Solstice - Interativa
50 Pontas soltas 「XIII • Cosme」
Andar pelos corredores de um hospital trazia sentimentos mistos para Cosme. Apesar de sentir pena da situação das pessoas internadas, o garoto familiarizou-se com ambientes hospitalares de tal forma que chegava a sentir conforto neles. Seu pai adotivo sempre o trazia para o trabalho, até que adoeceu gravemente e foi a vez do médico ser internado. Mas desde quando, ainda pequeno, passou a ficar sob os cuidados da avó, nunca mais havia adentrado nas alas de um hospital. Até aquele dia.
Visitar Hansol não estava em seus planos, mas o garoto não queria deixar passar a oportunidade de criar vínculos com outras pessoas que aparentemente simpatizavam com ele. Caso não se oferecesse a ir com Evelyn e Alyssa, provavelmente ficaria sozinho na biblioteca de sua escola estudando, ou no atelier do Clube de Artes tentando criar alguma coisa que o deixasse feliz… Mesmo que sem muitos amigos por lá...
Ou talvez simplesmente fosse ao parque observar o céu até escurecer. Ficaria em companhia das estrelas e dos outros corpos celestes, seus amigos de infância… E por fim, deixaria-se ser abraçado pelo manto infinito que os abriga.
— É aqui. — A enfermeira gira a maçaneta da porta e entrou em silêncio no pequeno quarto particular, onde Hansol repousa numa maca. Todos os seus membros estão engessados, e sua testa está envolta por TISSUES. Uma bolsa de soro está ligada ao seu braço. — Foi sorte termos conseguido estabilizá-lo na hora... Estava perdendo muito sangue. Fraturou diversos ossos.
— Coitado… — Tocada pela cena, Alyssa leva uma mão ao rosto e umedece os lábios.
— O estado clínico dele é uma montanha-russa. Tem dias que tudo fica tranquilo, e em outros ele piora consideravelmente. Infelizmente ele ainda não voltou ao estado de consciência, mas creio que daqui a mais algumas semanas ele se recupera totalmente.
— Mais algumas semanas? Já faz dezessete dias que houve o acidente. — Henri faz a observação após fazer rapidamente as contas.
— Sim. Infelizmente. Bom, vou deixá-los a sós.
Depois que a enfermeira sai, Cosme e os outros aproximam-se do rapaz e o fitam em silêncio. Alyssa deposita um ursinho de pelúcia na mesinha ao lado da maca, e Evelyn põe próximo a ele um cartãozinho com “melhore logo!” escrito.
Cosme fixa seu olhar no rosto sereno de Hansol. A respiração dele estava calma. O garoto não teve muito contato com ele desde que o conhecera, mas sentia-se feliz de certa forma por finalmente ver o rapaz estar num momento de paz. Antes, todas as vezes que o via, Hansol sempre agia como se algo o inquietasse constantemente. Mas ali não. Agora não.
Esperava algum dia encontrar um momento de paz também. Não daquele jeito, óbvio, mas… Entendia o que passava-se com o outro anteriormente. Sabia muito bem o que significava estar sendo perturbado pela sua própria cabeça.
— Hey — Henri toca em sua mão. O contato com sua pele é quente, seus dedos são macios e agradáveis. —, você não parece muito confortável. Quer sair um pouco para tomar ar?
O garoto mira em seus olhos por poucos segundos, e tal contato visual faz Henri abaixar a cabeça e corar. Cosme balança a cabeça com um sorriso desajeitado, e os dois caminham até o corredor.
Henri se encosta à parede e morde o lábio.
— Então… Quantos anos você tem, Cosme?
— Dezessete.
— O quê?! — Arregala os olhos. — Como assim você é mais novo do que eu?
— Sério que você é mais velho?
— Anham! Tenho dezenove. E estou me sentindo um idoso por sua causa. — Ele põe as mãos no rosto, como se estivesse chocado. — Oh…
— Ah, pare com isso. Você tem cara de bebê.
— E você tem cara de velho.
— Eu não tenho cara de velho! — Cosme se joga em cima do outro rapaz para empurrá-lo de brincadeira, e os dois riem juntos. Ele nem percebe a proximidade de seu rosto com o de Henri até que sente a respiração dele em seu rosto. Seus olhos se cruzam por uns momentos e o mais velho recua, mordendo o lábio inferior com um sorriso meio embaraçado.
