Solitude

22 Epílogo


Notas iniciais
Agora sim, oficialmente, o final. De verdade, muito obrigada à todos que favoritaram, à todos que deixaram comentários (meus maiores incetivos para continuar escrevendo) e a todo mundo que só acompanho, mesmo que sem comentar. Eu acho que nunca terminei uma longfic antes (essa conta como longofic, certo? hehe). Escrever essa história foi muito divertido, eu aprendi muita coisa com os comentários e as críticas, e espero só melhorar minha escrita e os enredos daqui por diante. ENFIM, espero que gostem!

Epílogo.

— Nós estamos nos aproximando do final da sessão — tic — mas eu gostaria de saber — tac — se aconteceu algum conflito entre você — tic — e os outros pesquisadores, e — tac — Annabeth?

A menção súbita do seu nome a trouxe de volta ao presente. Sofá revestido de couro sintético. Azulejos azul-pastel. Quadros pequenos pendurados nas paredes verde-água. O relógio antiquado e o seu incessável tic-tac, tic-tac, tic-tac.

— Sim?

— Alguma coisa de errado com o relógio?

— Não. — Annabeth meneou a cabeça — só... distrativo.

— Nós tivemos esse mesmo relógio em todas as outras sessões — a médica levantou as sobrancelhas acima das armações finas dos óculos — algum motivo para tê-lo notado agora?

Annabeth tamborilou os dedos no joelho.

— Não.

A doutora a observou por um momento. As respostas monossilábicas de Annabeth não eram novidade alguma, então deveria estar procurando por alguma outra coisa. Se ainda fosse a mesma de cinco anos atrás, Annabeth provavelmente se sentiria ultrajada em um consultório psiquiátrico. Detestaria a ideia de ter algum médico metido desenterrando seus medos e inseguranças como se ela fosse um boneco de testes.

O orgulho dela jamais permitiria que outra pessoa se deixasse pensar que a conhecia melhor do que ela mesma.

Mas isso fora antes.

Antes dos ataques de pânicos, das tremedeiras (quase) sem motivo, dos pesadelos. Da sensação de sufoco constante e da voz insistente no fundo de sua cabeça que a lembrava a todo momento que ela poderia ter feito algo. Poderia ter feito mais.

As consultas ajudavam. A medicação também. Cada observação da jovem doutora ainda machucava os resquícios do seu orgulho, mas era uma dor suportável. Uma dor necessária. Annabeth precisava de ajuda.

— Eu vi que você foi diagnosticada com déficit de atenção e transtorno de hiperatividade aos oito anos. Você chegou a tomar alguma medicação?

— Ritalina, até os dezoito anos. Então passei alguns meses sem tomar — porque não havia esse tipo de remédio em uma base militar, ela omitiu — voltei a tomar algum tempo depois de chegar aqui. Por que?

Os olhos da doutora se alargaram quase imperceptivelmente. Mas a mente treinada e obcecada de Annabeth jamais deixaria aquilo passar, por mais que quisesse. Havia dedicado tanto tempo de sua vida lendo as pessoas, analisando cada mínimo movimento e hesitação, que por mais que desejasse ser apenas uma simples e ignorante observadora distraída, jamais conseguiria.

Era como se o mundo colocasse outdoors em cada corredor que ela passava, sussurrando em seus ouvidos: vê isso? Foi você quem fez.

— A senhora acredita que pode ser uma desregulação hormonal?

Aquela era provavelmente a primeira vez que a doutora a via demonstrando tanto interesse no próprio estado mental. Um misto de curiosidade e confusão brilhou em suas írises.

— É muito cedo para dizer com certeza — foi o que ela resolveu dizer, dando um último olhar de relance para os papeis que tinha no colo.

Tic-tac. A sessão acabou.

— O mesmo dia e o mesmo horário na próxima semana — Annabeth repetiu para si mesma, não realmente sabendo o porquê.

A doutora estendeu uma mão para ela. Annabeth apertou-a. O outro braço imóvel ao lado do corpo. Annabeth não fazia mais muito com ele. Ela se despediu cordialmente e então deixou o consultório, sendo imediatamente cumprimentada pelas paredes cinzentas.

Um rapaz cujo nome Annabeth não lembrava passou por ela e acenou. Era surreal como todos pareciam conhece-la, mas os nomes e rostos derretiam de sua mente, misturando-se e enterrando-se em lugares que ela não conseguia achar. As mangas do uniforme da equipe de limpeza que ele vestia estavam arregaçadas. Ele tinha três adesivos codificados com listras laranjas grudadas no antebraço. Ela tentou não encarar.

Acenou de volta e ele desapareceu na curva de um corredor, levando seu esfregão e seus adesivos consigo.

— Nós não temos anestesia, eu sinto muito.

Annabeth trocou um olhar com a mãe, sentada em uma cadeira do lado da maca. Os olhos sempre enérgicos e cintilantes de Atena pareciam estranhamente... vazios. Rugas acumulavam-se no rosto outrora assustadoramente jovial. Ela levantou o olhar cinzento para Esculápio.

— Péssima higiene hospitalar também — comentou.

