Solstice - Interativa
9 「III • Len」 Asas
Notas iniciais
Len acordou bruscamente após uma almofada ser jogada em sua cara. Ele sentou-se rapidamente no sofá onde estava deitado e encarou Francis, que estava de pé a sua frente.
— Você quer me matar de susto?! Eu estava dormindo!
Na noite passada, no teatro, Len tentou contar aos outros convidados que havia sido acusado injustamente do crime e que estava precisando urgentemente de abrigo por alguns dias. Infelizmente a maioria não acreditou em sua história ou saiu dali antes que ele contasse seu relato – logo depois de pegar um envelope da caixa misteriosa. Francis havia sido o único que confiou nele e o deixou abrigar-se em seu apartamento.
E estava tudo ótimo até aquele brusco despertar.
— Precisamos esclarecer algumas coisas — Francis falou sério, ignorando as reclamações do outro. — Se você quiser mesmo ficar aqui, tem que seguir algumas regras.
— Regras? — Len repetiu rispidamente a palavra.
— Sim. A primeira delas é que você não pode ficar perto das janelas. Não pode ser visto, entendeu? Não quero problemas com a polícia. A segunda regra é: não saia deste apartamento se não for para sair de vez daqui. E a última... Bom, não mexa nas minhas coisas. Sério. Se possível nem toque.
Com aquelas regras, o apartamento de Francis parecia com uma gaiola para Len, mas pelo menos era bem melhor do que a cela da prisão que o aguardava.
Ele não era o culpado pela tragédia que fora incriminado, mas havia agredido um segurança que tentou prendê-lo por causa daquilo. De qualquer forma, estava encrencado.
Tinha a vívida lembrança da fatídica noite em que sua vida de fugitivo começou.
Len estava relaxando em seu escritório quando ouviu gritos vindos do corredor. Mal passou pela porta para verificar o que era e um segurança partiu para cima dele, acusando-o de ter envenenado o senhor Chang. Precisava pensar rápido para escapar daquela situação...
Com um pouco de esforço, derrubou o oponente bem em cima da mesa de vidro do escritório, onde trabalhava. O segurança ficou inconsciente; Len aproveitou-se do momento para escapar do local.
Ainda naquela noite, o rapaz deu uma rápida passada no apartamento de luxo onde morava. Pegou sua mochila e a encheu de suprimentos. Pegou algumas unidades de alimento enlatado, duas garrafas de água... E também todo o dinheiro que tinha em seu pequeno cofre caseiro. Vestiu às pressas um casaco preto e pôs em sua cabeça um boné azul-escuro que tinha em seu guarda-roupa. Estava pronto.
Saiu do edifício o mais rápido que pôde; a polícia certamente não iria demorar para chegar ali.
Começou a correr. Não parou até ter certeza de que estava bem longe dos locais onde seria procurado, e adormeceu em um escuro beco qualquer da enorme cidade.
Passou três dias assim, dormindo de beco em beco... Até que uma manhã, ao pegar a última lata de comida que tinha, notou coisas estranhas dentro de sua mochila. Uma propaganda de uma peça antiga no teatro Solstice, acompanhada por um generoso maço de dinheiro. Atrás do folheto havia uma mensagem o convocando para comparecer àquele teatro naquela noite.
Decidiu ir para agradecer pela quantia de dinheiro, mas ao chegar no local nada ocorreu como ele tinha pensado. E agora estava ali, hospedado no pequeno apartamento de um completo desconhecido.
— Se seguir as regras direitinho, você vai poder ficar aqui até quando quiser. Estamos entendidos, Len?
— Sim, claro — disse secamente.
— Ótimo, pois eu tenho que sair para trabalhar. Se tiver fome, tem uma marmita na geladeira. — Francis pegou uma chave que estava na estante perto do sofá e anda apressado até a porta do lugar. — Tem outra chave do apartamento que guardo ali, perto do vaso de flores. — Antes de sair, Francis virou-se pela última vez para dizer uma última coisa ao hóspede. — Ah, e... Não pegue meus biscoitos.
...Finalmente sozinho.
Len levantou-se do sofá e se espreguiçou enquanto tentava pôr seus pensamentos em ordem.
Queria muito ter sua vida de volta, mas agora era impossível já que estava sendo procurado. A notícia do crime já havia até passado na televisão... Ia ser cada vez mais difícil evitar a polícia.
A única maneira de voltar a viver livremente seria escapar do país. Mas como faria isso? Iria ser impossível embarcar em um avião; com certeza seria barrado. A mesma coisa se tentasse embarcar num navio, graças às normas rígidas de revista e segurança do país. A não ser que...
Um ex-colega de trabalho era envolvido com negócios ilegais e talvez pudesse ajudá-lo a sair de Nouvelle-Corée. Eles eram relativamente próximos na época que trabalhavam juntos... E o dinheiro que Len tinha na mochila serviria para cobrir os custos do negócio.
O rapaz entrou no quarto de Francis e foi direto ao banheiro; lavou o rosto e encarou-se fixamente no espelho. Escovou os dentes pela primeira vez em quatro dias, e então despiu-se e foi tomar um rápido banho, refletindo sobre como faria para encontrar esse seu colega.
Ao terminar, foi ao guarda-roupa do quarto e pegou um conjunto de vestes escuras de Francis. Viu um par de óculos escuros no canto e o colocou no rosto.
Nada mal.
Com sede, andou até a cozinha e bebeu dois copos de água. Enquanto fazia isso, fitou um pequeno envelope no canto do armário – o mesmo envelope que Francis havia recebido no teatro.
Recordou-se do encontro da noite passada no Solstice e acabou lembrando de uma das outras pessoas que haviam comparecido. Uma garota de traje vermelho... Len tinha certeza que já a conhecia.
Aqueles olhos profundos... O jeito que ela encarou-o de longe e evitou aproximar-se dele durante toda a noite... Ah, quem era ela?
Após alguns momentos, o rapaz lembrou-se de onde a tinha visto antes. Aquela jovem era Sunhee Valois, prima e braço-direito de um grande empresário que estava negociando com a empresa em que Len trabalhava. Ele e a garota já tinham cruzado o caminho algumas vezes, porém nunca haviam se falado.
Então ela também foi convidada ao Solstice?
Tentando pensar em outra coisa, Len pegou o envelope que estava destinado a Francis e retirou o papel que estava dentro.
“2 – S1: ‘-me’
Recompensa: MDD+CDC
Punição: P”
Curioso, Len correu até sua mochila e pegou o seu envelope para comparar os dois papéis.
“14 – S1: ‘duas’
Recompensa: BE+CDC
Punição: P”
Exatamente como tinha pensado! Os dois tinham a mesma sigla no lugar da “punição”. Mas o que aquilo significava, afinal?
Ah, Len não tinha tempo para criar teorias sobre os papéis do Solstice. Precisava ir a uma boate que ficava em outro bairro. Lá ele encontraria o tal ex-colega de trabalho que tinha negócios sujos e os dois acertariam como ele sairia do país.
Iria abrir suas asas e voar.
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