Solitude
15 Zumbificação.
Notas iniciais
Era quase fim de noite e, embora uma pequena parte dentro de si ainda dissesse à Percy que ele precisava continuar acreditando que Grover retornaria, ele sabia que o mundo não o esperaria se recuperar. Hazel ainda estava desacordada, e Nico, que conversava com Annabeth e Reyna em um tom baixo, não deixava nenhum momento de lançar olhares à irmã. Ele parecia nervoso como Percy não o via há anos. De certo modo, assemelhava-se um pouco com ele próprio, que vez ou outra checava para ver se Rachel ainda estava lá – se o fato dela ainda estar viva não era mero produto de sua imaginação.
Fora nesse momento que algo colidira contra a porta. Dessa vez, Percy não se deixou levar pelas expectativas. Reyna surgiu ao lado dele, e juntos, eles empurraram a porta com fervor.
— Socorro! — Leo pediu. — É o Jason.
Ele havia aparentemente corrido na frente afim de avisá-los, e Percy precisou focalizar muito bem o olhar para ver a figura de Piper, subindo as escadas com Jason apoiado nela. Ele sentiu o almoço se revirando em seu estômago quando visualizou o estado no qual o braço do outro garoto estava: parecia que havia sido cortado em duas divisões diferentes, sangue ensopando toda e extensão e pingando no chão.
Ao mesmo tempo em que Leo explicou:
— Nós viemos do ginásio assim que ouvimos vocês nos autofalantes, mas... um monte desses mortos vivos derrubou um dos holofotes e deixou a fiação toda desprotegida. O Jason foi acertado direto no braço tentando me proteger, eu... —
Nico apanhou o bastão de beisebol surrado e jogou na direção de Percy, que o pegou no ar. Ele trocou um olhar rápido com Reyna, que acenou, e gritou para o restante dos amigos:
— Vocês ficam aqui!
Os dois cruzaram o pequeno espaço entre a entrada do auditório e a escadaria com o coração batendo na boca. Piper estava há alguns degraus mais abaixo, porém parecia completamente exaurida, o que era compreensível — Jason era um cara grande e pesado, e ela não era necessariamente a maior entusiasta de exercícios físicos. Três mortos vivos a seguiam de perto enquanto ela bufava e forçava-se a continuar avançando. Percy decidiu não olhar para os rostos deles — aquilo só faria tudo mais difícil.
— Pipes! — Percy chamou, pulando direto os degraus que faltavam para alcança-la — Você consegue andar?
— Eu, é, sim — ela respirou fundo — O Jason...
— Deixa comigo — Reyna a interrompeu.
Ela tirou o peso de Jason de Piper e, como se já houvesse feito aquilo uma centena de vezes, o colocou apoiado nas costas, segurando-o pela parte de trás das coxas. Percy assentiu, mas não teve muito tempo para admirá-la, pois no segundo seguinte um dos mortos-vivos abriu uma enorme boca sangrenta ao lado da cabeça de Piper.
— Cuidado!
Piper entendeu o recado. Ela se abaixou como em um jogo de queimada, e o bastão de beisebol passou zunindo por cima da cabeça dela, acertando em cheio o crânio do zumbi. Não era o suficiente para imobilizá-lo, mas o mandou cambaleando em cheio com a parede oposta.
— Não posso fazer muito além de atrasá-los — Percy conjecturou — precisamos dar o fora.
Quando eles finalmente alcançaram as portas do auditório, Luke e Nico estavam segurando-as abertas. O estrondo que elas fizeram quando se fecharam foi como um porto seguro, uma garantia de que eles estavam ali dentro, e os zumbis, lá fora.
— Isso não vai segurar por muito tempo — Leo foi mais realista, enquanto Reyna deitava Jason ao lado de Hazel com uma expressão azeda —, precisamos de uma... de uma barricada. Algo que os segure lá fora.
Percy sentiu o ar exaurindo de si, com uma expressão cansada, mas concordou. Ele avistou Annabeth e Luke e acenou para que se aproximassem. Algum tempo depois, Leo tinha sorteado as cadeiras mais resistentes do auditório e pegado o que sobrara de fita isolante, barbante e qualquer outra coisa que pudesse ajudar a segurar. Quando Thalia e Nico mantiveram as portas abertas para que eles passassem, o lugar estava estranhamente vazio.
