Sombras do Passado
2 Capítulo 1
— Obrigada por terem vindo mais cedo para receber os novos alunos — A diretora disse com um ar elegante, levantando-se da sua mesa cheia de papéis. — É fundamental a boa aceitação dos calouros, pois a primeira impressão é o que...
— Caralho, por que ela tem que falar tanto? — Adélia revirou os olhos, fuzilando desdenhosamente a diretora que observava e testava todos os representantes de sala, que tentavam se equilibrar e prestar atenção em mais uma das suas longas palestras, embora os sono desse constantes rasteiras. Era horrível ter que acordar cedo para socializar com estranhos. Eu era péssimo nisso. Mas a ideia de ser representante tinha sido minha, agora eu teria que arcar com as consequências.— Justo no primeiro dia de aula — Grunhiu o garoto ao meu lado, e, quando menos esperávamos, a diretora se voltou para nós três com sua gélida arrogância.— Se vocês não estão interessados, porta da rua serventia da ca.... — Bom dia, diretora. Os calouros estão na biblioteca esperando os alunos — Um professor interrompeu, lançando uma olhadela suspeita para o nosso grupo. Ele tinha nos poupado de um maçante sermão.Apesar dos recorrentes compromissos que representantes de turma assumiam, como sair durante às aulas e enfrentar reuniões entediantes nas férias de verão, a coisa toda se tornava importante depois que eu me lembrava que o grêmio estudantil era uma das partes mais cruciais do colégio, e que somente alunos com bom rendimento entravam. Passei finais de semana lendo e estudando com Adélia para que nossos boletins fossem os melhores, enquanto o restante dos nossos colegas estavam ocupados demais se embriagando e se orgulhando da quantidade de gente que conseguiam pegar em uma noite. Cada um tinha uma ambição. A minha era terminar isso o mais rápido o possível. — Hum, será que terá novatos bonitinhos? — Uma das amigas de Adélia perguntou, enquanto o grupo caminhava pelos corredores do colégio em direção à biblioteca. — De bonitinho já basta a cara matinal da diretora — Adélia cochichou, jogando a sua longa cabeleira loura-escura para trás, numa forma de protesto. — Com ela por perto, não dá vontade nem de tentar. — Jonathan, você pode vir aqui? — O professor perguntou subitamente e eu assenti, parando na frente da porta da biblioteca o som das conversas dos representantes ressoando no fundo. — Tem um garoto que vai se introduzir na sua sala e você terá que dar uma ajuda especial. — Especial? Ele tem algum problema? — O olhei surpreso e o professor pediu para que eu me aproximasse. — A diretora afirmou que ele precisou sair do colégio durante alguns anos e só agora está retornando. Talvez você possa ajudá-lo a interagir com os outros alunos, além de auxilia-lo com as matérias, é claro.— Sem problemas — Garanti, embora eu não pudesse conter um suspiros de insatisfação. Mas o professor não parece notar, apenas deu espaço para que eu fosse o primeiro a abrir a porta da biblioteca. Fiz um sinal para que os representantes entrassem e os olhos de todos aumentaram de curiosidade quando nos deparamos com a vasta gama de alunos novos.— Ei, qual o nome dele? — Adélia correu para o meu lado enquanto eu vasculhava visualmente a biblioteca, procurando o garoto que eu nem sabia quem era.Era óbvio que ela tinha ouvido a conversa. — E eu vou saber? Era só o que me faltava ser babá de...— Você é o garoto ruivo do ônibus — Uma voz irrompeu e eu e Adélia demos um pulo para trás, como se estivesse recebendo um choque. Garoto ruivo do ônibus? Olhei atentamente a pessoa e tive certeza de quem era. Eu nunca reparava nos outros. Via apenas vultos me circularem enquanto eu me movia de um cenário para o outro. Poderia ser distração na maior parte das vezes, mas era inegável que o garoto chamava a atenção. Eu me lembrava dele. Ainda mais da música alta que ele escuta na parte central do ônibus com aqueles enormes headphones. Ele balançava a cabeça suavemente, fazendo seus cabelos lisos e pretos movessem-se num ritmo imaginário, enquanto os dedos longos tremulavam no colo. Aquilo era horrível. Ninguém precisa saber do seu gosto musical as 6:00 horas da manhã. Observei, como todos os passageiros, de um jeito irritadiço o garoto que parecia se abstrair de todos os olhares zangados. Mas, por alguma razão, ele decidiu capturar o meu olhar.Rios de calor espalharam-se pelo meu peito e o nervosismo tomou conta de mim. Eu, hein? Era terrível trocar olhares com uma pessoa estranha, ainda mais a definição de estranho. O garoto tinha um ar gótico e melancólico, estava coberto de preto desde seus coturnos de longos cadarços até a jaqueta de capuz.Consegui sentir durante a rota seu olhar penetrante. Esfreguei diversas vezes meus joelhos numa ansiedade nervosa, esquentando meus jeans. Ele observava cada movimento meu, vagueando os olhos pelo meu corpo como se estivesse buscando por algo, embora a mente parecesse ocupada demais com pensamentos profundos.
