Solta o som
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Caíque nunca havia sido o tipo de pessoa que tinha vontade de se entupir de doces ou comida gordurosa quando alguma coisa saía dos planos. Para o desespero de vó Dirce e qualquer outra pessoa que olhasse com um pouco mais de cuidado para ele durante a adolescência, a primeira coisa que costumava fazer quando algo estava fora do lugar era parar de comer. O caso era diferente naquela terça-feira, quando saiu de uma das aulas da professora mais maluca do mundo e não estava mancando desta vez, mas tinha certeza de que teria que amputar os dedos dos pés ou, no mínimo, perderia a unha que já vinha ficando roxa nas últimas semanas. Sentou na lanchonete onde os outros estudantes gostavam de se reunir e, escondido em um canto, longe do chapeiro e qualquer outra pessoa que pudesse decidir ser simpática e puxar assunto, afundou o nariz em todos os sabores de sorvete de casquinha que encontrou nos freezers de duas marcas diferentes. Três ou quatro, havia perdido a conta muito antes de ir pagar por eles.
A cada dia que precisava entrar naquelas aulas de balé, repensava em seu amor pela dança, na certeza de que era aquele o caminho que gostaria de seguir e na decisão de se enfiar em uma cidade onde tudo era caro e vinha comendo suas economias com uma velocidade assustadora, ainda que parecesse não ter tido qualquer despesa relevante até então. Não era o que os números na poupança insinuavam. E todas as vezes, depois de sair com o corpo moído, arrastando pelo chão o orgulho que havia conquistado com tanto esforço no interior, tentava descobrir como provar a si mesmo que era bom; não só para o interior, onde costumava receber aplausos de todos os pais que não eram os seus durante as apresentações da escola de artes, mas também para a cidade grande. Só que a senhora Silveira não era como tia Olívia. Precisaria se esforçar um bocado mais para conquistá-la.
Deixou algumas notas para trás na lanchonete e decidiu voltar para o campus. Estava na hora da última aula do dia, que quase chegava a ser à noite: uma eletiva de dublagem que havia descoberto que poderia fazer, ainda na tarde anterior, e que contava com algumas vagas a serem preenchidas mesmo após o ano letivo começar. Era outra matéria em que estava atrasado, após perder as primeiras semanas sem nunca ter conhecido sequer as diferenças entre tipos de microfone. E a verdade era que se recusava a ir pedir ajuda a Danilo, que provavelmente conhecia toda aquela tecnologia um pouco melhor que ele. Precisaria se virar sozinho.
— Oi, você já conhece a casa? — um homem que aparentava ser um pouco mais velho esticou um panfleto em sua direção. Caíque normalmente ergueria a mão para recusar a propaganda, mas, visto que a oferta vinha acompanhada de uma pergunta em tom exageradamente animado, envergonhou-se por passar direto.
— Não, ainda não. Sou novo por aqui — admitiu enquanto olhava para o flyer que agora segurava, depois para a porta do lugar. O letreiro apagado dizia “Jukes” na parede preta.
— Que coincidência, nós também!
Caíque voltou os olhos ao homem que tentava com muito esforço ganhar sua atenção. Acabou por rir da tal coincidência, que não era ao menos engraçada, e virou o papel na mão para ver algumas fotos de pistas de dança, bares e drinques.
— Que legal, é um bar?
— Uma balada, mas a gente tem uns espaços mais tranquilos também. Um terraço. — Apontou para cima, mas dali não dava para ver qualquer coisa além de uma grade de segurança. — Meu nome é Vinícius, você é...
— Caíque. — Apertou a mão dele e deu mais uma olhada para a porta. Tinha muitas perguntas a fazer: se era Jukes porque tocavam músicas antigas, se havia alguma jukebox ou um esquema de pedidos de música, mas, no fundo, sabia que era só um nome e estava se animando demais ao tirar as conclusões que queria.
— Caíque. — Vinícius tirou um cartão do bolso da camisa assim que soltou sua mão. — Por que você não traz uns amigos essa semana? A gente te consegue umas bebidas de graça.
Caíque pegou o cartão e deu uma olhada. Dizia que Vinícius era o gerente da casa e também trazia o número do celular dele. Pensou se deveria contar que não tinha muitos amigos, talvez nenhum que fosse segui-lo para onde quisesse ir. Se não fosse um lugar como aquele, talvez Philipe pulasse no barco, mas o colega mais próximo que teria para uma balada seria o irmão dele. Isso, imaginava, se Cauê se animasse a conhecer também. Caso contrário, Felipe provavelmente escolheria passar a noite com o novo namorado, ou fosse lá o que eles eram agora.
— Ah, tudo bem. Eu vou ver se chamo alguém. — Ergueu os papéis e ameaçou um passo para longe. — Obrigado. E boa sorte com a casa, parece muito legal.
