Com cuidado tentei me esconder detrás do poste, mas o destino não queria que eu desse a volta por cima, que eu tivesse a chance de não precisar ouvir as palavras duras de alguém que eu tanto amava e que me deixou em pedaços. Pois antes que eu virasse e seguisse de volta pelo caminho que alguns segundos atrás eu tinha trilhado, ele me viu, suas sobrancelhas se juntaram em descontentamento, talvez por ter sido descoberto ou por arrependimento? Não consegui identificar sua expressão, parada, os olhos fixos nele, eu quis sorrir indiferente à cena, mas meus lábios não me obedeceram, assim como meus olhos que estavam prestes a se desmanchar em lágrimas. Ele se desvencilhou do abraço sussurrando algo para sua acompanhante e veio até mim, talvez dissesse que aquilo tudo não passava de um mal entendido, mas as palavras que saíram de seus lábios despedaçaram os últimos resquícios de esperança que me restava.


— Desculpe deixar que você visse isso... Mas a verdade é que eu já não gostava mais de você, e por minha covardia fui adiando os dias pra lhe contar. Espero que você entenda. — revelou sem olhar em meus olhos, prendi o choro, eu ainda o amava... Fiquei tentada a sussurrar.

— Então... — parei ao perceber minha voz trêmula e continuei ao engolir em seco. —Então porque simplesmente não terminou comigo? Continuou fingindo me amar mesmo tendo outra. Por quê?— consegui dizer apertando com força a alça da bolsa.

— Eu tive pena, você sempre foi muito sentimental, iria fazer um escândalo, e eu acabaria me sentindo mais culpado, e eu já sinto culpa o suficiente. — meus dedos coçaram para acertar um tapa em seu rosto macio e imaculado, mas mantive a decência. Suspirei apertando o nariz com as pontas dos dedos. Eu não iria chorar, não iria.

— Pena... Devia ter pena de si mesmo. E pensar que eu amei você sem realmente te conhecer, pena eu é que tenho dela. — encarei a garota sentada de costas para nós, concentrada no telefone, tão desligada do que acontecia por suas costas. Mal sabia com quem estava se envolvendo, meus pés se moveram preste a ir até ela, mas ele me segurou pressionando com força seus dedos largos em volta do meu braço — Me solte, ela precisa saber quem é você. Saber que no início é um cara maravilhoso, enchendo-a de presentes e levando a jantares românticos, mas no fim... No fim não tem a menor vergonha na cara de terminar um relacionamento antes de seguir para outro. — despejei enraivecida o olhando nos olhos negros... E naquele momento eu soube que não se pode confiar em caras de olhos negros. Não existe mistério, apenas mentiras escondidas no infinito daquela escuridão.

Ele me soltou, sorriu de leve sem me encarar e então aspirando o ar me fitou, vi sinceridade em seus olhos, e então disse lentamente:

— Eu... Realmente amo ela, Clarice. — encarei o chão, sem voz me virei e segui meu caminho de volta, deixando que o muro com folhas verdinhas ficasse entre nós, entre nossa linda historia de amor que de infelizmente chegou ao fim, e então chorei.

♥♥♥

Aproveitei que era sexta e me tranquei no quarto, tentando esquecer ou simplesmente fingir um sorriso feliz para dar aos olhares piedosos quando soubessem que o casal mais invejado tinha chegado ao fim, mas ficar enfurnada naquele antro de lembranças só me fez ficar mais depressiva. Em um ato estúpido eu encarava meu celular pelo menos umas cinco vezes no dia, e a noite com a cabeça apoiada no travesseiro, eu encarava a lista de chamadas em busca do nome dele... Nada. Nem sequer um pedido de esculpa, nem um “foi bom encanto durou, Clarice, espero que você encontre alguém um dia.”

Ele simplesmente chegou à última página sem ler o livro todo. E eu fiquei perdida nas páginas fechadas e em branco.

Por fim quando o domingo chegou, enxuguei as poucas lágrimas que restaram e abri o guarda-roupa exibindo todos os presentes caros e simbólicos que Gabriel tinha me dado.

