Sombras do Sistema

1 Capítulo 1 - Rogério Soares


Sempre começa assim, estou num beco com meu pai, estamos rindo de algo que ele me disse na época, eu já nem lembro mais. Estamos voltando do mercado, meu pai segurando duas sacolas e eu um salgadinho quando ouvimos gritos e sons que pareciam fogos, mas 16:00 de uma segunda é um horário bem estranho para se ouvir fogos.

Meu pai me olha assustado, agarra minha mão e começamos a correr, quando estamos chegando perto da saída desse beco ouço um barulho muito alto tropeço nos meus pés e caio, meu pai cai também. Eu sei, ele está morto.

Dois assaltantes estavam fugindo da policia e deram de cara com a gente, eles se assustaram e atiraram no meu pai. Mas diferente daquele dia, o assaltante não foge, ele para e olha pra mim, ele estava usando uma máscara que cobria quase todo o rosto, apenas com buracos para os olhos e boca.

Ele tira a máscara e de repente eu não sou mais uma criança, e quem aponta a arma pra mim é meu antigo supervisor. Ele atira e eu acordo assustado.

Olhando ao redor eu começo a me situar, estou no meu apartamento em Vargas, interior de São de janeiro.

Me sento na cama, passo a mão no cabelo e pego meu celular que estava num banquinho próximo a minha cama.

São 6:00 da manhã, me levanto e vou para o banheiro, daqui uma hora e meia começa meu turno.

Depois de um banho me olho no espelho e não reconheço o rapaz de 25 anos que ingressou na policia todo entusiasmado para fazer a diferença, eu encaro um homem de 28 anos que parece não dormir a dias, grandes olheiras cercam meus olhos castanhos, meu cabelo cacheado apesar de curto externa toda minha confusão interna.

A grande promessa de São de Janeiro, o prodígio Rogério Roger Soares reduzido a um chefe de departamento de uma cidade do interior.

Coloco minha roupa de trabalho de sempre, camisa azul clara, calça social e sapatos pretos. Dou uma última olhada no espelho de corpo inteiro da sala, realmente essas roupas parecem maiores do que deveriam, acho que preciso começar a comer direito.

Pego minha pasta e saio de casa. No caminho para a delegacia, paro numa cafeteria para pegar um copo de café para mim e um cappuccino para a única pessoa que me afeiçoei nessa droga de lugar. A única pessoa com quem consigo ter mais de meia hora de conversa.

Chego na delegacia dou um olá para as duas recepcionistas, Sara, uma das recepcionistas me pergunta algo sobre o café e eu digo que na próxima eu trago um pra elas.

Com um sorriso eu passo a porta que divide a recepção do escritório e logo meu sorriso vai embora. O cheiro de café e Ar condicionado invadem minhas narinas. Apesar da cidade ser pequena a delegacia é incrivelmente bem equipada. O que falta mesmo são profissionais competentes. Não quero parecer arrogante, mas não entendo como falar sobre o quão magro ou como eu nunca fui visto com uma mulher possa ser relevante para qualquer caso.

Mas mesmo assim as piadas e comentários de como eu sou um fracassado rodam toda a delegacia.

Com um suspiro vou até o elevador, a delegacia é dividida três partes, o térreo é onde ficam a maioria dos policiais fardados, geralmente é onde os civis vem fazer os boletins de ocorrência e outros trâmites, existem duas celas temporárias também.

O primeiro andar é onde eu e todos os detetives ficam, é onde analisamos grande parte das evidencias, peritos tem uma área aqui também. Temos duas salas de interrogatório.

E finalmente existe o subsolo, onde tem todo o equipamento que usamos em campo, além de um estande de tiro.

Subo para o meu andar e saio de elevador de cabeça baixa, concentrado em não derrubar o copo de cappuccino. Bebo um pouco do meu café, paro no meio do escritório e vejo meu objetivo.

Debora Ribeiro em toda sua glória, sentada na frente de três telas enormes, digitando algo sem parar com seu cabelo roxo e fones de ouvido.

Sigo meu caminho até a mesa dela.

— Você realmente está no seu habitat, não é?

Ela nem sem mexe. Eu insisto colocando o copo na frente do rosto dela.

— Olá senhor "eu nunca dormi bem na minha vida" — Ela diz com um grande sorriso aceitando meu café.

— Ei! Tenho certeza que você dorme menos que eu — Eu digo encostando na mesa dela.

— Não é o que o seu cabelo e essa barba por fazer me dizem senhor Soares.

— Você só diz isso porque não tem barba, senhorita Ribeiro. — Ouço ela dar risada, e é um som maravilhoso. Talvez seja hora de mudar as coisas, talvez eu deva aceitar que aqui é o meu lugar agora. Talvez seja hora de criar raízes aqui nesse fim de mundo.

—Escuta Debbie... — Respiro fundo, tomando coragem para chamar ela para sair. Vamos Rogério é só uma pergunta!

Ela para de fazer o que estava fazendo no computador e olha para mim com aquele sorriso cativante.

