Solstice - Interativa

34 「IX • Jiho」 Guerra de instrumentos... Hã? NYAN CAT?!


O destino finalmente parecia estar favorável a Jiho. Durante a manhã, enquanto ele andava pela rua, por acaso o pôster de uma oportunidade maravilhosa que poderia ajudá-lo bastante na busca pela realização de seus sonhos: a faculdade particular L’Art est Supreme estava oferecendo uma bolsa de estudos integral para quem melhor se saísse em uma audição que ocorreria no auditório da instituição. As chances dele ser o escolhido eram pequenas, mas ele precisava tentar. Poderia finalmente cursar Música! E quem sabe mudar-se para os dormitórios da faculdade...

Porém, existiam certos obstáculos no caminho: a taxa de inscrição era cara. E ele havia visto o anúncio tarde demais, pois as apresentações iriam ocorrer exatamente naquele dia... Mas por sorte, as inscrições só fechariam oito horas antes da audição. E felizmente, Jiho confiava em suas habilidades o suficiente para se inscrever -- mesmo que de última hora. Podia estar bem longe de ser um profissional de verdade, mas sentia a música fluir em sua mente e fundir-se ao seu corpo, seu coração colorindo-se com a melodia e o ritmo...

Ele sabia tocar algumas peças meio complicadas, então quando foi inscrever-se há algumas horas, informou que iria tocar um arranjo de “Flood Time”, de Eric Thiman. Sua intenção era impressionar os jurados com sua performance.

Treinou uma versão um pouco mais complexa da partitura até as cinco horas da tarde, e então tomou um banho rápido e aprontou-se em seguida.

Pouco depois de entrar na faculdade, Jiho deparou-se com mais ou menos trinta concorrentes esperando no corredor anterior ao auditório. Todos eles pareciam nervosos ou aflitos, com exceção de um belo jovem que estava isolado no canto da parede. Seus olhares se cruzaram sem querer e o desconhecido encarou Jiho de maneira hostil. Engolindo em seco, o garoto tentou afastar todos os outros pensamentos e focar apenas na música que tocaria.

Uma mulher vestida elegantemente saiu de dentro do auditório, e fitou os candidatos no corredor antes de apresentar-se como reitora e discorrer brevemente sobre o prestígio da instituição e quais os critérios que os jurados avaliariam as audições. Ao terminar, fez uma chamada oral para verificar se todos os inscritos estavam presentes ali.

— Ótimo... A apresentações ocorrerão em ordem alfabética. A primeira candidata da lista é Eunbin Lee. Por favor, senhorita, entre comigo. O resto aguarde pela sua vez aqui fora — falando isto, a reitora entrou novamente no auditório. Uma moça que estava sentada num dos banquinhos do corredor levantou-se e seguiu-a com hesitação, fechando a porta ao passar.

Ao terminar a apresentação, o candidato deveria voltar para o corredor e esperar até a última pessoa se apresentar.

Depois de umas quinze apresentações, Jiho começou a sentir-se nervoso. Havia tentado resistir o nervosismo concentrando-se na melodia, mas... Estava tão perto de ser sua vez! E pelo que dava para ouvir do lado de fora do auditório, as apresentações de seus concorrentes estavam sendo excelentes.

Respirou fundo, um pouco trêmulo. Talvez lavar o rosto o ajudaria a relaxar...

O rapaz foi ao toalete e sentiu um gostoso odor de lavanda ao entrar no local. Era um ambiente bastante sofisticado, e lembrava um pouco o edifício da empresa de seu pai.

Encarou-se no espelho e passou água em seu rosto. Nesse momento, mais alguém entrou no local... O rapaz chinês com quem havia cruzado o olhar mais cedo.

Jiho tinha não se importado muito com a presença dele e continuou passando água no rosto, até que repentinamente o desconhecido o puxou com força pelo braço.

— Você parecia bastante confiante. Haha... Não devia estar — havia algo de cruel naqueles belos olhos. Jiho ficou paralisado, em choque. — Nenhuma performance vai chegar aos pés da minha, fracassado. Muito menos a sua. Quem tem certeza que se sairá bem não entra em pânico quando a hora de pôr em prática se aproxima. Você será massacrado, e voltará a ser um ninguém...

Apesar de assustado, Jiho controlou-se e soltou seu braço das garras daquela fera. Os dois se encararam por alguns segundos, e voltaram ao corredor em silêncio.

Mal se passou um minuto, e a porta do auditório se abriu.

— Jiho Dupont, é a sua vez — a candidata que havia acabado de se apresentar falou em voz alta ao sair.

Ouvindo isto, o rapaz engoliu em seco, andou até o auditório e fechou a porta após entrar.

