Soma + Anima
1 Capítulo Único - SOMA + ANIMA
Notas iniciais
Soma + Anima
A máquina de ressonância parava de grunhir. Eu estava realmente maravilhado com o fato de poder respirar novamente, fora daquela garganta de metal claustrofóbica. Sentei em minha cadeira, olhando para o homem vestido de branco. Um dano cerebral, o meu médico disse, um grave dano, daqueles tecnicamente letais. Meu lobo frontal estava danificado sériamente. Um caso realmente severo, ele disse com um tom tristonho. Eu pude me ver em seus olhos. O olhar de um paciente perdido e um médico condenado.
– Como podemos ver aqui na chapa de sua ressonância. — Ele apontou com uma vareta a massa negra dentro de meu crânio, onde estaria parte do meu cérebro. — Essa área foi sériamente afetada pela porrada maçiça que você recebeu em seu acidente de carro. Entretanto nossa medicina foi grandiosamente avançada após suas pesquisas na área da plasticidade da mente humana. Eu receio que isso está além de nossos esforços Dr. Spinelli. Seu cérebro está condenado.
– Quem? Que acidente? — Eu perguntei. Não podia me recordar de nada, de nenhum acidente, até o fato de ser chamado de doutor era algo estranho para mim naquele momento. — Meu nome não é Spinelli. Meu nome é Broderick. — O nome Broderick pulsou em minha mente em um flash, estava escrito na capa de um livro, que estava girando no ar, junto a pedaços de papel, anotações amarrotadas, café derramado e fragmentos de vidro. Eu tenho certeza que era meu nome. Eu podia jurar em nome de minha mãe.
– Você, Doutor Spinelli. Você recebeu quase uma batida fatal no seu lobo temporal e seu lobo frontal é quase inexistente. De fato, é quase um milagre por sobreviver nessas condições. Aqui, dê uma boa olhada nisso. — O médico mostrou-me uma foto de um homem, que eu não podia reconhecer quem era aquele homem. — Este é você Dr. Spinelli, vê aquele livro em sua mão? Aquele é o livro de um escritor chamado Martin Broderick. Humanidade Purificada. Você amava andar por ai com aquele livro, como se fosse parte de você.
– Oh. Mas. Quem é aquela mulher que segura na mão dele... digo, minha mão? — Eu perguntei, minha cabeça latejando conforme o sangue era bombeado na porção esquerda de minha cabeça.
– Oh, mulher? Interessante... — O médico parou e começou a escrever num pedaço de papel amarelado com aparencia de pergaminho. — Esta era sua mulher Dr. Spinelli. Ela morreu no acidente de carro, quando o trem acertou o lado direito do carro...
Tudo ficou escuro. Sons de batida de carro, a frenagem esganiçada das rodas do trem, a cor das faíscas brilhando em sua cor amarelo-fogo. O aroma do Mocha comprado no Starbucks esparramado em meu colo. A batida. A compressão de meu corpo contra a fuselagem do carro. O grito. A dor. A dor fantasma que pertence àquele dia.
Abri novamente meus olhos, mas apenas enxerguei uma cegueira branca. Tão branca e tão ímpia que eu fechei meus olhos novamente. Minha cabeça doia, como se alguém estivesse apertando um metal fervente dentro de meu crânio. Queimando meu cérebro. Queimando minha alma.
– Eu tive a mesma conversa hoje com o paciente. Ele tem um caso severo de perda de memória. Mas ele fez alguns progressos, e novos reconhecimentos hoje. Ele reconheceu uma mulher em sua fotografia, entretanto havia nenhuma. Talvez as drogas experimentais que estamos lhe dando estão fazendo a plasticidade de seu encéfalo criar algumas histórias. Assim como você mesmo falou que faria. — Alguém falava em um sotaque britânico. Eu não podia reconhecer sua voz. Mas eles pareciam falar sobre alguma pessoa. — Me parece que ele estará pronto mais cedo que que nós pensavamos.
– Isto ser maravilhoso, uma ótima noticia de fato Dr. Gerald. Estar feliz com os seus esforços. Você saber que isto ser uma grande caminho para a Humanidade, certo? — O som seco de alguém batendo palmas e o farfalhar de suas roupas chegou aos meus ouvidos, fazendo-me estremecer junto ao sotaque germânico. — Você deverá receber um Nobel se isto der certo, e tudo indica que isto irá dar certo.
Eu grunhi, e isso pareceu suficiente para parar a conversa. O som de tecido mexendo e a visão espectral de uma cadeira de rodas desaparecendo na cegueira branca. Uma mão umida e gélida tocou em meu antebraço e eu tremi.
– Você está bem, Dr. Spinelli? Se sentindo um pouco melhor agora? — Uma voz feminina carinhosa, doce, quase sussurrou em meu ouvido. Grunhi novamente. Minha garganta sentia-se dolorida. Minha face adormecida. Eu me sentia alienado. — Pode me ouvir Doutor?