Enquanto trabalhavam na engenhoca de Leo, o garoto pareceu distante, perdido. Quando ele perguntou o que era, tudo o que Leo respondeu foi:
— É... estranho. Nós estávamos matando aula no ginásio quando a diretora mandou aquele aviso para a Piper. Se, se ela tivesse obedecido, nós provavelmente não teríamos chegado à sala dela a tempo. Seríamos pegos no meio da confusão e quem sabe o que aconteceria? — Ele passou a fita, unindo as pernas de duas cadeiras — É como se tudo fosse só uma questão de sorte, não é?
Sorte.
Percy teve vontade de mandar o mundo ir à merda.
Quando eles chegaram ao refeitório, estranhamente silencioso e tenso, Annabeth e ele já sabiam o que esperar. Leo Valdez, o garoto responsável por criar a barricada e mandar as mensagens de rádio para Clarisse — o garoto cuja pura genialidade e intuição já os havia tirado de tantas situações impossíveis — estava deitado esparramado encima de uma das mesas. As pessoas ao redor dele, algumas das quais ele não reconhecia os rostos, e só pôde imaginar que haviam sido os sobreviventes resgatados com Sally, observavam a cena com respirações cautelosas.
Annabeth e ele cortaram caminho pelo refeitório em passos longos. Seu grupo de amigos habitual estava reunido em torno dele, e Hazel segurava a mão magra do rapaz na própria, trêmula, dela. Will ajoelhou-se no banco e levou uma mão à testa dele.
E anunciou, no que não era mais do que um sussurro:
— Febre. Uns quarenta e cinco graus, no mínimo — o peito dele tremeu com uma respiração forte demais — geralmente, é bem mais do que uma pessoa pode aguentar.
Clarisse surgiu na porta do refeitório, apoiando-se com uma das antigas muletas de Rachel, e Annabeth imediatamente foi até ela, puxando-a para fora novamente, e Percy agradeceu-a por procurar não piorar aquela situação.
— Percy... — Hazel murmurou — o que está acontecendo?
Ele notou que todos os pares de olhos estavam direcionados a ele. Como uma memória sendo varrida do fundo de um baú poeirento, Percy recordou-se de Ethan, das súplicas dele por misericórdia, e do modo como todos haviam olhado para ele por liderança.
Era como se tudo estivesse se repetindo.
Percy não queria ter a vida de alguém nas mãos. Não de novo.
— Nós precisamos esperar — ele sussurrou para Will — nós não sabemos se ele...
Não conseguindo terminar a frase, Percy olhou para o garoto estendido na mesa. Não precisava perguntar de ninguém por explicações. Ele havia visto o que acontecera com Ethan. E havia também ouvido o relato de Sally. Convulsões. Desmaio.
Coma, pensou. Com sorte.
— Eu não sei o que fazer, Percy — Will admitiu.
Clarisse retornou naquele momento, e o olhar dela rumou para Leo também. Ele lembrou-se que os dois haviam trabalhado juntos através da comunicação pelo rádio, e pensou que talvez aquilo não fosse mais fácil para Clarisse do que era para nenhum deles. A pele de Leo estava ressecada, seca, e ele respirava com dificuldade, gotas de suor formando-se em pontos específicos. As pálpebras dele tremiam, como se estivesse tendo um sonho ruim, e cada respiração balançava o corpo dele como um terremoto.
Ele olhou para Annabeth, que assentiu discretamente, sinalizando que havia explicado tudo à Clarisse. A sargento apoiou-se na muleta e aguardou, e só então Percy percebeu que ela estava esperando que ele dissesse algo.
— Nós precisamos esperar — falou, enfim. — Ele pode ser como o Ethan, ou como o Grover. Não sabemos ainda.
— Quanto tempo? — Clarisse demandou.
Leo soltou um grunhindo de dor, e Percy engoliu em seco.
— Não dá para dizer. Grover demorou mais de uma semana, mas talvez o Leo... —
É como se tudo fosse só uma questão de sorte, não é?
Uma convulsão forte balançou todo o corpo de Leo, e ele virou na mesa, ficando de bruços. Suas mãos avançaram, arranhando a superfície de metal, e a testa dele bateu com força na mesma. Instintivamente, quase todos deram um passo para trás, mas Percy avançou hesitante, erguendo uma mão.
— Leo, cara... sou eu—
Leo virou o rosto com violência, e um grunhindo escapou de seus lábios semiabertos. Os cachos castanhos cobriam a maior parte da sua face, mas Percy conseguiu ver o modo como a boca dele estava contorcida. Ele espalmou as mãos na mesa e dobrou os braços, mas parecia não ter controle absoluto dos movimentos, porque seus cotovelos estavam dobrados em formas completamente diferentes.
