Sombras Anônimas
4 Capítulo 4
Notas iniciais
P.O.V Alys
Os primeiros cavaleiros de carmesim e dourado chegaram completamente despreparados. Como uma onda, eles irromperam na clareira com sorrisos nos rostos, talvez eles esperassem uma matança fácil. Bem, eles não me conheciam, nem a meus companheiros.
Apesar dos primeiros terem caído com relativa facilidade, a nossa situação se complicava a velocidade alarmante. Uma vez que os soldados retomassem a ordem, seria o nosso fim, eles continuavam confusos, não esperavam nossa resposta ao ataque, mas isso não duraria para sempre. Tínhamos que matar o capitão, aquele que seria o líder dessa investida, uma vez que estivesse feito, nossa chance aumentaria consideravelmente. Com uma série de assobios rápidos, chamei Koch para o ataque, com ordens especificas para o falcão de caça, acerte os olhos desses bastardos, mas isso também não causaria pânico por muito tempo.
Eu não conseguia mais atirar, cada flecha tinha uma chance grande demais de acertar um dos nossos, que rodopiavam para ficar longe do ataque inimigo, o ângulo não era o bastante para a precisão. A voz do meu pai surgiu na minha cabeça com clareza estonteante: “Então procure algum terreno elevado garota!”, bom, realmente, tantos anos de treinamento tinham de servir para alguma coisa.
Enquanto me preparava para subir em uma arvore próxima, senti uma mão quente e pegajosa de sangue segurar meu braço com força. Olhei para o rosto contorcido e ensanguentado em choque, qualquer soldado já teria enfiado a lâmina violentamente no meu estomago, a não ser que me quisesse para enfiar outra lamina em outro lugar depois do fim da batalha... mas antes que eu pudesse imaginar o horror da alternativa, percebi que aquele não era um soldado, era só o Will.
-NÃO! VOCE NÃO VAI FUGIR! – ele urrava – VAI LUTAR COMO TODOS NÓS! – o garoto estava completamente ensandecido, havia um corte feio em sua sobrancelha que espalhava sangue por todo seu rosto e empapava o cabelo escuro, ele parecia meio tonto, e certamente não raciocinava direito. Sacudi seu braço de qualquer jeito com um grunhido, e subi na arvore.
Ahhh... Muito melhor, dessa forma, apesar da escuridão da noite, eu podia ser bem mais eficiente, os mantos carmesim formavam alvos claros sob a luz fraca a lua, e as flechas atingiam seus alvos com um “tchump!” satisfatório. Mas enquanto eu disparava as flechas mortais com precisão, outra pequena parte da minha mente verificava como ia a noite para os outros.
Will parecia ter tirado da cabeça sua mania de me atrapalhar, ou focado sua mente na batalha. Ele girava, balançava, estocava e cravava a espada repetidamente, com uma força que eu não havia percebido que ele possuía, no típico estilo de cavaleiro.
Lucy se saia surpreendentemente bem, ela permanecia as margens do turbilhão de sangue e espadas, saltando ocasionalmente com Storm para derrubar um soldado desprevenido. Mas era a dança sombria que acontecia no olho do furacão que realmente encravou-se no fundo do meu inconsciente.
Gizelle e Syrio deslizavam no meio da batalha como fantasmas, vislumbres de laminas repletas de sangue, soldados treinados caindo como folhas de outono diante deles, que se moviam em conjunto, mal se detendo após cada golpe. O estilo era totalmente diferente, não se moviam como nortenhos, dorneses, muito menos sulistas, não, esses dois matavam como se dançassem, e lembro-me de pensar vagamente que qualquer um que ouvisse a musica que os movia, acabaria por morrer também.
Mas mesmo enquanto eu derrubava homem após homem do meu local elevado, e via meus amigos lutando por suas vidas lá embaixo, eu sabia que não tínhamos a menor condição de vencer essa luta.
Nós éramos bons, muito melhores do que qualquer um poderia esperar, mas não incansáveis, e até onde eu sei, nada perto de imortais, estávamos levando muitos deles para baixo, mas inevitavelmente, seriamos sobrepujados pelos números.
Boa noticia, reconheci o comandante, na realidade ele meio que entregou sua posição enquanto gritava, tentando obrigar seus homens a se reorganizarem, bem, eu não podia permitir que fizessem isso, mandei uma flecha através de sue olho direito, tiro perfeito.
Outra boa noticia, eu não fui a única a perceber que essa batalha tinha que acabar.
P.O.V. Gizelle
Eu me encontrava no estado de mais profunda calma. O turbilhão de gritos e sangue não me afetava, como sempre, e cada pensamento do lado de fora da batalha foi varrido da minha mente, qualquer medo e angustia se apagaram como uma vela ao vento, a proximidade com meu velho mestre trouxe o ensinamento à tona, “O medo corta mais profundamente do que a espada.” E eu respirei com alivio pela primeira vez em muito tempo. Eu percebia cada misero detalhe da luta com precisão, reagia aos ataques com a calma e a certeza que só um treinamento tão extenuante quanto o que eu havia passado poderia transmitir.
