Solitary Man
1 Capítulo 1
O jovem se encontrava sentado na poltrona de couro próxima à lareira, a única fonte de luz da sala. Pelo horário avançado, o local se encontrava vazio, algo satisfatório para o jovem, que desfrutava de um dos privilégios que ser monitor oferecia — poder permanecer na sala comunal da Sonserina até tarde, sem ninguém o incomodando.
A penumbra do local não perturbava o jovem moreno, que encarava o fogo de modo contemplativo, as chamas fazendo com que seus olhos escuros brilhassem. A meia luz da lareira fazia com que as sombras dos móveis grandes e belos que adornavam o local parecessem enormes, prestes a engolir a figura solitária em sua cadeira. O jovem não prestava atenção. Estava concentrado nas chamas, como em uma espécie de transe.
Aqueles que conheciam pessoalmente Tom Riddle pensariam que o jovem estava refletindo sobre alguma de suas aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas, algo em que era muito bom — como quase todas as matérias em Hogwarts — e algo que se interessava profundamente. Como estava no sétimo ano, as aulas se encontravam cada vez mais intrigantes, abordando assuntos nos quais Riddle tinha muito interesse, como as maldições imperdoáveis, assunto abordado em sua última aula do dia, por uma pergunta que o próprio jovem havia feito. Tom achou extremamente divertido ver como a maioria dos alunos se encolheu quando a professora disse o nome de cada uma das maldições; alguns sonserinos se mexendo desconfortáveis em suas cadeiras não passaram despercebidos por ele. Mas não era em nenhuma aula de Defesa que o jovem pensava, em nenhuma maldição imperdoável tampouco.
Era em um garoto de cabelos loiros compridos. Tom vinha pensando nele cada vez mais atualmente. Os dois se conheciam desde o primeiro ano de Riddle em Hogwarts. Não se pode dizer que Tom deu muita importância ao garoto nesse momento, mas assim que começou a orquestrar seus planos para o futuro, Tom passou a dar mais valor para os benefícios que uma conexão com o nome Malfoy poderia trazer. Desde então, Abraxas Malfoy fazia parte do círculo íntimo de Tom. Não eram amigos, obviamente. Tom não possuía amigos. Ele possuía seguidores — fiéis. Abraxas talvez fosse o mais fiel de todos, pensou Tom. Não porque o loiro idolatrasse Riddle. Apesar de toda a escola achar que Tom fosse o garoto perfeito, com as melhores notas e uma fisionomia extremamente agradável, o moreno tinha a suspeita de que não enganava Abraxas com sua máscara de perfeição. Seu círculo íntimo sabia que Tom não era bom, porém perfeição era um adjetivo utilizado de bom grado ao se dirigirem à ele. Menos por Malfoy. E ainda assim o loiro era o primeiro a fazer algo que Tom demandava, sem questionar.
Tom gostaria muito de saber o que se passava na mente do jovem loiro. Tinha sido extremamente fácil criar uma conexão entre os dois quando o moreno julgou que esta seria proveitosa para ele. Apesar de Tom ter algo a ganhar com o vínculo entre os dois, Malfoy não tinha. Abraxas possuía seu nome de família e toda a riqueza que pudesse precisar, assim como uma facilidade para criar amizades, diferente de Tom. Mesmo assim, o loiro se mostrou fiel desde o começo. Acatando todas as ordens e desejos de Tom, e seguindo Riddle pelo castelo sempre que ele se mostrava favorável à companhia.
Sendo sincero, dentre seu círculo, Malfoy era quem Tom considerava a companhia menos insuportável. Sonserinos de famílias antigas e puras do mundo bruxo podem ser extremamente entediantes, pois o único assunto que parecem gostar de falar é sobre a riqueza e pureza da qual faziam parte. Apesar e Tom considerar esses motivos importantes no momento de convidá-los para seu círculo, ele tinha outras coisas mais importantes para se preocupar no momento do que quantas casas e relíquias cada um possuía. Abraxas nunca tomava parte em tais conversas, parecendo mais confortável em sentar numa poltrona e ouvir os outros falarem. Porém, quando estava sozinho com Tom, o jovem não era contra estabelecer uma conversa, pelo contrário, ele sempre iniciava todas. Isso deveria aborrecer o moreno, que na maioria das vezes prezava pelo silêncio, e no começo aborrecia, porém, agora Tom apreciava as conversas que tinham. Abraxas não tocava em assuntos fúteis e entediantes, talvez por saber o quanto Tom os detestava.
O fogo da lareira crepitou, interrompendo os pensamentos do jovem, que desviou seu olhar das chamas para o relógio no outro canto do aposento. A madrugada se aproximava de seu fim, mas Tom não se sentia cansado. Ele quase nunca sentia muita necessidade de dormir, preferindo ocupar seu tempo com coisas mais interessantes. Pensou que deveria se retirar para seu quarto logo, para que ninguém saísse dos aposentos e questionasse o que ele fazia sentado ali sozinho. Não que fosse uma novidade encontrar Riddle sozinho. Ele valorizava bastante seus momentos de solidão, quando podia finalmente pensar e planejar seus próximos movimentos. Encontrar o moreno sozinho em algum lugar do castelo era tão comum quanto encontrá-lo com seus seguidores ou com Abraxas.