— Percy! — Annabeth exclamou.
A próxima coisa que ele sentiu foi alguém o puxando pelas costas da camiseta e ele cambaleou para trás, ao mesmo tempo em que Leo avançava e pulava da mesa. Tudo aconteceu tão rápido que pareceu um borrão, mas Percy conseguiu distinguir um detalhe muito específico.
As írises viradas e as veias avermelhadas saltando no branco dos olhos dele.
— Todos para trás! — Clarisse rugiu ferozmente, e no segundo seguinte, havia derrubado a muleta no chão e agarrado a pistola.
Leo virou-se para ela, virando o pescoço com tanta velocidade que alguma coisa estalou.
— Rodríguez, Wilson evacuem os civis — ela ordenou, enquanto manquejava com cautela em torno da mesa, como se Leo fosse uma espécie de animal selvagem.
— Clarisse— Percy tentou chama-la.
— Eu sei, Jackson — ela suspirou — sem coma, sem salvação. Eu entendi.
Percy só queria uma única oportunidade. Só um minuto nesse mundo de cabeça para baixo para se despedir do garoto que havia sido um de seus melhores amigos, do garoto que o ensinava matemática dois minutos antes da prova e encontrava cheat codes nos videogames mais altamente configurados para impedir trapaças.
Do garoto que havia batido de frente com o apocalipse, com nada mais que uma barricada de cadeiras e fitas adesivas e um rádio antigo de um senhorzinho californiano.
Percy queria guardar Leo em sua memória como um retrato de orelhas pontiagudas e sorriso maldoso, mãos na cintura magra e imaginação divertida sempre um passo à frente de todos. Queria lembrar-se dele pelos desafios estúpidos e as piadas de duplo sentido ao interromper a ele e Annabeth.
Ele queria.
Ao invés disso, enquanto um dos soldados o empurrava para fora do refeitório, a única coisa que ficou se remoendo na memória de Percy foi o som do tiro.
Annabeth umedeceu os lábios, visivelmente nervosa. Suas mãos que seguravam o pedaço de papel onde ela havia escrito o que precisava falar tremiam. Sob o olhar inquisitório de quase uma centena de amigos e desconhecidos e soldados, ela respirou fundo uma, duas vezes.
E quando abriu os olhos novamente, eles não eram mais tempestades ou céus nublados.
Era aço maciço e frio.
— Na noite de ontem, Leo Valdez, dezesseis anos, morreu neste refeitório às nove e quarenta. Ele foi um dos, senão o mais, responsável por permitir que o grupo de aproximadamente cinquenta sobreviventes escapasse da escola com vida, e só os deuses podem saber quantas mais coisas incríveis ele seria capaz de fazer. Leo foi um amigo, um companheiro... — ela engoliu em seco, hesitando por um momento — um gênio, e, mais do que isso, um sobrevivente.
Percy correu o lugar com os olhos. Estavam todos reunidos ali, de Ares até Octavian. Pares de olhos assombrados, temerosos e nervosos olhavam para o pequeno grupo de pé em uma das mesas. Além dele e de Annabeth, também estava Nico, que não parecia nenhum um pouco melhor. De pé ao lado, como um cão de guarda, Clarisse os escutava mas mantinha os olhos presos no restante.
— Mas a morte dele foi mais do que um evento trágico — Percy falou, olhando por um instante para onde Piper estava de pé, não muito longe dali com os demais amigos deles, olhos ainda inchados de uma noite sem sono e muitas lágrimas —, a morte de Leo nos fez perceber uma coisa. Algo que nós deveríamos ter feito há muito tempo.
Ele olhou para cada um deles, procurando qualquer indício de hesitação em seus olhos, mas todos o olhavam com expectativa. Ele acenou para Annabeth, e ela chamou:
— Grover Underwood, por favor.
Jason olhou para trás por cima do ombro, trocou um olhar significativo com os outros, e então o grupo de amigos se dispersou, revelando Grover, de pé, com uma regata e bermuda que deixavam todas as cicatrizes de mordidas expostas.