Mas o tom sarcástico e provocador havia se perdido nas inúmeras noites sem sono e vidas que haviam escapado das mãos dela, sem que pudesse fazer nada. Esculápio deu um sorriso fraco. Annabeth olhou ao redor. O quarto do médico era pouco maior que os outros – um pouco mais de lugar para os utensílios que ele precisava. Mas o bunker de Hefesto houvera sido construído para emergências, não para estadias anuais com atendimento médico acoplado. Aquilo era o que tinham.

Havia chegado ao bunker há menos de dez minutos. Apenas parcialmente consciente e finalmente sentindo a dor da queimadura que rasgara sua mão até quase os ossos. Atena a segurara assim que colocara os pés lá dentro – o que fora uma coisa boa, porque, do contrário, Annabeth teria batido a cabeça no chão. Ela mal registrara quando sua mãe passara o seu cabelo para trás das orelhas, tentando ver seus olhos, antes de ser arrastada até o quarto do médico.

Ela mordeu a parte de dentro da boca, como vira Percy fazer inúmeras vezes quando estava tentando impedir a si mesmo de fazer alguma estupidez – acontecimentos de extrema ocorrência. Seu olhar caiu para a mão estendida na maca. A única vez que vira alguém com a pele tão queimada e oxidada houvera sido...

Ares.

— Eu aguento — garantiu.

Esculápio a olhou com um misto de amargura e pena. Ela sabia que Annabeth estava mentindo. Ela mal conseguia ver direito, caramba.

Que piada.

— A reunião ainda vai demorar para começar — Grover a disse, assim que ela entrou na saleta anexa. Ele estava terminado de colocar a jaqueta. O símbolo da indústria farmacêutica, Olympus, impecavelmente costurada no peitoral — você quer uma água?

Annabeth sentou-se na cadeira adjacente à mesa, recusando com um gesto de cabeça. Pousou a mão que ainda tinha sobre o vidro polido. O ambiente todo a dava ânsia de vômito. Os corredores impecáveis, as cadeiras de verniz, até a maldita máquina de café no canto.

Tudo tão luxuoso e magnificente.

Até parecia que ela não havia matado tantas pessoas para conseguir aquilo. Até parecia que aquele grandioso império reluzente não havia sido pintado à sangue, dor e fumaça.

Grover pareceu sentir o mal humor dela. Ele virou-se do espelho e a encarou por um momento. Annabeth supôs que ele ainda estivesse se acostumando com aquela nova versão dela. Aquela nova Annabeth Chase: longe da garotinha animada e espetacular em matemática.

A adulta oscilante, ora enterrada demais em seus sentimentos de culpa, ora irritada com absolutamente tudo – mesmo o que ela própria havia lutado para proteger – e ora um lasco no escudo que o permitia ver uma sombra da genialidade perdida há tanto tempo.

— Somos só nós dois hoje? — Ela perguntou antes que ele pudesse falar alguma coisa.

Grover assentiu. Ele também não parecia mais tanto com ele... nada de cachos descontrolados e barbicha por fazer. Agora Grover era um dos maiores nomes na hierarquia daquele novo mundo, com o cabelo rente ao crânio e a barba perfeita, igualmente aparada.

Ah, é claro. Só havia um detalhe.

Ele estendeu uma mão para pegar a maleta encima da mesa e pressionou o polegar no sensor. O objeto se abriu sem som algum. Ele colocou o conteúdo da ampola na seringa e então afundou a agulha na pele do antebraço firme. O fazia com tanta naturalidade que Annabeth chegava a pensar que ele não sentia mais dor.

Talvez não sentisse mesmo. Ela não gostava de falar sobre isso.

As pálpebras de Grover se fecharam, mas Annabeth pôde ver os olhos dele se revirando por trás dela. O corpo todo dele tremeu por um momento. Ele segurou a seringa com mais força. Annabeth aguardou.

— Piper saiu em uma das missões diplomáticas dela — ele respondeu — junto com a Silena, então, sim. Só nós dois.

— Silena, huh? — Annabeth murmurou, não conseguindo esconder a própria entonação.

Grover sentou-se na frente dela.

— Silena está fazendo terapia — disse — ela está... está tentando. Foi difícil para todos nós. Mas...

— Eu sei, Grover — Annabeth a interrompeu — eu sei. Eu estou feliz por ela.

Afinal, omitiu. Já fazem cinco anos que a melhor amiga dela foi degolada pelo próprio pai.

A verdade era que talvez Annabeth estivesse sentindo um pouco de inveja. Que Silena estava fazendo tanto progresso quando as duas haviam tido a mesma quantidade de tempo para se recuperarem. Não que Silena houvesse se recuperado por completo. Annabeth ainda a ouvia chorando de madrugado, às vezes. Mas talvez fosse mais assustador se ela não chorasse.

Grover não a perguntou sobre Nico. Ela agradeceu.

— Vamos logo — Annabeth se levantou — o quão mais rápido isso acabar, melhor.

As mãos de Nico se fecharam em torno da mão direita trêmula dela. Ele já havia terminado de vestir o traje de proteção, então tudo o que ela sentiu foi o plástico grudento das luvas.

