Solstício de Verão
2 Dois sóis
Outra vez aquele sonho. Reidar acordou sentindo todo o corpo tomado por uma estranha sensação de entorpecimento.
O jovem foi até o banheiro e lavou o rosto na tentativa de se livrar daquele incômodo. Quando olhou no espelho, ainda sonolento, o reflexo o fez dar um salto para trás. Seus olhos brilhavam, amarelos como dois sóis. Incrédulo, Reidar os esfregou com certo desespero e, ao abri-los novamente, percebeu que estavam no mesmo tom de azul de sempre. Ainda abalado, ele recuou e saiu na direção da cozinha. Que ilusão de ótica maluca era aquela?
Era ainda muito cedo e ninguém havia levantado. Enquanto tentava forçar a mente para se lembrar do sonho, Reidar preparou o café e colocou na garrafa térmica para que não esfriasse até os outros descerem. Colocou alguns waffles no forno elétrico e colocou na mesa a lata de makrell, a geléia de amora e o queijo. Enquanto esperava, abriu a porta da cozinha e respirou o ar fresco da fazenda.
— Acordou cedo também? – Egil apareceu de repente do lado de fora.
— Credo, pai! Que susto... – Reidar resmungou, levando a mão ao coração.
— Está com medo de fantasma? Estamos no meio do dia – Egil riu e entrou. – Estou cheio de fome.
— E por que não preparou a comida? – indagou o filho.
— Porque meu café não é tão bom quanto o de vocês.
— O pior é que isso é verdade – Reidar meneou a cabeça – E a inspiração?
— Agora faltam apenas os retoques finais – Egil respondeu, estufando o peito.
— Você diz isso desde o início do ano – Reidar implicou.
— Estamos em abril ainda – o pai deu de ombros, enquanto retirava os waffles prontos do forno. – Nossa, essa marca nova de waffles parece ótima, olha que cheiro delicioso.
— Olha ele mudando de assunto – Reidar resmungou. – Mas parecem mesmo ótimos.
Nesse momento, Cecilie e Nora chegaram e os quatro tomaram café, não sem antes a avó implicar novamente com o comprimento dos cabelos do neto. No momento em que ela terminava de falar, um sorriso predador surgiu em seu rosto enrugado.
— Está vendo! – ela estendeu o longo fio dourado na direção dele – Está caindo cabelo seu até na comida.
Reidar abriu a boca para rebater, no entanto, a visão do fio o fez parar como se de repente sua mente tivesse sido sugada para longe. Aquele simples fio, que parecia flutuar, aquilo trazia uma lembrança importante. Ele fechou os olhos e apertou a ponte do nariz.
— Reidar, meu neto, era só uma brincadeira – Cecilie falou, preocupada. – Não precisa ficar assim.
Entretanto, não era nada disso que o incomodava. Era o sonho. A simples visão daquele inocente fio de cabelo o fez ver tudo escuro e, ao fundo, brilhando como pedras preciosas, diversas linhas brancas se entrelaçavam. Mas, de onde elas vinham? Antes que pudesse descobrir, a estranha cena se desfez e ele voltou à cozinha da família, com uma dor de cabeça monstruosa lhe roubando a capacidade de raciocinar.
— Desculpa gente, não estou me sentindo bem – ele se ergueu e foi até a estante na sala onde guardavam remédio para dor.
— Está tudo bem? – Nora perguntou, parada atrás dele.
— Uma dor de cabeça de repente.
Reidar não quis preocupar a mãe, falando sobre a visão. A verdade é que ele mesmo não sabia o que pensar. Será que estava ficando louco?
— Eu vou lá fora dar uma olhada nos coelhos. Daqui a pouco o remédio faz efeito.
A despeito das palavras do filho, Nora colocou a mão em sua testa e, ignorando seus protestos, examinou as pupilas, arregalando as pálpebras dele sem cerimônia.
— Parece estar normal. Mas se sentir algo, vai direto pro hospital, está bem?
