Solstício de Inverno
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
O inverno já batia a porta de Edo e o frio já culminava a população, naquela noite muitos se encontravam aconchegados no calor de suas residências e ao lado de sua família, os bravos guerreiros do Shinsengumi estavam um pouco afastados da cidade, onde travavam uma violenta batalha contra alguns terroristas do Jouishishi.
Eles investigavam as ações de um grupo específico dessa facção já havia algum tempo e com informações o suficiente puderam planejar uma emboscada. Sobretudo o comandante Kondou Isao não estava presente nessa batalha, o Shinsengumi acreditava que seria terrível perder o comandante em um momento tão crucial como aquele, portanto estavam sob liderança do vice-comandante, Hijikata Toushirou.
O Sol já se punha e começava a entardecer, não demoraria muito para que a escuridão caísse sobre aqueles pobres homens, mas isso não era um abalo para Hijikata que se mantinha firme na batalha e eliminava o máximo de inimigos o possível.
Cerca de longos minutos depois, o Shinsengumi saía vitorioso daquela batalha apesar do enorme número de feridos. O vice-comandante com sucesso derrotou o líder da facção e ao olhar um horizonte não muito longe dali, notou que o capitão da primeira divisão, Okita Sougo também havia acabado sua batalha, porém logo após seu inimigo cair por terra, os joelhos do garoto de cabelos claros também cederam e ele caiu logo em seguida com o rosto contra a neve.
O homem moreno de olhos azuis em uma ação impensada, correu em direção de onde Sougo caíra e ao chegar se agachou junto dele e colocou a cabeça do jovem sobre seu colo em seguida:
– Sougo! Está tudo bem? — ele perguntava com uma eminente preocupação.
– Estou com frio.. — dizia Sougo se aproximando de Hijikata para tentar se aquecer, seu corpo tremia e o frio se tornava pior ainda devido seus ferimentos.
Hijikata abraçou o corpo esguio a sua frente para ao menos lhe tentar passar um pouco de calor, mesmo que também estivesse a ponto de congelar. Seus olhos azuis correram pelo local e ficou espantado com a quantidade de corpos espalhados sobre a neve que começava a se tornar vermelha ao redor destes, devido o seu sangue.
Ainda lhe restando um fio de esperança, o vice-comandante ainda abraçado a Sougo, se levantou o erguendo no colo da forma que estava, suas pernas tremiam de fraqueza e Sougo parecia mais pesado que o usual. Ele caminhou com passos sofridos até seus companheiros caídos e conferiu o pulso de todos, um a um. Para sua infelicidade, todos estavam mortos.
Só havia restado a ele e Sougo como sobreviventes daquela sangrenta batalha e Hijikata prometeu a si mesmo que salvaria ao menos a vida de Okita, nem que para isso tivesse que perder a sua própria, era seu orgulho, seu desejo final. Aliás qual importância tem um vice-comandante que nem consegue salvar a vida dos seus subordinados?
Com bastante dificuldade, Toushirou se levantou com o jovem Sougo e começou a caminhar, a cada passo suas feridas latejavam e o cansaço se manifestava em seu corpo. Por alguns momentos ele quase caiu de joelhos, mas permaneceu firme no seu trajeto, precisava tirar Sougo, que estava desacordado, dali antes que ele morresse congelado.
Após algum tempo de quedas e muita dor, Hijikata chegou a uma estrada que levaria de volta para Edo, resolveu parar ali para descansar. Se sentou na beira e aconchegou Sougo mais próximo de seus braços. Seus dedos fizeram uma pequena carícia no rosto do garoto que por final estava gelado, o que deixou Hijikata muito preocupado, mas para seu alívio os olhos avermelhados do sádico se entreabriram e fitaram o rosto pálido do moreno:
– Hiji...kata-san? — ele disse com uma certa dificuldade.
– Não fale mais nada, já estamos chegando — Toushirou sem esconder seu ar de preocupação. Seus lábios tremiam, ver Sougo naquele estado lamentável lhe deixava aflito.
Resolveu continuar o percurso, se continuasse muito tempo parado ali, acabaria que ambos morreriam congelados. O vice-comandante retirou seu casaco e o enrolou no corpo de Okita, não se importava de passar frio para aquecer o garoto.
Novamente se levantou carregando o jovem, mas dessa vez o colocando em suas costas, e seguiu rumo a Edo o mais rápido que seu corpo debilitado lhe permitia.
Um tempo depois chegou a entrada da cidade e se encontrava da seguinte maneira: Seus lábios estavam roxos e sua pele pálida, pelo menos Sougo parecia um pouco melhor e um pouco de cor havia surgido em seu rosto, apesar de ainda está desacordado.
Não demorou para que alguns habitantes de Edo que passavam por ali notassem a presença de ambos e o estado que estavam e logo correram para socorrê-los.
No outro dia, Okita acordou assustado, parecia ter tido um pesadelo. Ao olhar ao seu redor, notou que estava em seu quarto e seu corpo estava cheio de ataduras. Sua cabeça latejou e ele tentou forçar sua memória para se lembrar do que havia acontecido. A última coisa que conseguiu lembrar era da batalha que tiveram não muito longe de Edo contra alguns traficantes, lembrava de ter derrotado seu adversário mas logo em seguida ter caído desacordado, depois disso não se lembrava de mais nada.
