Sombras Anônimas
3 Capítulo 3
Notas iniciais
POV. — Gizelle
A dornesinha estava muito errada se pensava poder sair por aí matando todo mundo que via pela frente, ela não sabia nada sobre a morte, e eu não podia permitir que ela continuasse pensando assim, essas mortes não podiam ser atríbuidas a mim, como se eu já não tivesse problemas o suficiente em lidar com meus próprios crimes... Por suas roupas e modo de agir, eu sabia que ela tinha berço nobre, e confiei em uma suposição tão banal que ela não faria nada para prejudicar alguém que tivesse salvado sua pele infeliz, pus tudo em risco, só porque tinha gostado da cara dela.
eu mastigava tudo isso enquanto tentava acender o fogo, para assar nosso amigo coelho, já o tinha limpado e dera as entranhas para Storm, o lobinho que agora estava tendo muita diversão mastigando as botas de Will, o que me fez rir baixinho, de novo. Fácil, normal, confortável, eu tinha rido mais nas últimas horas do que nos três meses anteriores, na realidade eu não me lembrava de ter me divertido tanto desde que fui incubida de vigiar os Stark, desde a execução do Guardião do Norte eu não tinha estado tão relaxada... suspirei baixinho enquanto colocava o coelho em um espeto com violência, e esse no fogo baixo.
Lucy estava bem entretida com o lobo, e a maldita dornesa ainda se escondia no meio da mata. Aproveitei a oportunidade e me levantei devagar, me espriguiçando, e lancei para o garoto estúpido, Will, um olhar que dizia com todas as letras para que me seguisse, bem como para ter cuidado, e entrei poucos passos na floresta.
Apesar de tolo, o garoto sabia ser discreto e veio até mim sem que Lucy se desviasse do seu joguinho.
–Cuidado com a dornesa.- eu disse, antes que ele fosse capaz de perguntar por si só, e continuei, sem dar espaço para dúvidas.
–Ela estava tentando envenenar o coelho, a impedi por pura sorte.- sorte não preparação talvez estivesse mais preciso mas o que eu queria era que o garoto ficasse alarmado.
–Não quero fazer nada por enquanto, mas outro par de olhos para observa-la talvez fosse útil...- finalizei arqueando uma sobrancelha e com uma sugestão de sorriso nos lábios, cada movimento meticulosamente planejado e controlado, e ele assentiu, parecendo sério e focado, ansioso para servir. Enquanto ele andava de volta para o nosso acampamento improvisado, eu fiz uma careta, pensando em como fora fácil manipula-lo, devia ser um filho caçula de algum senhor pequeno das redondezas, ansioso para se tornar um cavaleiro, conseguir sua honra e provar seu valor... Me senti mal por manipula-lo desse jeito, mas era necessário, agora as duas pessoas que eu acreditava que poderiam me oferecer algum perigo estavam bem ocupadas se vigiando, e agora eu podia apostar que o pobre Will iria começar a se reportar a mim.
Revirei as poucas bagas que eu tinha pego da dornesa, eu atirei a maior parte no chão no meu "surto de raiva" , é verdade, mas algumas ficaram firmemente seguras na minha mão, fato que eu duvido que a dornesa tenha notado, chocada como estava da ceninha que fiz quando descobri seu plano idiota. Suspeitava que elas seriam úteis mais tarde.
De volta á fogueira, Alys já voltara, e virava o coelho para terminar de assar, com um falcão pousado no ombro, curioso, eu não tinha notado ele antes...Parecia que todos tinham companhia, menos eu, esse pensamento me trouxe a velha carga de solidão e deslocamento que era muinha companheira constante desde os oito anos de idade.
Sentei-me longe da fogueira durante o jantar, o casaco cinza escuro que a Aranha tinha me dado era quente demais, mas eu me recusava a me livrar dele. Já tinha me acostumado com o tecido de qualidade, e mais importante ainda, com os inúmeros bolsos escondidos. Com o humor que estava, não pude me impedir de voltar ao passado, de volta a época em que eu fazia parte. Lembrava-me dos Dançarinos das Sombras, guerreiros especializados, treinados em preticamente todas as áreas de combate conhecidas, bem como de espionagem. Cavaleiros da escuridão nascidos da fome e do desespero, acolhidos pelo eunuco, e transformados em um dos melhores grupos combatentes dos Sete Reinos, o grande trunfo secreto do Lorde Varys, a organização da qual eu fazia parte. Fiz uma carranca ao me lembrar pela milésima vez do erro tolo qe me colocou nessa situação, dependendo da boa vontade de um rapaz que nem era cavaleiro ainda, de uma dornesa completamente distorcida e uma garota sem qualquer conhecimento militar, para sobreviver. Sendo uma Dançarina das Sombras, eu já etava no caminho certo para a fama e fortuna prometidas para o fim das guerras. Se eu não tivesse agido como uma tola sentimental, assim que os Targaryen retomassem o poder, eu estaria lá, lado a lado com os mantos brancos, que já se provaram ineficientes, as Sombras Cinzentas protegeriam os Dragões, essa era a promessa, o sonho, no qual eu me apegara nos ultimos cinco anos!
