Sombras do Abismo

3 O Peso do Dever


A fortaleza parecia respirar juntamente com Artorias. Cada pedra carregava o eco de batalhas antigas, cada corredor, o cheiro a ferro e cinza. Enquanto os outros cavaleiros se gabavam ou se distraíam com pequenas rivalidades, ele permanecia firme, como se o mundo inteiro estivesse suspenso nas suas mãos. E, de facto, talvez estivesse. Porque Artorias não era apenas um homem, era uma força destinada a carregar aquilo que nenhum outro suportaria.

Eu observava-o constantemente, escondida entre as sombras, ajustando as minhas lâminas, preparando-me para a próxima missão. Era quase um ritual: ele avaliava a espada, ajustava o escudo, respirava fundo. Cada gesto seu carregava intenção, mas também cansaço que raramente admitia. Nunca o vi reclamar. Nunca o ouvi lamentar-se. Apenas seguia em frente, sempre à frente. E eu aprendia, silenciosa, que acompanhar Artorias não era apenas uma questão de sobrevivência: era aprender a suportar o peso do mundo sem jamais permitir que ninguém visse as suas falhas.

— Se ninguém o fizer, tudo cairá. — disse ele, uma vez, durante o treino matinal, a voz baixa, quase engolida pelo vento que passava pelas muralhas da fortaleza.

Eu pausei, segurando a lâmina, com o coração apertado.

— E se cair?

Ele não olhou imediatamente. Apenas respirou, pesado, sentindo talvez o mesmo peso que eu sentia sem compreender completamente o seu significado. Então, lentamente, virou-se.

— Então não merecia ficar de pé.

As palavras não eram apenas sobre guerra ou dever. Eram sobre escolhas impossíveis, sobre mundos que exigiam heróis e destruíam homens ao mesmo tempo. Percebi ali, mais do que nunca, que Artorias não vivia para si próprio. Ele vivia para o mundo. E eu… eu amava-o profundamente, mesmo sabendo que jamais poderia reivindicá-lo.

Nos dias que se seguiram, cada missão reforçava essa verdade silenciosa. Cavaleiros caíam, aldeias eram consumidas pelo fogo ou pelo Abismo, e ele continuava firme. Eu movia-me ao lado dele, mas não como igual como sombra, como testemunha silenciosa, como alguém que compreendia a magnitude do fardo que ele carregava. Algumas vezes, quando ele se abaixava para ajudar uma criança ferida ou proteger um aldeão, percebi que a força que mostrava na batalha não era apenas física, mas moral, emocional. Lutava não por glória, mas porque sentia que era a sua obrigação, e isso tornava-o mais humano do que qualquer outra demonstração de força poderia mostrar.

Durante uma missão que nos levou a uma ponte parcialmente destruída, sob um céu carregado de nuvens cinzentas, quase fomos atingidos por uma emboscada. Criaturas corrompidas surgiram da névoa, olhos vermelhos brilhando. Artorias avançou sem hesitar, cada golpe medido, preciso, protegendo não apenas a mim, mas qualquer outro ser que estivesse na linha de fogo. Eu movia-me atrás dele, desviando ataques, cortando galhos e obstáculos, ajustando o meu passo conforme a sua movimentação, quase sem pensar. Cada gesto dele ditava a minha ação. A coreografia era perfeita, silenciosa, quase íntima.

Quando finalmente nos recolhemos, ele sentou-se, exausto, apoiando a espada nos joelhos. Os ombros estavam caídos, os músculos tensos relaxando apenas um pouco. Observei o modo como respirava, cada expiração pesada marcada pela batalha, cada pausa indicando dor que não admitia. Aproximei-me devagar, como sempre fazia, a minha mão quase tocando a dele, mas detive-me no último instante. Ele não precisava de toque; precisava de presença silenciosa. E eu permaneci ali, sentada próxima, ajustando a lâmina, respirando junto com ele, sentindo cada batida do seu coração invisível, como se fosse o meu próprio ritmo.

Às vezes, quando o mundo estava quieto, percebia nuances de emoção que ele jamais expressaria. Um olhar fugaz, um gesto tenso, um suspiro que achava silencioso. Esses pequenos sinais eram como mapas do seu interior, que eu lia com a precisão de quem depende da vida do outro. E cada descoberta aprofundava algo dentro de mim, algo que eu sabia que não poderia existir fora de nós, mas que queimava com intensidade silenciosa. Amor contido, desejo, admiração, medo e respeito, todos entrelaçados.

Houve um momento, durante um treino solitário, em que ele se aproximou de mim, inesperadamente, enquanto ajustava a posição da minha lâmina. O seu olhar fixo no meu era intenso, diferente do habitual. Ele não falou. Não precisava. Eu compreendi. Não era apenas a necessidade de corrigir a postura, havia cuidado, preocupação e, talvez, uma sombra de sentimento que ele mesmo não sabia como nomear. O meu coração disparou, e percebi que ele podia sentir o mesmo fio invisível que eu sentia mas que jamais seria declarado enquanto houvesse dever a cumprir.

À noite, quando regressávamos à fortaleza, os corredores vazios pareciam conspirar contra nós. Cada passo ecoava como um lembrete de que estávamos vivos, mas que a vida que carregávamos estava sempre prestes a ser consumida. Eu mantinha os olhos no caminho à frente, mas o meu coração estava com ele, medindo cada respiração, cada passo, cada gesto silencioso. A tensão entre nós crescia, não declarada, mas inegável. Havia momentos em que o meu impulso era tocar a sua mão, segurar a sua espada, encostar a testa na dele e admitir tudo o que sentia. Mas nunca o fiz. Porque havia o dever, e havia o mundo, e havia Artorias, que não pertencia a ninguém.

Mesmo assim, algo mudava a cada dia. O vínculo silencioso que partilhávamos, a confiança inabalável entre sombra e luz, entre força e delicadeza, tornava-se quase palpável. Eu percebia que, se algo acontecesse, se ele caísse em batalha, ou se o mundo o destruísse, não haveria ninguém capaz de compreender a magnitude do que ele carregava, ou de amar o homem por detrás da lenda.

E ali, naquele silêncio partilhado, percebi a verdade inevitável: Artorias não era apenas um herói. Ele era o meu ponto fixo, o meu mundo inteiro comprimido em forma humana. E eu era a sua sombra, invisível, necessária, e completamente cativa de algo que não poderia existir fora daquele espaço partilhado entre batalhas, treinos e silêncios.

Enquanto o vento soprava frio sobre as muralhas da fortaleza, e o céu tingia-se de tons escuros de azul e cinzento, percebi que cada missão, cada gesto, cada silêncio aprofundava algo em nós. Um fio invisível de afeto, desejo e admiração que crescia silencioso, mas imparável. E, mesmo sem palavras, sabia que estávamos ligados de uma forma que ninguém poderia romper.

E naquela noite, ao me retirar para o meu abrigo improvisado, ouvi o eco distante da espada de Artorias a bater contra a pedra, como se o mundo inteiro aplaudisse silenciosamente o nosso pacto invisível. Fechei os olhos e, pela primeira vez, desejei em silêncio que ele pudesse sentir aquilo que eu sentia e que talvez, em algum nível, ele já sentisse.

Porque, no fim, cada gesto, cada treino, cada missão não era apenas sobre o dever. Era sobre nós, ainda que ninguém mais pudesse ver.