Soluço, o líder de Berk: A Era dos Dragões
29 O verdadeiro diário de Soluço Spansitocus Strondus II
Notas iniciais
“Durante anos todas as tribos vikings do Arquipélago Barbárico eram unidas e governadas por um único Rei. O Rei deveria ser o mais forte, o mais cruel e o mais poderoso de todos os chefes do Arquipélago. E por anos, os Hooligans tiveram seu chefe também como o seu Rei.
O Rei do Oeste mais selvagem.
Meu pai foi o último dos Reis. Barbadura, o Terrível. Impiedoso também poderia ser o seu sobrenome. Até hoje eu não consigo entender a necessidade de escravizar pessoas e dragões. Não entendo o porquê de tudo isso.
Ele já tinha dois filhos. Meus dois irmãos humanos, grandes e corpulentos como todo o viking deveria ser. Com os padrões estabelecidos por alguém do passado sobre a vikindade natural. Sinceramente ainda é algo tolo para mim. Todos nós podemos ser fortes. Independentes da nossa forma física. Mas eu creio que hoje ninguém concorda comigo sobre isso.
E eis que nasceu eu. No dia 29 de fevereiro de um ano bissexto. Um bebê tão pequeno. Mas com grande curiosidade sobre tudo. Acreditando que o mundo a sua volta era uma grande e maravilhosa aventura. Olhos azuis brilhantes e lustrosos fios loiros.
Mas é claro que a Senhora dos Nomes teria que dar o seu veredicto. E o seu era que, por eu ser um raquítico, não poderia viver. Só os fortes permaneciam. E eu deveria ficar exposto na montanha ou ser lançado sozinho no mar dentro de uma cesta. Eu não deveria viver.
Era o que eles diziam. Se um raquítico sobrevivesse até a idade adulta ele trazia consigo um destino infeliz para a Tribo Hooligan. Mas para mim, os Soluços possuem muito mais do que isso. Eles possuem o poder de mudar a história. Eu nunca concordei com isso. Éramos bebês indefesos. E eu espero que você, Encantador, não tenha sido jogado no mar ou algo do tipo.
Meu pai não deixaria que um certo Soluço Spansitocus Strondus II vivesse e trouxesse azar para a sua família e para a sua tribo. Ele sabia que a minha mãe de sangue, hábil com o machado, nunca iria concordar com a ação de me colocar na montanha ou me jogar no mar por uma lei ridícula imposta pelos vikings.
Mas com suas próprias mãos, Barbadura roubou-me dos braços de sua mulher, quando ambos estavam adormecidos. Montou em seu dragão e voou para a Ilha da Baía do Coração Partido e a maior do Arquipélago, deixando-me no alto de uma montanha entre os galhos de uma árvore.
Ele nem sequer olhou para trás. Apenas virou as costas para mim, um bebê assustado e indefeso. Deixou-me lá, desejando com todas as suas forças que eu morresse logo.
Acho que a minha mãe de sangue não aceitou muito bem isso. Ela implorou para que o meu pai dissesse onde eu estava. Onde ele havia largado o seu filho. Mas ele se recusou a dizer. E durante muitos anos ela podia ser avistada em meio a névoa gritando o meu nome. E acho que a sua alma ainda assombra a agora Baía Assombrada do Coração Partido chamando pelo seu Soluço. E pensar que ela chegou tão perto de me encontrar...
Mas eu era esperançoso, creio eu. Fiquei deitado admirando tudo que era novo ao meu redor. Eu esperava que alguém me buscasse. Esperava que o meu pai voltasse. Mas ele não veio. E eu apenas observava as estrelas. As estrelas que brilhavam e pareciam zombar de mim. E eu decidi ficar quieto e aceitar que estava sozinho e abandonado para sempre.
Porém, um dragão surgiu em minha frente. Um dragão Crudelis macho. E ele poderia estar com muita fome. E ele poderia ter me comido. Mas ele me levou até o seu ninho. Onde uma dragão Crudelis fêmea lamentava a morte de seu pequeno filhote.
E ela também poderia ter me matado. Os humanos eram assassinos de dragões. Mas ela se rendeu ao me ouvir chorar de fome. Eu também era um filhote abandonado à própria sorte. E quando ela me pegou no colo, eu me senti protegido para sempre. Eu senti que ela era a minha mãe dragão e eu era o seu filho humano. O meu irmãozinho morto foi levado pelo outro dragão Crudelis. E eu nunca mais o vi. Nem o pai. E nem o meu irmão.
Eu cresci entre os dragões. Aprendi a falar dragonês e por muitos anos foi a única coisa que eu sabia falar. Minha mãe adotara também um filhote de Dragonusmarinhus Gigantescus Maximus. Bom, filhote apenas no seu nome. Pois ele já tinha seus cem anos e crescia, crescia e crescia. Meu irmão dragão chamava-se Furioso.
E em um dia qualquer, enquanto eu e o meu irmão caçávamos, um grupo de Reconhecimento dos Hooligans ao leste do Arquipélago nos avistou. E nos levou em uma gaiola, como se fossemos animais selvagens, até os pés de seu rei. Até o meu pai. E bastou um olhar e ele soube que eu e os meus cabelos loiros era o seu filho. Aquele que ele abandonara na montanha. E que ele não poderia matar agora.