Ele avançou sob os comentários estupefatos e aterrorizados dos outros sobreviventes, mas sua expressão permaneceu neutra. Percy o estendeu uma mão para ajudá-lo a subir na mesa, e Grover segurou-se no antebraço dele com firmeza, tomando o lugar entre ele e Annabeth. Limpando a garganta rapidamente, ele começou:
— Eu me chamo Grover, e no primeiro dia do fim do mundo, eu fui mordido seis vezes. Como e porque não importa. O fato é que fui mordido mais vezes do que qualquer morto-vivo perambulando lá fora. Depois, perdi a consciência em um vestiário da escola e só acordei uma semana depois, aqui, nessa base. Tenho sido mantido em segredo pelo mesmo motivo que tantas outras coisas também estão: para evitar pânico — ele parou por um momento, e então pegou a mão de Annabeth, como se dissesse, sem palavras, que nada daquilo era culpa dela —, minhas amigas Annabeth Chase e Rachel Dare investigaram juntas a origem dessa infecção, e eu acredito que todos vocês possuem o direito de saber.
— Nós estávamos procurando evitar pânico, mas a única coisa que fizemos foi gerar dor. Para todos.
Percy seguiu o som da voz dela. Rachel estava sentada ao lado de Will, que ficara responsável por ela naquele momento. Seu semblante ainda estava abatido, mas ela estava olhando para ele, e Percy ficou em feliz em saber que ainda havia a possibilidade da amizade deles não escorrer pelo ralo.
Annabeth deu uma olhada no papel que tinha em mãos uma última vez, e então deixou que a verdade fluísse:
— Não temos como ter certeza se é um vírus ou uma bactéria. O que sabemos é que é algum tipo de hospedeiro, que se aloja nas células do lobo frontal do cérebro, comprometendo as funções cognitivas, como percepção de som, audição e visão. Também corrompe a glândula responsável por “frear” as reações imediatas, o que, em outras palavras, significa que as pessoas infectadas não possuem mais dizer sobre seus reflexos. Como todos os parasitas, esse organismo procura se multiplicar e reproduzir, e isso dá através da infecção de mais e mais hospedeiros.
“Acreditamos que esse organismo seja capaz de realizar ambos os ciclos de um vírus comum, mas os efeitos alcançados por cada um deles são muito diferentes. Quando realiza o ciclo lítico, o parasita se aloja em uma célula e imediatamente começa a destruí-la. Esse processo pode levar apenas alguns minutos, ou dias inteiros, quase meses. O resultado é o que vocês já conhecem: os hospedeiros são transformados em mortos-vivos, e o parasita hospedado nele procura um novo receptáculo, através da infecção. Quando realiza o segundo ciclo, no entanto... — ela olhou para Grover por um momento — quando realiza o segundo, algo completamente diferente acontece. O organismo se aloja na célula, e a informação genética dele se une à da célula e ele passa a usar o próprio sistema de duplicação dela. Na melhor das hipóteses, isso dá ao nosso organismo tempo o suficiente para criar formas de combate-lo. O resultado final... é a imunidade”.
Uma série de murmúrios começou a percorrer pelo refeitório, e então Grover tomou a palavra.
— Parece loucura, eu sei. Mas eu perdi a consciência por cinco dias, estou acordado a quase um mês sem dormir, e não coloquei uma colher de comida na boca desde então — contou — eu não sinto fome, ou sede. Nem sono. Não sei que tipo de efeito colateral isso vai ter a longo prazo, mas o fato é: eu sou exatamente o que esses mortos-vivos são, com a exceção de que eu tenho consciência, e o parasita não está comandando minhas funções cognitivas.
— Os mortos-vivos não atacam pessoas para se alimentarem. Eles atacam para difundir a doença — Percy emendou —, a infecção ocorre por via sanguínea, em contato com sangue infectado, e isso pode se dar de muitas maneiras diferentes. Ele viaja pelo ar, como uma gripe, e se aloja onde tiver sangue exposto. A mordida é simplesmente o modo mais simples, porque automaticamente abre uma ferida, e ele pode entrar mais fácil.
— De qualquer forma, Grover é a única pessoa que temos notícia de ter passado pelo segundo ciclo e conseguido combater o parasita — Annabeth voltou ao assunto —, mas só passar pelo ciclo lisogênico não é suficiente. A sra. Sally Jackson nos deu o depoimento de um senhor que claramente também passou pelo mesmo ciclo, mas seu sistema imunológico não foi suficiente para combate-lo. O resultado... — ela hesitou — é exatamente o mesmo. Zumbificação.
— E tem mais. Como Annabeth disse no começo, o primeiro ciclo pode levar de algumas horas até meses, e nós acreditamos que isso se baseia nas diferenças naturais nos sistemas imunológicos das pessoas. Alguns de nós podem possuir a capacidade de lutar contra ele enquanto destrói nossas células por um mês inteiro, como o Leo — Percy foi então amargamente relembrado de Ethan — e alguns de nós não.
