Sombras da Noite
1 1. Noite Fantasma
Notas iniciais

Ando tranquilamente pelas ruas quietas e silenciosas da cidade, sem pressa alguma para chegar em casa.
Minha mãe iria ficar furiosa com o fato de que tinha preferido jantar fora do que em casa, além de chegar tarde propositalmente.
Passo em frente de restaurantes e lanchonetes, pensando como seria bom bater uma boquinha por mais que tivesse comido um lanche enorme apenas uma hora antes. Apesar disso, minha barriga começava a rocar, pedindo algo para se satisfazer.
Salvem-se todas as comidas! Tenho um buraco negro faminto no meu estômago!
Apressei o passo, antes que eu decidisse comer alguma besteira. Afinal, nem todo o meu metabolismo acelerado poderia me salvar de ganhar umas gordurinhas a mais.
Olho para cima, o céu estrelado e a grande lua cheia e começo a viajar em pensamentos sobre a minha vida, me distraindo de tudo e todos à minha volta. Quase não percebi a comoção de barulhos que vinham de um beco extremamente escuro. A escuridão do local parecia engolir qualquer luz que tentasse se infiltrar ali.
O primeiro pensamento da maioria das pessoas seriam se manter o mais distante possível, dar meia volta ou paralisar de medo.
Mas eu nunca fui a maioria das pessoas, sempre fui o tipo de pessoa que ficava atraída pelo desconhecido e o perigoso. Por isso sempre acabo me metendo em encrenca, levando as pessoas a me confundirem com aqueles bad-boys estúpidos. Porem eu só fazia aquilo pois acabava com a sensação de normalidade monótona incessante.
Então sem temor algum, caminhei calmamente para o beco, com passos leves, sem ousar emitir algum ruído. O barulho se aumenta enquanto me aproximo, se tornando mais fácil de reconhecer. São sons de luta.
Mas não apenas de socos, chutes, carne batendo em carne ou armas. Eram sons de lâminas contra lâminas. Imagino se samurais decidiram invadir a cidade e resolver as suas diferenças ou o que.
Paro de ficar me perdendo em pensamentos – algo que eu sempre fazia – e me alojo atrás de uma lixeira que fica na ponta do beco.
Espio o outro lado para ver a suposta luta.
Então a vejo.
Um lampejo de prata, cinza, sangue, sombras.... Um puro massacre com uma garota no centro, sendo atacada por inúmeras sombras.
Falar que era uma simples garota seria uma ofensa. Eu não sabia como defini-la em palavras.
Uma garota/mulher/deusa/ ou sabe-se lá mais o que. Ela se movia ferozmente com longos cabelos brancos a acompanhando atrás de si. Olhos vermelhos como o sangue de seus inimigos, se moviam freneticamente de um adversário ao outro. Mas seu rosto pálido como uma boneca de cera, estampava divertimento mesmo ao meio de tantos inimigos.
Descrevendo-a deste jeito, parece algum cosplay que decidiu entrar em um beco escuro para assustar outras pessoas.
Mas não era isso, ela não era alguém fantasiado. Ela não tinha uma aura humana ou comum, era algo mais sobrenatural e paranormal. Ainda mais empunhando aquela enorme foice com sua lâmina negra, sugando a vida de quem encostasse, sugando qualquer vestígio de luz e apenas deixando a plena escuridão.
Ela era a deusa da morte, da destruição, estava em um nível superior do que qualquer um.
Absorvi todos os detalhes em poucos momentos, o suficiente para me fazer ficar paralisado e ficar sem reação, não me dando alternativa além de continuar a observar.
Fiquei ali até cada inimigo cair, um a um, corpos indo de encontro ao chão depois de encontrarem a iminente morte.
A deusa da morte estava em meio dos corpos que jaziam no chão, sem nem mesmo ofegar por causa do esforço.
Não sei o que fazer, o que pensar, esquecendo de como se respirar regularmente. Medo me consome, mas era medo de que se eu ao menos piscasse, esse deslumbre de ferocidade e beleza fosse sumir.
Então seu rosto vira em minha direção, ao canto em que estou. Não. Não para uma direção qualquer, mas diretamente para mim. Seus olhos brilham com a luz da lua e seu olhar se crava no meu.