O jeito que ele está sorrindo deixa Cosme à beira de apertar suas bochechas, pois aquele lhe parece ser um dos sorrisos mais adoráveis do planeta... Assim como o de Astrid.
Desviando o olhar de Henri, ele cruza os braços e cerra os olhos, recordando da maneira que a menina agarrara seu braço para impedí-lo de cair da ponte no dia em que tornaram-se amigos. Se ela não tivesse feito isso… O garoto teria perdido tanta coisa. Inclusive conhecê-la; passar uma tarde ao seu lado, deitados na grama, conversando com os olhos fixos no céu...
— Você está bem? — A mão macia de Henri é colocada em seu ombro, e Cosme põe sua mão sobre a dele. Responde balançando a cabeça com ar de felicidade. Como é bom ter pessoas especiais na vida.
Repentinamente, um grupo de enfermeiros entra no corredor às pressas levando uma maca com um jovem deitado. Seu rosto lhe é familiar para Cosme… Jin.
— Rápido, precisamos operar logo! — Uma pessoa do grupo apressa os outros e saem do corredor rumo à sala de cirurgia.
Cosme sequer lembrava do que houvera com seu colega. Não queria ter feito o que fizera, definitivamente não queria... Mas precisou. Sua mente lhe forçou. Caso contrário, não conseguiria viver em paz. Era a punição que deveria se impor por ter falhado em se curar sozinho… Livrar-se de algo que lhe fizesse sentir-se bem.
E por mais que doesse, Jin, o novato da escola, era a única coisa que lhe passava boas emoções na época. E por mais que não quisesse, sua mente lhe convencera a eliminá-lo por isso. Autoflagelação.
Precisar de medicamentos para aplacar sua doença mental era enxergado pelo garoto como um vício, e não uma necessidade. Não conseguir se sustentar sem eles deixava-o imensamente frustrado. Afinal, caso se esforçasse, conseguiria se livrar sozinho de toda a melancolia e impulsos destrutivos que tentavam dominar sua mente. Sem precisar tomar remédios todos os dias, certo? Certo?
Ah, sim. Com certeza sim. E a prova viva disso era o pessoal que conhecera por causa do projeto de Marie. Por causa deles, estava se mantendo muito bem. Sem mais desejos de morrer, nem de destruir tudo ao seu redor.
As pessoas que conhecera — como Astrid, Evelyn, Alyssa e Henri — lhe davam uma sensação mística de propósito. Esperança. Afeto. Faziam-lhe se sentir bem.
Mas então… Caso houvesse uma recaída, precisaria livrar-se deles também? Não parara para pensar nisso nessas semanas de convívio. Perderia as únicas pessoas que lhe deixavam feliz de verdade...
Nunca havia chegado ao ponto de atacar uma pessoa antes de Jin. Mas com todas as tentativas falhas de livrar-se da necessidade de tomar os remédios, acabara danificando e jogando fora todos os objetos que lhe concediam felicidade. E mesmo tendo o conhecido por pouco tempo, Jin conseguiu dar-lhe isso.
O que fizera na tarde do incidente era realmente sério.
Jin sobreviveu; se recobrasse a consciência, contaria à polícia o que aconteceu entre eles. E toda a vida de Cosme seria destruída.
Teria sido melhor se Astrid não tivesse agarrado meu braço na ponte.
— Cosme! COSME!
Voltando a si, vê Henri o segurando no chão com ajuda de Alyssa e Evelyn. Seu corpo treme muito, suor escorre pela sua face. Tem falta de ar, e sente uma vontade incontrolável de chorar.
Num acesso de desespero e ódio, levanta-se e abre sua bolsinha bruscamente, jogando-se contra a parede do lado e descendo ao chão. Agarra sua caixa portátil de medicamentos e retira de um dos compartimentos cinco pílulas. Coloca-as na boca e engole-as daquele jeito mesmo, sem sequer pensar na possibilidade de pegar sua garrafinha de água.
— Cosme! Fala com a gente! — Evelyn abaixa-se com Henri e os dois seguram o garoto, tentando parar a aparente crise convulsiva.
— Vou chamar um médico — Jieun se dispõe, nervosa.
— Não! Eu... Eu estou... bem. Eu estou bem. Já tomei o que precisava. — O rapaz engole em seco e ergue-se devagar, já mais calmo. — Não se preocupem — diz, mas tem a imagem vívida em sua mente de Jin… Do momento em que encostou sua testa na dele, pouco antes de tê-lo perfurado e empurrado do container.
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