Várias flores de plástico, ele jamais me deu flores verdadeiras. Dizia que elas morreriam e nada sobraria, mas as de plástico eram diferentes, elas seriam como nosso amor... Imortais. Arranquei as que eu tinha pendurado na porta junto com as que estavam em uma caixa preta de bolinhas brancas e as amassei, rasguei... Destruí o nosso amor que era falso como elas, e depois fiz o mesmo com as fotos. Fotos lindas, exibindo uma felicidade fingida, quer dizer, da parte dele, pois da minha era real. Joguei na caixa todo o lixo restante.

Por último encarei o anel dourado com uma pedra de safira na forma de um triangulo, ele me deu quando fizemos três meses de namoro, ainda me lembro das palavras dele na calçada da minha casa.

— Nunca o tire minha descabelada, quero que todos os caras olhem essa pedra e saibam que você não está disponível. — e após isso sorriu com seus dentes perfeitos. Depois com sua inabalável postura de um rei que venceu a guerra me deu as costas seguindo até seu suntuoso carro importado azul. Encarei seus cabelos cor de terra molhada, curtos demais para afundar as mãos, brilhando sobre a luz do poste, era meia noite, e ele tinha ido a minha casa se despedir de mim, antes de ir com o pai para o Canadá.

Minha descabelada... Ele sempre me chamava assim, de início eu odiava isso, depois eu suportei por gostar dele.

Balançando a cabeça ao perceber que estava voltando a ficar sentimental tirei o anel do dedo e o guardei no bolso da calça jeans, iria vendê-lo, e por fim, bati a poeira das mãos e sai do quarto.

Passei pelo de Wenda, a porta estava aberta e ela girava divinamente como uma pena ao vento, seguindo o som de uma música suave, eu sempre gostei de música clássica. Bati na porta com a mão livre, ela me encarou e sorriu.

— Ah, finalmente resolveu largar aquele traste? — sorri de leve olhando a caixa em minha mão. — Já estava na hora. — ela deu um pulo quando a nota da música aumentou

—O que você está fazendo? É tão lindo. — como se eu tivesse dito algo absurdo ela se virou pasma e escorregou no tapete.

— É balé, Clar. Quem vê pensaria que você não sabe o que é. — sorri sem graça, na verdade nunca gostei de dança, aos doze anos me proibi de ter relação com qualquer coisa que envolvesse mexer o corpo, por que eu era gordinha e desengonçada, na escola as garotas me zoavam quando participava de algum trabalho artístico. Encarei meu corpo, agora mais fino do que há doze anos. Talvez eu consegui-se.

— Eu sei mais ou menos, quando eu era pequena tinha certa rixa com a dança... Pode me ensinar o que você estava fazendo? Quero tentar pelo menos uma vez. — perguntei animada, colocando a caixa perto da porta. Ela balançou concordando e aumentou o som.

— Não tem nada melhor do que aprender balé ao som de Tchaikovsky. — e assim a música recomeçou, Wenda fazia movimentos delicados, parecia realmente uma pena rosa guiada pelo vento. — Esse movimento se chama Tendu. — contou deixando a perna esquerda esticada ao lado, depois a afastou para o lado contrário arrastando o pé e em seguida levantou o calcanhar, e por fim ficou sobre a ponta do pé direito. Deu um giro delicado com uma perna erguida, depois mais outro. — entendeu? — não, quis dizer, mas sorri balançando a cabeça em confirmação, ela se sentou tirando as sapatilhas que ficaram um pouco apertadas em meus pés.

E chegou minha vez de mostrar a ela do que eu era capaz, um fracasso. Não consegui dar se quer um giro, meus ossos não estavam mais sobre camadas de gordura, e ainda assim tive dificuldade, meus dedos doeram e cai três vezes sem a menor leveza. Wenda me olhava perplexa.

—O que foi isso? Clar, você é pior que um porco tentando segurar um lápis com as patas... Não vai me dizer que você nunca dançou antes? — neguei, Wenda sorriu compreensiva pegando suas sapatilhas de volta, apesar de não termos crescido juntas, nós nos dávamos muito bem. Ela vivia com nosso pai, em um interior de São Paulo. Mas quando ele decidiu se casar novamente, ela resolveu voltar para casa, não queria ser um estorvo ao casal. Eu a compreendia, pois sabia a verdade, a mulher não gostava dela e era um tanto grosseira quando se encontravam as duas sozinhas na casa. Mas ela nunca contaria ao nosso pai.

— Talvez eu ainda seja gorda. — ela me lançou uma careta reprovadora.

— E o que tem isso? Ser gorda não é doença, minha colega é e simplesmente é a melhor dançarina da escola.

