Solitude
20 Sobreviva.
Notas iniciais
Percy estava farto de metáforas.
Ele pouco se importava se aquela vírus (ou bactéria, ou seja lá o quê) fosse apenas uma alusão para o fim do mundo, para a corrupção inerente dos seres humanos, a podridão que aos poucos consumia as pessoas de dentro para fora. Ele não dava a mínima se aquela base militar era uma representação da limitação da liberdade, se os soldados malucos eram um quadro do quão facilmente pessoas assustadas podem ser manipuladas por alguém em uma maior posição de poder.
Honestamente, para o inferno com tudo aquilo.
Porque Percy não era um bonequinho de brinquedo – e ele não queria ser jogado de um lado para o outro, ter seus sentimentos e sua sanidade arrancados de seu peito como um show de horrores.
— Por aqui — Thalia acenou, dobrando em um corredor.
E ainda assim, havia uma sensação esquisita, algo que ele não conseguia compreender, formigando nas pontas de seus dedos, bagunçando seus pensamentos, como uma cortina de névoa. Percy sentia-se como se estivesse no corpo de um estranho – como se seus movimentos não fossem de fato dele.
Nunca havia se sentido assim antes.
Era confuso.
E tão, tão completamente hipnotizante.
Thalia liderava o caminho, e Frank e Reyna acompanhavam-no de cada lado seu, flanqueando-o. Reyna parecia determinada como sempre, os olhos duros focados no caminho, mas-
Mas.
As pontas de seus lábios tremiam, a testa tensionada, e cada vez que um som se projetava perto demais, ela saltava, quase imperceptivelmente. Havia alguma coisa. Alguma coisa no modo como ela pressionava os lábios grossos, como seus ombros subiam com cada respiração.
Quase como se Reyna estivesse assustada.
Balançando a cabeça, Percy tentou livrar-se desse pensamento, certamente fora de questão, mas, uma risada histérica ganhava voz no fundo de sua mente, algo que ele não conseguia interpretar.
Thalia parou e agachou-se na frente de uma das portas. O fogo já começara a se alastrar por aquela parte, mas não estava nem de longe tão ruim quando a ala oeste, onde os quartos de Piper, Jason... e Leo ficavam.
— Jackson — Thalia grunhiu, impaciente, ou talvez fosse apenas a fumaça pesada que eles estavam respirando fazendo os primeiros sintomas na voz dela —, é esse o quarto dela?
Percy estreitou a visão, tentando ler a placa acima da porta, mas a verdade é que ele ainda estava muito zonzo. Perdera a conta de quantas pancadas na cabeça havia levado, e seu crânio inteiro latejava de dor. As pontas de sua visão estavam turvas, e ele estava usando toda a própria concentração para conseguir se manter de pé.
— Eu acho que é — foi o que ele conseguiu responder.
Sentia o gosto do próprio sangue toda vez que falava. Tinha apanhado tanto que seus dentes haviam rasgado a parte interna da boca, mas não era só isso. O sangue que escorria da sua testa também tingia sua boca. A língua pulsava de dor onde a havia mordido sem querer.
Thalia acenou, e tirou a faca de onde a havia guardado na bota. O estômago de Percy embrulhou. Sempre soube que Thalia era a mais durona da família, mas ainda assim, a memória dela arrancando a lâmina de onde estivera cravada na carne da nuca de Clarisse, limpando-a no jeans e enfiando-a na bota...
Ela enfiou a faca de caça entre a porta e o batente e forçou; quando um grunhindo de frustração deixou sua boca, Percy adiantou-se para a ajudar a empurrar a porta, ignorando a forma como suas mãos ainda tremiam.
Poucos minutos atrás, quando se despedira de Annabeth, ele havia notado e estado crítico dela. Não sabia até que ponto seus gestos haviam surdido efeito, mas esperava que houvessem ao menos acalmando um pouco da histeria dela.
Quanto a ele próprio...
