Sombras do Passado
39 Capítulo 39 - Sombras que não morrem - Penúltimo capítulo

***
_ Hernán! – disse Cristina com certo pesar no tom.
Federico se surpreendeu ao ouvir o nome do rival e se virou, ajeitando-se sobre a bengala que utilizava. Ainda que não tivesse toda a sua mobilidade, abraçou Cristina olhando para o ex-padre com um meio sorriso.
_ Boa tarde! – Hernán cumprimentou educado.
_ Boa tarde. – Cristina respondeu com a mesma gentileza.
Federico não fez o mesmo. Ficou olhando-o desafiador. Cristina internamente o censurou por sua postura infantil.
_ Eu soube o que aconteceu com vocês dois no Vale do Éden. Bom... Teapa é uma cidade pequena, todos souberam, na verdade.
_ Foi um grande susto. – disse Cristina. – Eu não me machuquei, mas Federico... – olhou para a perna dele e voltou a recordar o terror que sentiu quando pensou que ele podia ter caído daquele penhasco.
_ Estou vendo que... se entenderam. – disse o professor claramente incomodado com a situação.
_ Com tudo aquilo tão difícil que aconteceu lá em cima, Federico e eu nos demos conta que ainda nos amávamos e decidimos nos dar uma outra oportunidade. Tudo foi tão... foi assustador. – Cristina contou também incômoda.
Hernán sentiu um nó se formar em sua garganta ao ouvir da boca de Cristina que ainda amava o marido. Contra aquilo não poderia lutar do mesmo modo que não podia lutar contra o que sentia por Cristina. Mas o amor que ele sentia por ela era tão grande que lhe importava muito mais a felicidade dela do que qualquer outra coisa, mais até do que a dele própria.
_ Eu imagino como foi difícil. Os fatos são contados na cidade de maneira aterradora, como coisa de cinema. Fico feliz que estejam bem. – Ele disse sincero.
_ Obrigada. – agradeceu Cristina um pouco sem jeito.
_ Obrigado! – disse Federico firme. – Nós três estamos bem.
Hernán encarou-os com o rosto interrogativo enquanto Cristina reagiu:
_ Federico! – censurou-o.
_ Ele deve saber, não? – Federico ignorou a censura de Cristina. – Como você mesmo disse, padrec... Hernán, Teapa é uma cidade pequena e logo todos vão saber. Cristina e eu vamos ter um filho, por isso eu disse que nós três estamos bem.
_ Um filho? – Hernán perguntou descrente buscando o olhar de Cristina. Queria a confirmação dela para aquela notícia que, definitivamente, colocaria fim à tudo.
_ É verdade, Hernán, eu estou grávida.
_ Parabéns! – disse Hernán com a voz embargada, teve medo chorar na frente deles. – Então isso sim prova que o milagre ainda foi maior no Vale do Éden. Eu tenho que ir. – apressou-se.
_ Sim, já é tarde. – caçoou Federico enquanto Hernán se virava com intenção de tomar a mesma direção de onde ele tinha vindo.
_ Federico, não seja tão infantil! – Cristina voltou a censurá-lo. – Espere Hernán! – disse detendo o ex-namorado que se virou. – Nós temos que falar com ele. – Ela disse olhando nos olhos de Federico.
_ Sim – Federico baixou os olhos concordando ao lembrar daquele assunto.
Hernán conseguiu, com muita dificuldade, controlar sua emoção preparando-se para ouvir aquele assunto tão importante que Federico e Cristina tinham para falar com ele.
***
_ Falaremos mais tranquilamente aqui. – disse Cristina.
Estavam em uma mesa de um bar de Teapa. Federico pediu um suco para os três. A situação não podia ser mais desconfortável para ele. Quem imaginaria aquela cena algum dia? Ele e o ex namorado de Cristina na mesma mesa de um bar com ela. Mas a seriedade do assunto pedia.