— Você precisa ficar calma — ele sussurrou, olhando-a por trás do vidro do capacete escuro — todos estão olhando.

Os olhos de Annabeth automaticamente vasculharam o resto do vagão. Meia dúzia de outros voluntários estavam agrupados, relembrando os detalhes da missão. Annabeth olhou para as mãos unidas deles. E então para o uniforme personalizado dela, fechado onde acabava o braço esquerdo.

— Eu não sei qual é o problema — resmungou — essa é a mão que eu ainda tenho.

Nico respirou fundo.

— É só o seu corpo reagindo naturalmente. Ele se sente ameaçado.

— Talvez esteja com medo da outra mão ser queimada também e não termos remédios para as queimaduras quando voltarmos. De novo. — Annabeth comentou.

— “Quando” voltarmos — Nico bateu com as mãos na dela de forma assertiva — eu gosto desse pensamento.

Ele se virou, provavelmente para checar algum detalhe com outro voluntário, mas Annabeth o segurou pelo braço.

— Quando voltarmos — ela repetiu — eu preciso que você vá comigo. Falar com todos.

Ela não conseguia ver o olhar dele por trás do capacete, mas sentiu que Nico não gostou nada do pedido. Ele não fez nenhum movimento brusco, provavelmente porque sabia que aquilo só pioraria os nervos dela.

— Não.

— Nico...

— Minha resposta é não — concluiu. — Estou te ajudando aqui porque a moral de todos os outros depende de você. Mas eu não vou subir em um pedestal contigo. Não vou receber os aplausos de outra missão bem-sucedida. Essa glória é sua, capitã Chase. Eu não quero nada dela.

— Você está com medo.

Nico arrancou o próprio braço do aperto dela.

— Eu estou com nojo — corrigiu — nojo que você possa pensar que eu quero algum tipo de reconhecimento — ele deu alguns passos, até estar tão perto que só Annabeth poderia ouvir a voz abafada dele por detrás do capacete — eu fiz todos acreditarem que Octavian era o culpado. Posso nunca ter encostado um dedo dele, mas fiz pior: eu incentivei todos os soldados que o torturaram até a morte.

Ele afastou-se com um tremor. Annabeth abriu a boca, mas nenhum som saiu.

— Eu não posso, desculpe. Não vou ganhar a glória disso aqui depois de ter começado toda aquela crueldade.

Ele atravessou o vagão e começou a falar com outro rapaz. Annabeth cambaleou até estar com as costas apoiadas na parede, mas naquele mesmo momento o veículo fez um solavanco e parou. Nico sinalizou para que abrissem as portas, e foi o primeiro a descer.

Annabeth aguardou até que todos os outros já houvessem saído.

Nico se culpava pela morte de Octavian?

Irônico.

Annabeth se culpava pelas mortes de todos os outros.

Ele não precisou ajeitar a postura quando Annabeth e Grover passaram por ele. Nico estava sempre alerta. Talvez fosse a forma dele de manter a sanidade. Annabeth tentou não olhar para o enorme fuzil que ele tinha nas mãos, e como Nico parecia ter se decidido a nunca mais ser visto sem uma arma. O cabelo longo preso com uma fita na altura da nuca e a barba bem cortada. Ele agora tinha uma cicatriz quase idêntica à que Reyna dizia que sua irmã mais velha tinha na testa.

Ela tentou não pensar em Reyna também. No que ela diria se o visse assim. No quanto ela havia tentando impedir que ele se tornasse exatamente como ela e Hylla – forças de pura destruição.

Annabeth devia desculpas a ela, provavelmente.

— Todos já estão aguardando.

— Obrigado, Lacy — Grover respondeu.

A jovem assentiu. O cabelo loiro estava amarrado em um rabo de cavalo apertado, o nariz ainda delicado salpicado de sardas, mas todo o resto havia mudado. A expressão de Lacy era a de uma soldada treinada. Nada mais, nada menos. Ela deu um passo para o lado para dar passagem para eles, movendo todo o corpo alto e muscular escondido atrás do uniforme preto e cinza com pistolas e facas escondidos.

Antes que Annabeth passasse completamente por eles, no entanto, Nico a disse:

— Boa palestra.

É claro que ela não podia obriga-lo a subir em um palco e falar sobre a peste que havia matado todos os amigos dele. Mas Annabeth às vezes queria que ele a ajudasse com um pouco mais do que comentários bem-intencionados. Grover estendeu uma mão, como se fosse afagar o cabelo de Lacy, algo que eles faziam com tanta frequência quando iam visitar Piper e a garotinha estava lá. Mas o olhar duro da soldada o fez recolher sua mão de volta para si.

Que tal?

O olhar de Piper era hesitante. Annabeth olhou para a nova prótese que substituía sua mão. Eles haviam tentado outras antes. Mas eram pesadas ou leves demais. Às vezes, caiam enquanto ela andava e Annabeth sequer percebia.

— É ótima. Como você conseguiu?

— O pai do Leo me ajudou — ela disse, abaixando a cabeça — eu nunca... eu nunca tive interesse nessas coisas. Mas de vez em quando Jason e eu íamos com ele para a oficina e o Hefesto nos ensinava um pouco. Agora... — Piper respirou fundo — somos só eu e ele.

