Sombras do Abismo

10 A Queda do Lobo


O tempo deixara de me obedecer. Na fortaleza, os dias continuavam a nascer e a morrer com uma regularidade cruel, mas para mim tudo se tornara uma espera imóvel, suspensa entre a certeza do perigo e o medo do que ainda não se revelara. Cada amanhecer parecia demasiado claro para aquilo que eu sentia, cada noite demasiado silenciosa para o caos que sabia existir em Oolacile.

Artorias ainda avançava. Eu sentia-o como uma pressão constante no peito, uma presença que se tornava mais difusa a cada instante, como uma chama privada de oxigénio. Não estava morto disso eu tinha a certeza mas algo nele começava a afastar-se daquilo que reconhecia como humano.

O Abismo tinha entrado. Não de forma violenta, não como um golpe final, mas como uma infiltração lenta e paciente. Eu sentia-o espalhar-se nele como uma sombra interna, tocando pensamentos, memórias, sensações. Havia momentos em que a ligação entre nós enfraquecia subitamente, como se ele se perdesse dentro de si próprio. Outros em que regressava com força, carregado de dor, de confusão, de uma raiva que não lhe pertencia.

Oolacile já não conhecia dia nem noite. A imagem que me chegava era a de um crepúsculo eterno, um mundo onde a luz nunca conseguia existir por completo antes de ser engolida. As ruínas repetiam-se, dobravam-se sobre si mesmas, como se o espaço estivesse preso num ciclo de corrupção. Artorias avançava por entre elas como uma figura deslocada, um intruso numa realidade que já não obedecia às leis do mundo.

Cada passo custava-lhe mais. Não apenas pelo corpo ferido, pelo braço dominante quebrado, pela armadura pesada, mas pela mente que começava a fragmentar-se. Sentia os momentos de desorientação, os instantes em que ele caminhava sem se recordar de como chegara ali. Sentia o desconforto crescente, a sensação constante de ser observado não por inimigos visíveis, mas por algo que o conhecia por dentro.

Houve um instante que me gelou o sangue. Artorias parou.

Não porque estivesse cercado, não porque tivesse sido ferido de novo, mas porque se vira a si próprio. O reflexo numa poça escura não lhe devolvera uma imagem completa. A silhueta estava distorcida, incompleta, demasiado envolta em sombra. Ele observou-se como se estivesse a olhar para um estranho.

A armadura rangia a cada movimento, carregada não só de metal, mas de símbolos. O Cavaleiro de Gwyn. O herói. O protector. Eu senti essas palavras afastarem-se dele, tornarem-se conceitos distantes, quase irreais. Não porque ele deixasse de as honrar, mas porque o mundo à sua volta já não as reconhecia.

As criaturas do Abismo começaram a mudar. Algumas afastavam-se quando ele se aproximava. Outras permaneciam imóveis, observando-o com uma atenção inquietante. Esse reconhecimento feriu-o mais profundamente do que qualquer ataque. Era como se o Abismo o estivesse a aceitar. Ou pior a reclamar.

— Eu não sou teu…

A voz dele chegou até mim rouca, distorcida, como se tivesse atravessado água negra antes de existir. E, pela primeira vez, senti medo não pela sua vida, mas pela sua identidade.

Ele tentou lembrar-se de mim. Senti esse esforço como uma mão estendida no escuro. No início, a imagem ainda surgia com alguma clareza o silêncio atento, o olhar firme, a forma como eu permanecia sempre um passo atrás. Mas algo começava a falhar. As memórias vinham fragmentadas, incompletas, como reflexos quebrados.

Ele sabia que me amava. Mas começava a perder os detalhes. O som da minha voz. A forma exacta do meu rosto. A maneira como o meu nome soava quando era dito com calma. O pânico apertou-lhe o peito, e eu senti-o como se fosse meu. Ele levou a mão à cabeça, a dor a latejar, não apenas física, mas existencial.

— Não… — murmurou. — Não leveis isso de mim.

O Abismo respondeu como sempre: com silêncio. E depois, com visões.

Artorias viu-se de fora. Eu senti essa cisão, essa distância crescente entre quem ele era e aquilo que se tornava. Viu um cavaleiro curvado, o braço inútil pendendo junto ao corpo, a espada empunhada de forma irregular. Viu sombras a colarem-se-lhe às pernas, a subirem-lhe pelo tronco como raízes famintas.

Viu-se a atacar. A matar. A avançar sem hesitação. E não sentiu repulsa imediata. Esse foi o momento mais terrível.

Num acesso de lucidez, ele cravou a espada no chão e ajoelhou-se. A respiração estava descontrolada, o coração batia fora de ritmo, como se lutasse contra algo que tentava impor-lhe um compasso diferente.

— Gwyn… perdoa-me…

Não houve resposta. Eu senti o vazio dessa ausência como uma ferida aberta. Nenhuma luz respondeu. Nenhuma presença superior se manifestou. Apenas o Abismo, paciente, atento.

Quando ele se ergueu, cambaleante, eu soube que as criaturas se aproximavam antes mesmo de ele as sentir. O combate que se seguiu foi diferente de todos os anteriores. Os movimentos eram mais rápidos, mais brutais. Havia menos estratégia, mais instinto. O corpo reagia antes da mente.

Isso tornava-o mais perigoso. Quando a última criatura caiu, Artorias permaneceu imóvel. A espada estava coberta por uma substância escura que não escorria, que se agarrava ao metal como algo vivo. Ele tentou limpá-la, mas a mancha pulsava suavemente, quase a respirar.

Por um instante, largou a espada. O Abismo sussurrou.

Já és nosso.

O riso que lhe escapou foi curto, quebrado, quase um soluço. Não houve triunfo nele, apenas cansaço.

— Ainda não… — respondeu. — Enquanto eu respirar… enquanto me lembrar…

Mas eu sabia. Sabia com uma clareza dolorosa. A corrupção não precisava de o vencer de imediato. Bastava-lhe esperar. Bastava-lhe desgastá-lo até que lutar deixasse de ser uma escolha e passasse a ser apenas natureza.

Ele avançou mais uma vez. Cada passo deixava uma marca escura no chão. Cada respiração libertava um vapor denso, carregado de algo que já não era apenas humano. A figura que atravessava Oolacile começava a assemelhar-se mais a uma lenda distorcida do que a um homem uma silhueta torta, envolta em sombras, movida por uma vontade que poucos compreenderiam.

Em algum lugar, longe dali, Sif corria. E ainda mais longe, eu esperava.

Artorias sentiu isso apenas de forma vaga, como quem sente calor sem ver o fogo. Mas foi suficiente. Essa sensação manteve-o em movimento, mesmo quando o nome começava a perder significado, mesmo quando o juramento se confundia com o ruído incessante do Abismo.

Ele não sabia quanto tempo ainda restava. Mas eu sabia uma coisa com absoluta certeza: quando Artorias caísse, cairia a lutar.

E assim, nas profundezas corrompidas de Oolacile, ele continuou a avançar não já como salvador, mas como o último obstáculo entre o Abismo e o mundo.

A queda tinha começado. E não haveria retorno.