Percy engoliu em seco, chutando para o fundo do estômago o enjoo. Seus músculos pareciam feitos de gelatina e seus dedos não paravam de tremer. Vez ou outra ele precisa olhar para as mãos, certificar-se de que o cinto não estava mais entre elas, que a sensação da palma de suas mãos era apenas pele queimada e suada, e não o couro sintético que ele usara para-
A porta abriu-se com um estrondo, e Thalia e ele quase caíram para dentro do cômodo, tossindo violentamente. A fumaça havia entrado pela pequena janela e acumulara-se no cubículo, tornando difícil até enxergar alguma coisa. Percy tentou abanar na frente dos olhos, mas mal conseguia respirar.
— Ali! — Frank apontou, a voz soando igualmente rouca.
Percy tateou às cegas, mas, finalmente, suas costas encontram as familiares barras de ferro na parede. Aquilo significava que... ele deu dois passos ansiosos, e seus joelhos bateram na cama.
— Rachel! — Ele inclinou-se, ao mesmo tempo desesperado e extasiado. — Rachel, você...
— Ela ainda está inconsciente — Reyna notou. — Percy-
Ele conseguiu distinguir mais ou menos o rosto da amiga no meio da fumaça pesada. Rachel parecia estar no meio de um sonho muito ruim. Percy acariciou o rosto dela com a mão, e sentiu-a ensopada de suor. Cada respiração deixava seu corpo com um gemido sôfrego. Lembranças de tão pouco tempo atrás, do sorriso confiante de Rachel, das palavras dela – do estúpido polegar levantado e piscadela zombeteira que ela o dera antes de Annabeth afundar a agulha em sua pele.
Como um mantra, Percy repetiu:
— Você me promete?
Ele quase conseguia ouvir a voz dela claro, idiota, ela havia dito, brilhantes olhos verdes cheios de confiança e esperança, depositando tudo o que ela tinha nas mãos de Percy e de Annabeth. Você é um pé no saco, e por isso mesmo, eu não posso morrer antes de retribuir todas as piadinhas.
Mas a Rachel dali, a que estava deitada suando na cama no meio de um incêndio, permaneceu calada.
Percy passou os braços por trás do torso dela e levantou-a. Rachel era uma garota leve, e desde o acidente, ficara ainda mais, não tendo quase nenhum músculo nas pernas. Ele não encontrou dificuldades em erguê-la.
— Nós vamos assim — decretou.
— Percy... — Thalia parecia querer dizer alguma coisa, mas Reyna a interrompeu:
— Ele está certo — disse —, nós apostamos com vidas demais, você mesma disse. Deixar Rachel aqui só porque há a possibilidade de ela não acordar seria brincar de deus de novo.
Thalia ergueu as mãos de forma defensiva.
— Não foi isso que eu quis dizer — respondeu — é só que... se o quarto dela está assim...
— A cela do Octavian deve estar ainda pior — Frank completou o que nenhum deles havia tido coragem de dizer.
Percy fez menção de colocar Rachel apoiada em suas costas, pronto para partir, mas Reyna colocou uma mão em seu braço:
— Isso vai soar horrível — disse — mas você não vai poder carrega-la. Está fraco e zonzo, e já perdeu sangue demais. Rachel pode ser leve, mas você não é um super-humano.
Ele quis protestar — Rachel era responsabilidade dele — mas foi subitamente lembrado que aquela era Reyna.
Lembrou-se da discursão com ela no auditório, uma memória que agora parecia pertencer a muitos anos no passado. Lembrou-se de como fora escutar de soslaio que a irmã dela havia morrido, e da forma como mesmo após isso Reyna fizera de tudo para ajuda-los a sobreviver, indo tão longe a ponto de levar uma facada por Rachel e então se prontificar para ajudar a resgatar o mesmo garoto que quase a matara.
Isso, e... e ela estava certa. Percy não sabia por quanto mais tempo aguentaria de pé. Se caísse, ele queria que ao menos Reyna conseguisse escapar com Rachel dali.
E céus, como ele queria que Annabeth estivesse com ele. Sua namorada certamente faria aquelas escolhas bem menos dolorosas do que estavam sendo.
Ao menos, era o que ele pensava.
Ele entregou Rachel para a amiga. Reyna a colocou nas costas, o rosto de Rachel descansando, ainda contorcido em uma careta de dor, em seu ombro. Eles já haviam dado dez passos para fora da cabine dela quando a voz de Reyna surgiu como um sussurro:
— A pistola no meu cinto — disse —, fica com você.