Um nó se formou no estômago de Annabeth. Demais. Demais. Demais.

Aquilo era demais.

Ela se levantou em um salto. De repente, os olhos de Piper estavam amarelos. E então vermelhos. Tudo o que ela conseguia ver era fogo, fogo e fogo. Queimando tudo. Consumindo tudo.

— Eu preciso ir — disse, já correndo para a porta — eu sinto muito.

Sente muito pelo que? Ela se perguntou, do lado de fora.

Pelo Jason?

Ou por si mesma?

O auditório foi ficando cheio. Annabeth conhecia a rotina. Era o primeiro dia de aulas para o fundamental. Ela se lembrava de ter onze anos, ser transferida para uma escola nova no Brooklyn e achar que Frederick definitivamente a odiava por ter feito aquilo. E então esbarrar em dois alunos mais velhos, com bottons de bandas de rock em suas mochilas e tênis surrados.

E de duas semanas depois, e do garoto com os bonitos verdes a chamando de nerd.

— Boa tarde a todos — ela disse, no microfone — eu me chamo Annabeth Chase. Eu sou a Comandante da bancada de pesquisa científica há dois anos. Esse é meu colega, Grover Underwood, Vice Comandante e, como vocês devem conhece-lo, Parte do Milagre. Como procedimento padrão, estou responsável pela palestra obrigatória sobre O Parasita.

As crianças se remexeram em seus assentos. Professores de fundamental repreenderam em voz baixa os alunos que haviam esquecido os próprios materiais. Grover acenou disfarçadamente com uma mão e um funcionário imediatamente partiu para pegar outras.

O Parasita — Grover começou — é como chamamos o a bactéria que surgiu há cinco anos e causou uma epidemia responsável pela morte de uma enorme parcela da população.

Annabeth odiava aquilo. Odiava, odiava, odiava.

A forma teatral como era obrigada a falar. Os exemplares exatamente iguais distribuídos nas escolas. O nome ridículo. Era como se tudo o que eles haviam vivido fosse um romance grotesco nas páginas de um livro distópico. A bactéria tinha nome e definição. Annabeth havia gastado cinco anos da própria vida estudando-a.

E desenvolvendo o remédio que deixou sua família rica.

— É uma bactéria maligna, que entrava no corpo das pessoas através da corrente sanguínea, se alojava no cérebro e as matava. As pessoas se tornavam mortos-vivos, controlados unicamente pela necessidade de disseminar essa bactéria para outros hospedeiros. Felizmente, a dra. Chase e os outros médicos encontraram a cura utilizando diferentes células dos glóbulos brancos. Todo cidadão legalizado e com as contas em dia recebe a injeção a cada dois semestres.

O garotinho com a mão levantada perguntou:

— Por que as nossas mães não puderam amamentar nossos irmãozinhos?

Grover limpou a garganta.

— Os seus irmãos mais novos... passaram por um complicado procedimento médico durante a gestação para nascerem sem a bactéria dentro de si. Mas nós — ele hesitou — digo, você, e qualquer pessoa que já estava nascida há cinco anos atrás ainda o temos. É por isso que vocês tomam as doses. Para mantê-lo sob controle. Alguém mais?

— Até você?

— Eu... — Grover a olhou de relance — eu sou diferente. Faço parte do Milagre, não é? A bactéria fez um processo diferente no meu corpo. Eu uso adesivos e injeções diárias, para que o departamento de pesquisa possa colher uma quantidade maior do meu sangue e fazer mais remédio. Embaixadora McLean também os usa. Ela escreveu uma nota ao final de O Parasita.

— Eu tenho uma pergunta — uma voz conhecida soou. O corpo de Annabeth congelou.

— Sim? — Grover também pareceu ficar nervoso.

Sally Jackson se levantou no meio da multidão. Ela havia envelhecido muito em cinco anos, mas Annabeth ainda achava que ela possuía a expressão mais feroz que já havia visto. Não havia nada de especial na roupa ou aparência de Sally. Ela era apenas outra cidadã comum.

— Quando o seu livro novo sai, doutora Chase?

O auditório ficou em silêncio. Annabeth engoliu em seco.

Ela nunca havia contado à Sally sobre aquilo.

E, ainda assim, ela não pôde evitar um sorriso.

— Ele está sendo impresso nesse exato momento — disse — vocês vão encontrar cópias nos seus correios assim que voltarem para a casa.

As crianças a olharam confusas; Mas Sally Jackson pareceu entender.

— Não tem muito para ver por aqui — Nico comentou — mas parece que a Mãe Natureza fez bem o trabalho dela.

Annabeth não compartilhava do humor dele. Poucos meses haviam se passado desde... desde quando ela havia deixado Percy para morrer naquela base militar. Mas era como se nada daquilo houvesse acontecido. Enormes plantas trepadeiras cobriam toda a estrutura enegrecida pelo fogo. Pedaços de concreto caídos haviam também sido enterrados embaixo de grama e mais grama.

O pensamento a deixava enjoada. Ela segurou Nico pelo braço mais uma vez, embora ele não parecesse tão mais incomodado.

— Não é absurdo?