Lábios finos sorriem para mim. Uma mistura de crueldade, divertimento, chacota... como se soubesse que eu estivera que nem um idiota assistindo tudo e agora se gabasse do que tinha demostrado. E que provavelmente eu seria seu próximo brinquedinho.
Os lábios se movem suavemente enquanto a mulher fala:
— Ei garotinha, o que faz aí? — Sai um tom de que achar graça de tudo. — Se perdeu da mamãe? Quer que eu te ajude?
Não consigo evitar gaguejar e tropeçar nas palavras.
— E-eu.... Me desculpe.... Eu só... — Fecho a boca antes que ela me cortasse em dois por não saber pronunciar uma frase corretamente.
— Para que esse nervosismo? Eu não mordo. — Ela solta uma leve risada. — Dá para você vir aqui ou vai ficar aí que nem um idiota, com cara de quem viu um fantasma?
Talvez eu tenha visto mesmo.
Dou alguns passos, me aproximando o suficiente para a satisfazer.
— Me desculpe, eu não queria ficar babando enquanto você...hã... se exercitava.
— Nenhum problema. Gosto de plateia as vezes. Sua sorte é que tenho mais o que fazer, então não vou me divertir com você. — Ela inclina a cabeça para o lado, de modo felino, como quem espera o momento para dar o bote na presa. — Senti sua presença assim que chegou no beco, por mais que normalmente eu sinta todos presentes em até 1 km. Te dou o crédito por ter chegado tão perto sem ser detectado. Você deve ser forte. — Completa ela, me avaliando de cima a baixo.
— Comparado a você, eu não sou nada. Não vai querer gastar os eu tempo em mim, acredite. — Eu falo ciente de que ela me olha cada vez mais profundamente.
Minhas bochechas ficam levemente vermelhas com a repentina atenção exagerada.
— Talvez eu queria — Ela diz, se aproximando a uns bons 3 passos de mim antes de parar. Ela me analisa novamente e parece mudar de ideia, então apenas me olha e sorri sem calor algum.
Minhas orelhas ficam quentes, pois mesmo naquela situação era ela linda.
Então minha barriga ronca. Não sei como é possível, mas é constrangedor.
O fantasma à minha frente apenas ri levemente do acontecimento imprevisível e diz:
— Se eu fosse, comia antes que um monstro saísse daí e te devorasse de fome. Apesar que seria uma cena interessante... — Ela imagina a cena por um breve momento e volta a atenção para mim — Bom, preciso ir embora. Adeus cara interessante.
Com isso ela dá sua deixa, vira e some nas sombras das paredes do beco. Pisco e tudo sumiu, ela, os corpos, o sangue, até mesmo aquela aura sobrenatural que envolvia o local.
Me sinto atordoado por um momento, meu cérebro tenta processar os últimos minutos.
Eles pareciam impossíveis, um sonho, um delírio. Começo a achar que é isso mesmo e que estou ficando maluco, que a melhor opção é voltar para casa, me alimentar e dormir.
Mas vejo algo brilhando próximo a parede. Me aproximo e vejo que é um colar. Uma pequena pedra vermelha, em formato oval, com uma rede escura a envolvendo.
Pego o colar e percebo que a rede escura está cheia de figuras estranhas. Figuras que eu tinha enxergado na foice da garota fantasma quando ela tinha se aproximado. E o fecho do cordão era ironicamente, uma mini-foice.
Definitivamente eu não tinha imaginado tudo aquilo e talvez aquela pedra era a prova disso. Ou só provava que eu era louco.
Então enfio a pedra no bolso e caminho de volta para casa, processando o que tinha ocorrido naqueles minutos tão vívidos.
Talvez eu não a veria de novo, talvez só tinha sido um acontecimento para me mostrar que nem tudo era tão normal assim. Talvez eu iria reviver aqueles momentos muitas vezes, até duvidar que realmente acontecera.
Mas um sentimento estranho, parecido com felicidade, tomou posse de mim. Eu tinha visto algo extraordinário e nunca esqueceria por mais que a minha vida voltasse ao normal.
Só que o que eu não sabia era que a minha vida nunca mais seria a mesma ou voltaria ao normal.
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