O loiro retornou para seus pensamentos, com o mesmo motivo que fizera Tom pensar nele nesta noite. O jovem habitava seus pensamentos frequentes pois, apesar da proximidade que Tom estabelecera entre os dois com o passar dos anos, e que Abraxas apreciou desde o começo, recentemente o loiro parecia se afastar de Riddle. Ele não mais procurava Tom enquanto ele estava sozinho estudando na biblioteca, com alguma desculpa sobre como tinha deixado a redação de Poções para o último momento e gostaria de discutir algum tópico com Tom, já que este conhecia mais sobre o assunto; assim como não o procurava em qualquer outro momento em que Tom estivesse solitário. Nas noites em que todos os seguidores do moreno se reuniam em volta dele, tentando disputar sua atenção, Abraxas se encontrava calado no canto, com o olhar perdido em qualquer lugar que não fosse em Riddle, ou encontrava alguma desculpa para simplesmente não aparecer.
Isso estava incomodando Tom, que não se encontrava disposto a perder uma conexão importante por qualquer motivo que não fosse decisão sua. De tarde, enquanto estavam na aula de Defesa, o moreno abordou o assunto com Malfoy, tentando colocar um fim na tentativa de distanciamento.
“Você tem estado muito ocupado ultimamente, Abraxas” Tom disse calmamente enquanto anotava os dizeres do quadro em seu pergaminho. Ele percebeu o corpo de Malfoy ficar tenso ao seu lado por um instante, então Abraxas apanhou sua pena e começou a escrever qualquer coisa em seu próprio pergaminho.
“Aparentemente os professores decidiram me passar todas as tarefas extras para que eu possa me preparar para os exames finais” respondeu o loiro.
“Ah, claro. Parece compreensível” Riddle colocou sua pena em cima da mesa após terminar de escrever e se virou para encarar o jovem ao seu lado. “Achei que você tinha simplesmente achado coisas melhores para fazer do que ter minha companhia”
Agora, Tom podia ver o corpo de Malfoy se tensionando novamente, e teve uma surpresa ao perceber também uma mancha vermelha aparecendo no pescoço e bochechas do loiro. Ora, isso é intrigante, pensou. Abraxas mexeu a cabeça de modo que seu longo cabelo loiro cobriu a maior parte da evidência e direcionou o olhar para a professora que andava pela sala.
“Não há nada melhor do que sua companhia, Tom.”
Riddle tinha que admitir que não esperava por essa resposta. Nas poucas vezes que teve de repreender o jovem por algum comportamento, Malfoy sempre havia abaixado a cabeça e prometido que tal ato não se repetiria. O que, de fato, acontecia. Ele sabia que Malfoy não era alguém que bajulava as pessoas, pelo simples fato de nunca precisar fazer tal coisa, já que seu nome fazia com que as pessoas quisessem adulá-lo. Mas com Tom, tudo era diferente. Ele era a pessoa à quem seus seguidores dirigiam elogios em excesso. Obviamente, Abraxas também fazia elogios, mas Tom sempre percebeu que havia uma sinceridade maior nestes do que em qualquer um feito por seus outros seguidores. Porém, nenhum elogio feito pelo loiro pareceu tão sincero quanto esta última frase. Riddle abriu um sorriso predatório.
“É delicioso ouvir você dizer essas palavras, Abraxas” por uns fios de cabelo loiro mal posicionados, Tom percebeu que a cor levemente púrpura nas bochechas do jovem se intensificou. A professora começou a fazer perguntas para a sala, e a conversa dos dois teve de ser interrompida.
Ao final da aula, Abraxas juntou suas coisas com pressa e se dirigiu a porta da sala com passos largos. Ele não tinha aparecido durante o jantar, ou se reunido com seu pequeno círculo após, no salão comunal, onde Tom se sentou no mesmo lugar em que se encontrava agora. Aquele comportamento era curioso. Logo após a pequena confissão que havia feito, Malfoy fez o contrário do que havia dito. E sua reação ao proferir as palavras era certamente interessante. Havia algo ali que Tom planejava explorar.
Um barulho na porta de entrada da sala fez Tom voltar seu olhar para o local. Ele conseguia ouvir uma voz falando baixo a senha para entrar, voz que pertencia à pessoa que ele estava esperando até aquele momento. Um novo sorriso predatório brotava no rosto de Tom. Malfoy finalmente voltou para o dormitório. Tom planejava conseguir respostas para as perguntas que haviam surgido em sua mente desde a pequena conversa que tiveram naquele dia. Se Abraxas se mostrasse mortificado ao responder, bom, isso só tornava as coisas mais interessantes.
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