Sim, eu posso.
Por favor, apenas diga a ela que eu posso.
Apenas. Diga. Isto.
Por favor.
–----
Nas próximas semanas, eu sentia as memórias desaparecendo. Como uma folha flutuando no vendo. A enfermeira vinha para a minha cama a cada segundo, ou tudo mais. Eu apenas observava, ela trazia-me comida, trocava as minhas fraldas. Ela cantava todos os dias antes de dormir as mesma musica. Todos os dias. O mesmo sonho. Uma interminável, incessável sequencia de eventos. Cada um, o mesmo. Enquanto eu lentamente desvanecia na escuridão. Meu conhecimento. Minha vida. A enfermeira contava-me sobre meus feitos. Meus feitos como Dr. Spinelli. Entretanto, eu não sou ele. Eu não sou Spinelli. Eu sou Martin Broderick. Um cara simples, que fizera coisas simples nessa vida. Um escritor que escreveu um livro que nunca-será-best-seller.
Ela trouxe-me um espelho, pela primeira vez pude ver a minha face. Ou a minha não-face. Era a face de Spinelli, no espelho. Eu gritei. Alto, o mais alto e esganiçado que pude. Me sentia estranho, alien. Não era meu. Eu gritei até o momento que alguém me dopou. Arrastando-me para as profundezas de meu abismo mental. Eu flutuei no limbo negro da inconsciênciam, enquanto minha mente navegava pelos mares de memórias de uma existência há tempos destruída. Que eu era? O que acontecera? Quem era Spinelli? Quem era Broderick?
Apenas quem?
Nos próximos dias, eu recuperava minha habilidade de falar, de deglutir, mesmo assim meu corpo se sentia estranho. Espacial. O meus médico de sotaque britânico vinha para minha sala todos os dias. Enquanto estava sedado. Ele falava coisas gírias clinicas que eu compreendia. Transplante encefálico. Cópia de Mentes. Síndrome do Doppelganger. Disordens de Subconsciente.
Eu divaguie para longe. Reconhecendo que eu era uma pessoa diferente. E conforme as dores de cabeça disapareciam conforme o tempo, mais eu era capaz de lembrar quem eu era. Esquecendo as estranhas imagens de um homem que nunca existiu, e lembrando quem eu eu realmente era.
Quando eu acordei finalmente, eles estavam todos reunidos em frente a mim. Alguns maravilhados. Outros olhando com certo desgosto em seus olhares azuis e frios.
– O que? — Eu disse em tom seco. Minha garganta voltava a arder como o inferno, e uma tontura tomou conta de minha mente. O mundo girou e firou ao meu redor, até sobrar somente bile esparramada em meu colo e o sorriso nervoso dos médicos. Um deles, que eu reconheci como Dr. Friedrich, deu um passo a frente dos outros e disse em um sotaque calmo.
– Está se sentindo melhor Dr. Spinelli? A tontura já passou?
– Sim. Friedrich. — O médico franziu a testa ao dizer o nome dele. — Estou bem. Um pouco tonto, mas bem. Muito bem. Porque estão reunidos ao meu redor?
– Oh. Você teve um acidente e recebeu uma cirugia de caráter emergencial, você não se lembra? — Perguntou Dr. Friedrich, olhando para os outros agrupados ao meu redor como se observassem uma cobaia. — Você passou por uma cirurgia. Uma cirurgia cerebral. Na qual foi um sucesso.
– Que tipo de cirurgia? — Minha boca parou conforme as memórias fluiam pelos canais enferrujados de minha mente, como se eu assistisse um documentário. Testes em ratos de laboratório, transplantando encéfalos. Mudanças de cabeça. Interfaces craniais, fluidos espinais, memórias. Memórias de cobaias. Memórias de minha imagem no espelho. — Você quer dizer... Que este não é meu cérebro? — Minha cabeça sentiu-se pesada, e uma dor escruciante me fez gritar, enquanto eu sentia novamente meu lobo frontal derretendo dentro de meu crânio.
Com uma dose pesada de morfina, eu senti os anjos arrastando meu corpo para longe. Um tufão de sentimentos misturados, uma dose de sensações mórbidas atravessando minha espinha. Ele estava ali, Dr. Spinelli, um jovem homem em sua cadeira de rodas. Ele batia palmas em minha frente, sua velha cadeira de rodas enferrujada, guinchava em uma forma enlouquecedora.
– Aqui estamos e aqui termina-se tudo meu caro Broderick. — Ele disse em uma voz fria, desalmada. — Desista, este corpo e mente são meus. Eu estou aqui agora.
– Não! De jeito nenhum! O que é isto? Você é a apenas uma criação de minha imaginação de escritor! Nenhum acidente aconteceu! nada disso é real! — Eu gritava, balançando meus braços na escuridão.