_ O que é isso tão importante que vocês têm para falar comigo?
_ Hernán, eu já te contei que Federico, desde que soube do que aconteceu com nossa filha, está empenhado tanto quanto eu nessa busca, não?
_ Sim. – ele disse encarando a Federico. – E eu agradeço. Porque eu nunca pude lutar por essa filha que, até pouco tempo atrás, eu sequer sabia que existia.
_ Eu sei. – disse Cristina. – Inclusive por isso, desde que eu soube que estava esperando um bebê eu quis dizer a Federico porque não fiz isso anos atrás quando soube de nossa filha e isso ajudou a que minha família decidisse o destino dela. Bom, Federico contratou alguns investigadores ao longo desses anos. Alguns foram desistindo pelo caminho, nunca foi uma busca fácil, tão sem pistas.
_ Entendo. Então vocês encontraram algo? – Ele pareceu entender porque Cristina demonstrou necessidade de falar com ele mesmo com aquela situação desconfortável.
_ No dia daquele incidente no Vale do Éden eu recebi uma ligação de Sérgio. Ele havia encontrado a pessoa que esteve com Cristina naquela casa e ela queria falar com Cristina. – disse Federico.
_ Ela sabe onde está a menina? Sabe onde está nossa filha, Cristina? – indagou Hernán ansioso.
_ Infelizmente não. – Disse Cristina de olhos baixos. – Mas sabe para quem meu pai a entregou. Agora eu penso que fui muito burra, que devia ter desconfiado desde o começo.
_ Do que você está falando? – o professor não conseguia controlar o nervosismo.
_ Meu pai entregou nossa filha a Carlota. Ela sabe onde ela está ou ao menos onde ela estava há quase 18 anos, quando nasceu. – Confessou Cristina de certa maneira envergonhada pela irmã.
_ E ela disse?
_ Você não conhece Carlota? – observou Federico. – Ela tem um sentimento muito estranho por Cristina, faz tudo para impedir sua felicidade.
_ Sim... Ela me disse muitas mentiras enquanto você estava fora da cidade. As coisas que ela me dizia iam gradativamente contribuindo para aumentar minha depressão. Me fez acreditar que eu te deixei doente, que você tinha morrido por minha causa. Eu quis confrontá-la quando soube a verdade, mas decidi entregar nas mãos de Deus, ele vai cobrar dela.
_ É o melhor! – Cristina disse ponderada. – Eu mesma já desisti de “confrontar” Carlota com a intenção de fazê-la entrar em razão. Ela é minha irmã, mas nunca agiu assim. Preferiu, na vida, tomar a postura de uma inimiga. Agora, dela, só me interessa saber onde está minha filha. Por isso eu disse que precisava falar com você, Hernán. Que nós dois precisávamos falar. Eu estou esperando um filho que eu já amo incondicionalmente, mas eu não vou esquecer dessa filha que eu tive há 18 anos e nem esquecer que você é o pai dela. – encarou Federico ao dizer essa última frase. Ele tinha um olhar estranho.
_ Eu agradeço. A você e... a Federico por seguirem nessa busca e por me colocar a par da situação. – agradeceu Hernán.
_ No momento em que eu encontrar minha filha, você saberá. Eu prometo! – disse Cristina. – É o justo.
Hernán já se levantava da mesa. Estendeu a mão para Cristina que a apertou reagindo imediatamente.
_ E sinceramente eu desejo felicidades à vocês pelo bebê e... em tudo! – Estendeu a mão para Federico, que ficou olhando por alguns segundos, mas a apertou. – Até logo.
Quando ele saiu do bar Cristina olhou para Federico. Estava levemente emocionada e ele notou. O encontro, claramente, afetou mais a Federico do que a Cristina. Os dois estavam felizes, pensando no filho, mas ao estar de novo na frente do rival, Federico viu reacender uma insegurança que ele acreditava que não existia mais. E era algo tão vivo que ele não podia suportar, ele sentia que cresceria dentro dele, que ele não podia “seguir” a vida como se aquilo não existisse.