Ironicamente, Percy não ficou tão surpreso assim.
Ainda assim, o fato de que já estava esperando por aquele desenrolar não impediu que seu estômago se revirasse mais uma vez. Mesmo meses atrás, Percy não era um grande fã de armas de fogo. Havia crescido em um bairro perigoso, o máximo que o salário de Sally podia prover, e ele sabia muito bem o que acontecia quando as discursões saiam de controle.
Mas isso era apenas parte do problema. Ele queria convencer a si mesmo de que estava apenas exagerando, tirando de proporção um acontecimento que não poderia ser evitado de qualquer forma.
Entretanto, quando estendeu a mão para pegar a pistola, sua mente deu replay na bala cravando-se certeiramente na testa do policial que Annabeth assassinara.
Thalia pareceu ser a única a perceber. Ela deixou que Frank e Reyna tomassem a dianteira e diminuiu um pouco os passos até estar do lado dele. Seu rosto estava também coberto de cinzas que haviam sido grudadas à pele com o suor, e escondiam todas as sardas que Percy sempre invejara na prima. O curativo que Will fizera havia se desprendido, e acima do olho de Thalia havia um enorme ferimento que ainda estava cicatrizando. E mesmo assim, nada daquilo diminuiu a intensidade em seus olhos:
— Você está pensando no que a Annabeth fez.
— Não, eu— Percy engoliu em seco. Ele tentou olhar ao redor, mas além do prédio inóspito e decadente que aos poucos ameaçava consumi-los, não havia muito para distrair-se — como você sabe?
Thalia abaixou o rosto.
— Porque eu e você somos parecidos.
Sem perceber, Percy fechou o rosto em uma careta. Não que ele odiasse a ideia de ser comparado com ela, mas-
— Eu sei o que você está pensando. Nós não poderíamos ser mais diferentes, não é? Você sempre tenta seguir as regras para não incomodar a tia Sally, o que, aliás, sempre sai pela culatra, e eu já fui fixada uma dúzia de vezes só para irritar o meu pai. A lista continua — Thalia riu. — Sabe porque a gente nunca se deu muito bem? Porque eu e você temos uma única coisa em comum.
Percy não sabia bem porque, mas sentia como se aquela conversa fosse extremamente pessoal. Como se talvez fosse melhor que Frank e Reyna não os escutassem. Ele aproximou-se um pouco e sussurrou:
— E o que seria?
— Nós somos teimosos, cabeças-duras e inconsequentes — ela disse, como se fosse a coisa mais simples do mundo — na maior parte das vezes nós nem estamos tentando arrumar encrenca. É mais como...
—... Como se as encrencas encontrassem a gente.
— É exatamente por isso que nós sempre acabamos em situações assim — ela gesticulou vagamente, e Percy soube bem o que queria dizer.
Ela não se referia ao prédio em chamas ou mesmo ao apocalipse zumbi. Thalia se referia àquela situação em específico: neles, dois malucos arriscando tudo que tinham e não tinham para salvar pessoas que muito provavelmente não tinham mais salvação. Percy quase sentiu vontade de rir, porque Thalia estava exatamente certa.
— Eu sempre senti raiva porque você é tão absurdamente enervante. Teimoso e nunca aceita ajuda de ninguém. Parece que acha que pode fazer tudo sozinho — ela revelou —, e eu acho que no fundo, eu sempre quis te proteger. Mas você nunca deixava.
— É sério? — Percy arregalou os olhos. — Você sempre me irritou porque me tratava como criança.
— Você era uma criança.
— Thalia, você faz ideia de quem você é?
— O que você quer dizer?
— Você é a garota que ninguém quer ter como prima! A mais velha de nós, superdotada, talentosa, a preferida dos nossos tios. A Bianca e o Nico beijavam o chão que você caminha, cara. Entrou em uma das melhores universidades do país com uma bolsa integral, e sempre pareceu tão... certa de tudo. Como se nada no mundo pudesse te abalar — os ombros de Percy naturalmente se abaixaram, e sua voz diminuiu um pouco — eu sempre fui... só eu. O garoto problemático que foi abandonado pelo pai.