— Que a grama tenha crescido de volta? Não, não tanto-

— Que os nossos pais não saibam disso — ela completou — que eles não façam a mínima ideia do que aconteceu aqui.

— Nós contamos a eles...

— Não é a mesma coisa — ela balançou a cabeça — é como se tudo isso... nunca tivesse acontecido. As mortes e o fogo. Tudo. Nós vamos deixar que isso fique apenas nas nossas memórias? Deixar que eles vendam seja lá qual for a história que eles querem contar? Um slogan em um adesivo bonito grudado em todas as seringas?

Nico virou-se para ela. Mais uma vez, ela não conseguia ver seu rosto, mas tinha a impressão de que ele estava sorrindo.

— Annabeth Chase, ao vivo em cores — disse — eu não sei, o que você vai fazer?

— Doutora Chase, o que diabos significa isso?!

Zeus estava, como sempre, flanqueado por dois guardas. Nico e Lacy a olhavam com expressões vazias. O patriarca da família – e líder daquela... fosse lá no que eles viviam. Annabeth achava que sequer a palavra “utopia” parecia apropriada — a olhava do topo de seu terno risca-de-giz e barba grisalha pomposa.

— Meu segundo livro — Annabeth respondeu — eu o chamo de “Solitude”. O senhor não gostou?

— Isso é um completo ultraje! — Zeus berrou, avançando — Eu salvei sua vida garota! Você me deve obediência.

Antes que soubesse o que estava acontecendo, Annabeth foi erguida pelo colarinho. Mas ela olhou no fundo dos olhos cinzentos dele, e, não tão surpreendentemente, não encontrou nada.

Zeus não era Ares.

Zeus não a havia feito matar pessoas e apunhalar o próprio ego repetidas vezes até Annabeth não ter mais certeza de quem ela era.

Annabeth não tinha medo dele.

Uma segunda mão surgiu, segurando o pulso de Zeus como garras.

— Seu insolente! O QUE VOCÊ-

— Solte Annabeth, para o seu próprio bem — Grover ameaçou — eu não tenho muita noção de dor, entende? Infelizmente, se eu começar a te bater, não vou saber quando parar.

As mãos de Zeus tremeram.

— Guardas-!

A ponta do fuzil de Nico afundou na lombar dele.

— Sinto muito, chefe — ele deu de ombros — ah, esclarecendo: estou falando com Annabeth. Sinto muito por não ter calado a boca dele antes.

Annabeth assentiu.

— Desculpas aceitas. Agora, Zeus, por favor não seja inconveniente, eu tenho um compromisso.

Ele a colocou no chão, mas seu corpo ainda tremia de ódio. Annabeth começou a andar na direção do carro.

— O que você acha que vai ganhar com isso?

Annabeth riu.

— Ganhar? Nem tudo é uma aposta. Mas eu aprendi há um tempo atrás que as pessoas têm o direito de saber a verdade — ela olhou para Grover — mesmo que isso as machuque. Eu não tenho o direito de controlar as vidas das pessoas.

— Isso é uma péssima decisão, Annabeth. Eu espero que saiba disso — Zeus ameaçou.

— Oh — ela deixou que Grover entrasse no carro primeiro — não seria a primeira. Eu coleciono decisões erradas.

[...]

Mais por costume do que qualquer outro motivo, Nico e Lacy a seguiram quando ela saiu do carro. Era improvável que alguém, mesmo os seguidores mais fanáticos daquela família, fossem ataca-la em um cemitério. Um segundo carro estacionou logo atrás do deles, e Sally saiu, mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo cor de creme.

— O livro ficou ótimo.

— A senhora não poderia de modo algum já ter conseguido ler tudo — ela semicerrou os olhos.

— Eu não preciso — ela balançou a cabeça — eu sei que está. Porque você é honesta e inteligente, e eu tenho orgulho de ter te visto passar por tudo isso.

— O trauma irreversível?

— Você entendeu o que eu quis dizer.

Grover tirou a cópia dele do porta-luvas do carro.

Percy Jackson. Um nome que ninguém dentro desse mundo de muros altos e injeções caras nunca ouviu ou leu. Um nome que eu e vários outros sobreviventes estivemos guardando como um segredo. Eu acredito que seja a hora de contar a história dele. A minha história. E a história do fim do mundo. — Grover leu. A voz dele embargou um pouco, mas ele tentou ser engraçado: — poético.

— Realístico — ela corrigiu.

Tudo isso começou com um sonho idealístico, como a maioria das histórias começam. Estou brincando, é claro. Começou com uma boa oportunidade de mercado. Um novo hormônio desenvolvido em laboratório que seria capaz de aumentar ainda mais a produção de carne e os demais derivados de gado. Leite? Dois dias para produzir e limpar. Carne? Muito, muito mais. Nuggets de frango? O quanto você conseguir comer. Era simples. O hormônio fazia com que os animais crescessem ainda mais rápido do que já cresciam. Claro que boa parte da carne que começou a ir para o prato dos cidadãos era só gordura flácida com um tenro gosto de churrasco, mas quem se importava? E havia ainda mais um benefício: acabaria com a crueldade da indústria de carne, porque assim que o animal atingisse um determinado número de dias – ou mês, dependendo da espécie – ele morreria por ataque cardíaco instantaneamente.

