Sombras do Passado

1 Capítulo 1- Sombras do passado...


E novamente, Joshua acordara sentindo as batidas aceleradas de seu coração em meio a escuridão do quarto, era sempre aquele maldito pesadelo que o impossibilitava de dormir profundamente. Ainda podia lembrar-se perfeitamente daquele grande par de profundos olhos negros que não saiam de sua mente, a pele jovial parecia envelhecida pelo sofrimento e lágrimas cortavam a linha d’água. O jovem suplicava silenciosamente por misericórdia.

Passou a mão pelos cabelos loiros e os puxou para trás sentindo o rosto suado, olhou para o lado notando que a esposa ainda dormia, dopada pelos fortes calmantes e sorriu de canto, ao menos não teria que explicar o motivo de sua insônia a ela. Percebendo que não conseguiria retornar ao sono, levantou-se com lentidão e caminhou em direção as grandes janelas de vidro que mantinha abertas para amenizar o clima quente do verão, contemplando com apresso as luzes da grande Nova York.

Certo de que não conseguiria mais dormir, decidiu descer até a cozinha e fazer um café para si, assim ao menos se distrairia do turbilhão de pensamentos em sua mente. Enquanto procurava por uma xicara grande, notou pequenos movimentos que pareciam vir da penumbra causada pela fraca luz vinda do corredor. Involuntariamente, sentiu seus músculos enrijecerem-se e atentou-se ao que via.

Aos poucos, o som de passos rápidos começaram a encher o ambiente antes silencioso, era como se alguém corresse pela sala mexendo e derrubando alguns objetos.

— quem está ai? O loiro questionou irritado, munido se uma grande faca de corte, esquadrilhou o local com um olhar fixo e então toda a movimentação sessou de repente. — mas que porr* é essa? Gritou novamente apontando a faca em direção a escuridão.

Um alto barulho de estática atingiu seus tímpanos ao ponto de quase os estourar, curvou-se tentando proteger seus ouvidos e novamente tudo cessou sendo seguido da aparição de uma pequena luz fraca que vinha da televisão que ligara misteriosamente.

Ergueu seus olhos e notou que na tela passava uma reportagem sobre si, especificamente um caso em que trabalhara anos antes e fora muito elogiado pelo concelho regional de advocacia.

— Joshua? Que diabos está acontecendo? A voz alarmada de Marie o trouxe de volta a realidade. – até achei que tinha alguém aqui por causa da sua gritaria mas, era apenas você falando sozinho.

— ouvi um barulho, deve ter sido um maldito animal! O homem tentou recompor-se e respondeu grosseiramente. Não sentia-se obrigado a responder suas perguntas.

— vem, você precisa descansar... – Marie tentou não o irritar mais e passando os finos braços pálidos por seus ombros, tentou o levar de volta ao quarto. – deve ser excesso de trabalho e você precisa dormir.

Na manhã seguinte, uma forte enxaqueca o acordou e para o seu desagrado ainda teria um longo período na comarca em que trabalhava. Bocejou cansado, não conseguira dormir praticamente nada na noite anterior e para piorar, Marie parecia não acreditar no que que ocorrera na madrugada.

Estacionou seu carro esportivo em uma das vagas reservadas as pessoas de alta categoria e dirigiu-se a seu escritório onde já podia imaginar a grande pilha de arquivos sobre sua mesa.

— o senhor tem uma audiência marcadas para às 9h do caso Mikhail Romanov! Louise, sua secretária, exclamou entrando pela porta de vidro, sorriu e apertou a pasta que segurava em frente ao troco apertando-a sobre o busto, chamando sua atenção.

— então ainda temos alguns minutos... – O juiz sorriu com malicia enquanto seus olhos recaem sobre a saia que julgava estar mais curta que no dia anterior. A jovem sentou-se sobre a mesa também de vidro e inclinou-se para o encarar mais de perto.

Aquilo era muito mais que um convite para Joshua que rapidamente agarrou seus cabelos ruivos e a beijou de forma voraz, deslizando seus dedos pela pele amorenada, coberta apenas pela meia calça preta. Em uma fração de segundo, já estava com ela sobre a mesa jogando tudo que estava sobre ela no chão.