— Isso explica a sua obsessão por atenção — Thalia alfinetou. Mas então sua voz ficou mais gentil — você nunca foi o garoto problemático para mim, Percy. Desculpa se eu te tratei como criança. Eu só... não queria que nenhum de vocês me machucassem.
— Me desculpa por ser um priminho insuportável — ele respondeu com um sorriso — se serve de consolo, você foi a melhor prima mais velha de todas.
Thalia ficou em silêncio por um longo momento, e Percy pensou que a conversa deles havia acabado. E embora ele houvesse descoberto algumas coisas sobre Thalia, e ambos houvessem trocado desculpas, ainda assim, parecia que faltava algo. Como se estivessem incompletos.
— ... Tem certeza?
— O que você quer dizer?
— Bianca morreu, Percy. Eu não pude fazer nada para protege-la. Nico entrou em depressão, e eu também não servi para coisa alguma — os olhos de Thalia estavam firmes no caminho a frente, mas Percy tinha a impressão de que ela não estava de verdade olhando para onde ia —, eu estava no reformatório quando Hades resolveu assumir a Hazel, e não estive lá para acabar com a raça dos babacas que implicaram com ela por anos. Eu... —
— Thalia—
— Eu fui uma inútil a minha vida toda. Eu digo que a minha família é mais importante do que tudo, e mesmo assim...parece que todos vocês estão muito longe. Longe demais para que eu possa protege-los. Bianca e Hazel morreram. Nico não olha mais na minha cara. Tudo que eu tenho são você e o Jason e a Annabeth, e...
— Thalia. — Percy foi mais firme. Ele segurou-a pelo antebraço, virando-a até que estivesse olhando para ele.
E naquele momento, Percy viu mais dor naquelas duas órbitas azuis do que havia visto em toda sua vida.
— Quando eu disse que nós dois somos inconsequentes e cabeças-duras — ela fungou, tentando recuperar a firmeza na voz — eu quis dizer que vou fazer absolutamente tudo para que você saia daqui vivo, entendeu? Você não vai morrer, Percy.
— E quando nós saímos daqui — Percy emendou — eu, você, o Jason, e o Nico vamos... nós vamos reconstruir essa família, está bem? Tijolo por tijolo.
Thalia deu um pequeno sorriso.
— Tijolo por tijolo, Jackie.
— Ei! — Percy acertou-a de leve. — A regra número um da nossa família vai ser: nunca me chame de Jackie.
Thalia abriu a boca para retrucar, mas a voz de Reyna cortou a conversa sentimental (e da qual Percy e ela provavelmente ficariam muito envergonhados e jamais mencionariam de novo quando saíssem dali):
— Chegamos!
Eles não tinham tempo para procurarem as chaves do portão de entrada. Ao invés disso, Frank deu alguns passos para trás e avançou com toda a força. Era visível que, fosse lá o que havia acontecido com ele após a injeção, estava drenando sua estamina, mas Frank ainda tinha a força de todo um time de futebol americano junto. A grade gemeu e a fechadura rompeu com um som de cortar os tímpanos.
Thalia abriu um sorriso vitorioso. Ela passou por Frank e deixou um empurrãozinho amigável em seu ombro massivo:
— Boa, garoto.
Eles correram o mais rápido que conseguiram até o final do corredor, onde a cela de Octavian ficava.
— Bonitão, o time de resgate chegou! — Ela bateu com os antebraços nas grades como costumava fazer quando iam entregar comida.
Mas não houve resposta. Percy tentou ver através da fumaça densa e da pouca iluminação, mas só reconheceu um vulto encolhido em um canto da cela, tremendo.
— Octavian! —Insistiu — Vamos cara, nós não temos muito tempo.
Caramba, Percy realmente odiava aquela fumaceira toda. Parecia que o mundo estava rindo da sua cara enquanto ele estreitava os olhos para conseguir enxergar alguma coisa. E não era como se ele já não estivesse tonto o suficiente para...
Reyna arfou. E, em um sussurro:
— Dios mío...
Percy talvez preferisse não ter visto nada. Tudo ainda era tão nítido em sua mente, a respiração de Ares sendo cortada, o sangue ensopando Hazel, os gritos das pessoas morrendo queimadas... ele havia colocado tais pensamentos de lado por um momento, mas tudo voltou como uma onda sangrenta de água do mar, preenchendo sua mente.
