Sombras do Abismo

5 Amor Que Não Ousa Nome


A noite caía sobre a fortaleza como um manto pesado, trazendo consigo sombras longas e frias que se estendiam pelos corredores de pedra. Os gritos distantes das criaturas noturnas eram abafados pelas muralhas antigas, mas o silêncio dentro de mim era mais ensurdecedor do que qualquer barulho exterior. Sentava-me sozinha no pátio, as lâminas repousando ao meu lado, mas a minha mente não estava nas armas. Estava nele. Artorias.

O que sentia por ele era uma chama que queimava silenciosa, constante, impossível de nomear. Cada gesto seu, cada movimento de espada, cada olhar fugaz, era uma flecha disparada direto ao meu coração. Mas não havia espaço para confissões. O mundo que nos cercava não permitia fraqueza, nem distração. E ainda assim, o amor crescia, incontrolável, apesar do medo, apesar da razão.

Durante os treinos, a proximidade tornou-se quase insuportável. Movia-se com força e precisão, mas havia momentos em que o seu olhar buscava o meu inconscientemente. Um instante no qual os nossos olhos se encontravam, e tudo o que não podia ser dito transbordava em silêncio. A coreografia do combate, que sempre fora a nossa linguagem silenciosa, agora carregava nuances de intimidade. Cada golpe, cada esquiva, cada ajuste da lâmina parecia carregado de um significado que só nós dois compreendíamos.

Uma tarde, após uma missão particularmente extenuante, sentámo-nos próximos à lareira improvisada do acampamento. A luz tremeluziu sobre os contornos do seu rosto, iluminando cicatrizes que contavam histórias que ninguém jamais ouviria. Eu queria tocar, queria apoiar a minha mão sobre ele, sentir o calor humano que, apesar da sua força, era tão real quanto qualquer outra necessidade. Mas hesitei. Porque tocar poderia significar algo que o mundo não permitiria. E ainda assim, o meu corpo ansiava por estar perto dele, mesmo que em silêncio.

— Ciaran… por que permaneces sempre tão perto? — perguntou ele, a voz baixa, quase rouca do esforço.

Respirei fundo, sem desviar o olhar da chama, porque sabia que, se olhasse directamente para ele, perderia a coragem.

— Porque te observo… porque quero compreender. Porque preciso saber que estás inteiro.

Ele fechou os olhos por um instante, o semblante sério, a mandíbula tensa. Nenhuma palavra foi dita depois disso, mas senti a intensidade da sua resposta silenciosa. Era como se o meu reconhecimento da sua humanidade tivesse tocado algo que ninguém mais podia alcançar. E isso doía tanto quanto encantava. Porque o que sentíamos não podia ser nomeado, mas era real.

Naquele momento, percebi que o nosso vínculo tinha ultrapassado qualquer coisa que eu poderia esperar. Não era apenas camaradagem, não era apenas confiança, era intimidade, embora velada, profunda e absoluta. Eu conhecia cada nuance dele: a tensão nos ombros, o modo como segurava a espada, a maneira como respirava quando acreditava que ninguém prestava atenção. Cada detalhe tornara-se parte da minha própria vida, como se a minha existência estivesse entrelaçada com a dele de forma irrevogável.

Houve um instante, uma noite, em que o vento trouxe a névoa do pátio até nós, e ele aproximou-se silenciosamente, ajustando a postura da espada que eu segurava. Os seus dedos roçaram os meus por acaso, mas aquele “acaso” durou tempo suficiente para que eu sentisse o impacto do toque. Um arrepio percorreu o meu corpo, e percebi que não poderia mais negar o que sentia. Era amor um amor silencioso, impossível, mas indiscutível.

— Se algo acontecer contigo… — murmurei, incapaz de completar a frase, porque a verdade era impossível de admitir.

Ele não respondeu, mas senti a sua mão apertar levemente a minha, um gesto breve, quase imperceptível. E naquele toque, entendi tudo. Ele também sentia, embora o dever, a missão e o peso do mundo o impedissem de reconhecer ou confessar. A impossibilidade tornava tudo mais intenso. O amor que não ousava ser nomeado era, paradoxalmente, o mais poderoso que já conheci.

Os dias seguintes passaram com o mesmo ritmo: treinos, missões, silêncio e olhares furtivos que diziam mais do que qualquer palavra. O mundo continuava a exigir tudo de Artorias, e ele respondia com precisão e força, sem jamais mostrar fraqueza. Mas eu percebia cada momento em que ele estava cansado, cada pequeno suspiro que escapava sem que ninguém notasse, cada leve hesitação antes de atacar. Esses momentos eram íntimos demais para serem partilhados, e ainda assim, eram tudo o que eu precisava para sentir que estávamos ligados de forma única.

À noite, quando nos recolhíamos à fortaleza, eu sentava-me em silêncio no meu quarto improvisado, pensando nos gestos, nas batalhas, nos olhares e nos toques que partilhámos sem palavras. O meu coração doía de saudade antecipada, porque sabia que algo maior se aproximava Oolacile, o Abismo, a missão que o levaria a atravessar a escuridão sozinho. E eu não podia acompanhá-lo. Não poderia protegê-lo completamente. Tudo o que poderia fazer era permanecer como sombra, observando, esperando, amando em silêncio.

Antes de adormecer, olhei para o céu noturno através da janela quebrada da torre. As estrelas pareciam distantes e frias, mas havia uma constelação que eu sempre associava a Artorias: firme, brilhante, intocável. E compreendi que, mesmo que ele não percebesse, o nosso vínculo existia em todos os lugares: no treino, nas missões, no silêncio da noite, na memória de cada toque e cada olhar.

Eu sabia que a missão a vir seria perigosa. Que ele poderia não voltar. E, ainda assim, senti algo mais profundo do que medo: uma certeza silenciosa de que aquele fio invisível entre nós seria testado, mas jamais quebrado. Porque não era apenas amor; era confiança, intimidade, devoção. Um elo que transcenderia qualquer batalha, qualquer Abismo, qualquer lenda que o mundo pudesse criar sobre ele.

E naquela noite, antes de adormecer, fechei os olhos e sussurrei ao vento, ao vazio, à escuridão:

— Sobrevive, Artorias… e, se puderes, lembra de mim.

Não era uma promessa. Era um pedido silencioso, impossível, mas sincero. Porque amava-o, e o amor, mesmo silencioso, exigia que eu esperasse. Esperasse por ele, esperasse pelo impossível, esperasse pelo homem que carregava o mundo sobre os ombros e que, mesmo sem saber, carregava também o meu coração junto de si.