– Por anos, eu vinha pesquisando todo esse conceito. Um transplante de cérebro. Ao invés de uma cabeça inteira, o conceito do transplante de partes de um cérebro. Ou até mesmo somente o encéfalo. — O homem se aproximou, em sua mão uma replica de uma revólver. — Imagine um mundo no qual você pode viver para sempre. Um mundo em que o Soma é sobrepujado pela nossa Anima. No qual, nós podemos viver para sempre transferindo nossa base de dados para outro encéfalo. O primeiro Dr. Spinelli, o gênio por trás de todo esse experimento, está muito distante agora, mas eu, suas memórias, permaneço em seu cérebro!
– Porquê eu? — Perguntei quase gaguejando, enquanto dava alguns passos afastando-me do doutor maluco. — Porque a mim acima de todos os outros?
– Dr. Spinelli amava seu livro. Humanidade Purificada. De fato, ele tinha uma grande inspiração em seu trabalho, por sua causa. Eu uma pena que você teve um tumor cerebral, intratável. Letal. Quase no mesmo período que Spinelli teve seu acidente. — O homem riu forte, sua voz ecoava através da escuridão, como seu estivessemos dentro de uma redoma invisível. — As vezes existe uma coisa chamada Matriz de Desventuras. E pode ficar tão forte que parece ser uma decisão divina. Uma intervenção randomizada que liga duas ou mais Desventuras Seriais e recria um caminho, realinhando todo o resto do esquema inteiro. — O médico apontou a arma em minha direção. — E nós somos parte disso, e nós somos o futuro. Quando eu terminar com isso, eu irei acordar em seu corpo. Sozinho. E o futuro irá reverenciar minha mente genial. Nós iremos selecionar as mentes mais brilhantes para perpetuar para sempre. Nós iremos mudar o paradigma da Seleção Natural.
– Você irá ter uma Humanidade Purificada de todo o mal. Alcançar um novo patamar na evolução através de proxies de um ser humano. Você vai instalar a utopia de meu livro. — Minha mente ressou pela redoma através de um estalo oco, quando a realização veio a tona. — Você é o Dr. Sebastian Spinelli, você é o cientista maluco de meu livro...
O homem apenas sorriu. Um fragmento de minha insanidade tornando-se real? Um tiro soou mais alto que uma trovoada. Eu sabia. Olhando para o meu abdomen, um buraco expandia-se, como se o buraco de bala estivesse consumindo minha carne e vestimentas. Como um pequeno buraco negro, pouco a pouco desfazendo meu ser. Consumindo minha carne e ossos. O homem ficou em minha frente, seus olhos fixados nos meus, como um predador olhava sua presa.
– É hora de dormir e deixar meu trabalho ser feito aqui Broderick... — Disse Spinelli levantando a arma e colocando-a em minha testa.
E o tiro soou novamente sua melodia de uma nota solene, destruindo o mundo. partindo-o em pedaços e desaparecendo com as memórias de um bom homem. Há tempos morto.
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O paciente acordou após o procedimento de cirurgia. A neurologista caminhava ao seu lado da cama, observando com uma face impassível o homem estar totalmente acordado. Os dois se observaram por um longe tempo, até a mulher então quebrar o silêncio imposto com uma voz acalentosa, porém amedrontadora:
– Você está se sentindo melhor, Dr. Spinelli?
O homem observou a mulher, e franziu o cenho ao ouvir o nome. Seus lábios estremeceram e ele respondeu de uma forma lenta, desengonçada.
– Sim. Estou.
A neurologista sorriu, e caminhou pelo quarto e atravessou o corredor. Ela pegou um telefone vermelho na parede e esperou ser atendida. Uma voz elétrica respondeu em uma forma quase mecânica.
– Fale.
– A operação foi um sucesso. Me parece que a personalidade implantada foi forte o bastante para subjulgar a antiga.
– Bom trabalho, Alisa. Mantenha o bom trabalho. Quando podemos iniciar o proximo passo? Produzir identidades em massa?
– Cedo o bastante. Iremos acompanhar o paciente Doze. Eu terei que avaliar como estar indo o desenvolvimento, mas o transplante de pensamento foi um sucesso, Herr.
– Bom. Eu aguardar boas notícias de você, Fraülein.
– Sieg Heil.
A mulher põs o telefone no gancho, e caminhou devolta pelo corredor, passando por diferentes salas marcadas, cada uma delas enumeradas de acordo com o tipo de experimento aquele lugar. Gritos e xingamentos ecoavam pelo hall, junto com o estalar dos saltos que a médica usava.
Ela parou em sua mesa no final do corredor, perto da enfermaria. Sentou em sua cadeira confortável e pegou o livro que estava entreaberto em sua mesa, dividido por um marca-páginas. Em sua contra-capa estava uma assinatura.
Para Alisa Heydrich. Muito Obrigado. — Martin Broderick.
– Humanidade Purificada. Mas que livro inteligente. Wunderbar. — Ela disse enquanto acendia um cigarro e começava a ler sua ficção especial.
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