Sombras do Abismo
7 A Confissão Antes do Abismo
A noite envolveu a fortaleza com um silêncio denso, quase respeitoso, como se o próprio mundo soubesse que algo irrevogável estava prestes a acontecer. As tochas ardiam baixas, projectando sombras longas nas paredes de pedra, e cada passo ecoava mais do que devia, como se o som tivesse medo de desaparecer.
Artorias ainda não partira. Mas a decisão já o separava do resto de nós.
Encontrei-o onde sempre o encontrava quando precisava de silêncio: junto à antiga varanda voltada para o vale, longe das salas de guerra, longe dos olhares curiosos. O céu estava limpo, salpicado de estrelas imóveis, indiferentes ao caos que se erguia em Oolacile. Ele estava ali, sem capacete, a espada apoiada contra a muralha, o rosto iluminado pela luz fria da lua.
Não se virou quando me aproximei.
— Sabia que virias — disse, num tom calmo, quase íntimo.
— Esta noite não permite ausências — respondi.
Fiquei ao seu lado, sentindo o frio da pedra através das luvas. Durante alguns instantes, nenhum de nós falou. O silêncio não era vazio, estava carregado de tudo o que evitáramos dizer durante demasiado tempo.
— Ao amanhecer — começou ele — atravessarei o Abismo.
Não era um anúncio. Era uma constatação.
— Eu sei — murmurei. — Toda a fortaleza sabe.
— Não! — Ele virou-se finalmente para mim. — Sabem da missão. Não do que ela exige.
O seu olhar era firme, mas havia algo diferente ali. Uma vulnerabilidade contida, cuidadosamente mantida sob controlo. Artorias sempre fora assim: forte não por ignorar o medo, mas por caminhar apesar dele.
— O Abismo não é apenas escuridão. — continuou. — É tentação. É memória distorcida. É tudo aquilo que tentará convencer-me de que sou mais do que um homem… ou menos.
Senti um aperto no peito.
— E achas que conseguirás resistir?
Ele hesitou. Pela primeira vez desde que o conhecia, hesitou de verdade.
— Não sei.
A honestidade da resposta doeu mais do que qualquer certeza.
— Então porque vais?
— Porque alguém tem de ir. — A voz dele endureceu. — E porque, se houver uma hipótese, mesmo mínima, de conter o Abismo… essa hipótese passa por mim.
Baixei o olhar, lutando contra a vontade de lhe pedir que ficasse. Sabia que palavras assim não mudariam nada. Artorias não era movido por súplicas, mas por convicção.
— Há algo que preciso de dizer-te — disse ele, após um longo silêncio.
O meu coração acelerou.
— Então diz.
Ele deu um passo mais próximo. A distância entre nós diminuiu até se tornar quase inexistente.
— Durante muito tempo — começou — acreditei que a minha vida pertencia apenas ao dever. A Gwyn. Ao mundo. Àquilo que precisava de ser protegido.
Respirou fundo.
— Mas o Abismo ensinou-me algo, mesmo antes de o enfrentar. Ensinou-me que o que mais temo perder… não é a minha honra. Nem a minha força. És tu.
Senti o mundo inclinar-se ligeiramente.
— Artorias…
— Deixa-me terminar — pediu, com suavidade. — Não sei se voltarei. E se não disser isto agora, nunca o direi.
Os olhos dele fixaram-se nos meus, e vi ali não o cavaleiro lendário, mas o homem por detrás da armadura.
— Amo-te, Ciaran.
A palavra pairou no ar, simples e devastadora. Não era uma declaração grandiosa. Não precisava de o ser. Tinha o peso de tudo o que fora contido, escondido, silenciado ao longo dos anos.
— Sempre te amei — continuou. — Em cada sombra onde permaneceste. Em cada batalha que lutei sabendo que estavas algures, a vigiar-me. Nunca o disse porque achei que não tinha o direito. Porque pensei que o dever exigia silêncio.
Aproximou a mão e tocou a minha face com delicadeza, como se tocasse algo frágil e precioso.
— E eu pensei que amar-te significava não te pedir nada — respondi, com voz trémula. — Nem mesmo que ficasses.
As mãos dele agora tocaram as minhas, com cuidado, como se temesse que o momento se desfizesse.
— Esta noite — disse — ainda sou teu. Amanhã… pertenço ao Abismo.
Engoli em seco.
— Então esta noite não será de despedida.
Ele sorriu levemente.
— Não. Será de verdade.
Ficámos ali, abraçados, enquanto o mundo permanecia suspenso. Não houve promessas impossíveis. Não falámos de regressos garantidos. Apenas partilhámos o presente, conscientes de que era tudo o que nos restava.
Mais tarde, quando a lua já começava a descer no céu, caminhámos juntos pelos corredores silenciosos. Cada passo era uma memória a ser gravada. Cada olhar, um adeus não dito.
À porta do aposento dele, Artorias parou.
— Promete-me algo, Ciaran… — a sua voz estava carregada de emoção contida, de um desejo desesperado por algo impossível. — Que, se eu não voltar, manterás este momento vivo em ti. — disse, em voz baixa — não me lamentes como herói. Lembra-me como homem.
— Prometo… Artorias. — murmurei, com lágrimas quentes a escorrer pelo rosto, ignorando o frio cortante do pátio. — Prometo esperar, mesmo que a eternidade passe.
Ele inclinou-se e, depositou um beijo rápido na minha testa, uma promessa silenciosa, um selo de tudo o que não podia ser dito com palavras, quase como um ritual.
— Espera por mim, se puderes. E se não puderes…vive.
Assenti, incapaz de responder.
Quando ele entrou e a porta se fechou, fiquei ali por mais tempo do que devia, sentindo o peso da noite, da decisão, do Abismo que aguardava além da aurora.
Artorias ainda não tinha partido. Mas eu sabia, com uma clareza dolorosa, que aquela confissão era já uma despedida.
E o mundo jamais seria o mesmo depois do amanhecer.
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