Sollua

9 Capítulo 8 - Espíritos I


“Não vou esperar, que o mundo irá mudar. Tão depressa assim, a luz dominar, e as trevas acabar... Eu vou lutar, acreditar, até o fim. Vou caminhar, e te buscar, até te encontrar...” – Pelo Mundo (CDZ)

O sol já brilhava no céu, e o reflexo trazia ao jardim uma aparência mais agradável que no dia anterior. Saori estava sentada, e seu longo vestido espalhado no chão, formando um círculo. Ao seu lado, dormia um espírito, em forma de um leão. Era um tanto que transparente, grande. Sua juba era longa e de coloração alaranjada. Saori acariciava sua juba, com um sorriso no rosto. Ayra estava no jardim, cuidando de algumas flores, e ficava perplexa ao ver que não conseguia enxergar o animal, visto que cada espírito só era visível ao seu dono. Saori nunca imaginara que em seu ser havia algo forte e de grande liderança, como um leão. De acordo com o que Salazar falara anos antes, cada espírito tinha sua forma de acordo com a personalidade e o subconsciente de deus donos. Ayra aproximou-se de Saori, tentando tocar no mesmo local que Saori tocava, mesmo que não conseguisse, como se sua mão “atravessasse o invisível”.

- Que coisa complicada... Quero ver minha raposa logo... – comentou Ayra, levantando-se.

- Não se preocupe vocês têm o dia todo pela frente! – disse Saori, rindo.

Ayra voltou para perto das rosas, regando-as.

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Thaty, após tomar um pouco de café e comer alguns biscoitos, logo saiu da cozinha, andando pelo corredor até estar em frente ao seu quarto. Levemente, tocou a maçaneta da porta, e antes mesmo que pudesse abri-la, começou a sentir tonturas, uma taquicardia a atingiu e logo tudo escureceu. Ela desmaiou.

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Maya ainda não havia saído do seu quarto, tampouco se levantado de sua cama. Ainda estava observando os peixes, que incansavelmente, moviam-se no aquário. Por um último segundo, encarou as figuras ao redor de seu quarto e levantou-se. Foi até o closet, mas temia “afogar-se” na banheira, apenas lavando o rosto e dirigindo-se ao seu quarto, vestindo-se. Saiu rapidamente do quarto, e, sem olhar para o chão, tropeçou em algo que até então não sabia o que era. Resmungou alto e virou-se para ver em que tinha tropeçado. Deparou-se com Thaty, que estava desmaiada. Rapidamente levantou-se e aproximou-se de Thaty. Gritou por ajuda, mas parecia que ninguém a escutara. Thaty parecia estar em um sono profundo, com belos sonhos, por sua expressão calma.

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~ POV Thaty ~

Abri meus olhos lentamente, e de inicio apenas enxerguei um espaço branco. Demorou pouco tempo, e me vi dentro de uma floresta. A floresta era cheia de árvores altas, com raízes espalhadas pelo chão e poucos arbustos. Uma floresta típica de se encontrar um lobo. Estava escuro, e se via uma névoa ao redor dela. Lembrei-me de algum filme de terror que já assisti, mas não me lembro qual era... Ouvi uivos, mas não encontrei lobo ou cão algum. Após alguns minutos, algo pulou em cima de mim, mas não pude ver o que era apenas caí. Virei-me depressa, mas não vi nada. “Que brincadeira chata é essa?” — eu gritava. Algo me derrubou de novo, e de novo. Levantei-me e gritei:

- Quero me acordar!

- Por que a pressa? Está divertido – ouvi alguém ou algo dizer. Virei de um lado para o outro, mas eu nada via.

Mais uma vez me derrubaram no chão, e desta vez eu agarrei algo, que era peludo, visto que o agarrei pela calda. Com um olhar mortal, a criatura se virou para mim, revelando-se um lobo cinzento, de olhos amarelados como âmbar. Era igual ao esculpido no meu quarto. Eu soltei sua calda, temendo ser mordida. Ele virou-se, olhou-me com seus olhos e sem ao menos movimentar sua boca, disse:

- Então, Thaty, prazer em conhecer-lhe. Chame-me de Akira.