O garoto de cabelos castanhos se levantou de seu fuuton e caminhou até a porta do seu quarto com passos lentos. Ao sair pelos corredores a fora do dojo, encontrou Yamazaki que o parou dizendo:
– Capitão Okita, que bom que está bem!
– Como eu cheguei aqui? — ele perguntou indiferente.
– Ah, o Vice-comandante o trouxe para cá...só que para proteger o Capitão Okita do frio, ele acabou lhe cedendo o casaco e chegou a Edo muito debilitado e prestes a congelar.
Os olhos de Sougo se arregalaram espantados ao ouvir as palavras de Yamazaki e ele abaixou a cabeça por alguns segundos. Nesse momento algumas memórias voltaram a sua mente, por vezes durante o percurso, Sougo acordava e via que estava sendo carregado por Hijikata, mas devido sua exaustão, acabava adormecendo novamente.
O sádico voltou a olhar para Yamazaki e começou a exalar uma aura negra um tanto assustadora:
– Aonde está aquele idiota?
– Eeeeh! — Yamazaki gritou apavorado e apontou para a porta que dava para o quarto do vice-comandante — Ele está ali! — após dizer isso, saiu correndo para a direção inversa de Okita.
Sougo ignorou Yamazaki e se esgueirado na parede foi até a porta do quarto indicado e logo a abriu. Hijikata estava adormecido sobre o fuuton, também estava cheio de ataduras, dava para se ver seu peito todo enfaixado.
Okita não hesitou de se aproximar, porém fez isto com cautela. Se sentou ao lado do fuuton do mayora e o observou atentamente seu rosto que já estava bem mais corado:
– Você é um idiota, Hijikata. — Okita disse, mas como esperado não obteve resposta — Não pense que estou agradecido por isso.
Hijikata acabou despertando devido a voz de Sougo, mas manteve os olhos fechados para poder ouvir mais do sádico, tentava até mesmo segurar um risinho irônico já que agora o garoto estava em débito consigo.
“O que houve Sougo? Está se sentindo culpado? Agora você está me devendo uma” — O moreno debochava em pensamento.
Os olhos de Okita ficaram completamente marejados e não demorou para que algumas lágrimas rolassem pelo seu rosto e pingassem no rosto de Hijikata, lhe deixando preocupado e espantado em relação ao sádico, nunca esperaria uma reação dessas vindo de Sougo.
– E-eu...te odeio! — O sádico se aproximou do rosto do moreno e beijou de forma terna os seus lábios, não demorando para se afastar e sair do cômodo.
– Eeeeeh?! Quando Sougo saiu, Hiikata se levantou na mesma hora do seu fuuton com o rosto completamente corado, cobrindo a boca com uma das mãos.
Passaram-se alguns dias desde aquele incidente, Hijikata se recuperou de seus ferimentos numa velocidade incrível, de fato era um homem muito forte, porém ainda tinha seu peito enfaixado devido um grande ferimento que levaria mais um tempo para se cicatrizar. Por esta causa usava naquele dia seu kinagashi negro, que além de ser muito confortável, deixava o seu peitoral a mostra, assim não incomodando a ferida.
O comandante do Shinsengumi, Kondou Isao resolveu realizar uma comemoração pela recuperação de seus companheiros, em especial Hijikata, que mesmo sendo o mais ferido, usou de suas últimas forças para salvar todos os outros.
Como toda festa do Shinsengumi, todos beberam muito e alguns homens mais fracos para a bebida já caiam em coma alcoólico, enquanto isso Kondou estava nu na frente de todos discursando a respeito da melhora de Hijikata. Ele gargalhava bem alto e puxava Hijikata para próximo de si envolvendo seu pescoço com um dos braços, quase o esganando.
No meio de todo esse sufoco, moreno correu seus olhos azuis pelo cômodo e notou uma figura muito conhecida por si, abrindo uma porta que dava para a varanda, e deixando o local. Mais depressa do que nunca, Hijikata conseguiu escapar dos braços de seu comandante e sem pressa caminhou até aquela mesma porta, a abrindo novamente avistando logo de cara a pessoa que havia deixado o cômodo anteriormente, agora sentado sobre o chão de madeira e tomando um pouco de sakê.
Toushirou suspirou profundamente e em seguida se aproximou do jovem a sua frente, mas ao invés de se sentar junto a ele, apenas se recostou na parede do lado de fora. Acendeu seu cigarro, dando uma tragada e soltando a fumaça logo em seguida.
– Por que não está comemorando com os outros, Sougo?
– Não estou com muita vontade de comemorar com eles, prefiro ficar aqui fora – O jovem de cabelos castanhos claros disse indiferente, servindo um pouco mais de sakê a si mesmo.
– Entendo. Apesar dessa festa ser dedicada para mim, eu não estou com vontade de comemorar.
– Hijikata-san – o menor o chamou, deu mais um gole em sua bebida e continuou – aproveite agora para comemorar, pois da próxima vez não deixarei você viver. — Sougo desviou seu olhar para o céu estrelado e deixou escapar um leve sorriso.
O vice-comandante fechou os olhos ao escutar as palavras de Okita e um sorriso de canto se formou em seus lábios, naquele momento se recordou do que havia acontecido daquela outra vez, onde Sougo havia deixado escapar a verdadeira natureza de seus sentimentos:
– Eu sei que você vai.
Fale com o autor