Eu poderia dizer que as coisas deram errado aí, mas foi um pouco depois.

Veja bem, um hormônio que metaboliza tanto o organismo de um animal que o leva a ter um AVC automaticamente em um tempo cronometrado não é normal. Porque não era um hormônio. Nunca foi um hormônio. Ao menos não inteiramente. Acontece que a aplicação desse hormônio gerou, dentro dos corpos dos animais, a casa perfeita para uma pequena parasita, previamente inofensiva para o sistema deles. Era uma bactéria.

Ao invés de parar a produção e erradica-la, a indústria fez um acordo com as maiores multinacionais farmacêuticas. O que se tinha como pressuposto era que, uma vez mortos e limpados, a bactéria teria sido expulsa da carne e ela poderia ir para o mercado. Se isso não funcionasse, a “receita” seria vendida para as empresas e elas poderiam faturar alguns milhões encima de uma doença feita em laboratório.

Quem consegue adivinhar onde deu errado?

Pois é. Nós comemos. Nas nossas casas, nas nossas escolas. Não estou dizendo que não deveríamos. Não tenho nada a ver com a sua filosofia pessoal de vida. Mas acontece que a maioria de nós comeu. E agora? Bem, agora nós tínhamos algumas amigas circulando pelas nossas veias esperando para causar ataques cardíacos a qualquer momento.

Só que o corpo humano é durão. Como ele fez com todas as outras epidemias que já enfrentou na história, ele lutou e lutou até que alguém (essa sou eu) inventasse uma cura. Mas isso foi um pouco depois. Antes, muita gente morreu. Muita gente morreu porque, surpreendentemente (por favor, note a ironia), sistemas imunológicos diferentes reagem de forma diferente. Ninguém é igual. Eu fico gripada com dois minutos na chuva. O Capitão Di Angelo pode dormir uma semana no relento e vai voltar (fedendo) ainda perfeitamente saudável. A maioria de nós contraiu da forma normal: ingerimos a carne e assinamos um testamento. Essa parte é ciência, e eu espero que vocês me perdoem pela chatice: a bactéria entra pelo nosso sistema digestivo e se aloja nas paredes dos órgãos internos pelos quais ela passa. Nada demais (exceto uma estranha sensação de tonteira e mudanças de humor).

Mas!

Ela precisa chegar ao sistema sanguíneo. E é aqui que entra a parte mais ironicamente cruel: nós fizemos isso. Enquanto médicos nos hospitais tentavam descobrir as causas para esses enjoos repentinos e outros sintomas, eles realizaram dezenas de centenas de milhares de testes. E cirurgias. Imagine que a bactéria está alojada na parede do estômago. Você precisa de uma cirurgia no estômago, por algum motivo qualquer. Inevitavelmente, cortes serão feitos. Sangue escapa. Um transporte de graça para uma bactéria fanfarrona.

Ao entrar na corrente sanguínea, a bactéria não começa a agir de imediato. Ela vai viajar o seu corpo inteiro, esperando um ciclo ser terminado, para poder chegar ao coração e ser bombeada para o nosso amigo mais brilhante e mais frágil de todos, o cérebro. Lá, ela se aloja na parte frontal, onde começa a destruir lentamente tudo o que te dá controle sobre o seu próprio corpo. Voilá. Dependendo do seu sistema imunológico e da sua saúde, isso pode levar horas ou meses. Eu durei o suficiente para encontrar um remédio.

Alguns dos meus melhores amigos não chegaram a semanas.

Percy Jackson descobriu isso. Ele achava que era um vírus, e, portanto, o denominou por ciclo lítio. Ele estava errado, mas eu jamais teria descoberto nada sem ele.

Finalmente, o Milagre. Grover Underwood. Super-humano que não dorme, não come e não sente dor. Consegue produzir muito mais células de sangue do que qualquer pessoa.

Jovem médico que vive de injeções diárias para que a bactéria não tome conta do seu corpo.

Grover nunca comeu carne na vida. Ergo, Grover nunca ingeriu a bactéria. Mas, ele foi mordido. Umas seis vezes. A questão é: nossas amigas apocalípticas precisam dos nutrientes contidos na carne animal para se desenvolverem com plenitude. Elas esgotam esses nutrientes do corpo humano com muita, muita velocidade.

É por isso que humanos infectados mordem outros humanos. Realojamento. As bactérias estão procurando um novo saco de comida. E quando esse for esgotado, elas partem para outro. Esse é ciclo. Esse é o fim de mundo.

Quando ela não encontrou nutrientes específicos no corpo de Grover para se desenvolverem, o sistema imunológico dele conseguiu coloca-las no modo soneca. Houveram alguns efeitos colaterais, como a superprodução de glóbulos brancos e o estado de alerta constante que o impede de dormir. Mas Grover não podia perder muito sangue, se não, não teria forças para mantê-las adormecidas. Eu quase o matei por isso. Foi, literalmente, pura sorte.