O corpo de Octavian estava imóvel, escorado na parede oposta. Seus braços estendidos ao lado do torso, e o rosto olhando para cima. Se houvesse alguma luz ali, e a fumaça não fosse tão espessa, ele se pareceria bizarramente com uma pintura renascentista, a pose gloriosa e o olhar distante.
Exceto.
Exceto pelo fato de que o olhar dele não estava distante.
Estava vidrado. As pálpebras fechadas até a metade, a boca parcialmente aberta, os ombros imóveis, sem o menor resquício de respiração.
E o sangue.
Sangue por todos os lados. Sangue cobrindo seu rosto, empapando sua testa, as bochechas, saindo dos cantos da boca em gotas lentas, preguiçosas. O sangue espalhado abaixo de si, pintando o chão pútrido da sela, como se alguém houvesse mergulhado um pincel em tinta vermelha e o batido diversas vezes no piso, com toda a força que tinha.
Com uma sensação sinistra se espalhando pelas suas costas, Percy notou que as pernas de Octavian estavam dobradas em ângulos que normalmente não seriam possíveis.
Thalia se lançou contra as grades. Fechadas. Enquanto Percy e Reyna gritavam pelo nome do outro garoto, Frank tentou empurrar a fechadura da mesma forma que fizera com a outra, mas alguém havia a reforçado, e logo, era Frank quem gemia de dor com os impactos. Percy tentou balançar as grades de novo. Desespero se inundava dentro de si, misturando-se àquela mesma sensação esquisita, desconhecida, que o assolara mais cedo.
Por um lado, o peito de Percy pesava com o medo de já ser tarde demais. Por outro, alguma coisa borbulhava dentro de si, efervescendo seus sentidos, aguçando sua visão. Como se ele mal pudesse conter o entusiasmo que fazia-o sentir como se milhares de pequenos volts de eletricidade corressem pelas ligações dos seus músculos.
O corpo de Octavian se moveu quase imperceptivelmente. Ele respirou, pouco, sem mover o peito ou os ombros.
— Jackson...?
Alguma coisa caiu do lado de fora. Para Percy, soou assustadoramente com o som de uma parede caindo. Ele se perguntou a quanto tempo estavam lá dentro.
Em quão distante as labaredas de fogo vermelho faminto estavam.
— Octavian, cara — Percy engoliu seus outros pensamentos — o que aconteceu-
— Os guardas — Reyna falou, em uma voz tão baixa que Percy mal escutou-a.
— O que?
— Os guardas que não estavam no refeitório — disse.
Percy sentiu-se a ponto de chorar. Sabia que Ares nunca o perdoara por impedir que Thalia espancasse Octavian naquele dia. Sabia que jamais concordara com a remediação de Annabeth.
Mas mandar que soldados linchassem um adolescente preso que sobrevivia de restos de comida há meses...-
As mãos dele tremeram, e, por um segundo, quase conseguiu sentir o cinto de couro ali de novo, calejando sua pele queimada. Um puxão em seu peito o impulsionou para frente, e antes que soubesse o que estava fazendo, Percy agarrou as grades com a mesma força que dera um fim à vida de Ares.
— Nós vamos abrir a sua cela — Thalia disse, com a mesma calma que diria eu vou fazer um home run na próxima, não se preocupem. Mas havia uma ponta de emergência em sua voz. Seus olhos voaram para o portão por onde haviam entrado, e Percy soube que, daquela vez, ela também escutara o som do prédio desmoronando.
Octavian inspirou de novo. Ele tentou mover-se, mas não conseguia. A única coisa que vez foi virar um dos braços e levantar o dedo do meio.
Percy riu de nervoso.
— Qual é, cara — ele não sabia bem o que estava tentando fazer. Pedir desculpas por não tê-lo protegido? Mandá-lo ir a merda também? — Você fez um monte de merda, mas-
Octavian fez um som estrangulado. Percy tremeu na base. O garoto se inclinou e cuspiu um monte de sangue no próprio colo, a substância pegajosa pingando de seus lábios finos quando ele tentou endireitar a coluna de novo, mas acabou meio inclinado, olhando-o por baixo dos olhos semicerrados.
