Sombras do inverno
13 Outro Eu
Sou uma mentira. Não me entenda como sendo falso ou ruim, sou apenas uma mentira se tratando de minha existência. Sou esta pessoa que você vê, mas grande parte é uma farsa, pois almejo ser quem não posso. Não possuo esse direito, então tenho de viver no corpo de alguém que não é uma verdade. E os desejos do Outro Eu nunca serão realizados, aqui, na realidade. Minha outra vida acontece nos sonhos, que são mais reais do que essa própria. É como um monstro que algum dia irá despertar, aqui dentro de mim. Um homem se transformando em noite de lua cheia. Um fenômeno químico acontecendo a cada momento na Matrix. Tudo é água, que derrama sob meus dedos. E eu sou vento, intocável.
O mundo que vivi há um minuto não é o mesmo de agora e não será o mesmo de um minuto a seguir, e assim sou. Nunca estive tão perdido e parece que nunca irei me encontrar, desde sempre estive neste estado de eterno desentendimento, deslocado, ocupando um espaço no Espaço que não sinto como se me pertencesse. Essa dor vem da não aceitação da minha existência. Uma arquitetura que está desabando.
Hoje em dia, me vejo cercado por pessoas mais similares do que as de antes, mesmos assuntos, mesmas ideias sob as pessoas e a loucura, pertenço ao mundo em que vivo atualmente, mas porque mesmo assim sinto-me sozinho? Eu fiz algo de errado por dentro, que não sei o que é, mas não está certo. Uma auto sabotagem de não permitir-me ser quem sou pelo medo do outro.
A existência humana é um sofrimento belo de se admirar em uma tentativa frustrada de entendimento. Nossa presença neste mundo é causada por uma angustia de um abandono por Quem nos criou. Nesse abandono tentamos suprir nosso vazio com a busca pela felicidade que cada um julga estar no mundo interno e para outros no mundo externo, e é um movimento sem fim. Como alguns podem ser felizes com tanta escuridão presente no mundo? Porque me fez assim, questionador de tudo, se com isso minha dor não acaba? Seria melhor ser cego como os outros, e ao menos, feliz.
E eu escrevo mil palavras para dizer o que não se pode ser dito, apenas sentido. O Outro Eu que criei me proporciona momentos de felicidade e segurança, enquanto o verdadeiro pede para vir à vida. Não estou feliz nem seguro, ninguém está.
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