— Então eu simplesmente não nasci para dançar. — Conformada peguei minha caixa do desapego e segui até o cesto de lixo da calçada.

♥♥♥

Eu trabalhava em uma loja de sapatos no centro de Maringá, junto de três amigos, eles sempre saiam para se divertir às noites de sexta-feira, mas como sempre eu rejeitava aos convites, e ficava ansiosa esperando Gabriel bater em minha porta e irmos assistir a algo divertido, antes ele aparecia todas as noites, às vezes descabelado e suado, em outras ele aparecia perfeitamente arrumado, ele sorria e dizia “madame, onde gostaria de ir? Diga-me agora e aproveitaremos a noite antes da meia-noite.” E eu estendia a mão e sussurrava “Não se preocupe, você não vai virar um gato borralheiro, pois eu sou sua fada“. E no fim, como eu não percebi aos pequenos sinais? Ele vinha a minha casa duas ou uma vez por semana, e quase sempre não olhava em meus olhos, parecia perdido em outro lugar, ele apenas me dava um beijo de boa noite e ia embora como se estivesse fugindo da polícia, agora que penso nisso... O amor dele tinha se acabado há muito tempo.

— Se continuar suspirando assim vai acabar sem ar. — alertou João, meu companheiro de vendas, sorri me afastando da prateleira de vidro. — O que uma jovem tão bela faz tristonha assim? O que aconteceu? Foi aquele cara? — concordei passando o espanador sobre um salto alto azul com tiras douradas.
— Vocês brigaram?

— Não... Terminamos. — João ficou em silêncio, fazendo careta como se segurando o riso, a maioria dos meus amigos detestava o Gabriel, nunca entendi o porquê. Bem, agora entendia, ele nunca prestou, e eu fui cega demais para perceber isso. — pode falar... Não me importo mais com aquele idiota. — menti
João disparou com uma gargalhada, me abraçando apertado enquanto pulava.

— Ah, precisamos comemorar... GALERA! — gritou, prendendo meu pescoço com um dos braços, tentei me soltar, mas foi em vão. Ele gritou mais uma vez, fazendo se aproximar Tales e Rana. — Vamos festejar... Festejar até não lembrarmos nossos nomes. — anunciou beijando-me a testa.

Rana enrugou o nariz, encarando João. Antes de perguntar:

— Por quê? E em plena segunda-feira.

— Clar largou o traste... — após revelar todos se jogaram para cima de mim, pulando e gritando de alegria, como se me separar dele tenha sido a melhor coisa que eu já tenha feito na vida. Talvez tenha.

—Ah, sendo assim vamos encher a cara em plena segunda. Merecemos. —Gritou Rana ao meu ouvido, mas algo em seu tom de voz me deixou confusa.

♥♥♥

Quem era a mulher de olhos azuis profundos, e rebeldes cabelos cacheados? Quem era ela que me encarava tão Intimidadora através do espelho, parecia querer gritar, gritar para todos que não era comum, que era especial... Fazia tanto tempo que eu não me sentia bonita assim, meus cabelos que quase sempre ficavam amarrados, estavam soltos caindo sobre meus ombros de fora formando volumosos e perfeitos cachos, tentei sorrir, mas não tinha graça, nada mais parecia ter graça sem Gabriel... Pisquei expulsando o nome e o rosto dele de meus pensamentos no mesmo instante que Rana entrou no quarto. Radiante.

— Você é linda, Clar. Só estava com a pessoa errada. — contou ela guardando o batom rosa paixão na bolsa de lado. Me remexe na cadeira insegura, não gostava de festas...nem de bebidas, mas eu precisava daquilo, não era? Precisava dar um fim aquela tristeza, aquele vazio... Respirei profundamente antes de me levantar.

— Vamos lá. — seguimos até a porta da frente da casa de Rana, ela tinha me emprestado um de seus vestidos, um de manga rendada caída, cor rosa claro, que dava um pouco acima do joelho e um salto preto de fitas. Os garotos nos esperavam do lado de fora.

João dirigiu até um pub próximo ao shopping, era um lugar simples que se assemelhava a um restaurante por fora, mas quando entramos uma explosão de cores atingiu meus olhos e o som me deixou zonza por algum tempo, e o cheiro ocre de tabaco me fez querer sair.