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— essa é a sua esposa? A ruiva questionou abotoando a blusa branca social que usava, seus olhos caíam sobre o pequeno porta-retratos caído no chão e se perguntava se a loira saberia do que o marido fazia por suas costas. – têm filhos?

— Ignês Marie... típica parisiense de olhos grandes e verdes... – O juiz respondeu sem muito interesse enquanto recolocava a gravata, arrumou os cabelos loiros penteando-os para trás com os dedos e sentou-se novamente para observá-la refazer a maquiagem. – pergunte logo o que quer saber...

Ao ouvir a última frase a ruiva calou-se momentaneamente, levou a mão aos lábios e refletiu por alguns segundos parecendo estar tímida. Mas, logo sorriu arrumando as madeixas encaracoladas e inclinou-se sobre a mesa para olhá-lo nos olhos.

— ela sabe sobre mim? Perguntou em um sussurro para apenas ele ouvir. – não me parece o tipo de mulher que aceitaria isso facilmente...

— ela sabe de todas... – Joshua debochou rindo baixo enquanto servia-se de whisky, virou-se novamente em sua direção e continuou. – a tradição não permite divórcios, infelizmente para ela...

A jovem nada disse impressionada com sua frieza mas, honestamente pouco se importava, contanto que não fosse ela a ser prejudicada e não planejava se apaixonar por aquele homem, estava apenas se divertindo com ele, com o perigo de envolver-se com um homem casado. Por fim, pegou os documentos que precisaria levar ao departamento de organização e afastou-se deixando-o só para terminar seu trabalho.

O dia passou rapidamente e logo os olhos claros de Joshua fixaram-se no relógio da parede, estava tarde da noite mas, precisava terminar aqueles relatórios. A grande pilha de casos a sua frente parecia nunca diminuir e aos poucos sua assinatura começava a ficar borrada e mal feita mas, foi quando a tinta esgotou-se levando consigo sua paciência que, irritado começou a apenas carimbar e assinar os documentos com somente uma leitura preguiçosa.

A verdade era que odiava aquele trabalho mantendo-o apenas devido aos longos anos que cursara a área legislativa para agradar o grande patriarca da família.

— ah, vai se ferrar! Resmungou ao notar que outro arquivo parecia ser exatamente o que mais o atormentava, tomou o copo de whisky em mãos e solveu todo o líquido de uma vez julgando que essas alucinações eram apenas fruto de sua mente alcoolizada,

Ergueu o ultimo documento e leu preguiçosamente a descrição do caso. Mulher de 30 anos mata o marido em possível surto psicótico. “Culpada” pensou sem sequer refletir um pouco, carimbou próximo a sua assinatura e continuou o que fazia. Não percebera mas, no detalhar da investigação foi informado que havia muitos abusos por parte do marido e possivelmente ela apenas se defendeu dele. Lembrou-se de Marie, a forma como o olhava, seria ela capaz de mata-lo?

Bocejou cansado e após assinar a última petição, fechou a pasta de papel pardo e levantou-se. Já estava acostumando a caminhar solitariamente pelos corredores silenciosos do tribunal regional e pouco se importou com o estranho ranger das portas de mogno, julgando que seria apenas resultado de sua antiguidade.

No entanto, seus pelos da nuca arrepiaram-se quando uma brisa fria soprou em suas costas. Sem querer descobrir de onde vinha aquilo, apressou o passo e rapidamente alcançou a entrada do estacionamento, ergueu a mão para empurrar a grande porta de vidro mas, retrocedeu seus movimentos ao ouvir o barulho característico de lâmpadas se quebrando.

Virou-se para observar melhor o que estava acontecendo e deparou-se com a imagem de todas as lâmpadas incandescentes quebrando-se em sequência, uma seguida da outra até que o corredor estivesse completamente no breu.

“Joshua” — Uma voz rouca sussurrou em meio a escuridão soando como se estivesse a aproximar-se.

— quem está ai? O juiz questionou áspero sacando o revolver que sempre trazia consigo e apontou para o centro do corredor, local de onde julgava vir a voz que ouvira minutos antes. — tem dois minutos para sumir daqui, quem quer que seja!