Grover foi a minha chave para desenvolver essa cura. E no caminho, nós encontramos um monte de coisa estranha. Na nossa estadia em uma base militar, um coronel se infectou propositalmente. Aconteceu alguma coisa com ele – eu nunca descobri, porque nunca encontrei o corpo dele de novo. Ele não morreu, mas eu não diria que estava vivo também. Quando o sangue dele foi injetado em um garoto infectado, mas ainda não transformado, aconteceu algo parecido com ele. Percy Jackson matou ambos para salvar minha vida.

Até hoje eu não sei bem o que pensar sobre isso. Eu nunca saberei o que aconteceu com Ares la Rue e Frank Zhang. O segundo foi um dos meus melhores amigos. Essa lacuna na história... esse vazio. Ele me assusta.

E me diz que nós ainda não sabemos tudo. Que talvez nunca saberemos.

Eu desenvolvi um medicamento extraindo a maioria das substâncias do sangue do Milagre. Esse medicamento faz com que as bactérias nos corpos de vocês fiquem eternamente em estado de soneca, embora vocês possuam substâncias no organismo que ela pode consumir. A família Olimpo, atual detentora da minha patente, não me deixa avançar com as pesquisas.

Não estou salvando vocês. Estou adiando suas mortes.

Agora, não estou dizendo para não tomarem os remédios. Tomem os remédios, por favor. É a única coisa os mantendo vivos. Mas reajam. Busquem conhecimento, tentem descobrir mais. Até encontrarem uma cura de verdade. Algo genuinamente libertador, e não apenas uma coleira com uma guia mais extensa. Não sejam cabeças vazias esperando por uma salvação.

Não sou sua salvação. Não sou sua esperança.

Sou apenas uma de vocês.

— Ficou longo demais, mas eu não esperava menos de você.

Annabeth virou-se imediatamente. E, de certo. Lá estava ela. Com as calças escuras sem buracos, escondendo as cicatrizes, e a camiseta manchada de cinza. O sol refletindo nos cabelos ruivos.

— Rachel — cumprimentou.

A garota andou até ela, e elas se abraçaram. Annabeth a via tão pouco. Abraçar Rachel, mesmo depois de todo aquele tempo, ainda parecia meio surreal.

— Ele está lá dentro. Disse que queria ficar mais um pouco.

— Cabeça dura como sempre — Nico riu baixinho — Annabeth, por que não vai lá com ele? Nós vamos esperar aqui.

Ela concordou. O caminho da entrada até área mais privada do cemitério era longo, mas Annabeth usava a caminhada para limpar os pensamentos. Depois de tudo aquilo, ela encontrava-se tendo que respirar fundo e organizar a cabeça várias vezes durante o dia.

Percy....!

O mesmo garoto de antes a segurou pelo torso e a ergueu do ar. Ela não entendia porque ele ainda estava insistindo. Não conseguia ver que ela não queria aquilo? Ela não queria ir embora! Ficar viva não valia a pena se Percy precisava morrer para isso.

Frank começou a andar na direção dela. Annabeth reconheceu a expressão dele. Sabia que assim que os alcançasse, seria o fim para ela e para o garoto irritante. Mas Percy estava tão perto. Ela não podia deixa-lo para trás, mesmo que aquilo...

— Eu poderia deixar que ele arrancasse sua cabeça fora... — o garoto rugiu na orelha dela — mas você vai pagar na cadeia por todos que matou, vagabunda.

Tiros. Percy. Frank.

Céus. Céus.

— Percy, não... — ela murmurou, fraca demais, vendo a poça de sangue se espalhar embaixo de Frank. Não queria olhar para cima.

Frank e Reyna. Mortos. Bem ali.

Rachel se moveu ao lado de Percy e o coração de Annabeth parou de bater, seus joelhos viraram gelatina e sua pele gelou. O garoto a arrastou com mais força e eles começaram a se afastar. Percy respirou fundo, mas Annabeth não podia aceitar aquilo. Não podia deixa-lo morrer.

A cabeça de Rachel balançou e o rosto dela desapareceu, apoiado no pescoço de Percy.

Mas ele não gritou.

Ao invés disso, pareceu completamente assustado. Annabeth viu as costas de Rachel balançando, como se ela estivesse respirando com dificuldade. Percy se afastou um pouco, até pegar o rosto dela em uma mão e virá-lo para ele.

Seus olhos se arregalaram.

O rosto de Rachel virou para ela. Não havia sangue saindo de seus olhos ou ouvidos. Sua boca não estava rachada. Ela se apoiou na parede ainda em chamas atrás de si e começou a se levantar, trêmula. Annabeth não conseguia acreditar.

Rachel tirou a pistola das mãos de Percy. Com um cotovelo apoiado na parede e o cabelo ruivo caindo sobre o rosto como uma cortina, ela olhou direto para a outra garota.

— Volte. Viva — ela bufou, cada palavra parecendo doer sua garganta — eu vou... fazê-lo...sobrevier.

Um nó se formou na garganta de Annabeth. Ela balançou a cabeça freneticamente. Sabia que não tinha como se livrar no aperto de víbora que o garoto tinha nela.

Mas ela era Annabeth. Ela enfrentaria quem estivesse no comando no bunker de Hefesto. Provaria que era útil demais para ser presa. Tomaria o controle se fosse preciso. Mas ela voltaria.