_ Vamos? – disse Cristina.
_ Sim. Vamos para casa. – ele concordou levantando-se e dirigindo-se ao caixa do bar.
***
Federico entrou no quarto e encontrou Cristina parada na janela com o olhar no vazio como ela costumava fazer antes. Ele ficou falando com alguns peões lá embaixo sobre o combate à praga que seguia na Plantanal e ela subiu primeiro. Ele colocou as chaves na cômoda e se aproximou dela.
No fundo ele sabia que se começasse aquela conversa ela não seguiria para um caminho agradável, mas não havia remédio. Estava consumido com uma dúvida e, naquele momento, se esquecia de que Cristina estava grávida, que os dois estavam tão bem, que a situação era muito diferente de meses antes quando Hernán voltou à cidade.
_ Você não disse nada o caminho todo. – Ele observou com certo pesar na voz. Estava inseguro.
_ Não foi uma situação agradável, Federico. – Ela disse saindo daquele estado pensativo em que se encontrava.
_ Para mim foi desagradável, desconfortável. Mas, você tem razão. Ele é o pai de sua filha, tem direito a conhecer o destino dela.
_ Foi desconfortável para mim também. Ver como você reagiu...
_ Por quê? – ele não pôde evitar demonstrar seus ciúmes. – Você sentiu algo ao encontrá-lo?
No coração ele sentia um peso que quase o paralisava. Tinha medo da resposta dela. Tinha medo que as dúvidas voltassem. Tinha medo que ela não o amasse de verdade e, ao mesmo tempo, tinha medo de não ter aquela certeza, precisava ir fundo naquilo, confrontar.
_ Senti! – ela se virou olhando firme nos inseguros olhos verdes de Federico.
***
_ Finalmente você chegou. Eu estava te esperando. – disse Luciano quando Carlota passou pelo portão de entrada da Plantanal.
Ele parecia calmo, sentado em uma mesa no pátio da bela sede da fazenda, próximo à piscina, fumava enquanto parecia procurar organizar suas ideias. Havia passado muitas horas ali refletindo sobre o que havia ouvido. Não foi difícil chegar a uma conclusão.
_ Me esperando? Que surpresa. – estranhou Carlota.
_ Onde você estava?
_ Fui à igreja. E Amanda?
_ Ela saiu, foi ver algo sobre a universidade, eu a autorizei. – ele disse sem temer a reação dela.
_ Luciano! Eu já disse que não quero Amanda andando por aí. Muito menos naquela universidade que eu sei muito bem que esse professorzinho faz mestrado. Se ela vai para esse lugar, com certeza é para encontrá-lo e você tem que me ajudar a mantê-la longe dele, mas parece que está empenhado em fazer o contrário.
_ Amanda vai estudar. Ela quer fazer medicina veterinária, já fez o processo seletivo, hoje só levou os documentos, foi se matricular. Ela está na idade de começar a faculdade, decidir sua vida. Se ela tem um namorado nessa faculdade, qual o problema?
_ Problema? – disse Carlota às gargalhadas. – Amanda tem 17 anos, não está em idade de pensar em namorar.
_ Até parece que Amanda é a única jovem de 17 anos que tem um namorado, Carlota. – Ele disse com certo cinismo que Carlota estranhou.
_ Você sabe que esse imbecil não serve para ela. É um pobretão e, além disso, Cristina claramente dá todo seu apoio à essa relação. Se não fosse ela, os dois sequer teriam se conhecido.
_Você fala como se tivéssemos muito dinheiro. Praticamente vivemos às custas de sua irmã, essa que você tanto critica de maneira infundada.
_ A Plantanal também é minha! Eu não vivo de favor aqui. – gritou ela. – Por mim não teríamos voltado da Europa, mas não venha com essa de que vivemos às custas de Cristina. Sou a dona dessa fazenda.
