Sombras do passado

1 Castelo de areia


A correria no trabalho, finais de semana com a família e amigos, tudo estava na mais perfeita ordem. Perfeita até demais, dava até medo, como se algo de ruim estivesse prestes a acontecer.

Nada em sua vida tinha sido fácil ou simples, então todo tempo longo de estabilidade causava estranheza.

Apesar da aparente calma, manter-se sóbria continuava sendo um desafio, era um trabalho para uma vida inteira, estar atenta, ir a reuniões, ter uma base familiar forte, um suporte, e isso ela havia encontrado finalmente, com Meredith, Maggie e Link.

Os primeiros raios de Sol surgiam e Amélia como sempre estava atrasada — roupa, café, crianças, carro, trabalho. No fim as coisas sempre se ajeitavam.

Ao chegar no hospital, Amelia mal paramentou e já foi requisitada na emergência.

Homem — 43 anos — batida frontal de carro — inconsciente

Ao se aproximar do paciente, a fim de fazer os exames iniciais, Amélia sentiu suas pernas fracas, perdeu o chão por uns instantes, e viajou no tempo por alguns micro segundos

— Era igual ele -

Shepherd? Amélia? — chamou Delucca, tentando tirar ela do transe. Vamos. — Amelia respondeu reticente seguindo com a maca para dentro do hospital.

Verificou as pupilas, estavam dilatadas — os olhos eram da mesma cor que os dele, mas era impossível gritava seu inconsciente.

Ele possui alguma identificação? Documentos? — perguntou interessada, na verdade tudo que ela queria era ver o nome do homem para enfim voltar a respirar e parar com a insanidade em sua cabeça. Não, provavelmente a carteira ficou no local do acidente, já pedi para alguém verificar — respondeu Owen entrando. Ele precisa de uma tomografia urgente, às pupilas estão dilatadas, pode haver algum sangramento no cérebro. Assim que tiver o resultado me chame. — Amélia pediu a Delucca, estava séria, logo saiu sem sequer interagir com Owen.

Foi até o quarto mais próximo e se trancou. Precisava estar sozinha.

~O homem era muito parecido com ele, seu Ryan, seu amor, seu noivo, mas era impossível! Era insano! Ryan morreu anos atrás, ao seu lado na cama. Ela o viu morto, checou a falta de pulso, sentiu seu corpo sem vida. Era impossível.~

Naquele momento se passava de tudo pela sua cabeça — poderia ser algum irmão desconhecido, algum primo, parente, ALGUÉM! A semelhança era demais!

Respirou profundamente algumas vezes, tentando se reestabelecer, aos poucos conseguiu sentir seu corpo novamente e enxergar nitidamente o que estava a sua frente.

Logo que saiu do quarto, trombou com Meredith.

Amelia, está tudo bem? Perguntou Grey preocupada com a feição assustada dela. Sim. — se limitou a responder tentando sorrir, e logo seguiu seu caminho até a emergência.

Chegando lá percebeu que ele não estava mais no leito 13.

Onde está o paciente desconhecido do 13? — perguntou para a recepcionista com pressa. Dra. Shepherd, estou tentando chamar você há um tempo, ele teve uma parada cardíaca, subiram ele para a Sala de Cirurgia 03...

Amelia não esperou nem a recepcionista terminar de falar, saiu correndo.

Colocou a máscara e a touca, lavou as mãos e os braços com pressa, mas mantendo o protocolo.

O que aconteceu? Conseguiu fazer a tomografia? — Perguntou já paramentada se aproximando. Mostre o resultado a Dra. Shepherd, Delucca. — pediu Owen Vocês viram isso? Vocês decidiram abrir o peito dele mesmo depois de ver a tomografia??? — ela perguntou incrédula, estava brava.

Teddy olhou para Owen como se esperasse que ele respondesse, afinal a decisão foi dele.

Ele teve uma parada cardíaca, conseguimos ressuscitar, mas o exame abdominal estava crítico na mesma intensidade que a tomografia da cabeça. Chamei você e a Teddy, mas só a Teddy apareceu, era uma emergência, decidimos então prosseguir. — respondeu Owen firme mas com calma, conhece Amelia e tudo o que ele não queria era um embate ali.

Amelia estava muito brava, mais que o normal, mas segurou tudo que queria falar, se conteve, afinal não era real, era apenas uma semelhança do paciente com o Ryan.

Respirou fundo antes de falar.

Preciso pelo menos aliviar a pressão intracraniana dele. — respondeu pedindo para os auxiliares se afastarem.

Owen concordou com a cabeça.

Ela pegou a broca, perfurando o crânio do paciente.

A cirurgia correu normalmente, o paciente se manteve estável. Já no quarto, Amelia decidiu ficar com o paciente, para observá-lo nessas primeiras 24 horas, afinal existia a possibilidade do cérebro dele desinchar e a cirurgia não ser mais necessária, bem como havia a possibilidade do aneurisma romper, ou o cérebro continuar inchando e ele precisar de uma cirurgia de emergência.

A maioria dos médicos do dia já tinham ido embora, Owen insistiu brevemente para que ela fosse pra casa, que algum interno cuidaria do paciente — em vão.

