Sollua
6 Capítulo 5 - Passado Confuso
Notas iniciais
“Às vezes, quando estamos sós em nossos quartos, pensamos se realmente é real tudo o que vivemos. Pena que é.” – O Livro da Liberdade, pág. 140 (Sollua)
A luz do luar brilhava em meio à imensidão azul, um tanto que negra, do céu. Robert observava atento a ela, encostado nos umbrais dourados da janela enorme, não mudando sua direção de olhar nem mesmo para as lindas estrelas visíveis, graças a pouca iluminação de seu quarto. Apesar da guerra, algumas raras noites viam-se o céu e toda sua beleza, mesmo que coberto por nuvens, fumaça e mísseis bem visíveis a mover-se no céu. Lentamente, Saori abriu a porta do quarto, fazendo Robert voltar sua atenção para ela e rapidamente voltar a observar o céu. Saori aproximou-se de Robert, encostando-se nos umbrais junto a ele.
- Pensei que já estivesse dormindo... – comentou Saori enquanto observava atentamente a lua.
- Lua minguante... Em breve os espíritos estarão prontos para revelar-se... – comentou Robert, ignorando o outro comentário de sua irmã.
- Faz algum tempo que Salazar falou conosco... Creio que a Lua Prometida está prestes a surgir. – disse Saori, virando-se para Robert.
- Sim... E agora que já consegui convocar os outros da profecia, creio que finalmente a Lua surgirá. Espero que seja a próxima luz cheia, não quero atrasar muito. – disse Robert – agora vá descansar. Não só eu, mas você também teve um dia cansativo.
Saori apenas assentiu, e logo saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Robert logo se deitou. Sua cama era grande e espaçosa, e por estar noite e mal iluminado, seu quarto era praticamente impossível de ser visualizado, a não serem duas esferas azuis brilhosas que ficavam acima da cama, e, por iluminar seu redor, mostrava uma figura felina, que pouco podia ser identificada.
-----------------------------------------------
Um vento gelado entrou pela janela entreaberta do quarto de Maya, que logo acordou-se. O céu estava nublado, e algumas gotículas de água entravam e esfriavam ainda mais o ambiente. Maya levantou-se, ainda de pijama, e fechou a janela. Já não estava com tanto sono, e comparada ao outro dia, estava mais alegre. Mal podia recordar-se de sua família, o que era bom, por um lado. Entrou rapidamente no closet de seu quarto, encarando a imagem que via no espelho.
- Por que será que sempre me imagino com 20 anos? – questionou-se – quero ser mais velha... Odeio ser pequena...
Suspirou fundo e logo ligou o chuveiro da banheira, desvestindo-se e se lançando na banheira.
- Aqui é muito luxuoso... Quantos bilhões esse cara investiu? — questionou-se novamente, referindo-se a Robert.
Tomou um banho rápido, vestindo-se com uma das roupas que ficavam no guarda-roupa e saindo do quarto pela porta. Dirigiu-se para o fim do corredor, como Saori a dissera, e logo entrou na cozinha. Todos estavam lá, Chad, Nahomi, Thaty, Ayra, Axal, Saori, Robert e uma senhora. Logo Maya percebeu que acordara tarde, mesmo que o despertador tenha alarmado cinco vezes em seu quarto.
- Vejo que você tem sono de pedra... – comentou Robert em um tom sarcástico.
- Se for pra eu morar aqui me respeita, meu... – disse Maya, sentando-se à mesa em que Thaty estava sentada.
Todos abafaram risadas, não só pelo modo que a garota falara, mas pela dificuldade em pegar uma das frutas que estavam postas sobre a fruteira.
- Vejo que todos estão aqui... – começou a falar Robert – posso ter aparentado ser chato, ontem. Mas, assim como vocês, perdi minha família. Isso foi há algumas décadas atrás, mas isso não importa. Minha intenção ao batizar esta organização de Spirit não foi exatamente por todos serem “rebeldes” – disse, encarando Chad, que apenas virou o olhar para a direita, onde estavam sentadas Maya e Thaty – mas por realmente existirem “espíritos animais”. Não me levem à mal, pois quando ouvi isso de Salazar fui pior que vocês, não contive risadas... Cada um dos escolhidos da profecia tem uma alma protetora. Esta alma é alguém que, naturalmente, morreu com alguma culpa, e como castigo, foi sentenciado a proteger o escolhido ao qual lhe foi dada a ordem. Ele tem uma forma animal, mas não me perguntem o porquê. Acho que vocês nunca estudaram toda a profecia... Eu a estudei em um curso de história que fiz quando pequeno, na época em que os livros não eram revistados pelas forças políticas do mundo. Fiquei interessado, apresentei a minha irmã e nós dois sempre “brincávamos de profecia”... Quem dera fosse mera brincadeira! – Robert deu uma pausa, encarando Saori, que se levantou da mesa em que estavam ela e Nahomi, e logo se pôs ao lado de Robert.