O local era bastante espaçoso e belo, mas não tão majestoso quanto o Solstice. No palco, havia três instrumentos disponíveis: um piano, um violino e uma harpa orquestral – quem quisesse apresentar-se com instrumentos de sopro deveria trazê-los de casa, por conta de questões higiênicas.

Os seis jurados – incluindo a reitora – estavam sentados na fileira da frente e observavam fixamente o rapaz conforme ele dirigia-se até o banco do piano e se sentava.

Agora ou nunca.

As notas fluíram das mãos de Jiho, fazendo uma bela melodia inundar o auditório conforme o rapaz sentia toda a essência dramática da música.

Iria conseguir. Era capaz.

Saiu aliviado depois de acabar a performance. Tinha certeza que tinha dado o melhor de si. Agora era só esperar os jurados anunciarem o ganhador da bolsa, que seria decidido pouco depois do último candidato se apresentar.

Quinze minutos de tensão e expectativa se passaram até que todos os jurados saíram do auditório.

— Após discutirmos bastante sobre o assunto, decidimos que três de vocês se destacaram mais do que os outros. O nosso primeiro lugar, que levará a bolsa de estudos, é Xukun He. O seu arranjo do tema do Nyan Cat surpreendeu a todos os jurados. Parabéns. — Para surpresa de Jiho, o garoto que havia o confrontado no toalete deu um pulo de alegria. Não era possível que ele, logo ele, teria ganhado… Com um arranjo do tema do Nyan Cat?! O quê?!... — Em segundo e terceiro lugar, Jiho Dupont e Clary Ko, respectivamente. Vocês não receberão prêmios, mas merecem muito serem aplaudidos. — Como assim, segundo lugar...? Havia deixado de realizar seu sonho por tão pouco... — Agradecemos a todos por participarem e esperamos vê-los novamente em breve.

Jiho estava arrasado. Sentia-se melancólico, fora de si. Se tivesse se esforçado ou se concentrado mais, poderia ter feito uma apresentação melhor.

No caminho para casa, avistou um rapaz familiar andando na rua com uma maleta. O nome dele era Francis, se não estava enganado. Os dois tinham se falado brevemente no encontro do Solstice. Mas isto não importava, não é mesmo?

Ignorou-o e seguiu seu caminho, ainda sem processar direito o que tinha acabado de acontecer.

Chegando no seu pequeno apartamento, o garoto foi direto para o quarto e jogou-se triste na cama, sem sequer trocar de roupas.

Sabia que tinha poucas chances de ganhar, mas ainda assim não conseguia superar seu fracasso... Sem mencionar o fato de que quando se inscreveu há algumas horas para participar da audição, gastou mais da metade do dinheiro que economizara em dois anos.

Fechou os olhos e tentou não pensar muito naquele fiasco. Seria mais prudente de agora em diante, e não se jogaria de corpo e alma em cima de oportunidades arriscadas...

Não tardaram vinte minutos desde que chegara em casa e o celular de Jiho começou a tocar. O rapaz retirou-o lentamente do bolso e atendeu a ligação sem preocupar-se em ver o número que estava chamado.

— Alô? — falou com voz de morto.

“Estou falando com Jiho Dupont?”

— Sim, sou eu...

“Gostaria de parabenizá-lo pela sua ingressão no curso de Música da L’Art est Supreme!”

— Hein? Mas eu não fiquei em primeiro lugar na audição...

“Nós da faculdade sabemos disso. Entretanto, Xukun sofreu um acidente perto de uma obra em construção pouco depois que saiu da instituição. A condição física atual dele o incapacita totalmente de ingressar na faculdade nos próximos meses.”

— O quê? O que aconteceu com ele?...

“Bom, eu não deveria falar sobre isso, mas... Uma parte da estrutura do prédio em construção cedeu e o atingiu. Foi muita má-sorte dele estar passando por ali naquela hora. Por pouco não morreu... E parece que além da estrutura, também caiu um balde de tinta azul. Chegou no hospital todo manchado com uma infecção horrível.”

Jiho não sabia como estava sentindo-se com aquele ocorrido. O que houve com o Xukun devia ser visto como uma tragédia horrível. Ele também era bem talentoso apesar de agir como uma má pessoa. Fora que ele era bonitinho. Mas por causa dessa tragédia, Jiho tinha conseguido ingressar na faculdade, no curso que tanto almejava, com uma bolsa de estudos integral! Iria seguir seus sonhos, virar um pianista profissional, voar alto...

Era um novo capítulo que começaria em sua vida. Um novo começo. Um verdadeiro milagre.

— O que houve com o Xukun é muito triste, porém... Estou muito satisfeito com a oportunidade que me é dada. Quando devo ir aí para realizar a matrícula?