Entre cochilos e leituras a noite estava correndo dentro de sua normalidade. Já estava amanhecendo quando Amelia percebeu o paciente acordando.

Já se preparando para examiná-lo, se aproximou calmamente.

Olá, você está no hospital e eu sou sua médica, Amelia Shepherd. Vou fazer alguns exames, para ver como você está, ok? — ela falou sem saber ao certo se ele entenderia, de qualquer forma como ele estava entubado, a probabilidade dele se desesperar era grande.

O paciente a olhava atentamente, como se estivesse entendendo tudo o que ela falava. Houve 1 segundo onde os olhos dos dois cruzaram, fixos um no outro. Amélia sentiu um calafrio intenso, e viu em câmera lenta o momento em que ambas as pupilas dele dilataram e ele entrou em colapso.

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Roubada do transe, Amelia desceu a maca dele, apertou o botão de emergência e já começou a medicar. Não apresentando melhora, pediu uma equipe e já o levou direto pra sala de cirurgia.

Não houve tempo para absorver nem pensar em nada, só agir. Foram 6 horas dentro da sala de cirurgia entre altos e baixos, o objetivo era um só, manter o paciente vivo, e foi o que Amelia fez, tentou incansavelmente salva-lo.

Quando enfim terminou e o paciente foi levado ao quarto, Amelia sentou no chão e respirou.

Já estava em um plantão praticamente dobrado e a tensão de salvar o paciente a manteve alerta, ainda sentia a adrenalina correndo suas veias.

Noite difícil? — apareceu Richard com um copo de café, estendendo a ela. Intensa — ela pegou o copo com um sorriso cansado. Como foi a cirurgia? — ele perguntou interessado. No final foi bem sucedida, mas o estado dele ainda é crítico. Vou acompanhar as próximas 24 horas. — ela respondeu levantando. Você vai pra casa descansar, nada de ficar mais um dia aqui! — Richard mandou, percebendo a exaustão da médica, sabia que tanto ele quanto ela usavam o trabalho para distrair a mente, mas quando se tornava excessivo era mais prejudicial que benéfico. Eu preciso ficar, estou acompanhando o caso desde o começo, preciso ver a evolução do quadro. — ela respondeu na defensiva. A intenção era ficar até o final com ele, seja lá quem ele fosse. Você sabe melhor que ninguém que um interno pode muito bem fazer isso. Você precisa de um banho quente e uma cama, por pelo menos 8 horas. — Richard rebateu. Aqui tem cama! Vou dormir um pouco no quarto. — ela respondeu teimosa.

Richard percebeu que era algo importante para ela e que não adiantaria de nada ele continuar insistindo.

Vamos, te acompanho. — respondeu ele com um gesto de rendição.

A vontade de Amelia era de ficar com o paciente até que ele acordasse, mas sabia que Richard estava certo, um interno podia muito bem observa-lo e caso algo acontecesse, ela seria avisada imediatamente.

Mesmo deitada, não conseguia desligar os pensamentos que surgiam com tanta rapidez que ela mal conseguia digerir. No momento em que ele acordou e seus olhares cruzaram, naquele momento houve um reconhecimento. Amelia estava em uma guerra interna muito grande. Ao msm tempo que a razão dizia não existir meios de Ryan estar vivo, seu instinto gritava que era ele.

Ela tinha acabado de fechar os olhos quando seu celular começou a tocar. Owen a chamava na emergência.

O que aconteceu? — ela perguntou esperando ser um novo caso. A carteira do nosso paciente. — Owen respondeu entregando a ela.

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Ela abriu com pressa a carteira e ao ler o nome do paciente nos documentos sentiu o chão sumir dos seus pés.

Amelia! — Owen a segurou sem entender o que tinha acontecido. Eu preciso… — ela respondeu sem ar para finalizar a frase. Não havia desmaiado, mas por conta de sua pressão ter caído, Owen a acompanhou até um quarto e a deitou. Amelia, o que aconteceu? Você está acordada a quanto tempo? — ele perguntou preocupado, não relacionando o mal estar dela com a descoberta do nome do desconhecido. Eu preciso do meu celular. — ela respondeu sem sequer ter ouvido Owen, estava sem ar, não conseguia raciocinar. Amelia! Eu preciso que você me responda, estou preocupado. — ele disse alterado de preocupação. Eu estou bem. Só preciso do meu celular. — ela respondeu de forma automática olhando para Owen tentando acalmá-lo. Ele deve ter caído na emergência, vou buscar. — ele respondeu logo saindo. Mandou uma mensagem para Grey e Pierce pedindo para que uma das duas fosse até o quarto de Amelia conversar com ela e tentar convencê-la a ir descansar.

Amelia não conseguia se acalmar, respirou fundo algumas vezes, bebeu água e logo saiu dali.

Onde ela está? — perguntou Meredith ao encontrar Owen no corredor. No quarto 315. — respondeu a acompanhando.

Ao chegarem lá e não a encontrarem Owen ficou agitado. Sabia que ela estava há dois plantões acordada, já tinha tido uma queda brusca de pressão, não tinha condições de dirigir para casa.