Talvez por isso que eu me lembrasse dele. Será que garotas assediadas se sentiam tão incomodadas quanto eu? — Eu vi o botton.— O que? — Sua voz foi com um tapa em minhas costas e forcei um respiração rasa entrar em meus pulmões, que me deu um alívio necessário.— É o emblema desse colégio. Te reconheci como um aluno por conta disso — Seus olhos escuros se apertam e ele apontou para minha mochila.Ah, sim. O botton do colégio que os representantes tinham.Ergui meu queixo e olhei no fundo de seus olhos apáticos, antes de foçar um sorriso.— Desculpe, eu sou distraído.— Você estava lendo.O garoto estava puxando assunto, e seria uma situação mais amigável se ele abrisse um sorriso. Aquele ar sério e a voz baixa e suave que eu tinha me esforçar para ouvir, me devam uma espécie de calafrio.— Você reparou? — Perguntei. De fato o garoto tinha um olhar mais perspicaz e reflexivo que a maior parte dos adolescentes que eu conhecia. — “Admirável mundo novo” — Respondeu com franqueza, e eu tive certeza que ele realmente estava me observando em todo o trajeto. — Uau! Ele viu mesmo — Adélia comentou divertida, parecendo também um pouco confusa com o garoto a sua frente. Eu tinha percebido os seus ombros caírem quando ele falou pela primeira vez. Ele era bonito, não dava para negar, mas a comoção que ele causava nos adolescentes não parecia atingi-lo, o garoto parecia alheio a tudo enquanto ainda repousava calmamente seus olhos em mim. Tentei mudar de assunto:— Bem, meu nome é Jonathan e essa é Adélia. Nós representamos a turma que você fará parte — Estendi uma mão ao garoto que refletiu antes de aceitar.— Ficaremos na mesma sala?— Sim, é a última do corredor e qualquer dúvida em relação a turma ou ao sistema educacional, principalmente com o conteúdo de alguma matéria, eu e Adélia temos a responsabilidade de auxilia-lo e...— Para que ser tão formal? — A garota me interrompeu, sorrindo simpaticamente ao garoto do jeito que ela sempre fazia quando se direcionava a estranhos — É só resumir “qualquer problema, é só chamar”.Revirei meus olhos para Adélia que piscou jocosamente seus olhos verdes para mim, antes de se voltar para o garoto pálido.— Podemos trocar números de celular. Coloquei um braço no ombro de Adélia que me olhou rabugenta pela interrupção. — Espere, diga seu nome.— Jason — O rosto dele poderia não ser caloroso, mas era impressionante. Tinha uma simetria perfeita, e não teve como eu não sentir minhas bochechas corarem. Talvez ele tenha se dado conta, pois o garoto lançou olhares estranhos para mim, as sobrancelhas erguidas em dois arcos.A coisa toda já estava saindo do controle.— Nós vamos fazer um tuor com você pelo colégio. Espero que seja só você que entre na nossa sala — Adélia olhou ao redor, reparando em todos os alunos e observando sutilmente se alguém estava sozinho, antes de dar tapas nas costas do novato e sorrir com todos os dentes. — Ótimo então, nos siga! E verá o horror que é estar no último ano.
Notas finais
Obrigada por ler! ☘️☘️☘️
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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