— Você acha mesmo que fui eu... não acha?
Um zumbido estranho soou nos ouvidos de Percy. Quase como estática. As palavras de Octavian demoraram para fazer sentido.
Antes que ele pudesse dizer algo, no entanto, Reyna vacilou. Ela cambaleou para trás, joelhos tremendo tanto que Percy temeu que fosse derrubar Rachel.
— Não era você — ela disse, como se a frase a machucasse como uma ferida aberta — não era você com a faca.
Octavian inspirou, mas uma segunda golfada de sangue o interrompeu. Dessa vez, muito pior. Toda vez que o outro garoto tossia, Percy conseguia quase ouvir a dor dele.
— Nós resolvemos isso depois — Thalia vociferou — agora nós temos que-
— Não. — Percy a empurrou para o lado com o máximo de gentileza que conseguiu. — Eu quero ouvir.
Era crueldade, ele sabia. Percy deveria estar tentando tirar Octavian dali. Mas uma parte dentro de si, uma voz que ele não sabia de onde vinha, o dizia que o garoto não ia durar muito.
Que Percy não poderia salvá-lo. Mesmo se quisesse.
E a pior parte de todas era.
Ele não tinha certeza se queria.
Agarrando as barras com mais força, Percy foi firme:
— Do que você está falando?
O crepitar se aproximou. O lugar ficou infernalmente mais quente.
Fogo.
— Percy— Thalia tentou.
— Não foi ele — Reyna pronunciou-se — não foi ele quem me esfaqueou.
O mundo de Percy começou a girar. O fogo próximo demais esquentou sua pele mais ainda. Ele sentia como um vulcão prestes a entrar em erupção.
— Eu... — Octavian respirou fundo. Ele engoliu um monte de sangue. Parecia determinado a conseguir dizer aquilo. — Eu faria muitas coisas... muitas coisas para sobreviver... — ele levantou um pouco a cabeça, e Percy teve a visão da cena grotesca que era o rosto dele naquele momento. — Empurrar o amigo idiota de vocês para fora do auditório e... e derrubar a garota da escada... não eram uma delas.
Os dedos da mão esquerda de Octavian começaram a se mover, como se ele estivesse testando se ainda conseguia controla-los de forma correta. A cela começou a ficar tão quente que Percy não conseguia respirar direito.
— Eu sou uma péssima pessoa... — ele grunhiu — não sou um idiota. Até eu sei que... que mexer com os seus amigos, Jackson... é assinar um testamento.
— Octavian, chega! — Thalia voltou a mexer com a fechadura, mas Percy segurou a mão dela com firmeza.
— Quem foi?
Não havia raiva em sua voz. Apenas um tom perturbador de frieza, mesmo naquele inferno escaldante.
Octavian tentou dizer algo, mas, não surpreendentemente, sua força tinha acabado. Percy sabia que ele utilizara tudo o que tinha para dizer aquilo.
Nada importava.
Não se ele não pudesse provar.
—Octavian — Percy foi mais duro — quem foi?
A mão de Octavian se arrastou vagarosamente. Ele mergulhou um dedo na poça de vermelha e depois o levou um pouco para longe, para o chão coberto apenas de poeira, e não de sangue. A cada segundo, os movimentos iam ficando mais lentos.
Octavian não tinha muito tempo.
Uma voz rosnou no fundo da cabeça de Percy: você também não.
I
Thalia o empurrou com tanta força que Percy foi obrigado a recuar. Ela chutou a grade da mesma forma que dissera à polícia que chutara o saco de um tarado que mexera com ela quando tinha catorze anos. A grade cedeu.
Ela correu para dentro. Agachou-se e se preparou para colocar Octavian nos ombros.
Mas então Octavian puxou um risco no I, o mundo de Percy fez uma espiral. E ele terminou de escrever.
L U K E
Thalia caiu de joelhos, espalhando sangue para todos os cantos.
Octavian desfaleceu, queixo repousando contra a clavícula e a vida esvaindo-se de seu corpo, dedo ainda parado onde havia feito o último risco do E.
Luke.
Luke, que era tão obcecado em manter Annabeth e Thalia à salvo que iria até os confins do inferno para tal. Luke, o único que não estivera ajudando a segurar as portas no auditório, mas sim supervisionando as pessoas que desciam a escada.