- Sim... Nós brincávamos de escolhidos... Ainda não conhecia Nahomi na época, e era uma simples menina de 8 anos... Os anos se passaram e eu já tinha doze anos. Bob tinha dezesseis, e vivia lendo uma das obras mais antigas do mundo: O Livro da Liberdade, de autor desconhecido. Estávamos observando o céu, era noite de lua cheia, e um senhor apareceu em nosso jardim. Eu quase gritei, mas o senhor parecia ser dócil, de aparência oriental e olhos puxados... De nossa origem, para ser exata – sorriu Saori, virando-se para Nahomi e prosseguindo – Ele nos contou que éramos escolhidos. Meus olhos brilhavam, mas Bob mal acreditava, estava “chorando de rir”. O homem nos mostrou um gato, que estava bem atrás dele. O gato falou! Nossa ta parecendo bruxaria, mas não era... O gato era branco, lindo, com os olhos alaranjados. Ele encarou-nos e disse que em breve a Luz do Luar Prometido viria até nós. Não entendemos, mas logo o senhor, Salazar, nos explicou. Logo assentimos, no momento em que ele disse que precisaríamos encontrar os outros escolhidos. Ele nos disse o dia e hora de começar a procurá-los, e disse o nome, sexo e idade. Medidas, tamanho... Afinal, como acham que fizemos roupas do tamanho de cada um? O homem disse que Robert seria o líder de uma organização, e logo desapareceu. Eu e Bob entramos em casa, e nossos pais haviam desaparecido. Fomos criados, por todo esse tempo, por nossa tia, Meme. – disse, apontando para a senhora que estava cozinhando.
- E agora estamos aqui. Será que agora me compreendem? Tudo o que fiz foi por vocês, escolhidos. – disse Robert, sentando-se em uma das cadeiras.
- Ta parecendo filme de fantasia... – comentou Maya com uma fruta na boca.
- Você é esfomeada, Maya – comentou Thaty, rindo da garota, que apenas acompanhou-a.
- Você quer dizer que temos ou teremos guardiões em forma de animais e que teremos super-poderes? – questionou Chad com um tom sarcástico.
- Super-poderes não, guardiões sim. O mundo é confuso, mas não exagere, chega de livros de fantasia e ficção, não acha Chad? – disse Robert, dando risadas.
Todos riram, e Meme serviu pratos diferentes para cada um deles. Rapidamente Ayra terminou de comer, pedindo mais um pouco para Meme e sendo repreendida por Axal. Todos riram, e logo Saori saiu da cozinha, sendo seguida por Nahomi. Elas passaram pelo corredor extenso que ficavam os quartos, atravessaram a sala de reuniões e logo chegaram ao corredor onde Saori e Robert dormiam.
- Saori, seu irmão roubou um banco? – perguntou Nahomi, rindo.
- Não, sua biruta, ele achou um tesouro no jardim – brincou Saori, e ambas riram alto.
- Primeira vez que vejo você tão séria assim... – comentou Nahomi, enquanto atravessavam o corredor, entrando em um jardim belo, cheio de flores e plantações.
- Se eu risse iriam pensar que estava mentindo ou contando piada. Você me conhece, os outros não. – disse Ayra, coletando algumas flores – isso vai ser para a cozinha... Só mesas e comida não são o suficiente, não acha?
- Nunca... Vamos. – disse Nahomi, e ambas voltaram pelo caminho que vieram.
-----------------------------------------------
Logo, Chad terminou seu café, saindo da cozinha por uma pequena porta que ficava logo após as várias mesas espalhadas pela cozinha. Abriu lentamente, e logo avistou uma longa campina, repleta de homens armados, que pelo que aparentava, estavam treinando. Chad ficou parado em frente à porta que saíra. Não notou quando Robert entrou na campina, e assustou-se quando o mesmo rompeu o silêncio:
- Que bela campina, não acha? – questionou Robert.
- Seria se não fosse por você estar causando mais uma guerra, desta vez nos envolvendo. – respondeu Chad, sem tirar o olhar dos homens, que atiravam em alvos com as mais diversas armas.
- Acha mesmo que estou causando uma guerra? – interrogou Robert, virando-se para Chad.
- O que mais seria? Homens com armas treinando, aqui ta parecendo um forte do Sul ou Norte. – respondeu Chad, ainda não virando-se para Robert.
- Já que pensa assim... – disse Robert – não obrigo ninguém a ficar aqui. Caso queria sair, adentre na floresta que está depois desta campina e fuja. Depois não volte choramingando como um bebê que perdeu o leite – disse Robert, caminhando até os homens e rindo.
Chad observou Robert por um momento, que conversava algo com os homens que não era possível ser ouvido. Apesar de Chad discordar de várias coisas que Robert propôs, não tinha para onde ir. Caso fosse para Roksgove, não encontraria nada, senão sua mãe morta. Caso fosse para as tropas do Sul, encontraria seu pai, mas provavelmente seria ignorado por ele, já que o mesmo casou-se novamente, e sempre fazia de conta que não tinha outro filho, além de discordar com toda e qualquer guerra.
Lentamente a porta foi aberta, e atrás de Chad estava Saori. Ela observou atentamente enquanto Robert voltava, e disse:
- Chad. Caso queira fugir, Robert já lhe disse como. Mas saiba que Salazar te perseguirá por onde você for. – dizendo isto, Saori entrou novamente na cozinha, onde Meme cozinhava e todas as garotas se deliciavam com diversos doces que Meme fizera mais cedo.
Robert voltou para perto de Chad, e, observando o céu, disse:
- Espero que seja nessa Lua Cheia...
Chad apenas voltou para a cozinha, sendo seguido por Robert. Ayra, observando os dois, comentou para Axal:
- Eles parecem não se darem bem... Gostaria de fazer brincadeiras com um deles, mas tenho medo das armas que os homens têm...
Axal apenas riu, colocando um brigadeiro na boca e falando mais algo para Ayra.
Fale com o autor