Som das Palavras
3 o país da poeira
Notas iniciais

there was no one in the town and no one in the field, this dusty barren land had given all it could yield
(Dust Bowl Dance — Mumford & Sons)
Erguia-se, em meio ao deserto, uma cidade feita da própria areia: suja, velha, dura, tal como ela. Depois que o nome original foi perdido, chamaram-na País da Poeira, a capital de alguma civilização antiga e perdida.
As construções no local foram engolidas pelas areias do tempo, que agora as cobriam impiedosamente. Antigamente próspero, o lugar, atualmente, nada mais era do que a definição concreta do conceito de esterilidade. Qualquer tipo de vida orgânica havia deixado há muito o espaço, povoado unicamente por ruínas e memórias soterradas. Animais correram, plantas morreram; nada nem ninguém se atrevia a aparecer.
O paraíso arqueológico nunca fora inteiramente mapeado, nem seria — e nem era, somente, por causa do medo de maldições. Nenhuma máquina conseguia cavar a tal profundidade para encontrar a cidade; nenhum mecanismo conseguia localizá-la a tanta distância da superfície. Os arredores inóspitos também não permitiam expedições muito duradouras.
Por causa disso, muito se questionou a real veracidade do País da Poeira, mas alguns ainda mantinham a lenda viva. Afinal, a ideia de uma “Atlântida do Deserto” é, por si só, alvo de qualquer curioso; mas nunca fora encontrada a tal cidade. Como uma nômade, ela parecia nunca estar precisamente nas coordenadas anteriores — que os supostos descobridores tinham.
Colocavam, os céticos, a culpa em ventanias que mudavam as dunas de lugar ou as recorrentes tempestades de areia que poderiam empurrar a cidade, mesmo enterrada, de local. Poucos aventureiros já disseram encontrá-la, mas sem provas concretas.
Havia, obviamente, um misticismo que a envolvia, uma nuvem de mistério que a impedia de revelar os segredos — a mitologia não-fictícia — do oásis que secou. Diziam, como sempre fazem, que havia um tesouro enterrado; outros reviviam lendas de outros lugares e acabavam criando e colaborando ainda mais para a superstição local; corriam boatos de alguma sociedade secreta planejando destruir o planeta em meio à tecnologia — avançada para a época —, mas nada comprovado.
Em fato, nada nunca fora comprovado.
Os únicos resquícios de povoamento daquele solo estavam enterrados, mas nunca emergiriam à superfície, como uma semente que nunca brotaria — nunca achada, nunca averiguada, nunca estudada, simplesmente esquecida, varrida da existência material. O País da Poeira era feito da própria poeira: sujo, velho, tal como ela.
A única dureza era uma torre: possuía, no máximo, uns cinco metros acima da superfície, quando aparecia. Era ela a marca do País da Poeira, diziam os livros. Quem a encontrasse, deveria chegar até o fundo para encontrar as ruínas.
Dessa torre, havia uma foto de veracidade pouco contestada. A torre existia — tanto quanto o resto da cidade.
A lenda dizia que a torre era uma biblioteca, mas funcionava como um labirinto. Por ele, corriam um homem e uma mulher. Havia uma sala redonda no centro que emanava um contínuo dedilhado de uma música silenciosa. Em tese, ali, eles deveriam se encontrar para uma dança — e era durante essas danças que a torre ficava visível e, consequentemente, a cidade se tornava acessível.
Brincavam que, aparentemente, alguém desligou a música.
Ou só não a escutavam?
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