Pois eu havia provado para o destino que eu deveria sobreviver. Ele me trouxe então para a Ilha de Berk. E então passei a viver como o verdadeiro filho do Rei.
Eu era e ainda sou muito curioso. Embora magrelo, eu sou forte. Mas sou apenas um bom espadachim por ser canhoto. Mas eu sou o Encantador de Dragões. Um líder para eles. Eu falo dragonês mais fluente do que o norueguês e escrevo mais fluente dragonês do que as runas vikings. E por muitas vezes eu preferi morrer a outra criatura dessas morresse.
O meu pai me ama embora tente disfarçar. E isso pode causar ciúmes nos meus dois irmãos humanos, Coração de Vilão e Cabeça de Bagre. Porém a minha única amiga verdadeira é a minha prima Henriqueta.
E agora vem o meu dilema...
Acontece que eu não concordo com a escravidão. Posso ser tolo, mas eu vou tentar acabar com isso. Nenhum humano e nenhum dragão devem ser obrigados a trabalhar. Nenhum deles deve ser escravizado. Nenhum deles deve ser explorado.
Eu e o meu irmão Furioso lideraremos uma Grande Petição dos Dragões. Milhares e milhares de dragões reunidos em uma Petição pacífica e solidária. Eu nunca prejudicaria o meu pai.
E eu espero que dê certo.”
–Agora a letra está diferente Banguela. É uma letra mais trabalhada e está escrito em runas vikings. Deve ser a Henriqueta. Acho que o Soluço morreu – eu disse para Banguela. Ele me olhou tristemente. Ele também havia se apegado a esse pequeno guerreiro.
“Pela alma de meu primo Soluço Spansitocus Strondus II contarei somente a verdade. Sobre o meu herói. Ou pelo menos tentarei e me esforçarei para que essa seja a verdade...
O irmão de Soluço, Coração de Vilão, descobriu sobre a sua petição pacífica. O seu irmão era como o seu próprio nome diz. Um vilão. Ciumento. Rancoroso. E acima de tudo um ótimo mentiroso.
E ele disse ao seu pai que Soluço estava rebelando-se contra o seu rei juntamente com os dragões. Disse que ele mandaria um exército de dragões para mata-lo.
Então, Barbadura, o Terrível, ordenou as tropas que atirassem nos dragões se o avistassem. E ele estava com Soluço quando os guardas começaram a atirar.
A Petição pacífica tornou-se uma rebelião.
Barbadura odiou seu filho naquela hora. Com a mesma intensidade de quando ele havia nascido. Ele havia trazido má sorte afinal. Ele então não pensou duas vezes. Sacou a sua espada e simplesmente atravessou o corpo magro de Soluço. Simplesmente apunhalou o seu filho.
Enquanto Soluço caía, ruía qualquer chance de paz. Enquanto Soluço caía, os dragões sentiam maior ódio pelos humanos.
A rebelião iniciava-se.
Ainda sim, o herói que eu sempre acreditei que ele era... O herói que ele sempre foi... Ele disse ao seu pai a verdade. Que ele queria apenas paz. Soluço é acima de tudo um herói. E um herói nunca mentiria enquanto morria com seu pai ajoelhado ao seu lado.
Furioso queria matar aquele que não era e nunca seria foi o seu rei. Mas Soluço o impediu, implorando e por fim o deteve.
–Não o mate meu irmão. Prometa-me que não irá mata-lo, Ele ainda é o meu pai.
Não que eu entendesse muito o dragonês. Mas pelo pouco que Soluço me ensinou, isso foi o que ele disse. Eu não sabia muito bem sobre a incrível língua dos dragões.
Furioso deteve-se e assistiu impotente, sem poder fazer nada, o seu irmão morrer.
Barbadura levantou-se e olhou a Rebelião de Dragões. Não amava mais o seu filho. Ele realmente só havia trago desgraça como seu nome dizia. Para ele. Para nós ele havia feito coisas maravilhosas.
Ele amaldiçoou o seu filho. Virou de costas para os eu corpo. E foi matar alguns dragões.
Furioso levou seu irmão nos braços até a sua mãe. Por dias os dois choraram agarrados ao seu corpo. E eu acompanhava a distância. Mas prenderam o Furioso e o afundaram no fundo da Baía Assombrada do Coração Partido.
E a Baía é agora assombrada pela mãe de sangue e o irmão dragão, procurando pelo seu herói. Pelo nosso herói.”
Fechei o livro meio tremendo e Banguela me abraçou. A história verdadeira havia sido revelada a nós dois. E eu não conseguia acreditar nela.
Não conseguia acreditar que tanto sangue de inocentes havia sido derramado. Que tão impiedosos eram os vikings do passado. Que tão tenebroso era o passado das tribos vikings do Arquipélago.
Eu não sabia mais o que pensar.
Eu só sabia que, pela primeira vez, eu sentia pena do irmão dragão de Soluço Spansitocus Strondus II. Pela primeira vez eu sentia pena do Furioso...
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