Sacudi a cabeça, se me entregasse completamente ás memórias do meu fracasso, não conseguiria dormir, e estava exausta. Passada a tensão, todo meu corpo clamava por descanso, e como Will se voluntariara para a primeira vigía, e eu estava contando só com o alarme dele para me livrar dos muitos perseguidores que deviam estar atrás de nós ( eu sabia que deviam ser muitos, além dos meus, a dornesa devia ter gente atras dela, e eu tinha certeza que o pai de Will não ficara satisfeito com sua busca adiantada por glória).
Uma das árvores próximas tinha uma forquilha que parecia tão agradável quanto a primeira em que me instalara, anunciei meu cansaço evidente e subi, contando com o casaco para me aquecer e tornar a árvore um pouco mais confortável. Acostumada como me fizeram a aproveitar as poucas horas de sono a que tinha acesso, e acordar ao menor sinal de alerta, caí no sono rápido.
POV — Will
A noite estava gelada, e aquela dornesa havia apagado a fogueira pouco depois que terminamos de comer. Lucy estava na verdade bem perto de mim, e dormia aconchegada ao lobinho que aparentemente tinha adotado. Alys estava mais afastada, mas permanecia imóvel demais, eu podia apostar que ela só fingia dormir, e Gizelle... ela tinha adormecido quase instantaneamente em cima daquela árvore, devia estar exausta, ela havia me pedido para ser a próxima na vigília, mas eu estava considerando seriamente virar a noite para que ela pudesse dormir mais um pouco. Na crua realidade, eu poderia cair no sono naquele momento, mas não iria dormitar naquela hora, não provaria para a dornesa insone que ela estava certa e com certeza não iria decepcionar Gizelle.
Ela havia confiado em mim! Depois de descobrir o que aquela dornesa nojenta estava planejando, ela confiou que eu iria ajuda-la, lembrei de novo do jeito que ela sorriu para mim, e isso me encheu de confiança. Seus cabelos longos e pretos como o céu entre as estrelas... e aqueles olhos verde-escuros que brilhavam com mistério, segredos que ela só iria revelar a mim, eu conquistaria um castelo só meu nessa guerra, não me subordinaria a ninguém, eu seria o Senhor, e ela não poderia se negar a ficar ao meu lado...
Sacudi a cabeça, eu estava devaneando, grogue de sono, me levantei para tirar a água do joelho, escolhendp propositalmente um lugar no qual a direção do vento iria levar todo o cheiro diretinho na dornesa, sorrindo quando ela fez uma careta. Não estava dormindo mesmo, naquela hora eu fiquei meio irritado com a falta de confiança em mim, mas dentro de pouco tempo eu iria agradecer aos Sete por isso.
Lembro-me que tinha acabado de bocejar quando escutei um barulho conhecido. remontava ás tardes com meus irmãos em casa, os poucos torneiosque já tinha presenciado. Cascos de cavalos, batendo furiosamente no chão em alta velocidade. Droga! Será que meu pai tinha ficado tão irado com o roubo dp cavalo que realmente mandou soldados atrás de mim? Talvez. Eu podia vê-lo fazendo isso assim como podia ouvir o barulho da perseguição. Isso estava muito estranho, os cavalosvinham rápido demais para uma patrulha, mas não havia tempo para refletir sobre isso, talvez tivéssemos uns dois minutos de vantagem. Voltei ao acampamento a passos largos.
Alys já estava de pé, com a cara fechada.
–Eu estou ouvindo o que penso que estou ouvindo?? — franzi o cenho para a pergunta confusa, mas a respondi de qualquer forma, não era hora para briguinhas internas.
–Sim, acorde todo mundo- tentei falar com a maior segurança possível, aquela seria minha primeira batalha de verdade, era hora e provar meu valor.
–Merda! — ela resmungou e empalideceu, eu nem sabia que isso era possível com gente negra... Storm estava em pé cm as orelhas para frente e encarando atentamente o norte. Me virei para desamarrar o cavalo enquanto Alys sacudia Lucy, o tempo corria.
O ruído se intensificou, e homem coberto da cabeça aos pés de suor entrou correndo na clareira, puxei meu aço para fora da bainha, mas congelei. Isso não estava certo, mandar um homem desarmado correndo a frente de uma patrulha não fazia sentido sob nenhum ângulo que eu podia observar, mas ele parou ofegante, com as mãos nos joelhos bem antes de me alcançar, sorrindo cansado:
–não se engane pelo meu estado criança, não vai querer lutar comigo.
–Quem é você? — exigi, mas antes que ele pudesse responder ou desdenhar, Gizelle pulou da árvore, acrescentando seu peso à já pesada atmosfera do lugar.
–Syrio? — seu tom era de completa incredulidade assim como um toque de diversão, ela conhecia oo homem estranho, pelo sotaque eu podia perceber que ele era estranjeiro ainda que não conseguisse reconhecer de onde viera. O tropel de cascos ficava cada vez mais alto.
