O bardo gosta de agitação e boas festas, especialmente, quando ganha bebidas de graça. Já o ladino prefere andar às escuras e presas fáceis, suas mãos são ligeiras como as de um bom ladrão devem ser e todo aquele barulho servia apenas como uma ótima distração – isso quando não acabava surtindo o efeito contrário, infelizmente bardos bêbados e empolgados são difíceis.

Certamente Dionísio estava abençoando aquela confusão, pois tinha vinho para todo o lado e as pessoas dançavam animadas com as batidas do tambor; enquanto o ladino aproximava-se sorrateiramente de uma bela pulseira dourada. Ele teria executado o furto com maestria se um certo alguém não tivesse largado o tambor, ou melhor passado para outra pessoa que continuou o ritmo, e o puxado para dançar.

— É sério isso? – indagou o ladino, bufando de raiva. – Você está me custando caro essa noite.

O outro rapaz sorria e apenas continuava movendo-se ao som da música, enquanto seu companheiro sofria para seguir os passos. Ele era ágil para escapar dos guardas reais e roubar sem ser notado, mas em matéria de dança perdia até para uma criança.

— É o festival da colheita! – retratou, enquanto erguia as mãos no mesmo instante que a cantoria aumentava. – Não se rouba em tempo de festa, os deuses podem ficar irritados.

— O único deus que está irritado comigo, certamente, é Hermes. – respondeu revirando os olhos, finalmente a música tinha parado. – É a única explicação para eu ser amaldiçoado com a sua companhia.

— Não posso aceitar que está mal-humorado em uma comemoração. Ainda mais quando eu estou tocando nela. – respondeu, voltando a pegar o instrumento musical. – Essa você conhece.

O ladino abriu um sorriso sem graça com a melodia que a tempos não ouvia, sentiu logo uma nostalgia de sua terra natal e quis voar no pescoço daquele bardo atrevido – contudo, a empolgação o havia contagiado e ele até arriscava alguns passos de dança. Bem no meio da multidão, enquanto seus pés moviam-se com a música animada suas mãos passavam sorrateiramente pelas joias e moedas, não perderia de faturar por nada naquela noite.

O bardo é a alma da festa e jamais deixa a música parar, já o ladino prefere ser discreto e possui mãos ligeiras. Mesmo sendo completamente opostos, não existe uma dupla melhor do que essa e eles nunca saíram de uma festa sem serem perseguidos pelos guardas. Não seria diferente dessa vez.

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