Ao fim da frase, destravou a chave de segurança do revolver e esperou pronto para atirar assim que a pessoa saísse da proteção que a escuridão lhe dava. Após ouvir o som de passos rápidos afastando-se, o juiz julgou tratar-se de alguma brincadeira de criança e estando tão cansado, decidiu ir embora imaginando se deveria informar isso as autoridades pela manhã.

O estacionamento estava tão silencioso quando o resto do prédio, rumou em direção ao seu carro e destravou o alarme à medida em que se aproximava. Um estranho som de tilintar metálico chamou sua atenção, olhou em volta e não vendo nada, abriu a porta do carro esporte, pronto pra entrar. Porém, seus olhos acabaram recaindo sobre o reflexo do vidro revelando um homem coberto por roupas inteiramente pretas aproximar-se, seu rosto também estava coberto por uma máscara da mesma cor e em sua mão esquerda carregava uma grande faca de caça.

Esquivou-se a tempo de evitar um golpe que receberia no peito, tendo apenas seu rosto ferido pela lâmina afiada, tentou sacar novamente o revolver mas, o rapaz sendo mais rápido, o lançou rapidamente no chão com um chute.

A arma caiu afastada, embaixo de um carro próximo e por mais que tentasse, não conseguia se aproximar desta por causa dos golpes que recebia. Sentiu uma forte dor no tórax e levou a mão ao local sentindo o líquido carmesim escorrer ainda morno, era seu sangue, o seu sangue!

Enfurecido e enérgico pelo excesso de adrenalina, jogou-se sobre o invasor o derrubando no chão e continuou a o golpear com violência mas, quando estava prestes a quebrar seu pescoço, tudo escureceu ao receber outra facada no estômago e apagou.

Acordou horas mais tarde tentando-se acostumar com a forte claridade em seu rosto, olhou em volta vendo um quarto inteiramente branco, estava em um leito de hospital. Após alguns minutos de confusão percebeu que Marie chorava copiosamente sobre seu corpo e sentiu-se grogue.

— Marie, você está me sufocando... – Reclamou empurrando-a bruscamente, a olhou com desagrado e sentou-se ainda sentindo dores.

— tem noção do quanto fiquei preocupada? A jovem loira desabafou limpando as lágrimas que manchavam sua maquiagem impecável.

— o que aconteceu? Joshua questionou ignorando o sofrimento da esposa, como já era de praxe. – como ainda estou vivo?

— pelo que ouvi, o agressor fugiu após ver que agonizava e o deixou para morrer, por sorte os seguranças o encontraram a tempo! Marie explicou mesmo estando magoada com suas ações. – precisou de cirurgia, houve até mesmo lesões nas costelas...

— como pode ver, precisará de recuperação cirúrgica! Dessa vez, foi a voz de um médico que exclamava ao entrar no quarto mostrando seu prontuário.

O jovem juiz acabou resmungando algo incompreensível e tomou asperamente os documentos, abriu a pasta de papel pardo e leu o que estava escrito. Se tratava de um de seus casos mais antigos e que ainda lhe atormentava. Franziu o cenho irritado e ergueu os documentos olhando o cirurgião com desagrado.

— acha que isso é uma brincadeira? Questionou com irritação mas, quando seus olhos voltaram-se aos papeis que quase rasgara, notou que eram apenas um prontuário médico comum. A enfermeira ao lado do homem, uma mulher negra de grandes olhos negros e brilhantes anotava algo em um prontuário de capa azul, contendo um riso baixo. Seu lábio estava levemente cortado mas, era quase imperceptível pois, fora bem encoberto com a maquiagem.

“Rindo de seus pacientes, merece apanhar do namorado mesmo, vadia!” O juiz pensou mal humorado, ela era exatamente o tipo de pessoa que mais detestava.

— com licença... – Um jovem vestido em uma farda policial comentou irrompendo pela porta do quarto. – precisamos colher seu depoimento... você consegue reconhecer quem o atacou?

— a pessoa que me atacou estava coberta por roupas pretas e não notei nenhum detalhe importante! O juiz resmungou, pensou um pouco e em seguida, detalhou tudo do que se lembrava incluindo até mesmo as aparições no apartamento.

Notas finais
Espero que tenham gostado... até o próximo.