Fiquei boquiaberta. Em seu redor, brilhava uma aura acinzentada, e me admirei com a beleza de seus olhos. Levantei-me, limpei minha roupa e me ajoelhei. Ele encarou-me, virou de costas e saiu correndo. Tentei o seguir, mas tudo voltou a ficar branco, e ouvi, ao longe, uma voz me chamando. A voz foi se aproximando, e logo abri meus olhos com o coração aos pulos. Virei-me, e logo vi Maya, que estava com um leque, ventilando meu rosto.

~ POV Thaty ~

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- Você está bem? Onde estava? – questionou Maya – responda-me! – continuou, chacoalhando Thaty.

- Calma garota... Eu conheci meu espírito-guia, apenas. — respondeu Thaty.

Ela estava com a cabeça doída, visto que a havia batido no chão. Levantou-se com o corpo dolorido, e antes que pudesse dar um só passo, Maya voltou a questionar:

- Como era ele? Era macho ou fêmea? Cor, olhos, conte-me tudo!

- Você não acha que isso é de meu interesse? – perguntou Thaty, já cansada – vou descansar...

- Ta, depois me conta tudo amiga. – respondeu Maya, indo à cozinha.

- Amiga? – perguntou Thaty, mesmo que Maya já houvesse entrado na cozinha – eu nunca tive amigos...

Thaty entrou em seu quarto, lançando se na cama e sentindo algo peludo ao seu redor. Virou-se, e viu Akira ao seu lado.

Ninguém me vê, exceto você, Thaty. – disse Akira

Ainda bem que está aqui, estou confusa... – comentou Thaty, virando-se para o lado e dormindo.

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Maya sentou-se à mesa e logo comeu alguns pães. Meme a observava, como que estivesse prestes a perguntar algo. Maya ignorou o olhar da mulher, continuando a comer. Meme aproximou-se de Maya, e logo questionou:

- Thaty já encontrou seu espírito?

- Sim... O Akira... Pena que não o vejo... – respondeu Maya, tomando um gole do leite.

- Pena? Você não acha bom que ninguém veja seu golfinho? – perguntou Meme.

- Ele é só meu mesmo... – comentou Maya – mas sou malvada, e não quero ninguém bisbilhotando meu espírito ao mesmo tempo em que bisbilhoto o dos outros – continuou Maya, rindo junto com Meme.

- Tome seu café e vá descansar um pouco, hoje o seu dia será cheio... – comentou Meme, voltando ao fogão.

Maya terminou e foi ao corredor, entrando em seu quarto e indo direto ao closet. Ela entrou na banheira, apesar da “fobia”.

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O jardim já não estava tão claro quanto antes, visto que o céu começou a nublar. Axal e Ayra cuidavam de flores, e distraidamente cantarolavam canções desconhecidas. Ayra e Axal eram muito próximas, e quando cantarolavam a mesma música começavam a cantá-la. Em um leve momento, Axal teve a impressão de estar sendo observada, mesmo que Ayra estivesse ao seu lado. Havia mais alguém, mas ela não via ninguém. Levantou-se e foi até um arbusto que, atrás, havia uma pequena “poça”, mais parecida com um rio, mas pequeno. Havia peixes nela, mas além dos peixes, outra criatura bela nadava: um cisne. Ayra não percebeu quando sua amiga passou pelos arbustos em direção ao pequeno lago, e logo começou a cantarolar mais uma canção. Axal estendeu a mão e tocou levemente o cisne, que a encarou com uma expressão de confiança.

Axal – dizia a ave, sem mover o bico. Ela tinha uma voz suave e feminina, revelando-se fêmea. Era um cisne-branco, com uma aura branca cobrindo-a.

Sou eu... Mas quem é você? – perguntou Axal, por sua mente, contatando-se com a ave.

Sou Etzel, o cisne-branco que há em você! – respondeu a ave, chacoalhando-se, fazendo com que seu brilho apenas aumentasse com as gotículas de água que foram lançadas para cima.