— A única coisa que sabemos com certeza — Grover resolveu concluir — é que o segundo ciclo é caracterizado por um estado de coma por tempo indeterminado. O seu corpo precisa desse tempo para combater o parasita com cem por cento de força. Então... — ele passou a língua pelos lábios rachados — eu sei o que todos vocês estão pensando. Mas se você sabe que foi infectado e não passou por um estado de coma... por favor, você está colocando a todos nós em risco.
Percy poderia ter tentado fingir. Mas ele queria ver. Queria ver com os próprios olhos qual seria a reação de Ares.
O coronel franziu o cenho com tamanha fúria que suas rugas na testa pareceram crateras. Os enormes braços musculosos de descruzaram, e ele fez menção de avançar, mas Clarisse postou-se bem em frente à mesa.
— Não acabou ainda.
— Há mais uma coisa que nós gostaríamos de dizer, e embora não tenha necessariamente a ver com o vírus ou bactéria, eu diria que é igualmente perturbador — Nico enfim pronunciou-se — um mês atrás, quando ainda estávamos no auditório, um de nossos amigos foi persuadido a sair de lá. Sozinho. E eu sei que a pessoa que o ajudou sabia que ele estava mordido. Eu não queria ter que pensar nisso, mas a única conclusão na qual consigo chega... — ele parou por um momento, e seus olhos vasculharam cada rosto no refeitório como se estivesse analisando uma ferramenta quebrada — é a de que você o convenceu de que, porque já estava mordido e não havia se transformado, ele deveria ser imune. O que é ridículo, porque nós não estávamos nem perto de saber tudo o que sabemos agora, e Ethan não passou por nenhum estado de coma.
Ele respirou fundo, e Percy percebeu que os punhos fechados dele estavam tremendo.
As próximas palavras dele foram rugidas com um ódio profundo:
— E sabe o que aconteceu exatamente um dia antes do Ethan sair do auditório? Jason pediu à Piper e Silena que anunciassem que a comida seria ainda mais racionada a partir de então.
O lugar todo ficou em silêncio. Percy sentiu-se nauseado mais uma vez, exatamente como se sentira quinze minutos antes, quando Nico o dissera que também gostaria de estar lá para o anúncio, e que tinha algo para dizer.
— Então, seja lá quem for você — ele vasculhou cada adolescente com o olhar mais uma vez, voz fria e rígida — quem for o desgraçado ou desgraçada que achou que era aceitável convencer um garoto a se jogar no meio de um inferno para ser devorado vivo, só para ter mais ração, eu espero que você saiba que não é bem-vindo aqui. E quando eu descobrir quem você é, quem vai virar ração é você.
[...]
O banho não serviu de muito para acalmar os nervos de Percy. Ele havia passado mais uma noite em claro, mas agora o sono pouco o incomodava. Mesmo após passar quase dez minutos ensaboando a pele vigorosamente, ele sentia como se os olhares dos outros sobreviventes estivessem presos nele, como uma cobertura pútrida que se grudava nas suas roupas.
Não conseguia tirar da cabeça os olhares, os murmúrios. Ele queria acreditar que haviam feito a coisa certa, contando tudo o que sabiam de uma vez, mas era impossível dizer que tipo de efeito a revelação da imunidade de Grover teria. A ameaça de Nico havia colocado os nervos de todos em alta tensão, e não era como se uma longa e explicativa conversa fosse magicamente remendar os corações deles.
Quando retornara ao quarto um pouco mais cedo, a primeira coisa que havia visto fora o engradado de bebidas que Leo havia trago, quase um mês atrás.
Annabeth e ele ficaram tão transtornados que que viraram todas a garrafas no vaso sanitário e jogaram a caixa pela janela.
Ela estava sentada na cama dele, enxugando o cabelo em uma toalha. Um mês e pouco sem lavá-lo propriamente, e sem nenhum famoso creme para cachos, o cabelo de Annabeth não parecia em nada com as cascatas douradas que haviam sido.
E, mesmo assim, Percy sentou-se em frente a ela no colchão, completamente hipnotizado. Ela o encarou por um momento, com um sorriso tímido, mas não ficou vermelha. Ao invés disso, pegou o rosto dele nas mãos e os aproximou. Quando já estavam com os narizes quase encostados, Percy comentou:
— Você não esqueceu de escorvar os dentes, né?
