Sombras da Eternidade
1 O Encontro com a Sombra
O vento soprava com força nas ruínas do antigo mosteiro de Zakarum, trazendo consigo o cheiro da chuva que caíra durante a noite e o eco das batalhas passadas. Ela avançava com passos cautelosos, os olhos percorrendo cada sombra, cada coluna quebrada, cada pedra caída. A espada estava firme na mão, mas o coração batia acelerado. Não era apenas o medo da morte era a intuição de que algo que transcende o mortal pairava sobre aquele lugar.
O ar estava pesado, como se o mundo inteiro prendesse a respiração. Ela sentiu-o antes de o ver.
Não foi um som, nem um movimento. Foi um frio que lhe percorreu a espinha, um peso invisível que fez o coração acelerar sem razão aparente. A chama da tocha tremeluziu na sua mão, projectando sombras irregulares pelas ruínas antigas.
— Isto é uma loucura… — murmurou para si mesma, apertando o manto contra o corpo.
As pedras do chão estavam húmidas, cobertas por musgo antigo e memórias esquecidas. Cada passo ecoava alto demais naquele silêncio opressivo. Aquele lugar não era feito para os vivos. Nem para os mortos.
Então, as sombras moveram-se.
Ela virou-se bruscamente, puxando a lâmina curta da cintura. O metal soou alto demais, quase ofensivo naquele espaço sagrado e profano ao mesmo tempo.
— Mostra-te! — ordenou, tentando manter a voz firme.
Nada respondeu.
O silêncio voltou, ainda mais denso. Deu mais um passo. E outro.
Foi quando o mundo pareceu rasgar-se.
As sombras condensaram-se diante dela, como se o próprio ar se dobrasse sobre si mesmo. Uma figura emergiu lentamente, alta, imponente, envolta numa aura que parecia absorver a luz. As asas espectrais estendiam-se para trás, imensas, como um presságio inevitável.
Ela sentiu as pernas fraquejarem.
— Não… — sussurrou.
Ele não tinha rosto como os humanos. O que havia era algo pior: um vazio moldado em forma de elmo, de onde emanava uma presença esmagadora. A foice surgia na sua mão como uma extensão natural do corpo, lâmina antiga, marcada por eras de morte incontável.
— Afasta-te!!! — disse ela, levantando a arma, apesar de saber que era inútil.
A voz dele ecoou, profunda, sem ira, sem emoção.
— Ainda respiras… — disse Malthael. — Isso é um erro.
O nome atravessou-a como um golpe.
— Malthael, Anjo da Morte… — murmurou, o medo finalmente a quebrar-lhe a voz. — Então é verdade.
Ele inclinou ligeiramente a cabeça, como se a observasse com curiosidade distante.
— A verdade é irrelevante — respondeu. — O teu fim não o é.
Ela recuou um passo. Depois outro.
— Não vim para te desafiar — disse, com a voz agora trémula, mas carregada de desafio. — Só queria passar.
— Ninguém passa pela morte — disse ele, avançando.
Instintivamente, ela atacou.
A lâmina cortou o ar, rápido, preciso. Ele desviou-se com um movimento mínimo, quase entediado. A foice moveu-se, não para matar, mas para afastar. Ainda assim, o impacto lançou-a contra uma coluna partida.
O ar fugiu-lhe dos pulmões.
— Não vale apena, — disse Malthael, aproximando-se. — lutar não te salvará.
Ela cuspiu sangue, forçando-se a levantar.
— Prefiro morrer do que a ajoelhar — respondeu.
Algo… mudou. Foi subtil. Quase imperceptível. Mas ele parou. A foice baixou alguns centímetros.
— Curioso. — murmurou. — Os humanos suplicam. Imploram, mas tu… desafias.
— Não te devo nada — disse ela, com o olhar firme apesar do medo que lhe queimava o peito.
Ele aproximou-se mais. Demasiado perto.
Ela sentiu o frio da sua presença envolver-lhe a pele, mas não havia dor. Apenas uma estranha quietude. Como se o tempo tivesse desacelerado só para eles.
— Tu sabes o que eu sou, — disse ele. — e sabes o que acontece a quem me enfrenta.
— Sei — respondeu. — Mas ainda estou aqui.
Silêncio. As sombras ondularam à volta deles. O mundo parecia suspenso naquele instante frágil.
— Qual é o teu nome? — perguntou ele, inesperadamente.
Ela hesitou. O coração batia-lhe tão forte que mal conseguia pensar.
— …Lysandre.
Ele repetiu o nome, baixo, como se testasse o som.
— Lysandre… — disse. — Hum… ainda não te posso levar.
Ela arregalou os olhos.
— O quê? O que queres dizer?
Malthael afastou-se um passo, como se algo invisível o puxasse.
— O teu fio ainda não se rompeu — disse, com a voz novamente distante. — Mas cruza-se perigosamente com o meu.
— Isso significa que estou a salvo? — perguntou ela, quase em desafio.
Ele virou-se, as asas espectrais agitando o ar.
— Não. — respondeu. — Significa que voltaremos a encontrar-nos.
E, num piscar de olhos, desapareceu.
O frio dissipou-se. As sombras regressaram ao seu lugar. O mundo voltou a respirar.
Lysandre caiu de joelhos.
O corpo tremia. As mãos doíam-lhe. Mas não era medo o que lhe queimava o peito agora.
Era algo pior. Curiosidade.
E, algures no fundo da sua alma, uma estranha e perigosa certeza: A morte acabara de olhar para ela… e decidira esperar.
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