade descansar. Se quiser posso ajudá-la a chegar até a entrada.


— Sim, você tem razão. Obrigada.

Às duas começaram a caminhar até a entrada do palácio.

Os guardas tentaram impedir Shirley, mas logo a imperatriz deu autorização para que a ruiva entrasse no Palácio em sua companhia.

Havia uma enorme sala e uma escadaria belíssima que dava para o andar acima onde se encontrava o quarto de Lelouch e C.C.

Shirley, passando pelo corredor do andar acima, conseguia ouvir a voz dele que parecia um tanto perturbado. Mas ela não conseguia identificar o que ele realmente falava e muito menos com quem.

No final de um extenso corredor, chegou ao quarto amplo com móveis de extremo luxo e uma grande cama com a cabeceira encostada a uma das paredes.

C.C. se sentou nela enquanto Shirley começou a olhar o ambiente. Havia várias fotos antigas em uma cômoda. A maioria era dele, C.C. E Nunnally. Havia fotos também de certas pessoas que ela não conhecia e até uma foto onde ela aparecia com todos do grêmio.

Mas a maior foto, a que mais chamava a atenção, era exatamente uma foto do casamento de Lelouch e C.C.. Aquela foto estava em um quadro na parede e era bem maior que todas as outras.

— Bem, é melhor eu ir agora.

Disse a ruiva a Imperatriz que apenas concordou com a cabeça.

C.C. lhe daria rotas de esconderijos e aberturas secretas que fariam com que ela pudesse sair sem ser percebida.

E assim a ruiva fez.

Poucas horas depois,Lelouch entrava no quarto e via C.C. sem o vestido que havia visto ela usar de manhã. Agora estava com aquela antiga camisa dele que usava sempre para dormir.

Ele sorriu e fechou a porta do quarto indo em direção à cama.

Ela parecia dormir naquele momento, mas quando sentiu que ele acariciava seu rosto, acordou.

— Desculpe. Não queria te acordar.

— Não tem problema. Enquanto andava pelo jardim hoje de manhã, observei pela janela você discutindo com alguém. O que houve?

— Suzaku está tentando me dissuadir do plano.

— Por quê?

Ele então botou a mão na barriga de sua Imperatriz, acariciando-a.

— Porque tenho agora muito além de Nunnally para cuidar.

C.C. naquele momento pensava também como seria sem ele, entretanto ela tinha um plano. Não sabia se daria certo.

— E você, o que fez hoje? Só ficou aqui no quarto? Pelo que eu lembro você foi ler no jardim pela manhã, certo?

— Sim. E encontrei a Shirley.

— O quê?

— Foi isso mesmo o que ouviu.

Lelouch nesse momento botou uma das mãos em sua testa.

— O que ela veio fazer aqui? Como conseguiu entrar?

Não sei como ela entrou, mas nos encontramos no jardim e ficamos conversando até eu sentir enjoo e ela me ajudar a vir até aqui.

— Entendo.

Lelouch então se deitava na cama de frente para sua Imperatriz. Ele estava soturno, ainda acariciando a barriga dela com o olhar perdido.

— Lelouch. O que houve?

— Estou apenas pensando…

— No bebê?

Ele balançava a cabeça em concordância.

— Eu não quero deixar você sozinha de novo, ainda mais com um filho nosso… Eu devo estar com você. C.C. Com você e com nosso filho. Não seria justo deixar vocês. Com vocês e comigo…. Eu quero ver essa criança crescer ao seu lado.

— Lelouch, pense na Nunnally, tudo o que você fez. Todos os seus planos, tudo que passou, foi por ela. E agora que terá a chance de fazer o mundo de que ela precisa, você….

— Mas também não posso te deixar sozinha com uma criança C.C. Sem ter para onde ir…. Eu amo Nunnally, ela é minha irmã e foi única companheira por muito tempo, mas também amo você, e essa criança que ainda nem nasceu… Eu não sei o que fazer.


— Não se preocupe Lelouch, eu sei o que fazer.

Aquilo que ela falou chamou a atenção dele.

— O que seria?

— Tenho meus segredos. Dizia ela rindo.

Logo ela o via por cima dela na cama com uma cara séria, entretanto depois ele também sorria.

— Vai mesmo esconder segredos de mim, C.C., depois de tudo o que sabemos um do outro? Do seu marido, seu imperador?

— Sim. Vou.

— Bem, eu sei fazer você falar.

Logo os lábios dos dois se tocaram mais uma vez.



Os meses se passaram e Shirley acompanhou atônita a tudo o que aconteceu. Como ele pôde fazer tudo aquilo? Não era o Lelouch que conhecia.

Ela agora estava entre a multidão que acompanhava àquele espetáculo de horror quando muitos dos Cavaleiros Negros seriam executados com outros soldados, até mesmo de Britannia. Lelouch estava orgulhoso sentado em um lugar elevado. Mais abaixo dele Nunnally, também presa, de cabeça baixa.

Mas onde estava C.C.?

De repente, ela via alguém correr em direção a Lelouch. Era Zero que, munido de uma espada, pretendia matá — lo. Shirley abaixou-se atrás da mureta para não ver o que acontecia, em completo desespero.

Aparentemente esse era o sinal. Agora era hora de ajudar Lelouch.