Precisamos encontrá-la! Ela quase desmaiou na emergência, está acordada a muito tempo, não tem condições de dirigir pra casa. — disse Owen preocupado. Ela sabe o limite do próprio corpo, deve estar em algum outro lugar descansando. — Grey respondeu observando a agitação do homem em sua frente. Isso não soa muito como Amelia — ele falou com um sorriso, fazendo Grey concordar com ele rindo.

Ambos saíram em busca de Amelia, enquanto isso ela estava na UTI, entrando no quarto de Ryan.

É você… Está vivo... — ela disse baixo, não sabia o que pensar, o que dizer, o que fazer. A sensação era que os últimos dez anos tivessem perdido completamente o sentido, como se tudo que ela tivesse vivido fosse uma mentira.

Ryan continuava em coma induzido, tinha passado por duas cirurgias intensas, o corpo ainda precisava absorver tudo que tinha acontecido.

Ela se aproximou devagar, chegou bem próxima a ele, pegou sua mão, observou cada detalhe, assim que tocou o rosto de Ryan, Amelia desabou, chorou da forma mais espontânea e involuntária possível, não sabia o que estava sentindo, mas precisava chorar pra tirar o aperto no peito, pra tentar retomar o chão em seus pés.

Minutos depois Owen e Grey chegaram ao quarto do paciente ao mesmo tempo e se depararam com a cena. A estranheza foi imediata. Ver Amelia chorando daquela forma sobre o corpo do paciente era no mínimo estranho.

Amelia, o que aconteceu? — Owen perguntou preocupado, entrando rapidamente no quarto. Nada. Cadê meu celular? — ela se assustou tanto que se afastou imediatamente, não queria ninguém por perto. Assim que Owen mostrou o celular, ela pegou de sua mão e saiu do quarto sem sequer olhar pra trás. Amelia! — chamou Grey sem entender nada.

Os dois ficaram no quarto do paciente perplexos, não entenderam nada do que tinha acontecido.

Ela deve conhecer o paciente de algum lugar. — Grey falou ponderando a situação. Conhece Amelia muito bem e há muito mais tempo que Owen, então entende os rompantes de emoção que ela tem e a intensidade com que sente as coisas. E por que ela não disse desde que ele deu entrada no hospital? Esperou a equipe de resgate entregar a carteira dele? — Owen perguntou mais para ele mesmo que para Grey.

Amelia não sabia o que fazer com tudo que estava sentindo, precisava de uma reunião, precisava passar o caso para alguém em quem confiasse a vida de Ryan, precisava falar com Addison, precisava entender o que estava acontecendo.

Primeiro mandou uma mensagem para Koracick pedindo que cuidasse do caso, confiava a ele sua vida, logo era a pessoa indicada para cuidar de Ryan. Em seguida foi para o aeroporto e pegou o voo mais próximo para LA, precisava entender o que estava acontecendo, e sabia que Ryan não acordaria por pelo menos dois dias.

Tentou ligar para Addison algumas vezes, mas só dava caixa postal, então assim que pousou foi direto para a clínica.

Amelia? — falou Violet surpresa ao ver a mulher andando de um lado para o outro na recepção Violet, Oi! — ela respondeu sem sequer sorrir. Aconteceu alguma coisa? — perguntou apreensiva, não tinha notícias de Amelia há muito tempo. Eu preciso falar com a Addison, urgente! — respondeu inquieta. Você está ansiosa, vamos até a cozinha beber uma água e sentar. Addison está em cirurgia há um tempo, logo estará livre. — Violet falou baixo tentando acalmar a mulher a sua frente. Não venha com a sua psicologia agora Violet… — Amélia falou irritada. Não precisava de uma terapeuta, precisa resolver essa história apenas, depois ela lidava com o sentimento. Não é psicologia, apenas uma amiga tentando acalmar a outra. Vamos lá, é mais calmo e você pode esperar a Addison de uma forma confortável — Violet ponderou mantendo o tom baixo. Ok — concordou Amelia, já andando em direção a cozinha.

Foram 3 longas horas, Amelia acabou cochilando no sofá, estava há quase 3 dias sem dormir, o corpo precisava descansar. Violet ficou a primeira hora com ela, depois Charlotte assumiu o posto, não queriam deixa-la sozinha.

Amelia — Addison chamou baixinho, a tocando com carinho. Addison! — ela acordou em um pulo — O Ryan, ele está vivo… — Amelia falou apressada, mas parou ao notar que Addison não fez expressão alguma de surpresa. Amelia… — Addison mal começou a falar e já foi interrompida. Você sabia! — Amelia levantou se afastando dela — Meu Deus, você sabia todo esse tempo… Como eu pude confiar em você? — gritou já com os olhos marejados, virando as costas e saindo dali. Não conseguia distinguir o que estava sentindo, nem como lidar com tudo, saiu andando sem rumo até chegar no mar.



Notas finais
Se alguém estiver lendo e curtir a ideia, pfvr comente! Preciso saber se vale a pena continuar, real e oficial, ok?!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.