Cisne-branco? – questionou Axal, com um tom sarcástico.

Sim... Muitas pessoas lhe vêem como uma “nerd” ou desajeitada, mas você é uma das poucas pessoas graciosas por dentro que se vê no mundo. – respondeu Etzel, encarando Axal novamente, com seus olhos rosados brilhantes.

Obrigada, Etzel – respondeu Axal, virando-se e deparando-se com Ayra, que a encarava confusa.

- Você está há minutos aí como uma mímica fazendo caras e bocas pros peixes... – comentou Ayra, com uma expressão confusa, fazendo Axal rir.

- Conheci Etzel, meu espírito-guia. – respondeu Axal, rindo mais uma vez

- O tal cisne? Da hora a vida, mas não ganhei nada com isso... Vamos voltar ao trabalho, quero terminar antes do almoço... Todos estão descansando, menos nós! – exclamou Ayra, voltando à colher algumas flores.

- Calma... Só falta colher algumas flores, chata. – disse Axal, e ambas colheram mais algumas flores.

Após colher o necessário, Axal e Ayra voltaram ao corredor, indo até a sala de reuniões e pondo as flores em vasos que estavam espalhados pela sala.

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A água estava mais quente que o normal, mas Maya não se importava. Passou grande parte da manhã na banheira, e logo saiu, vestindo-se com um dos uniformes e indo até a cozinha. Entrou rapidamente, e viu Meme pondo em uma bandeja algo que aparentava ser bem temperado. Maya aproximou-se, e Meme a ofereceu um pouco da comida. Maya serviu-se, pondo um pouco no prato e sentando-se à mesa. Após ela sentar-se, Saori, Axal e Ayra entravam na cozinha, servindo-se e sentando-se em outras mesas. Nahomi entrou rapidamente, sentando-se ao lado de Saori e cochichando algo.

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~ POV Nahomi ~

Eu estava verificando alguns setores no prédio pelos computadores da sala de reuniões quando senti algo me tocando. Imaginei que seria Chad, já que ele vive me observando, mas quando me virei, eu a vi: um urso-polar enorme, com pelagens brancas, olhos negros e uma aura lilás a envolvendo. Não acreditei, mas logo me lembrei que era dia de lua cheia, e que Saori já avistara algo parecido. Assim como todos os espíritos, ela era meio transparente... Ela levantou-se com uma forma monstruosa, e logo me disse:

Olá, grande campeã

Como? Grande campeã? – questionei

Sim, pois só você é tão corajosa de seguir Robert e Saori sem nem ao menos saber o que era, além de ter tido a possibilidade de recusar-se, já que sua cidade não foi bombardeada naqueles dias, só você sabe o que é a verdadeira forma de lidar com máquinas e você é a que mais trabalha. Quer mais motivos? – explicou. Ela tinha uma voz feminina, um pouco forte e fracamente rouca, apesar de ser uma voz dócil e calma.

Bom... Se é assim... Mas afinal, que é você? – perguntei para ela

Sou Yuna, seu espírito-guia. – respondeu

É um prazer, Yuna. – comentei, e ela logo desapareceu como se estivesse entrando em mim. Corri até a cozinha.

~ POV Nahomi ~

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Saori encarou-a surpresa, e logo comentou:

- Yuna? Que nome legal...

- Você não foi a única – disse Thaty, pondo uma uva na boca e a mastigando.

Saori e Nahomi a encararam, e logo Axal concordou com Thaty, e ambas contaram que haviam conhecido seus espíritos, Akira e Etzel, e logo Robert entrou na cozinha.

- Estou contente por vocês... Já conheci Saphyra, mas, como Salazar me dissera, conheci-a antes de todos, em um dia comum. – comentou Robert

- Assim me sinto inútil... – disse Maya, levantando-se.

- Você tem o dia inteiro, Maya, não se desespere! – disse Ayra – eu também não conheci meu bichinho, mas não estou tão desesperada assim... – continuou.

Todos riram inclusive Maya, e logo se calaram. Chad entrou na cozinha, sentando-se em uma cadeira.