Viva.

E da próxima vez, levaria os dois consigo.

Por enquanto, vendo Rachel se inclinar e muito sofregamente apoiar Percy até ele conseguir ficar de pé, ela precisava confiar neles.

— Annabeth! — Percy gritou. Ele precisou de um momento para tomar ar: — não se esqueça!

O garoto terminou de puxá-la até o carro aberto, e a derrubou no vagão com tanta força que a cabeça dela bateu e zuniu. Mas ela não deu atenção à dor.

Ela havia salvado Rachel. E iria salvar Percy também.

Baixinho, para que ninguém ouvisse, ela murmurou:

— Nunca, eu prometo.

A figura de Percy parecia ainda maior contra a luz do sol poente. Ele estava sentado em frente à lápide grande, um buquê de flores repousado sobre a grama à frente dele. O sobretudo escuro ia até os joelhos, jeans igualmente escuros, e ele tinha as mãos unidas no colo.

— Como você está? — Annabeth perguntou.

Percy virou o rosto para ela. O cabelo preto agora mais curto, mas os mesmos intensos olhos verdes sob as sobrancelhas grossas e expressivas. Ele sorriu. Era um sorriso calmo, e nada como os antigos, impetuosos e provocativos. Mas Annabeth gostava mais daquele.

Era um sinal de que Percy estava bem. Em paz.

— Melhor agora — ele esticou o braço e ela se sentou ao lado dele, aninhando-se. Era um fim de tarde frio, e ela gostava do abraço dele. — A essa hora, eu suponho que todos já estejam perto de terminar...?

— É, provavelmente.

— Nada mais vai ser o mesmo, não é?

Ele olhou para a lápide na frente deles.

ETHAN NAKAMURA. LEO VALDEZ. HAZEL LEVESQUE. JASON GRACE. OCTAVIAN. THALIA GRACE. REYNA RAMÍREZ-ARELLANO. FRANK ZHANG.

Havia até o nome de LUKE CASTELLAN, um pouco mais embaixo. Ela sabia que ele tinha feito coisas horríveis, mesmo que tentando protege-la. Nada justificava. Mas ela achava que ele tinha direito à pelo menos uma lápide. Outras duas sepulturas simbólicas, de CLARISSE LA RUE e HYLLA RAMÍREZ-ARELLANO estavam dispostas de cada lado, com as respectivas condecorações que elas haviam recebido.

Eles nunca encontraram nenhum dos corpos para enterrar. Aquilo era o máximo que podiam fazer.

— De certa forma, não. Mas eu acho que vamos ficar bem.

— E por que você acha isso?

Ela estendeu uma mão e pousou-a por cima da dele, enluvada. Ela sabia que por baixo do algodão azul havia uma enorme cicatriz que ele não gostava de mostrar. Percy não conseguia mais mover aquela mão.

Ironicamente, era justamente com aquela que ele havia a segurado pela primeira vez, naquela sala de som, há tanto tempo atrás.

Ah. Mas Annabeth não tinha mais aquela mão também.

— Porque eu tenho você.

Percy deixou um beijo na testa dela, e Annabeth respirou fundo o que pareceu ser a primeira lufada de ar puro em séculos. Eles assistiram o sol se pôr dali.

— Ah, mais uma coisa — ela levantou o rosto para encará-lo. Os olhos dele cintilaram com a luz alaranjada — você contou para a sua mãe que o livro saía hoje.

Percy sorriu amarelo.

— Você me conhece.

Annabeth deitou a cabeça de volta no ombro dele.

— Sim — respondeu — e eu agradeço todos os dias por isso.

Percy não disse nada. Mas ele não precisava. Ele era sua calmaria e sua tempestade. Naquele momento, Annabeth só queria um abraço e uma promessa de um amanhã melhor.

E foi exatamente isso que ele a deu.

Eles alcançaram a porta da base militar, agora coberta de musgo. Ela não conseguia parar de pensar se Rachel havia sido capaz de racionar a comida por todo aquele tempo. E cuidado do ferimento de Percy. E tantas outras coisas que poderiam dar errado.

Nico fez o sinal para que os outros voluntários aguardassem. Ele virou para ela e tirou o capacete. Seu cabelo estava molhado de suor, mas seu olhar parecia arder.

Você acha que ele sobreviveu?

Subitamente, todas as dúvidas de Annabeth desapareceram. Ela deu um passo para trás e chutou a porta, que cedeu com facilidade.

Virando-se para Nico, e, dessa vez, com a voz completamente segura, ela respondeu:

— Eu quero acreditar que sim.

Notas finais
ARRÁ! Eu não sei como alguém pode achar que eu teria coragem de separar esses dois no final. Não dá. P.S: O capítulo mencionou o TDAH da Annabeth porque eu sou eternamente grata ao Rick Riordan por ter feitos todos os protagonistas com TDAH. Significa muito. P.P.S: Não incentivem rivalidade feminina sz confiem na Rachel e deixem ela e a Annabeth serem amigas. Muito obrigada por lerem, eu nem sei mais o que dizer. Comentários são sempre apreciados!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!