— Eu estava pensando... Talvez... — Droga!

Meu telefone começa a tocar, eu o retiro do bolso, é o tenente Marinho.

Peço licença para Debora, talvez seja melhor esperar um pouco de qualquer maneira.

Me levando e vou caminhando em direção a minha mesa, ela fica a uns dez passos da bancada onde a Debora trabalha.

— Bom dia Tenente! — digo, tentando manter a voz simpática.

— Bom dia Detetive! Receio ter um caso pra vocês da crimes graves, mas já aviso que esse é um pouco estranho. — Marinho tem 30 anos de experiência e já presenciou muitas coisas estranhas, mas tinha algo em sua voz que me fez arrepiar.

— Quão estranho é isso, tenente? — Pergunto totalmente interessado.

— Estranho do tipo que você precisa ver com seus próprios olhos.

— Estou a caminho, me envie o endereço por favor — Digo jogando meu copo de café já vazio, no lixo do escritório e saindo em direção ao elevador.

— Acabei de enviar, detetive. Por favor, se apresse, os jornalistas já estão começando a chegar e você sabe como eles são.

No caminho do elevador, paro na sala de perícia química em busca do meu perito chefe, William, como sempre ele está atrasado.

Pego meu carro e vou em direção ao endereço enviado pelo tenente, é a praça de Vargas.

No caminho eu ligo para o William e digo para ele me encontrar lá, o cara é um gênio em sua área, mas completamente irresponsável em seu trabalho.

Estaciono perto da entrada e a multidão lá está começando a crescer, vários jornalistas ao redor fazendo várias perguntas tentando obter qualquer tipo de informação dos policiais. Reconheço um dos jornalistas como sendo Arthur Ballack, jornalista investigativo de São de Janeiro. Não faço ideia do porque ele está aqui.

— Com licença detetive! Arthur Ballack, jornalista investigativo, gostaríamos de saber o que está acontecendo! — Arthur vem em minha direção com um gravador na mão e seu terno cinza de três peças esvoaçando com o vento.

Ignoro ele e continuo andando em direção ao portão, dou bom dia para os guardas e entro. Um policial fardado me guia até o que parece ser o centro do parque.

Consigo ver uma grande árvore no centro, uma fita amarela amarrada ao redor de dois bancos separa alguns policiais dos peritos, não consigo visualizar muita coisa do meu ponto de vista, mas vejo o que parece ser um guarda do parque sendo amparado por um policial.

Chegando mais perto, consigo ouvir alguns cochichos, mas não consigo entender sobre o que falam. O tronco da árvore é largo, não sou um grande entendedor de arvores, mas acredito que seja um carvalho.

Quando consigo visualizar melhor a cena, fico arrepiado, uma mulher, aparentemente por volta de 50 anos de idade, pendurada em um dos galhos.

Não achem que sou sensível a esses tipos de imagens, já visualizei muitos suicídios, incontáveis homicídios e acidentes fatais incrivelmente sangrentos, então é difícil se manter sensível a esse tipo de situação.

Mas tinha algo ali, talvez fosse na expressão de completo horror da mulher ou talvez seja só um efeito da comoção dos meus colegas de trabalho, que acabou me deixando um pouco abalado.

Procuro não olhar muito para o corpo, não até eu realmente ter que examinar.

Ao lado da árvore, olhando fixamente para a mulher está um policial, aparentemente um soldado, jovem, cabelos castanhos, talvez não tenha mais que 22 anos. Provavelmente é seu primeiro homicídio, nessa cidade pequena não acontecem homicídios com tanta frequência.

Assim que me percebe, o soldado fica em posição de "sentido". Garoto estranho.

— Soldado Martins se apresentando, senhor! — Definitivamente é seu primeiro caso.

— Descansar soldado, não sou seu superior, pode ficar à vontade. Quem foi o primeiro a chegar aqui? — Pergunto olhando ao redor, ainda evitando olhar diretamente para o corpo da mulher.

— Eu mesmo senhor — Responde o soltado Martins, coitado, deve estar tendo um dia daqueles.

— Certo Martins, o que você encontrou ?

— Atendi ao chamado do guarda que trabalha fazendo rondas aqui logo que o parque abriu, por volta das 6:00. Quando cheguei ela estava desse jeito e perto do corpo conseguimos uma carteira de habilitação — Martins me passa um saquinho de evidência transparente com uma habilitação dentro.

Ida Weishaupt, 53 anos, na foto uma mulher loira de olhos azuis e com um rosto muito amigável me olha de volta, parecia ser uma mulher muito simpática.

Me forço a olhar para cima e encarar o rosto da mulher enforcada, tirando o olhar completamente vazio e a expressão de horror, me parece ser a mesma pessoa.

Rapidamente olho para Martins, esperando que ele me conte mais alguma coisa, mas aparentemente ele está ainda mais desconfortável do que eu.

Agradeço e vou em direção ao oficial que está tentando ver uma forma de descer o corpo quando avisto vindo da entrada meu grande colega William, com sua melhor cara de quem acabou de acordar.