_ Vendemos parte da Plantanal para sua irmã há 8 anos e você sabe disso, Carlota. Sim você tem direito aos lucros, mas esses lucros só são possíveis pelo trabalho que sua irmã e o marido dela executam. Você não ajuda em nada, só sabe criticar. Se não fosse pelo trabalho deles, você seria mais pobre que o namorado de Amanda.
_ Não seja ridículo. O que você quer? Encontrar justificativas para me fazer aceitar esse namoro? Pois nem perca seu tempo. – Como sempre, foi sarcástica.
_ Não é isso, Carlota. Minha opinião não está condicionada à sua. Eu já falei com ele e tive ótima impressão. É um rapaz trabalhador, estudioso que está empenhado em ter um futuro dedicado aos seus estudos. E ama Amanda verdadeiramente. Se Amanda o escolheu, eu não vou censurá-la, fico feliz que ela namore a alguém esforçado. Além do mais, ela está apaixonada. Pouco vai importar o que você diga.
_ Não me estranha! Não me estranha que você fale como um fracassado que sempre foi. Mas minha filha você não vai arrastar para essa sua mediocridade, Luciano. Ela não vai namorar esse professorzinho! – disse ameaçadora.
_ Ela vai namorar e se casar com quem ela quiser, Carlota, você não pode controlar isso! Vai estudar o que quiser também. Ela não precisa de sua aprovação para isso. Eu estou em um momento financeiramente difícil, mas vou me reerguer. Estou trabalhando com meu irmão e vou ajudá-lo à recuperar a empresa de nosso pai. Agora você... – sorriu ao olhar para ela de pé, furiosa na frente dele. – Você está pior do que eu. E se não posso apoiar minha filha financeiramente, sua irmã pode. Ela pode proteger Amanda de você e garantir que ela seja feliz que ela possa escolher seu destino.
_ Isso não! – bradou Carlota. – Com que direito ela faria isso?
_ Com o sagrado direito da maternidade. – disse Luciano calmamente apagando o cigarro que fumava no cinzeiro da mesa, levantando-se e indo até a borda da piscina.
_ Do que você está falando? O que esta gravidez de Cristina teria a ver com suas interferências na vida de Amanda?
_ Esta não. – Ele se virou. – A gestação que ela teve há 18 anos, da própria Amanda. Sua irmã tem o direito de intervir na vida dela porque é a mãe dela. Não é mesmo, Carlota?
Carlota não acreditou quando ouviu essa frase. Como Luciano podia ter percebido aquilo? Teria Cristina cumprido sua ameaça e revelado seus segredos ao marido? Não! Não devia ser isso, Cristina era “correta” demais para fazer isso por suas costas. O que faria agora? Como fugiria daquela situação? Sua maior mentira estava descoberta.
_ Você está louco! Só pode estar louco! Você sabe muito bem como se deu a adoção de Amanda, eu só a adotei porque você concordou, Luciano, você sabe disso! Eu te contei a história da mãe biológica dela e você disse que a aceitaria como nossa filha.
_ Sei muito bem? – ele gritou se virando. – Muito bem, Carlota? Eu sei de suas palavras! E o que elas valem? Nada! Você é uma mentirosa, sempre foi, mas eu sempre esperei que você fosse sincera comigo. Você me disse que havia uma camponesa daqui que estava grávida, o pai da criança foi embora da cidade e que ela ia entregar a menina para você. Eu te disse que adotássemos uma criança da forma convencional, mas você não queria. Não queria porque não queria que ninguém soubesse que essa criança não fosse de nosso sangue, nem mesmo ela. Eu concordei, concordei por fazer sua vontade e por confiar em você! Meses depois você chegou em nossa casa com aquela criança recém nascida e me disse que era filha dessa mulher. E eu, idiota, acreditei! Fiz o que você pediu, a registrei como nossa filha biológica e porque você pediu também, nunca revelei à Amanda que ela era adotada.