Annabeth não evitou uma risada.
— Ora, cale a boca.
E ele cortou distância que faltava. Beijar Annabeth sempre era uma viagem, pelo menos dentro da cabeça dele. Era como se ela fosse tudo, todas as sensações misturadas em uma, quando ela abria a boca dele lentamente com os próprios lábios e deslizava a língua de forma mínima, quase provocativa, e Percy era instigado a avançar, a deslizar os braços em torno dela e trazê-la mais para si; e ao mesmo tempo, ela fazia com que o resto do mundo parecesse nada, apenas um borrão no fundo, enquanto as unhas roçavam o couro cabeludo dele com calma, sem o menor indício de pressa.
Quando eles pararam por um momento para tomar ar e Percy deixou o rosto deslizar até a curva do pescoço dela, Annabeth não pôde evitar notar:
— Você está cansado.
E ele não teve energia para mentir:
— Demais.
Ela engatinhou na cama, até estar deitada apoiada na parede, com o travesseiro debaixo da cabeça, e abriu os braços com uma expressão complacente. Percy deixou-se cair encima dela com um “ops” que deixava claro que fora tudo, menos um acidente. Ela soltou uma exclamação de dor exagerada demais que o fez sorrir mesmo estando exausto e então eles se ajeitaram, tão naturalmente que pareciam já ter feito aquilo uma centena de vezes. Ele deitou a cabeça no ombro dela, enquanto Annabeth usava uma das mãos para fazer carinho no cabelo dele e a outra para correr as unhas pelo antebraço que ele tinha jogado por cima da barriga dela.
— Boa noite, Percy — ela disse, depositando um beijo carinhoso entre os olhos dele.
Ele desajeitadamente puxou o lençol fino para cobri-los da melhor forma que conseguiu sem estragar o momento, e, com um beijo preguiçoso no canto da boca dela, respondeu:
— Boa noite, Annabeth.
E deixou-se dormir, decidindo que, pelo menos por enquanto, ali, com ela, o fim do mundo podia esperar.
Os pesadelos — aparentemente — não.
Percy sonhou com Leo, primeiramente observando-o com os olhos castanhos brilhantes e sorriso de canto.
E então sangue escuro e espesso começou a escorrer das pontas da boca dele, e os olhos do garoto viraram nas órbitas. Ele avançou, e Percy tropeçou tentando fugir, mas quando Leo o prendeu no chão a abriu uma enorme boca cheia de sangue, não era mais Leo — era Luke, com a cicatriz reaberta expelindo sangue e pus e algo que Percy não era capaz de nomear.
A boca deformou-se, ficando cada vez mais ensanguentada e grotesca, e Percy notou que isso era porque havia um enorme buraco onde deveria estar sua língua — tudo o que sobrara dela sendo restos. Percy o empurrou e engatinhou desesperadamente pelo chão, tentando afastar-se. O cabelo de Luke começou a escurecer, e ele ficou mais baixo, e então era Ethan: deitado no chão e gemendo de dor. Alguém puxou Percy para trás pelos ombros, enquanto Ethan se virara e erguia uma mão, fraca, suplicando:
— Percy... socorro...
Uma sombra começou a projetar-se, e Percy percebeu que alguém estava fechando uma porta entre ele e Ethan. Tentou levantar-se e correr, estender uma mão para resgatá-lo, mas então o rosto de Ethan mudou mais vez. Tudo desapareceu, deixando apenas uma mancha escuro no lugar da face, e ele pôs-se de joelhos. Usava um uniforme azul-escuro e haviam insígnias grudadas no busto, e uma plaquinha de metal com um nome que Percy não conseguiu ler cravado ao lado de um B+ vermelho berrante.
Quando a pessoa sem rosto se virou para ele de novo, Percy notou o quão assustadoramente parecida com Reyna ela era.
Percy tentou gritar, impedi-la, mas já era tarde: a mulher levou o coldre de uma pistola até a própria têmpora a atirou, enquanto Percy ouvia a voz de Ethan, implorando por ajuda, e os olhos de Luke tremendo na escuridão. A porta se fechou e Percy ficou, enfim, sozinho.
Ele acordou suando frio.
Em nenhum momento escutou a voz de Leo.
Porque Leo não teve tempo de se despedir daquela vida.
Com o coração batendo a mil, Percy virou-se, abraçou Annabeth contra si, e tentou concentrar no som do coração dela batendo.
Fale com o autor