William Mendes vem ao meu encontro com seu cabelo molhado penteado para trás, seu cigarro e café na mão esquerda, maleta na mão direita e olheiras que dariam inveja aos pandas, parece ter passado por mais coisas que sua idade de 29 anos permitiria.

— Olha lá quem resolveu aparecer, e está... — olho para meu relógio — Apenas 30 minutos atrasado, meus parabéns William, foi o mais perto que ficou de chegar na hora certa —Digo isso com um sorriso forçado.

— Pois é Rogério, alguns de nós ainda tem uma vida fora do trabalho. — Ele diz me devolvendo o sorriso forçado e jogando o cigarro dentro do copo de café, colocando-o em cima de um dos bancos antes de passar por baixo da fita amarela.

Quando me viro para encarar a vitima de algo que ainda não defini ser homicídio ou suicídio, ela já está no chão.

Agradeço aos técnicos que tiraram ela daquela posição e começo a investigar ao redor, procurando qualquer coisinha que tenha caído no chão.

William fica ao lado do corpo, o olhando minunciosamente, eu ainda tento evitar contato visual com o corpo.

Sei que vou ter que encarar essa parte de olhar a vitima em algum momento, só vou evitar enquanto puder evitar. Procurando ao redor de onde o corpo foi achado, encontro uma moeda com um símbolo estanho.

Pego um par de luvas e retiro a moeda do chão, no meio da moeda existe uma imagem de um compasso virado para baixo e um esquadro virado para cima, formando uma forma de diamante no meio dos dois símbolos.

No meio desse esquadro e compasso, consigo ver um "G" e ao redor estão as palavras "Liberdade, Igualdade, Fraternidade"

Coloco em um saquinho de evidências e deixo junto com a identificação da vítima.

Dou mais uma olhada ao redor e não encontro mais nada, vou de encontro ao inevitável agora, me abaixo do lado oposto ao do William.

— E então William, o que acha?

William parece não me ouvir, está com um olhar estranho de confusão. Pergunto novamente um pouco mais alto e ele me olha, ainda com essa expressão de confusão.

— Esse olhar dela chega ser assustador, não é? Quase como se estivesse congelado no momento de mais medo dela.

Aceno com a cabeça e mudo meu peso para outra perna, um pouco desconfortável em encarar de perto o rosto dela.

Os lábios que na foto estão rosados, agora estão roxos, os braços e pernas cheios de cortes e ao que parece o pescoço e coxas estão da mesma forma.

— Estranho, não é? — William me pergunta e diante de meu rosto perturbado continua. — Todos esses cortes e nenhum sangue no chão.

Balanço a cabeça afirmativamente, ainda olhando para o rosto dela quando algo me chama a atenção. Olhando atentamente para boca entreaberta dela, consigo perceber que ela está sem a língua.

— William, você reparou que ela não tem língua?

William rapidamente coloca a mão da boca dela e puxa a parte inferior para baixo, sendo gentil, mas firme, consegue abrir um pouco mais e notamos a falta de língua dela.

— Cortaram a língua dela, mas quem faria algo assim?! — William sussurra para mim, totalmente incrédulo.

Horrorizado, mas ao mesmo tempo intrigado continuo olhando o corpo, percebo que ela veste uma camisa social, mas parece que foi colocada as pressas pois os botões estão em casas erradas.

William nota um anel no dedo anelar da mão direita dela e retira, ele me entrega o anel.

Ao olhar mais atentamente consigo visualizar um compasso e um esquadro igual ao da moeda, mas ao invés de ter um 'G' no meio, existe o número 33.

Coloco em outro saquinho de evidencias e continuo observando o corpo, os cortes são limpos e precisos, evitando todos os pontos vitais dela.

Aparentemente a intenção não era matar ela com os cortes.

Totalmente perturbado, me levanto só querendo sair de lá e ir para minha sala. William fecha sua maleta com as evidências rapidamente e me segue.

Seguimos em silêncio para fora do parque, perdidos em nossos pensamentos sobre com o que tipo de criminoso estávamos lidando.

Ouço alguém me chamando, é o jornalistazinho de novo.

— Com licença detetive! Sou Arthur Ballack...

— Sei muito bem quem é senhor Arthur, não vou te passar nenhuma informação.

Digo isso e continuo andando em direção ao meu carro, em algum momento o William foi para o carro dele e eu nem percebi.

— Estão dizendo que foi um homicídio, é verdade?

— Não posso informar você sobre uma investigação em andamento senhor Arthur!

— Estão dizendo que a morte foi em circunstâncias suspeitas, o que significa isso?

— Significa que você precisa deixar isso para a polícia. Tenha um bom dia senhor Arthur Ballack!

Entro no meu carro e começo a dirigir de volta para a delegacia.

Não sei porque mas tenho a sensação de que isso é apenas o começo de um longo, longo dia.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Se puder deixar um comentário eu agradeço de maaaais!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.