Sombras do Passado
2 Capítulo 2- Marcas no futuro...
Notas iniciais
Toda aquela repentina movimentação em sua vida antes perfeita, aos poucos começava a o perturbar seriamente. Não conseguia mais comer ou dormir como antes e em menos de um mês já tornara-se um alcóolatra incontrolável. Decidido a acabar com aquela maldita perseguição sentou-se em sua poltrona predileta e passou a lustrar seu melhor rifle de caça. Segurando os grandes cartuchos entre os dedos notou que Marie encolhia-se tentando subir as escadas até o quarto.
— sabe porque as balas de rifles assim têm a ponta fina? Questionou brincando com o objeto metálico entre os dedos. – servem para atravessar coisas solidas como grandes animais e paredes... imagina o que faria na cabeça de uma pessoa?
Riu sarcasticamente quando a jovem subia a escadaria às pressas, adorava assustá-la e sua diversão só havia aumentado depois que a moça começou a crer em sua loucura. Mas não estava louco, alguém o perseguia e seria morto naquela noite.
Trancada no quarto, Marie se perguntava se deveria ligar para sua irmã e contar tudo o que estava acontecendo, se perguntava o porquê de ainda estar naquela casa e com aquele homem que não sabia a amar.
Enquanto planejava atormentar a esposa um pouco mais, inclinou-se na poltrona relembrando lembranças de seu passado mais especificamente da época em que começara a atuar como juiz.
Naquele dia, seus olhos treinados de jovem juiz observavam com interesse o réu a sua frente, fazia apenas duas semanas que conseguira o cargo que tanto ansiava, temia cometer um erro e acabar com estragando tudo. Leu os documentos recém datilografados e notou que se tratava de um caso de triplo homicídio cometido por um jovem afrodescendente de 14 anos.
— sempre se envolvendo em crimes! Pensava já tirando suas conclusões antes mesmo de ler os arquivos completos.
— culpado! Sentenciou sem emoção alguma na voz, seu rosto estava impassível e seu julgamento seria irredutível.
Ao ouvir a sentença, os grande solhos negros do rapaz encheram-se de lagrimas, ninguém recorreria por si e a única pessoa que se importava verdadeiramente, estava de joelhos chorando em desespero.
Friamente, o juiz apenas encerrou a sessão assinando a data da execução do rapaz vislumbrando-o uma última vez antes que fosse levado, aquele olhar de desalento e decepção jamais sairia de sua cabeça, a visão das lágrimas secando e da única gota remanescente transformando-se em sangue a escorrer pela linha d´agua.
Saiu de seus devaneios apenas quando sentiu seus músculos paralisaram momentaneamente e sua visão enturvou ao vislumbrar a imagem de uma figura esguia aproximar-se, estava toda de preto camuflando-se a escuridão, parecia emanar ódio por seus poros mas, a luz cintilante do metal frio refletiu e pode ver a faca com perfeição. A mesma faca com a qual já foi esfaqueado tempos antes e imediatamente uma grande quantidade de adrenalina foi injetada em seu sangue por seus instintos de proteção.
— não é real...- Dizia para si mesmo tentando se convencer de que aquela visão era efeito dos remédios misturados ao álcool.
O som do tilintar da faca era realmente familiar mas, sua atenção estava mais voltada para o tamanho da pessoal que o agrediu. Sabia que se tratava da mesma pessoa mas, era muito pequena para ser um homem assim como a polícia acreditava. Destravou o rifle e o ergueu mirando em sua cabeça, na distância em que estava nunca erraria e também não havia como ser atacado.
Disparou uma primeira vez e para a sua surpresa, o invasor desviou com agilidade e os próximos cinco tiros quase não surgiram efeito, acertando apenas de raspão na figura que corria em sua direção totalmente despreocupada com sua própria segurança.
— mas quem diabos é você? Questionou irritado enquanto partia para uma luta corpo a corpo, visto que não poderia recarregar o rifle.
Não ouve resposta, na verdade não houve voz alguma durante todo aquele tempo. Estando mais próximo, percebeu que os golpes que recebia não eram necessariamente de grande impacto, sendo apenas precisos e bem aplicados por isso não percebera que os punhos também eram pequenos.
Conseguiu derrubar a faca, facilitando que socasse com força o estomago de seu oponente que curvou-se momentaneamente cuspindo sangue, quis torcer seu pescoço mas, foi impedido quando sentiu seus dedos sendo agarrados com força e nas direções opostas as articulações rompendo-as.
– mas porque a porr* de uma mulher está me perseguindo? Questionou ao finalmente perceber que tratava-se de uma mulher. Arrancando o boné preto de sua cabeça, notou seus cabelos levemente cumpridos e agarrou seu pescoço, erguendo-a do chão. Novamente não houve resposta, em vez disso recebeu uma cabeçada que quebrou seu nariz.
Deu alguns passos para trás desorientado com o impacto e antes que pudesse reagir, a invasora lançou-se sobre seu corpo, usando uma escrivaninha para pegar impulso e começou a o sufocar apertando com força seu pescoço entre as pernas.