Syrio não lutava como nas minhas memorias, ele estava mais lento, seus movimentos, truncados, ele realmente se empurrava além dos limites da exaustão. Vez ou outra eu pegava um vislumbre de Will, golpeando e berrando como um típico cavaleiro, ouvia o rosnar de Storm, ou via um cavaleiro cair subitamente com uma flecha enfiada no pescoço, e assim sabia que ainda estávamos tentando. Mas nossa resistência não poderia aguentar por muito mais tempo. Precisávamos de uma rota de fuga.
Movia-me quase inconscientemente, desviava do silvo das espadas, e cortava a carne com as adagas duplas, perfurava pescoços que esguichavam sangue quente, derramava vísceras que caiam como o conteúdo de um balde derramado, retalhava pernas e braços, o sangue que escorria dos mortos e jorrava dos vivos já transformava o chão em uma lama escorregadia e fétida. Precisávamos sair dali.
Virei-me para Syrio e encontrei seu olhar no meio da noite, se ele me compreendeu, ou se já entendia a gravidade da nossa situação, é algo que nunca vou saber, o certo é que ele assentiu, e disparou, abrindo caminho pelos leões até o cavalo de Will.
Finalmente, uma flecha entrou violentamente na cabeça do capitão, uma chance. Corri e passei deslizando pelo solo nojento, por baixo de um cavalo que barrava meu caminho para o chefe moribundo. Puxei o homem para trás usando seu próprio manto, usando o impulso para subir na cela do desgraçado, enquanto os tolos se viravam para seu comandante caído, esporeei as costelas do grande cavalo de guerra negro, e ele disparou sem hesitar, talvez funcionasse.
Syrio já estava com Will na garupa, e acabava de puxar Lucy para cima quando passei por eles a galope, não havia tempo para isso.
-Pule! – gritei para Alys torcendo para que ela reagisse rápido enquanto eu me apressava em direção a arvore dela. O rosto da garota demonstrava um turbilhão de emoções, medo, espanto, receio obvio de pular... Não era isso o que precisávamos agora!
-Pule!- gritei novamente, e senti seu baque reconfortante na cela, bem a tempo, e o garanhão relinchou copiosamente, fiz um carinho em seu pescoço enquanto abria um sorriso largo, nós conseguimos!
Chequei atrás de mim e lá estavam. Syrio, Lucy e Will, no cavalo de carga que pertencera ao pai de Will, seguidos bem de perto por Storm, e Alys na minha garupa, todos razoavelmente inteiros, eu mal podia acreditar na nossa sorte.
Atravessamos a mata noite adentro, mas só por precaução nós sabíamos que não estávamos sendo seguidos, aqueles leões idiotas tinham de lamber as próprias feridas antes de voltarem atrás de nós. Sendo assim, seguimos cautelosos por um caminho sinuoso. Por medo ou cansaço, ninguém falou uma palavra enquanto nos distanciávamos cada vez mais da cena sangrenta.
Quando finalmente paramos, o sol já começava a tingir o céu no tom de laranja que era o meu favorito, a beira de um lago tão pequeno que não chegava a existir em nenhum dos mapas que eu havia estudado. Descemos dos cavalos, exaustos...
Eu já havia começado a sentir o peso do cansaço característico que acompanhava o fim de cada batalha, ainda quando fugíamos, pouco depois que a adrenalina da luta baixou, mas foi só ao descer do cavalo negro como o céu sem estrelas, que isso realmente tomou conta de mim.
Assisti a Alys se apressando em direção ao lago com o falcão no ombro, Syrio de deitando de costas no chão, e Lucy acalmando um lobo ofegante como se eu fosse apenas uma espectadora muito distante... Voltei a mim quando o grande cavalo apoiou sua cabeça enorme no meu ombro, quase me derrubando de joelhos.
-É rapaz, você realmente teve uma noite daquelas, não foi? – murmurei baixinho enquanto acariciava seu focinho. Era realmente impressionante, o cavalo era imenso, de um preto puro... satisfazia perfeitamente cada sonho que eu já havia tido durante o treinamento, o animal era lindo... e devia ter custado os olhos da cara. Ri baixo enquanto retirava a sela e a mochila que estava no lombo, eu iria checar essa depois. Amarrei-o com uma corda comprida, perto do lago, onde a grama era mais verde, ele merecia um bom descanso, salvou nossas vidas.
Voltei para junto dos outros praticamente arrastando os pés, limpei as adagas ensanguentadas mecanicamente, e me larguei no chão ao lado de Syrio, decidida a deixar qualquer tipo de movimento ou pensamento, para mais tarde, quando já não doesse tanto.
Notas finais
podem ter percebido uma escassez de POV da Lucy, culpa da Bee, chicote nela, coisa e tal...
Não deixem de comentar, para o bem ou para o mal, é sempre mó legal...
:D
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