_ Mas essa é a verdade, Luciano! Assim se deu a adoção de Amanda! Nunca mais vi a tal camponesa, felizmente porque assim ninguém pode tirar nossa filha de nós!
_ Você nunca a viu porque ela não existiu, Carlota! Você mentiu! Mentiu para mim, mentiu para Amanda e mentiu para sua irmã! Isso é o mais monstruoso. Ainda não posso acreditar que você tirou a filha dos braços de uma mãe sendo ela sua irmã e escondeu isso a vida toda!
_ Cristina foi te envenenar com mentiras e você acreditou. Não seja patético, Luciano, Cristina não consegue aceitar que eu tenha tido uma filha e ela...
_ Mas é o contrário, Carlota, é o contrário, não seja cínica! Você foi a que não pôde aceitar que sua irmã tenha tido uma filha e só hoje eu me dei conta disso!
_ O que Cristina te disse? O que ela inventou para você? Bem que aquela idiota me ameaçou...
_ Cristina não me disse nada! Eu ouvi uma conversa dela com Federico. Descobri que ela teve uma filha na adolescência e que ela espera que você diga onde está essa criança. Mas que ingênua ela está sendo não é? Você não vai dizer! Não vai dizer porque não pode aceitar que Amanda e ela são mãe e filha. E desde que elas se conheceram isso estava claro! As duas se identificaram, se amaram como mãe e filha desde o começo. Por isso você não queria voltar, por isso te dava tanto medo encarar a Cristina.
_ Cale essa boca! Você não vai dizer nada a Cristina e nem à Amanda! Eu não a roubei, Luciano, não a roubei. Cristina não queria a filha e agora fica se fazendo de vítima.
_ Se ela não queria a filha, por que você não quer que eu diga nada? Por que a está procurando? Porque você está aterrorizada com a pressão que está sofrendo da verdade, Carlota? Coloquemos as cartas na mesa e, pelo menos por uma vez, não diga tantas mentiras. Você roubou a filha de sua irmã. Carlota? – indagou segurando-a pelo braço.
_ Não! – ela gritou chorando.
_ Você roubou o bebê de sua irmã e escondeu esse segredo por 18 anos? – ele gritou imponente.
_ Você não pode dizer nada. Não pode contar à Amanda!
_ Por que eu não contaria? Por que eu guardaria seu maldito segredo sujo e permaneceria enganando à minha filha?
_ Por isso! Ela não seria mais a sua filha. – ela disse soltando-se dele. – Amanda nos odiaria. Você é um inútil que não soube nem sequer gerir bem nosso dinheiro. Estamos falidos, Amanda ia preferir à Cristina.
_ Isso é o que você queria não é? Que ela preferisse sua irmã pelo dinheiro. Amanda ama à Cristina e isso sem saber do laço que as une. É claro que ela não vai te perdoar. Mas a você, Carlota, a você! Eu amo minha filha e sempre serei o pai dela, mas nunca a enganaria dessa maneira. – Não pôde evitar se emocionar. – Amanda vai ser feliz. Você não vai mais escolher o namorado dela, a faculdade que ela estude e nem afastá-la da verdadeira mãe. E quanto a nós... – olhou-a cheio de desprezo. – Eu não quero voltar a te ver.
Entrou na casa e tomou o caminho da escada deixando Carlota desesperada no pátio. Ela temeu que ele fosse falar com Cristina e correu para alcançá-lo.
***
_ O que você sentiu? Você ainda tem dúvidas, Cristina? – indagou Federico sem conseguir fugir daquela insegurança.
_ Eu senti sua desconfiança. E a senti na pele. Dúvidas e insegurança eu senti de sua parte, Federico. Você não precisava agir de maneira tão infantil se supostamente todos os nossos problemas já tínhamos resolvido naquela cabana e aqui, em nossa casa.
_ Então o problema sou eu? – ele se irritou.
