Notas iniciais
Enfim o final dessa jornada sinistra. Foi conversando com a Gabinos e a Mariana que veio essa ideia para o fechamento da história. Foi mesmo muito divertido viajar um pouco sobre como seria esse despertar da estrela maligna de um dos espectros mais terríveis de Hades, pesquisar sobre a Noruega e sobre símbolos místicos da mitologia nórdica. E sobre coelhos fofos! E muito obrigada a todos que tiveram a coragem de acompanhar até o fim ♥️

— Lune!

O espectro de Balron levantou os olhos de um dos infindáveis livros de registros da vida dos seres humanos que ficava na biblioteca da 1° Prisão do Submundo.

— Senhor?

— Preciso que fique no meu lugar de novo.

Colocando o livro aberto sobre a mesa, Lune voltou a total atenção para seu comandante. Minos estava sentado em sua própria mesa, olhando distraidamente para um livro de registros, folheando-o sem vê-lo realmente.

— Tudo bem, senhor. Ficarei aqui julgando os mortos em seu lugar.

— Ótimo – Minos se ergueu e foi para os seus próprios aposentos, para retirar a veste que costumava usar ali, quando fazia os julgamentos e colocar a sapuris de Griffon. Ter um quarto privativo era um privilégio reservado aos três juízes e que ele achava bastante satisfatório.

Ele sabia que Lune ficara bastante curioso com o motivo de sua saída, mas era discreto o bastante para não perguntar. E, para dizer a verdade, o juiz não estava mesmo disposto a dar explicações.

Finalmente pronto, Minos se transportou para fora do Submundo, de volta para a superfície da Terra. Já haviam se passado seis anos desde seu despertar e o imperador já havia reencarnado em um novo corpo humano. Pandora e Radamanthys haviam se instalado no Castelo de Heinstein e aguardavam o iminente despertar completo de Hades. Minos, no entanto, preferia despender ainda parte de seu tempo na 1° Prisão, julgando os mortos ao lado de Lune.

Pairando alto no céu noturno da pequena comuna norueguesa de Dovre, não foi difícil para o espectro encontrar a antiga casa de seu receptáculo.

Estava vazia, percebeu ele e imaginou, pelo seu estado decadente, que havia permanecido assim durante os últimos seis anos. Não tinha dúvidas de que deviam circular rumores sobre a propriedade ser amaldiçoada.

De qualquer modo, não era por aquela velha residência decrépita que viera, pensou sem emoção. Descendo lentamente na direção da propriedade vizinha, Minos pousou na beira da floresta, os olhos amarelos rastreando o terreno da fazenda. À procura.

Era uma noite de inverno bem fria e nublada e em breve começaria a nevar. Os campos de plantação estavam todos vazios agora, esperando a vinda da primavera para serem novamente semeados. Logo encontrou o que procurava, o estábulo onde a família de Lars guardava os cavalos e a vaca leiteira da família. Tinha certeza de que estaria ali.

Andando com a tranquila autoconfiança de um temível líder de um exército divino, Minos se dirigiu para a construção simples de madeira, a aproximadamente cem metros da casa principal. Não havia, logicamente, nenhum sinal da presença dos seres humanos que viviam ali, todos dormindo confortavelmente em seus quartos.

A porta da velha construção abriu com um rangido de protesto e os animais lá dentro se movimentaram, alertas. O cheiro característico dos bichos veio ao encontro do nariz de Minos, que avançou sem se incomodar. Como que reconhecendo a magnitude daquele que acabava de entrar, todas as criaturas ali dentro mantiveram-se em silêncio, observando com cautela e admiração.

A Estrela Celeste da Nobreza atravessou o estábulo, passando pela baias dos três cavalos, que ficavam logo próximos à entrada, depois pela da singela vaca malhada, pelo monte de feno onde repousavam os quatro cães pastores. E, bem nos fundos, estava aquele quem Minos viera buscar. O agora idoso coelho tan, que se mantinha aquecido do frio em uma caminha de palha.

No momento em que o encontrou, os olhos de Minos mostraram por um pequeno instante a coloração azul, do tom de um céu claro de verão. Apenas por um breve piscar. E logo a fantasmagórica matiz amarela estava de volta.

Quando ele se abaixou e esticou o braço na direção do pequeno animal, Grifo não tentou fugir, apenas farejou seus dedos, embora suas orelhas estivessem bem eretas.