Ela esperava a poeira baixar e já à noite chegava com o corpo de Lelouch. Em lágrimas, o botava no chão do jardim em frente a C.C.

— Aqui está ele. Por favor, enterre-o dignamente.

— Não vou enterrá-lo ,Shirley.

Naquele momento Shirley olhou para a imperatriz não entendendo.

— Seu papel ainda não acabou.

Segundos após falar isso, Shirley sentiu, rapidamente, a imperatriz pegar em sua mão enquanto uma imagem incomum que ela tinha na testa parecia acender em vermelho.



— Aceita este contrato?

— Sim.

Às duas então soltavam suas mãos e Shirley olhou para Lelouch.

— Já sabe o que fazer, Shirley. Vá e faça.

Naquele momento, Shirley ligava o Geass que havia recebido.

Shirley se surpreendeu quando viu Lelouch abrir seus olhos. Ele estava vivo, como C.C. falou que aconteceria.

Estava encantada.

Mas logo às duas perceberam que havia algo de errado.

Rapidamente ela via C.C. começar a chorar, jogando-se e abraçando Lelouch que, naquele momento, não fazia nada.

C.C. estava claramente desesperada e logo Shirley percebeu duas coisas: O que havia ali não era Lelouch, apenas a "casca" dele, e que não importava o que fizesse Lelouch nunca seria seu.

O desespero de C.C. ,além de seu próprio casamento e gravidez, eram provas disso.

Ela havia sido usada?

Naquele momento Lelouch olhou-lhe com olhos vazios. C.C. ,de uma maneira desesperada, tentava recuperá-lo, beijando-o apaixonadamente. Não houve resultados.

Shirley apenas se levanta chocada e sai correndo o mais rápido que podia para fora dali tentando não chorar.

Seria a última vez, em muito tempo, que teria notícias de Lelouch e C.C.

7:00

O caixão foi enterrado, mas poucos sabiam que o nonagésimo nono imperador não estava ali dentro. Apenas uma cópia arranjada.

Enquanto isso C.C. já estava muito longe, em uma carroça. Entretanto, ela não estava sozinha. Seu objetivo agora era arranjar algum portal do pensamento, qualquer um que fosse, a fim de que pudesse recuperá-lo.

Era uma jornada difícil. Principalmente porque ele não estava mais naquele corpo. Ela tinha que cuidar dele o tempo todo como se fosse uma criança pequena e assustada.

Por cada lugar específico que passava, só encontrava ruínas. Passado um ano, só faltava um lugar para procurar: Zilkhstan.

Ela ia com ele até lá, escondido, e finalmente, após tanto tempo, conseguiria recuperá-lo.

Lelouch resolveu definitivamente estar do lado dela. Para todo sempre, tal qual prometeu em seu casamento.



— É bom estar de volta, graças a você

dizia Lelouch de mãos dadas com ela enquanto seguiam, durante horas e horas de caminhada, para uma cidadezinha.

— Mas me diga uma coisa. Onde está nosso filho? Você o deixou com alguém de confiança para me buscar, certo?

Ao ouvir aquelas palavras, ela apenas abaixou a cabeça e continuou a andar com ele quase o arrastando enquanto ele perguntava o que estava acontecendo.

Chegando à cidade, acharam um pequeno hotel onde pagaram por um quarto, afinal já era noite e estavam muito cansados.

Lelouch, depois do banho, ainda via C.C. sentada na cama de cabeça abaixada não revelando seu rosto.

— C.C., por favor, conta-me o que aconteceu? É algo com nosso filho? Você teve alguma notícia ruim recentemente?

Perguntava ele sentado ao lado dela na cama segurando uma das suas mãos.

C.C. Apertava forte a mão dele. E naquele momento, conseguiu perceber que ela chorava, deixando-o profundamente preocupado, pois era muito difícil vê-la assim.

— Ele não nasceu, Lelouch….

— Como assim?

Perguntava ele em negação, não queria acreditar.

— Eu o perdi, eu sofri um aborto.

Lelouch ficou em choque por vários segundos, mas logo abraçou-a o mais forte possível. Ambos choraram.

No dia em que isso aconteceu, ele não pode consolá-la. Era apenas uma casca, sem mente, lembranças ou sentimentos.

Ao abraçá-la ele conseguiu ver as lembranças dela sobre isso. Ela chorando descontroladamente abraçada a ele na cama, enquanto ele apenas olhava para o nada, com os olhos vazios.

Sentia-se terrivelmente culpado por não estar ali no momento para ajudá-la e consolá-la.

— C.C., desculpe-me… Eu… eu devia estar com você, eu devia ter feito alguma coisa.

— Lelouch, você não tem culpa. Você não fez nada, não porque não quisesse, e sim porque não pôde. Eu sofri muito… a sua ausência, a perda do bebê. Mas nada disso é culpa sua ou minha>

— Eu prometo,C.C. ,quantas vezes for que eu vou fazer você feliz. Vamos nos estabelecer no lugar a sua escolha, ter uma família, e viver juntos para sempre. Você será feliz para sempre. Eu faço tudo por isso minha bruxa.

Ao ouvir suas palavras, ela o abraçou mais forte.

— Eu sei que vai. Nós dois seremos felizes.