_ Não se exalte, Federico, conversemos. – ela pediu.
_ Está bem. Desculpe. Vem, sente-se aqui. – ele a conduziu para sentar-se na cama e ficaram de frente, se olhando.
_ Sendo inteiramente sincera, esperava muito mais maturidade de sua parte, Federico. Eu tenho inteira consciência de que não é simples que você fique frente a frente com Hernán sabendo o que ele representou no meu passado. Não estou pedindo que você seja amigo dele, mas você agiu como um adolescente. Eu já te disse tudo o que tinha que te dizer com relação isso.
Levantou os olhos e encarou-o com um brilho nos olhos antes de seguir.
_ Te disse nos seus braços, na cama depois que fizemos amor. Já é tempo de que você supere esses ciúmes, não?
Federico se levantou, caminhou pelo quarto, passou as mãos pelo cabelo e voltou-se novamente para ela. Hesitou em dizer aquilo, mas não pôde evitar, estava tomado pela insegurança.
_ Mas você não me disse... Não me disse o que sentiu ao vê-lo.
_ Por favor, Federico! – Cristina se irritou. – O que eu acabei de te dizer?
_ Sim! Você me disse que não tinha mais dúvidas, que me amava que ele era só alguém de seu passado. Mas tudo isso foi antes. Antes de voltar a vê-lo, de voltar a olhar nos olhos dele. Você ainda sente algo por ele, Cristina? – ele disse com a voz grave segurando-a pelos dois braços.
_ Federico, se acalme. – ela se levantou e se desvencilhou das mãos dele – Não devíamos estar discutindo. Estamos vindo da consulta com o ginecologista. Escutamos o coração do nosso bebê, pudemos vê-lo. Você realmente acha que tem sentido esse tipo de comportamento da sua parte neste momento?
_ Eu não posso evitar, Cristina! É mais forte do que eu, preciso saber o que você sente por Hernán. Preciso saber se você ainda sente algo por ele. – parou frente a ela encarando-a nos olhos.
_ Não te basta com saber que eu te amo? – Ela disse emocionada sustentando o olhar fixo nele.
_ Eu preciso saber! – ainda que hesitante, ele insistiu.
_ Eu não entendo porque você insiste tanto nisso. Você já imaginou se eu resolvo tomar a mesma atitude com relação ao que aconteceu entre você e Raquel? No momento que eu decidi te perdoar, isso ficou atrás para mim e eu voltei a depositar minha confiança em você. Agora olha como você está agindo só porque vimos Hernán na cidade hoje. Juntos. Você está me acusando como se eu tivesse feito algo errado.
_ É diferente!
_ Por quê? – ela se alterou.
_ Porque eu nunca amei Raquel, já você...
Cristina baixou os olhos e voltou a caminhar até a janela.
_ E eu nunca te enganei. Nem com palavras, ações e nem mesmo sentimentalmente, apesar de sim reconhecer que poderia ter feito as coisas de um jeito diferente em algum momento. Mas, dentro de tudo isso, minha maior preocupação foi não te magoar. Porque isso eu não suportaria. Federico, não entendo sua atitude. Você não percebe que assim vai envenenar nossa relação?
_ Ai por favor, você fala como se eu querer que você me fale o que sentiu ao estar frente a ele fosse a causa de todos os nossos problemas, Cristina!
_ E não é? Você está desconfiando de mim, desconfiando dos meus sentimentos, da minha sinceridade e não é justo depois de tudo que nós passamos! Porque você não pode simplesmente acreditar que meu amor é sincero e que o que eu tive com Hernán ficou no passado?
_ Então me diga! Me diga o que você sentiu! – ele gritou encurralando-a, segurando-a pelos braços no cantinho da janela. Quando ela levantou os olhos, ele se deu conta que ela estava chorando.
_ Por favor, Federico, não faça isso com a gente. – ela implorou soluçando.