— Continua corajoso como sempre, bichinho medíocre – ele riu e afagou a cabeça do coelho. – Uma atitude digna daquele que conseguiu escapar da morte mordendo os dedos de Aiacos. Foi com muito custo que eu consegui extrair essa informação dele. Mas sua vida na Terra chegou ao fim. E por isso vim buscá-lo.

O coelho, logicamente, não respondeu. Apenas o encarou diretamente, com uma placidez estoica que poucos seriam capazes de demonstrar estando cara a cara com uma das criaturas mais impiedosas do planeta.

Então, repentinamente, o espectro havia desaparecido, envolto em uma sombria explosão de luz violeta. Ali, naquele ponto, restou apenas o corpo sem vida do coelho, que seria encontrado no dia seguinte por Lars, enterrado com lágrimas nos olhos do rapaz, que lembraria do melhor amigo que tanto amara aquele bichinho e que havia desaparecido misteriosamente em uma noite sombria que havia coroado uma série de acontecimentos estranhos e que ele nunca seria capaz de explicar exatamente o que havia se passado.

Enquanto isso, o espectro de Griffon surgia novamente no território do Submundo e em seus braços trazia o coelho recém-falecido em seus braços. Ali, no recanto dos mortos, o pequenino olhava à sua volta, alerta e curioso como sempre. Seu espírito, trazido diretamente por Minos, ganhava uma nova vida no mundo dos mortos e a única diferença perceptível era o tom amarelo brilhante de seus olhos.

— Decidindo mudar de ocupação agora, Minos? – a voz grave de Radamanthys soou às suas costas. – Não sabia que tinha decidido virar cuidador de animais.

— Não se intrometa, Radamanthys – retrucou calmamente o outro.

— Ora, nunca te vi como um amante dos animais – continuou o Wyvern, sem se ofender com a resposta do companheiro.

— Certamente não sou – Minos respondeu, alisando distraidamente uma das orelhas de Grifo. – Mas acho que esse pequeno aqui merece um tratamento especial.

— E posso saber o motivo? – Radamanthys agora estava definitivamente curioso.

— Esse coelho era do meu receptáculo – ele riu. — Ele escapou da morte certa, mordendo a mão de Aiacos e fugindo para o meio do mato.

Em resposta, Radamanthys ergueu uma das vastas sobrancelhas louras e meneou a cabeça em uma concordância muda.

— É, acho que eu faria o mesmo – e começou a se afastar.

— E você, Wyvern? O que está fazendo aqui?

— Você não é o único que vem e vai quando quer, Minos. Eu também tenho meus assuntos para resolver. Não fico trancado no castelo o tempo inteiro.

— Claro. – Minos respondeu com um meio sorriso.

Ele depositou o coelho no chão e começou a andar na direção da 1° prisão. Grifo o seguiu de perto, como um cãozinho fiel. Lune, ao ver seu comandante chegar, se ergueu e o saudou, como de costume. Seus olhos cor de ametista pousaram sobre a diminuta criatura que o seguia, mas não teceu nenhum comentário. Apenas seus lábios se retorceram milimetricamente em um sorriso imperceptível.

Minos seguiu para seu assento, impassível, como se a cena que se desenrolava ali fosse a coisa mais comum. E, sabiamente, ninguém se manifestou em contrário.

E, dali para frente, quem chegasse na sala de julgamentos da 1° prisão do Submundo, presidida por Minos de Griffon, a Estrela Celeste Da Nobreza, e olhasse com atenção veria, ao lado da mesa do temido juiz do inferno, uma pequenina almofada de veludo negro, onde repousava tranquilamente um belo exemplar negro e ferrugíneo de coelho, que encarava a todos que entravam com um curioso e aterrador par de olhos amarelos.

Notas finais
Eu ameiiiiiii dar esse final para o toelho Grifo, o novo mascotinho do submundo. Foi assim que ele escapou das garras de Aiacos, com toda a força de seus dentinhos. Minos tinha toda razão para promovê-lo a coelho de estimação, não tinha? E você, Radamanthys, o que estava fazendo sassaricando pelo submundo, ao invés de tomar conta do castelo de Hades, hein? Danadinho! Espero que tenha gostado desse final! E muitos e muitos beijos ♥️♥️♥️♥️
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!