Seu pai tinha mesmo acertado. A senhora Kristen havia colocado pratos com uvas por todos os lados e havia também bastante vinho e petiscos. A festa era ao ar livre e havia algumas colunas e imitações de estátuas gregas, feitas de gesso. Ele não fazia ideia do que ela pretendia fazer com aquilo depois da festa.

Apesar de estarem todos animados, Reidar sentia-se estranhamente inquieto. Cecilie conversava animadamente com Kristen e Markus, seu marido. Ida dançava com um dos vizinhos e duas primas e Lars estava ocupado comendo. Entretanto, apesar de gostar de praticamente todas as pessoas presentes, ele se sentia deslocado.

Disfarçadamente, ele caminhou para longe das festividades, na direção da floresta. A mata, calma e silenciosa, parecia atrai-lo como um imã. Um dos cães pastores de Lars, que adorava seguir qualquer um que fosse fazer algum tipo de passeio, se juntou a ele.

Conforme adentrava por entre as árvores, sentiu aquela sensação de sufocamento se dissipar e relaxou, colocando as mãos nos bolsos despreocupadamente. Tod, o cão, trotava alegremente a seu lado.

Ali era tão calmo que as folhas pareciam sussurrar. O ruído suave das folhas balançadas pela brisa era quase como se delicadas vozes falassem com ele. Foi então que ele diminuiu o passo, sentindo um arrepio. Os sons pareciam cada vez mais com vozes de verdade.

“Reidar, ela está despertando...”

“A estrela maligna...”

“Ele também está despertando...”

“Aquele que governa o mundo dos mortos...”

"E aquela que comanda..."

“Cuidado, jovem Reidar...”

“É mesmo uma pena...”

“Um menino tão gentil...”

— Quem está falando? Que brincadeira sem-graça é essa, Lars? Não tem graça nenhuma – ele olhou em volta, incomodado. Tod também parecia menos despreocupado agora, a cauda agora abaixada.

“Nós somos espíritos da floresta...”

“Tome cuidado, Reidar...”

“Eles virão te buscar...”

“A estrela maligna brilha cada vez mais forte...”

Assustado, Reidar procurou ao redor, mas não havia mesmo ninguém ali. Certamente Tod o alertaria se seu dono estivesse por perto.

Sem querer ouvir mais daqueles estranhos avisos, ele se apressou para fora dali, na direção da festa. A visão dos convidados se divertindo o fez sentir instantaneamente aliviado.

— Cara – Lars o interpelou. – Você sumiu de repente, eu fiquei preocupado.

— Eu só fui dar uma volta.

— Parece que você viu um fantasma. Vem, vamos tomar uma cerveja, você está precisando relaxar.

Reidar não se opôs e deixou que o amigo o conduzisse até uma das poucas mesas que não tinha vinho. Curiosamente, Tod o seguiu e deitou a seus pés.

— Bebe aí que você está precisando. – Lars estendeu um copo.

— Obrigado – Reidar aceitou e bebeu metade de uma vez só.

Nos últimos dias, muitas coisas estranhas vinham acontecendo. Talvez fosse melhor procurar um médico. Ou um padre.

Quando Ida se aproximou, Lars contava uma piada sem-graça de seu vasto repertório.

— Ai, por favor, Lars. Chega dessas piadas horríveis – Ida revirou os olhos. – Sua cara está horrível, Rei.

— Obrigado – ele ergueu uma sobrancelha em resposta.

— Por que não vem dançar um pouco? – convidou ela.

— Estou com um pouco de dor de cabeça – ele recusou educadamente.

—De novo? Acho melhor procurar um médico.

— Como você sabe? – ele franziu o cenho.

— Sua avó me contou – ela deu de ombros.

— Aquela velha linguaruda – ele resmungou, lançando um olhar feio para Cecilie, que conversava despreocupadamente alguns metros dali.

— Deixa ele, Ida – Lars deu um cutucão na irmã. – O Rei ta muito confortável aqui tomando uma cervejinha.

— E você por acaso, agora, é babá dele, é? – Ida ergueu as sobrancelhas.

— Vocês dois são piores que eu e Trine – Reinar revirou os olhos.

— Está bem, seus dois desanimados, fiquem aí criando raízes – Ida desistiu e se afastou novamente.

— Deixa ela – Lars deu de ombros e então virou para o amigo com um olhar preocupado. – Você está mesmo passando mal?

— Só um pouco de dor de cabeça. Já vai passar.

Para tranquilizar o amigo, Reidar tomou o restante de sua cerveja e se levantou para pegar mais. Nesse momento, a silhueta de uma mulher desconhecida de longos cabelos escuros e lisos apareceu, longe da festa. Contudo, antes que ele pudesse piscar, ela já havia sumido. Tremendo, o jovem quase deixou a garrafa da bebida cair no chão. O que estava acontecendo com ele? Forçando a si mesmo a aparentar normalidade, ele voltou a sentar ao lado do amigo que, apesar de ainda lançar olhares preocupados para ele de vez em quando, não fez mais comentários sobre o assunto.