— Até mais — ele retrocedeu em sua despedida, que soava como um adeus para nunca mais voltar. — Vamos te esperar.
E foi com esse recado na cabeça que passou o resto da noite e a manhã seguinte. Lá pelo meio desse tempo, entre uma aula e outra, acabou por ganhar um sorriso no rosto. Quem diria que não seriam todos aqueles sorvetes que o confortariam? Quem diria que um pouco de insistência para voltar a um lugar abarrotado de outros garotos faria as vezes? Que isso o lembraria de que era diferente dos outros, embora não soubesse por quê? Que mesmo ali, entre outras centenas de jovens lutando exatamente pelas mesmas coisas que ele – alguns palcos, umas câmeras talvez –, ainda haveria alguém que o pinçaria no meio da multidão?
Rômulo estava junto ao usual grupo de amigos quando o viu após o almoço de quarta-feira. E ali, sim, teve o impulso de passar direto, mas um rosto conhecido despontou no meio da roda. Felipe o reconheceu também, ao longe, e acenou para que se aproximasse. Enquanto o fazia, um pouco contrariado, percebeu que o amigo estava sentado em uma perna de Cauê. Algo que não parecia muito íntimo, mas também não indicava que eram apenas amigos. A pose fazia soar que tinha o garoto na palma da mão, que havia se sentado ali apenas para soar despreocupado; uma brincadeira que não dava muito espaço para que ele avançasse o sinal e, em paralelo, marcava o território; um barbante invisível enrolado em seu dedinho, que, quando se afastasse, carregaria Cauê consigo para qualquer lugar.
Caíque se pegou contendo um sorriso.
— E aí? — Felipe perguntou apenas, e Rômulo e outro garoto abriram espaço para que se encaixasse entre eles na roda. Caíque sentiu as costas enrijecerem quando recebeu um toque no fim das costas. O calor da mão era conhecido, mas não se virou para cumprimentar o veterano que roubava seus pensamentos a todo minuto. Queria, na verdade, que Felipe houvesse dado mais segurança ao cumprimento, um motivo real para tê-lo chamado para perto. Um “e aí?” dava margem para muita falta de assunto, e isso o prenderia ali no meio deles por mais tempo do que gostaria de ficar.
— Tava só voltando pro quarto. Meio cansado. — Forçou um sorriso de canto, mas nem de perto era o cansaço que o fazia perder a vontade de sorrir. Logo ele, que achava que lidava tão bem com a rejeição, era tomado por todo aquele bolo azedo na garganta quando o assunto era Rômulo.
— A gente tá combinando de sair amanhã. Você vem?
Caíque havia decorado o panfleto da Jukes e, sem pensar melhor, se viu erguendo os ombros. Olhou para alguns outros meninos, que conhecia de vista e talvez de nome, mas já não se lembrava com precisão, e comentou antes de ter decidido se realmente queria fazer isso:
— É que eu tô pensando em ir na Jukes. — Apontou para trás. O fato de aquela não ser a direção certa da balada lhe escapava. — Eles abrem a partir de hoje e eu não sei se fico aqui no fim de semana, então queria experimentar amanhã.
A primeira reação decepcionada que viu foi a de Felipe. Nenhum dos outros garotos pareceu se importar, mas o amigo continuou:
— Não, vem com a gente. Tem um bar na Augusta, eles tavam falando de lá.
Caíque estalou a língua no céu da boca e fechou um dos olhos com sua melhor expressão preguiçosa.
— Não, eu acho que não. Se vocês quiserem me acompanhar... — sugeriu com descaso. No fundo, não queria que ninguém o acompanhasse. Não queria ao menos ir para a balada numa quinta-feira. Ou talvez, se fosse, pudesse aproveitar a noite para conhecer gente diferente. Era esquisito pensar que já estava pensando nos novos amigos como gente igual, mas todos eles o lembravam do fracasso de sua paixonite platônica. Mais uma para a conta.
— Você tá em minoria — Rômulo comentou em uma tentativa de argumento. Soava reticente, como se tentasse fazê-lo pensar melhor, mas não estivesse disposto a gastar muita energia. Houve alguma confirmação dos outros garotos, risinhos e expressões que o incentivavam a mudar de ideia.
Caíque lutou para não fazer uma careta incomodada, não alterar a voz de modo que de repente soasse agressivo, não descontar em Rômulo aquele azedume que o tomava. Sorriu com calma e encolheu os ombros.
— É... — concordou apenas para não soar chato, porque era minoria, sim, mas sempre havia sido. — Mas eu não vou, não. Vou pra Jukes. — Esticou a mão para Felipe, como num tchau, e apontou para trás. — Preciso passar no quarto. A gente se vê.
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