Percebendo que não teria êxito, optou por uma ação mais arriscada. Com agilidade jogou-se no chão levando-o consigo e tentou pegar a pequena faca que trazia na bota. Precisava ser rápida pois, caso ele levantasse, certamente quebraria ser pescoço com o peso de seu grande corpo. Por algum motivo a esquecera, o que nunca aconteceu. Passara toda a sua vida planejando sua vingança e justamente naquele momento quando tudo parecia perfeito cometera aquele erro. Tudo acabaria ali com a sua morte e aquele desgraçado sairia impune.
— eu poderia apenas quebrar o seu pescoço...- o loiro exclamou erguendo-se, pegou a faca que caíra o chão e julgando-se estando com sorte, a enfiou em sua perna o mais profundo que pode arrancando um grande grito de dor da invasora. Sorriu com escárnio e ergueu-se para pegar o rifle, recarregando-o lentamente.
O som dos grandes cartuchos sendo colocados no rifle, era assustador ao ponto de fazer um frio estranho escorrer por suas pernas, a sensação de proximidade com a morte a deixava ainda mais temerosa.
— não vai me dizer quem é? Joshua questionou com um sorriso doentio enquanto terminava de recarregar o rifle. – eu estava comentando agora a pouco com minha esposa sobre o estrago que isso faria numa pessoa... acho que irei descobrir.
Olhou diretamente em seus grandes olhos vendo uma grande semelhança com algo que não saia de sua mente mas, diferente do que se lembrava, nos olhos daquela garota que erguia-se de com dificuldade, cuspindo sangue. Levou a mão ao bolso da calça preta e tirou de lá uma seringa, enfiando-a na perna. Por fim, ereta, ergueu o olhar e o fitou seria.
— suas últimas palavras? Deve ter já que está disposta a morrer de pé! O juiz debochou engatilhando o rifle e apontando para sua testa.
— vai se ferrar, serve? A mulher falou pela primeira vez avançando novamente sobre Joshua que mal acreditava como ela ainda podia estar viva e lutando tão avidamente.
Os dois agora seguravam o rifle disputando-o, quem cedesse morreria, ao ver aquela cena Marie gritou assustada pedindo ao invasor que não os machucasse. Em meio a gritaria, e disputas, um tiro foi ouvido. Chovia forte do lado de fora e o som de um corpo caindo pode ser ouvido.
Joshua arfou sem acreditar no rumo daquele incidente, havia tomado e gritou de ódio. Marie agonizava no chão, manchando o carpete de sangue, enquanto a invasora enfiava a faca de caça no estomago do homem aproveitando-se de seu momento de distração.
— doi não é? Ver alguém agonizar na sua frente! A voz da mulher era apenas um sussurro e logo lágrimas vieram a seus olhos. – ele era apenas um menino, nem lembra-se de seu nome...
— aquela put*... acha mesmo que me importo com ela?! Joshua debochou rindo alto mas, logo sua pose desmoronou quando a faca foi enfiada com mais força forçando-o a caiu de joelhos cuspindo sangue.
— preciso de uma ambulância para a residência 128 na Banker Street! A invasora sussurrou ao ligar para a polícia com o celular de Marie, caminhou lentamente pela sala destruída pela confusão, seus olhos observavam o local vendo se deixara algo para trás, pegou seu boné, abriu a porta e foi embora.
Despiu-se ficando apenas com as roupas intimas e continou caminhando pela rua deserta. Seu carro no fim da rua, a esperava coberto pelas sombras, entrou ainda em silencio e vestiu um vestido preto, saltos e maquiou-se tentando esconder as grandes marcas de hematomas que carregava.
Olhou-se no espelho, olhos arroxeados, lábio cortado e talvez algum dente quebrado mas, ignorou tudo isso. Pelo canto do olho podia ver viaturas e uma ambulância passando ao lado, vendo-se finalmente sozinha permitiu-se chorar pela morte do irmão que ainda podia sentir a presença.
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As longas cortinas brancas movimentava-se lentamente pelo quarto ainda escuro onde uma jovem finalmente dormia profundamente, a claridade acabou por acordá-la e aos poucos seus grandes olhos negros abriram-se. Ergueu-se lentamente com todo o corpo dolorido e deslizou os dedos pelo curativo que fez na perna onde havia recebido a facada.
Após alguns minutos, tomou um banho e retornou ao quarto onde aplicou-se uma dose generosa de morfina que trouxera do hospital em que trabalhava. Ligou a televisão no noticiário e acomodou-se na cama novamente com uma tigela de salgados sobre as pernas.
Uma repórter jovem de cabelos negros e curtos explicava com urgência na voz, um caso que ocorrera durante a madrugada. Sabendo bem do que se tratava, a moça aumentou o volume e observou com atenção.
“Ontem às 22h da noite, o Juiz Joshua Williams da comarca de Nova York, surtou e acabou atingindo sua esposa com tiros de um rifle registrado em seu nome. A vítima, Marie Williams recupera-se no hospital Central após ser atingida no ombro por uma bala de grande calibre. Segundo depoimento dela, o homem já vinha tendo pequenos surtos a tempos e acreditava estar sendo perseguido por alguém.”
Foi impossível não rir ao ouvir aquela noticia, seu plano impecável havia falhado e aquele miserável sobrevivera mas, sentia-se mais tranquila em saber que ele seria ao menos preso por seus crimes. Saber que Marie também sobrevivera acalmou seu coração pois, sentia-se preocupada em ter matado alguém inocente e se tornar alguém como ele.
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