Egil e Nora, que observavam o filho, ficaram mais tranquilos ao verem-no sentar com o amigo, como normalmente fazia. Eles haviam notando quando Reinar saíra sozinho para a floresta e ficaram preocupados. Reidar era normalmente um rapaz reservado, mas não a ponto de sair de uma festa para caminhar sozinho pela floresta.

Mais tarde, quando as pessoas começaram a ir embora da festa, Ida se aproximou novamente. Reidar agora estava sozinho, comendo alguns bolinhos de, que surpresa, aveia e uva passa.

— Desculpe por ter incomodado você mais cedo – ela comentou, um pouco sem jeito.

— Está tudo bem – ele deu de ombros, sem dar importância o acontecido.

— Eu disse que o Lars era sua babá – ela deu uma risada ainda um pouco constrangida.

— Ora, como se você não tivesse dito coisas piores antes – ele se voltou para olhar diretamente para ela, sorrindo.

— Isso é verdade – ela deu de ombros e apontou para o copo que segurava. – Suco de uva. Acho que vou cortar essa fruta do cardápio pelos próximos meses.

— Acho que sua mãe acabou com todo o estoque da Noruega – Reidar comentou baixinho.

— Ela levou a ideia de homenagear Baco bem a sério – Ida deu uma risadinha.

— Acho que praticamente todos aqui saíram embriagados. – Reidar riu também.

— Mas até que foi divertida – contemporizou ela.

— Foi ótima. Mas para você qualquer evento é divertido – ele fez som de desdém. – Tenho inveja de você.

— Você e meu irmão são dois desanimados – ela fingiu estremecer. – Cruzes.

— Quando você volta para Oslo?

— Por quê? – ela lançou um olhar enviesado para ele. – Já quer se ver livre de mim?

— Não – ele olhou para o céu estrelado e depois de volta para ela. – É que sua presença até que faz falta por aqui.

— Obrigada – ela corou, pega de surpresa pela resposta.

Curiosamente, depois daquele dia, Reidar passou as duas semanas seguintes na mais completa paz. Sem sonhos estranhos, sem visões ou vultos. Era agora o primeiro dia de maio e, apesar do dia ter amanhecido frio, o fato de ter acordado mais uma vez sem nenhum pesadelo o deixava animado como se estivesse em um dia ensolarado de verão.

Graças aos suplementos, Grifo estava com o pelo cada dia mais vistoso e isso o deixava ainda mais entusiasmado. Ajeitando o gorro cinza para proteger as orelhas do vento frio que soprava, ele se aproximou do animal e o coçou bem no meio das costas, do jeito que o bichinho gostava.

O festival seria dali a 20 dias e ele estava esperançoso de que conseguiria um bom resultado. Não foi surpresa ver Lars chegar, como fazia quase toda manhã. Ida já havia voltado para a capital e o amigo vinha sozinho. Por algum motivo, que ele não soube explicar, ele sentia um misto de alívio e falta dela.

— O bicho está ficando bonito – Lars se apoiou no cercado. – Até eu que não entendo nada de coelhos estou impressionado.

— Ele é o melhor de todos – Reidar retrucou, convencido.

— Claro, senhor modesto. Mas espere até ver a minha magnífica abóbora, você ficará embasbacado com tamanha grandiosidade.

— Lógico, dará uma bela lanterna de dia das bruxas – Reidar riu.

— E olha quem fala, com aquele coelhinho de meia tigela, que serve no máximo pra fazer uma sopa.

Normalmente, Reidar riria da implicância do amigo e ambos continuariam naquela guerra até um deles se cansar ou outro assunto mais interessante surgir. No entanto, naquele momento, uma raiva inexplicável tomou conta dele, que andou até o amigo e o segurou pela gola da camisa com força.

— Ei, ei, Reidar, que brincadeira idiota é essa? – Lars ergueu ambas as mãos, inicialmente rindo, mas seus lábios logo se estreitaram ao ver a expressão estranha do rapaz.

Uma aura de violência emanava de Reidar e Lars não soube como reagir diante daquilo. Rei era normalmente rabugento, fechado e até mesmo um pouco esnobe, mas nunca violento. E aquela faceta desconhecida dele o assustou.

— O que é isso, cara? – ele tentou se soltar, mas as mãos de Reidar pareciam verdadeiras garras. – Me solta, Reidar. Reidar!

Por um instante, os olhos de Reidar brilharam amarelos, o que fez Lars sentir um arrepio na espinha que o fez, inclusive, parar de tentar se libertar. Um instante depois, Reidar piscou e eles estavam azuis novamente. Ele olhava para o amigo com confusão estampada neles, como se tivesse finalmente voltado a si.

— Mas que droga, cara! – Lars finalmente conseguiu empurrá-lo para longe. – O que deu em você?

— Eu... eu não sei... – Reidar olhava para as próprias mãos, chocado.

Parte dele sabia o que estava acontecendo, mas era como se estivesse olhando de muito longe, sem poder se impedir. E a outra parte... A outra parte era a que estava agindo e parecia muito satisfeita com aquilo. Aquela parte sombria... O que era aquilo?