Olhei em volta, pessoas dançando de um lado a outro, colando os corpos, bêbados gritando, a silhueta de casais nos cantos escuros. Não tinha beleza naquilo. Mas juntei coragem e segui o pessoal até uma mesa próxima a escada.

— Vamos querer três cervejas. — pediu Tales ao garçom que surgiu entre a multidão. — Na verdade quatro. — se corrigiu me encarando com um sorrisinho, encarei o garçom desejando negar o pedido, mas resistindo a vontade confirmei sorrindo para Tales. Que seja! Eu precisava esquecer um pouco.

♥♥♥

Acordei sentindo uma dor irritante na cabeça, tentei me levantar mais uma vertigem me atingiu, aspirei com força antes de tentar novamente, tinha uma perna entre minha cintura, me move rápido, assustada.

Era Tales jogado de qualquer jeito, estávamos deitados no chão do quarto de Rana. E ela e João estavam na cama completamente apagados. O quarto fedia a bebida. Tapei a boca quando um gosto azedo subiu pela minha garganta, corri para o banheiro vomitando tudo o que restava em meu estômago. Eu nunca bebia, e depois dessa experiência não voltaria a fazê-lo, nem as lembranças da noite anterior eu conseguia lembrar.

O sol ainda não tinha aparecido, olhei no relógio do celular antes dele descarregar, 05hrs e 22mn, ótimo... Eu estava em um lugar estranho e ainda por cima de madrugada.

Segui pelo o que eu achei ser a rua que dava para a avenida, a rua era cheia de buracos e pedras, fez com que o salto de Rana virasse a cada topada.

Abaixei-me para tirá-los, quando um som suave começou, olhei ainda agachada ao redor procurando de onde vinha, não consegui identificar. Sentia como se a melodia estivesse saindo de mim, de alguma maneira estranha aqueceu meu corpo, suavizando a sufocante dor de cabeça. Meu coração batia em um ritmo acelerado, e uma sensação de tranquilidade me atingiu. E então encarei uma borboleta que voava em cima de minha cabeça, nunca tinha visto algo tão lindo, ela tinha asas douradas e um corpo transparente como cristal, brilhava como ouro reluzente enquanto batia as asas suavemente sem se afastar. Olhei em volta, talvez ela fosse um micro drone de um ricaço. Não era possível existir algo tão lindo e surreal daquela forma, era óbvio que era algum tipo de brinquedo. Ignorei a borboleta e dei alguns passos ouvindo a música. Até que a mesma se tornou mais intensa, meus músculos se contraíram ansiando por uma dança, por dançar aquela música. Parei de andar e uma força sobrenatural me levou a fechar os olhos...

De olhos fechados senti como se meu corpo não passasse de uma minúscula e leve folha, meus braços se moviam acompanhando os giros de meu corpo como eu tinha visto Wenda fazer naquela tarde. Fiquei na ponta dos pés enquanto saltava a cada batida, a cada movimento sentia como luz enchendo meu peito, uma sensação refrescante. Sem dor, sem tombos... Apenas meu corpo em uma dança perfeita. Sorri temendo abrir os olhos e nunca mais conseguir imaginar uma dança tão vivida e real.

Infelizmente eu precisava abrir os olhos, contudo, fui surpreendida quando os abri encarando não o fim da rua esburacada, mas sim uma parede larga com três lindas janelas com cortinas de seda azul marinho e pétalas brancas coladas nela.

Estavam abertas revelando um campo verde com outras borboletas douradas voando sobre uma larga extensão de flores roxas que balançavam na mesma direção, tudo em câmera lenta. Dei um passo hesitante na direção delas, o som de algo caindo me fez olhar para o lado, onde tinha uma grandiosa escada de cristal ou vidro, não tive certeza. Meus olhos subiram até encarar o teto branco com galhos de folhas douradas e algumas flores brancas como se estivessem brotando neles. Fiquei em alerta ao ter visto de relance algo se mexer próximo ao corredor no final da escada. E finalmente olhei o chão. Um grito ecoou pelo salão, como acontece quando alguém grita em uma caverna, o ressoar repetitivo. Meu grito... Fechei os olhos com força e quando os abri o sol fraco da manhã me trouxe de volta à realidade. Respirei fundo com a mão no peito, eu estava parada na rua, olhei ao redor em busca da borboleta. Nada, ela tinha sumido, assim como a melodia e a minha dor de cabeça.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.