— Sim, mãe – ele revirou os olhos. – Agora vai logo, senão vai se atrasar.
— Eu vou indo, mas já sabe. Qualquer coisa, direto pro hospital.
Os coelhos já o esperavam na Toca, impacientes. Depois da comida e da água, os animais saíram rapidamente. Reidar sabia que eles queriam aproveitar que o tempo estava voltando a esquentar, com a proximidade do verão.
Um pássaro asa-de-cera piou ali perto, pousado em um dos galhos da bétula que ficava ao lado da Toca e Reidar o admirou por um instante. Talvez tivesse filhotes para cuidar em seu ninho.
Meia hora mais tarde, com a dor já controlada, o jovem ouviu outro piado característico. Era Lars que assobiava, anunciando sua aproximação. E trazia companhia.
— Ida! – Reidar saudou a irmã do amigo. – Que bom que está por aqui.
— Vim para a festa da mamãe, amanhã – a moça acenou de volta. – Está cada dia mais entendido de coelhos, não é?
— Já sou quase um expert – ele respondeu, presunçoso.
— Ah, não exagera, Rei – Lars riu.
— Deixa ele pensar que é bom em alguma coisa – Ida riu também.
Reidar olhou de cara feia para a amiga. Ela era bem parecida com o irmão, loira e com os mesmos olhos azuis, entretanto, os traços que favoreciam o irmão, não colaboraram para torná-la uma garota bonita. No entanto, ela era muito espirituosa e inteligente, além de se vestir sempre muito bem. Por isso, ela dificilmente passava muito tempo solteira.
— E o namorado, não veio? – Reidar perguntou.
— Terminamos. Por enquanto estou solta na pista. Mas por quê? Está interessado?
— Não seja ridícula – ele fez uma careta. – Além do mais, você é quase minha irmã.
— Era só brincadeira – ela balançou a mão, em um gesto de pouco caso. – Você leva tudo muito a sério.
— Não levo, não.
— Leva sim! – os irmãos responderam em uníssono.
— Ah, vão pra fazenda de vocês caçar o que fazer – ele resmungou. – Eu tenho muito trabalho por aqui.
— Está bem, senhor trabalhador. – Lars se afastou, seguido pela irmã. – A festa da mamãe começa 18 horas amanhã, esperamos todos vocês lá.
— Pode deixar. – ele acenou para os dois.
Reidar foi ate Grifo e o levantou no ar, olhando bem em seus olhos. O coelho era muito apegado ao dono e todos sempre diziam que ele o mimava demais, mesmo para um animal premiado. Para Reidar, no entanto, aquilo era mais do que natural, já que ele o comprara ainda filhote para atuar como mais um reprodutor do plantel e tivera com ele, desde o primeiro momento, um forte elo.
— Vamos vencer esse ano de novo, Grifo. E os seus filhotes serão verdadeiros sucessos.
Na hora do almoço, Cecilie comentou sobre o aniversário da vizinha com animação.
— Kristen sempre dá otimas festas. Ela me disse que esse ano ia ficar na Grécia Antiga.
— Será que vai ter muito vinho, em homenagem a Baco? – Egil comentou, erguendo uma sobrancelha.
— Não faço ideia, mas sei que até Ida veio para participar.
— E será que esse ano você vai dar uma chance pra menina?
— Que chance o que, Vó? – Reidar quase engasgou com o pedaço de peixe.
— A menina sempre gostou de você, qualquer um vê – Egil também se pronunciou.
— Isso é ridículo. E eu só veja a Ida como amiga – ele resmungou, muito vermelho.
— Está bem, você que sabe – Cecilie deu de ombros.
Em seguida, a senhora mudou de assunto, falando sobre as provisões que precisavam comprar para a cozinha. Ela tinha medo de que o neto tivesse outra crise de enxaqueca como tivera de manhã.
À noite, depois de colocar os coelhos dentro do abrigo, Reidar ainda ficou um tempo do lado de fora, olhando as estrelas. A floresta, iluminada por aquela luz celestial, parecia encantada.
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