Ele soltou-a e saiu, perturbado, em direção à porta. Cristina caminhou até a poltrona e sentou-se chorando muito afetada.
***
_ Você acha que eu vou sentir sua falta? Acha que para mim faz alguma diferença que você vá embora? Pois eu vou ficar feliz de finalmente me livrar de um fracassado com você! – afirmava Carlota para Luciano.
O ex-empresário estava na porta da sede da Plantanal conduzindo suas malas e Carlota gritava atrás dele.
_ Eu não duvido. Eu sempre fui realmente um imbecil, um fracassado por só fazer investimentos sem futuro como foi o caso desse casamento. Mas eu fiz isso porque eu te amava, Carlota.
_ E eu te mato! Te mato se você disser algo a Amanda ou a qualquer outra pessoa! – ela gritou.
_ Eu não tenho medo. Você pode fazer o que queira. De qualquer maneira, esse casamento mesmo foi uma forma de morrer em vida. Você nunca me fez feliz, nunca me deu nada. Não me deu amor, não me deu uma família, nem sequer pôde me dar a verdade! Preste atenção, Carlota, a fracassada aqui é você! Você fracassou como irmã, como mulher, como mãe que você nunca pôde ser! Você é um fracasso Carlota! Um completo fracasso!
Neste momento Federico descia as escadas, absorto em seus próprios e traiçoeiros pensamentos e encarou aquela cena. Carlota encarou Luciano fulminante vendo que ele olhava para Federico. O fazendeiro pensou em passar direto pela porta, mesmo tendo notado a animosidade entre eles, mas, ao ver as malas de Luciano, resolveu se deter.
_ Você vai viajar? – indagou ao concunhado.
_ Estou indo embora. Vou para a casa do meu irmão na cidade e depois, depois eu vejo o que faço. Não há mais nenhum sentido em ficar aqui. – disse olhando para Carlota reprovador.
_ Ah! Eu sinto muito. – disse Federico.
_ Não sinta! É a melhor coisa que eu faço na minha vida inteira: sair desse maldito casamento. Demorei muito tempo para reagir, finalmente posso respirar. Mas antes... tenho que te dizer uma coisa.
_ Cale a boca! – gritou Carlota.
_ Não adianta gritar como uma louca, Carlota! É o momento da verdade e nada vai impedir isso. – ele não se intimidou.
_ Não! – ela ainda tentou impedi-lo aos prantos.
_ Mais cedo eu ouvi uma conversa sua e de Cristina. Sua mulher está procurando uma filha que ela teve na adolescência e que Severiano entregou a Carlota, não é mesmo?
_ Sim! – disse Federico perplexo.
_ Pois não precisa mais procurar...
_ Luciano! – Carlota tentava impedi-lo.
Luciano, por sua vez colocou a mão esquerda nas costas de Federico conduzindo-o um pouco para mais longe dela. Parou frente a ele e encarou-o dizendo.
_ Cristina não precisa mais procurar a filha porque ela está vivendo aqui mesmo nessa casa. Amanda é a criança que Carlota levou recém-nascida dos braços de Cristina.
_ Isso não é verdade! – gritava Carlota descontrolada. – É uma mentira.
_ Diga a Cristina que veja os documentos de Amanda, estão com ela. A data de seu registro provavelmente coincide ou é muito próxima da data em que a filha dela desapareceu. Para o caso de restar alguma dúvida, ela pode fazer um exame de DNA, mas eu acho que, no fundo do coração as duas já sabem desde o primeiro momento que se olharam. A busca de sua mulher chegou ao fim! As mentiras de Carlota também. – Disse Luciano com a mão no ombro de Federico.
Federico voltou-se para Carlota que não tinha mais como inventar nenhuma mentira e saiu correndo, subiu as escadas e trancou-se no quarto. A expressão do fazendeiro revelava toda a perplexidade do que aquilo significava. Finalmente havia encontrado a filha de Cristina.
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