–Gizelle, não pensei que fosse lhe ver outra vez, mas receio estar nas suas mãos. Como você pode ter notado, os leões se aproximam, eu sei como você tem um desejo especial com relação a essa laia, mas desarmado, posso não ser de muita ajuda... — ele disse com um sorrisinho estranho, enquanto estendia a mão para ela, embora a garota não tivesse nenhuma arma visível.
–Se está me convidando para ajuda-lo a matar esses gatinhos meio crescidos, sabe que eu tenho uma inclinação particular para corta-los em pedaços, mas mesmo se só quiser uma arma, e ficar com todo o trabalho para si, ficarei feliz de ajudar... — ela revirou os olhos, enquanto tirava de uma baínha escondida nas costas uma espada estranha, diferente de qualquer outra que eu já tenha visto, mais comprida, porém fina demais para fazer qualquer estrago grande, a meu ver, e entregando a pelo cabo ao desconhecido, sem pestanejar.
–Pode não ser minha arma favorita, mas eu levei quando fugi, imaginei que viesse a ter serventia.
–De todos os que já treinei, nunca imaginei que fosse você a abandonar o serviço, esse não é o tipo de emprego que se pode largar é?
–Não, eu fui meio que forçada a desertar, mas agora não é hora para isso. enquanto falava, ela retirava duas adagas compridas do casaco cinza.Quantas armas ela mantinha escondidas lá dentro?
Não houve mais tempo para perguntas ou respostas, Gizelle se moveu sem um som para a esquerda, assumindo o flanco, e o homem, o tal de Syrio, fez uma pose estranha, seu corpo estava praticamente todo virado de lado, não pude olhar para tras e ver o que o restante das garotas fazia, o tempo acabou, e fomos subitamente cercados pelo que parecia um turbilhão vermelho e dourado, que caiu sobre nós ao som do tropel dos cascos.
POV. Obara Sand
Não podia acreditar que tinha perdido o rastro da garota, depois de acordar, tinha procurado quase que freneticamente por rastros da menina, nada, pelo visto o senhor nosso pai realmente tinha treinado bem a maldita,a pentelha não tinha deixado nenhuma pista.
Mas eu não iria voltar para o príncipe de Dorne com as mãos abanando. Encostei-me num tronco e revi mais uma vez aquela noite, a noite em que eu quase perdi tudo por um erro bobo de cálculo,subestimei a minha presa e a dor de cabeça pulsante era a prova mais clara que eu tinha disso, assim como as cicatrizes no meu rosto, que eu ainda não tive a chance de ver, mas podia sentir, estavam bem feias... e o pior de tudo, o fato que assombrava meu orgulho como um fantasma. Ela podia ter me matado... Respirei fundo e mergulhei na história, em busca de uma sinal, qualquer que fosse, da direção que Alys tomara.
"Eu a tinha encontrado perto de uma curiosa vilazinha no caminho do espinhaço, vi a fumaça da fogueira subindo alto, o sol mal tinha terminado de se pôr,pensei que valia a tentativa.
Ela estava sentada de pernas cruzadas próxima ao fogo, devorando um esquilo, lembro-me de ter sentido pena, a coitadinha devia estar morrendo de fome, foi aí que cometi meu erro, em vez do assassinato silencioso que deveria ter cometido, eu me anunciei:
–Irmãzinha... — o sarcasmo estava pesado em minha voz, ela nunca tinha sido uma irmã para mim, apesar do sangue de meu pai. Ela deixou cair o esquilo, e estava tentando se levantar quando me adiantei. Agarrei um punhado do seu cabelo e a atirei contra uma árvore próxima, agarrei um punhal do cinto, e estava prester a rasgar o pescoço quando ela reagiu, conseguiu se desvencilhar do meu aperto, mas tropeçou e caiu de costas no chão.
Antes que eu pudesse tomar vantagem da nova posição, no entanto, um assobio longo e alto saiu dela, no mesmo instante um ruflar de asas e as garras afiadas do falcão eram todo meu mundo enquanto ele destruia o meu rosto. Sem perceber como, eu estava no chão.
Alys se avultava sobre mim, com o pássaro maldito no ombro, ela se agachou, tirou uma flecha da aljava, eu estava atordoada demais para fazer qualquer coisa além de encara-la boquiaberta, ela passou a flecha deslizando-a quase que delicadamente pelo meu braço, um fio de sangue brotou e ela sorriu:
–Você tem mesmo um sangue bastardo não é mesmo maninha, pena para você que eu não sou assim tão fácil de pegar, você vai ter que se esforçar mais...
Revi a cara delaenquanto o mundo escurecia, até a última memória que eu tinha antes de perder a consiência. NADA, furiosa, fiz meu caminho até a vila mais próxima, talvez ela tenha cometido um erro qualquer. Não vou fracassar, não importando mais nada, eu vou mata-la, serei a herdeira do Víbora Negra, protejerei o segredo do meu tio e voltarei para Dorne vitoriosa.
Ela não deveria existir, e se depender de mim, não vai por muito tempo.
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