Luke.
Luke, que convenientemente fora levado até a enfermaria por Octavian momentos depois de Reyna ser esfaqueada.
Percy sentiu-se como um completo estúpido. Annabeth passara os últimos meses repetindo que Octavian era tudo, menos um idiota. Por que ele iria até o lugar onde Reyna estava – possivelmente consciente – se houvesse a esfaqueado?
Como ele sabia da mordida de Luke?
— Você está mentido! — Thalia gritou para o corpo de Octavian — Luke não-
— Ele morreu, Thalia — Frank murmurou — ele sabia que ia morrer. Por que ele mentiria agora?
— Porque ele não disse isso antes! Porque ele passou meses preso nesse buraco sem comer direito-!
Percy quase não conseguia olhar para o rosto de Thalia, agora coberto de lágrimas, com a boca tremendo.
— Porque ele sabia que nós não acreditaríamos — Reyna completou — porque Luke morreu como um herói naquele dia.
— Se ele houvesse dito algo — Percy sentiu um gosto amargo na boca, e não era seu sangue — as pessoas só teriam batido ainda mais nele.
A mesma sensação borbulhou dentro de si mais uma vez, muito mais intensa. Luke havia matado Ethan, empurrado Rachel e esfaqueado Reyna, e, e-
E Percy não podia fazer nada sobre isso.
Luke estava morto.
Os soldados de Ares haviam espancado Octavian, quebrado suas pernas e deixando-o para definhar, e, e-
E Percy também não podia fazer nada.
Ares estava morto.
Os dois haviam morrido sem jamais responderem pelos seus crimes. Luke havia morrido como a merda de um herói, porra!
E, uau. Percy deveria estar puto. Deveria querer despejar sua raiva.
Ao invés disso, ele sentia-se estranhamente em paz. E isso, tanto como aquela sensação que ele estava tendo, era outra coisa que não conseguia explicar.
O mundo estava acabando, e Percy já nem tinha certeza se sabia quem era.
— Tem uma saída nos fundos do banheiro — Frank apontou para o final do corredor — Clarisse me disse uma vez. Mas ela dá para a ala norte.
Ótimo, Percy pensou, fechando os punhos tão forte que seus dedos estalaram. Alguma coisa dentro de si o dizia que ele deveria ir lá fora, olhar nos olhos de um zumbi...
Thalia se levantou. Ela enxugou as lágrimas no rosto com o antebraço, manchando sua pele com o sangue de Octavian que havia grudado nele, e fungou.
— Você está bem? — Reyna perguntou.
Ela não respondeu. Ao invés disso, marchou para o final do corredor, agarrando o braço de Percy, e começou a arrastá-lo consigo. Frank conseguiu abrir a porta do banheiro com um empurrão, o que só os lembrou das diversas tentativas falhas de abrir a cela de Octavian.
O silêncio e o fogo pairavam sobre eles. Percy mal conseguia registrar o que estava acontecendo. Ninguém queria falar sobre isso.
Ninguém queria mencionar o fato de que nenhum deles sugeriu carregar o corpo de Octavian para fora.
Eles eram tão ruins quanto aqueles guardas, não eram?
Porque Octavian ficaria ali, para queimar junto com o prédio, enquanto eles corriam para tentarem salvar as próprias peles.
Outra porta foi arrombada. O ar quente os presenteou sem delicadeza. Eles estavam no estacionamento da ala norte. O coração de Percy começou a martelar no peito. Eles estavam ali.
Tudo no que ele conseguia pensar era que Annabeth estava em um estacionamento idêntico àquele, do outro lado do prédio. O esperando.
O portão do lado oposto houvera sido arrancado das hastes, e jazia caído no chão.
Eles estavam ali.
Percy sentiu o peso da pistola no quadril.
Annabeth. Annabeth estava esperando-o.
Havia por tanto tempo se escondido atrás de portas grossas, de soldados armados, e da genialidade da garota que amava. Havia se protegido com mentiras e esperanças. Havia dito a si mesmo, de novo, e de novo, e de novo, que tudo ficaria bem.
Para o inferno com tudo bem.
Para o inferno com metáforas.
Percy olharia nos olhos da morte ali, e agora.
— Na esquerda — Frank murmurou.
Uma silhueta cambaleava na escuridão. Percy não precisou estreitar a visão dessa vez. Cada célula do seu corpo pulsava com a certeza de que aquele era um zumbi. A voz no fundo da sua cabeça entoava: avance. mate.
sobreviva.
Ele não viu acontecendo.
Thalia sacou a faca e bateu com o cabo no metal da janela do banheiro atrás dele. O som reverberou. Ele olhou estupefato para ela. Os olhos da prima estavam focados na figura solitária que imediatamente virou a cabeça, seguindo o barulho.
Curiosamente, Percy não ficou irritado com ela, como teria, dez anos atrás, vendo sua prima corajosa e durona sendo a garota incrível e extravagante que era.
Ao contrário.
Percy ficou aterrorizado.
Porque nos olhos de Thalia brilhavam a mesma faísca de loucura que ele só havia visto em uma pessoa.
Ares.
— Ei, filhos da puta! — Ela gritou, à todos pulmões. — Venham atrás de mim!
Outros zumbis seguiram o primeiro. A pior parte é que eles não eram lentos, não pareciam letárgicos e muito menos cômicos. O primeiro avançou em uma corrida frenética, cruzando o estacionamento, e logo os alcançaria. Outros, em diferentes níveis de horror, não estavam atrás.
Thalia deu um sorriso trêmulo. Ela bateu a faca contra a parede e começou a correr na direção oposta da qual eles deveriam.
Percy, claro, correu atrás dela. Ele segurou-a pela mão que ela não estava usando e vociferou:
— O que você está fazendo?!
— Salvando sua bunda! Agora, vai! — Ela tentou empurrá-lo, mas Percy não vacilou. Os grunhidos se aproximavam. A voz na cabeça de Percy ficou mais insistente. De repente, ele se sentia muito inclinado a se virar e cravejar os crânios deles com as balas que ainda estivessem na pistola.
Thalia tentou puxar a mão de volta para si, mas Percy a segurou. Naquele ritmo, eles seriam devorados e alguns minutos.
O olhar dela atenuou. Percy soube o que ela ia dizer antes mesmo de abrir a boca. A faísca de loucura deu lugar à um sentimento muito mais doloroso.
Remorso.
— Eu disse que eu ia tirar você daqui vivo — ela murmurou. Puxou a mão que Percy já estava segurando até que ele estivesse perto o suficiente, e engolfou-o em um abraço tão forte que por um segundo, Percy quase se esqueceu que eles estavam prestes a morrer — e eu vou.
Ela fez menção de desvencilhar-se de novo. Os zumbis estavam a menos de dez passos de distância. Mas Percy não conseguia soltá-la, não conseguia dizer a si mesmo para ceder. Não podia deixar Thalia.
Não podia deixar sua família ali.
Não. Ele iria salvá-la. E então eles dois voltariam para Annabeth e dariam adeus àquele lugar.
— Eu sinto muito por isso, Jackie.
Foi a única coisa que Thalia disse antes de cravar a lâmina da faca nas suas mãos unidas. A dor cortou o corpo de Percy como fogo vivo. Ele abriu a boca para gritar, mas Thalia a cobriu com a própria, livre.
Ela arrancou a própria mão da lâmina, deixando-a enfiada na mão de Percy, e desfigurando à própria, que pingava sangue nos tênis deles, no chão entre eles-
— Encontre o Jason lá fora — ela disse, por cima da dor e das lágrimas que haviam voltado a encharcar seu rosto. A visão de Percy ficou turva. Ele mal conseguia distinguir os olhos dela — diga que eu amo. Annabeth e Nico também.
Ela o empurrou uma última vez. Percy estava tonto demais para conseguir fazer alguma coisa.
— Você sempre vai ser minha família. Agora, sobreviva.
Ela girou sobre os calcanhares, bateu com o cotovelo no metal da janela, e se afastou.
A horda de zumbis a seguiu.
Alguém o puxou pela gola da camiseta, mas Percy não conseguia ouvir quem era por cima do som dos próprios soluços.
Ele arrancou a faca da própria mão e correu.
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