Solidão
1 one-shot
Notas iniciais
essa é a décima primeira fic da série "Os Quatro Reis e o Forasteiro"
boa leitura
boa leitura
Era noite e já estava bem escuro, nuvens grossas escondiam a fina lua minguante e suas poucas estrelas sobre o castelo. O cavaleiro Tomo escalava mais uma vez os muros proibidos para cair nos braços de sua amada.
Quando ele entrou, Amyoma estava deitada em sua cama, agarrando com muita força um travesseiro. Já tinha visto a princesa ansiosa cada vez que atrasava um minuto sua chegada, mas algo parecia estranho. Ele se aproximou e tocou suas mãos, percebendo-as fincadas com desespero no travesseiro. — Mi? — ele chamou em voz baixa e preocupada. Amyoma mal ouviu a voz de Tomo, atirou-se em seus braços, seu rosto tão bonito manchado de lágrimas que ainda escorriam silenciosas. — O que foi que aconteceu? — ele ficou ainda mais preocupado ao vê-la chorando. Segurou-a em seu colo e acariciou seus cabelos, tentando acalmá-la. Amyoma tentava conter as lágrimas, balbuciando palavras muito baixas que não se faziam entender. Tomo segurou o rosto dela e enxugou suas lágrimas, selando seus lábios nos dela num beijo longo e tranquilo. Separou suas bocas apenas quando sentiu o corpo dela se acalmar. — Por favor, me diga o que aconteceu... — seus olhos se encontraram com os dela e se conectaram como sempre faziam. — Tomo... — ela começou, sua voz saiu baixa, quase inaudível. — Eu não sei... Como lhe contar isso... Ele acariciou seu rosto, tranquilizando-a. — Não tenha medo, seja o que for, eu estou aqui. Os olhos de Amyoma voltaram a se encher de lágrimas. — Você está me preocupando, meu amor... Diga-me o que foi que aconteceu... — Tomo... Acredita que Ryozaly está louco? — ela começou. — Ryozaly? O conselheiro dos reis? — Sim... Hajime diz que não dá mais pra confiar no que ele diz, mas eu ainda não o vi errar... — Mi... Diga de uma vez o que está te preocupando! — Tomo disse autoritário, impaciente, num sussurro ainda carinhoso. — Eu estava nos jardins quando vi o velho Ryozaly se aproximando... Ele disse que precisava falar comigo e que era muito importante, eu fui seguindo-o e ele se sentou naquele banco atrás do chafariz de Hajime... Amyoma ainda controlava as lágrimas, algumas escorriam silenciosas por sua bochecha e morriam em seus lábios. — Ele me disse que o reino terá grandes problemas com os planos de Kyuske... — Que planos de Kyuske? — Tomo estranhou. — Ryozaly não disse... Só o que me disse é que Kyuske não anda contente com a administração do reino... Ela inspirou tristemente, sua voz saia sem emoção. — Você acha que ele pretende recomeçar a guerra? Ela o olhou com um vislumbre de surpresa. — O quê? Só porque sou um forasteiro não quer dizer que eu não saiba a história do seu reino — ele brincou, mas o sorriso dela foi pouco vivo e morreu rapidamente, preocupando ainda mais o cavaleiro. — Ryozaly disse que Kyuske abandonará o castelo. E Mitsoginoto também... — a voz dela foi morrendo na frase. — Mitsoginoto? Ele jamais sairia de seu lado... — Tomo disse amargurado. — Ele... Ele não poderá ficar... — as lágrimas voltaram a cair descontroladas dos olhos dela. — Não poderá? — Tomo perguntou confuso e preocupado, apertando mais o corpo da amada em seu colo. — Ryozaly disse... Que Mitsoginoto... Que numa briga com Hajime... Ele vai... Vai me matar... — ela disse, entre soluços. Os olhos de Tomo se arregalaram e ele não soube o que dizer. Amyoma iria morrer? Como ele poderia viver sem ela? Ele sempre fora um forasteiro, um estranho na terra de outros, sem raízes ou necessidades... Mas depois que ela entrou em sua vida, nada sem ela fazia sentido... Amyoma parecia não conseguir respirar, estava amedrontada, como uma menininha desprotegida, seu olhar, sempre alegre, vívido e inteligente, agora estava opaco e perdido. — Ele está louco! — Tomo se enfureceu. — Tomo... Espere... — ela soluçou. — Você não vai acreditar nisso, vai? Hajime tem razão, não dá mais pra confiar naquele velho, Mi! — Eu... Confio... — ela sussurrou. Tomo parou com a boca aberta, as palavras de Amyoma não faziam sentido. Ele não podia perdê-la, não podia aceitar pra si. — Eu estou com tanto medo, Tomo... Eu nunca pensei em como seria... Morrer... Aquela palavra doeu no peito dele, como se sua espada tivesse sido transpassada em seu peito. — Eu não vou deixá-la morrer! Se for preciso, vou agora mesmo atrás de Mitsoginoto... — Não! Mais uma vez, Tomo se surpreendeu. — Mas... Eu não posso deixar que ele... Que ele... — Ryozaly disse que é preciso... — E o que a faz acreditar tanto que ele está certo? — Ele disse que só isso vai me libertar... Que eu poderei viver feliz com meu cavaleiro... Novamente suas palavras não faziam sentido. — Como poderá viver? — Você não entende, Tomo? Ele veio me avisar pra que eu me prepare pra isso... Como ele saberia sobre nós? O cavaleiro não tinha parado pra pensar nisso. Mas ainda sentia um enorme vazio por pensar em perdê-la. Nada mais era importante além da vida dela, de seu sorriso, sua voz, seus olhos, sua boca... Ela era seu amor, o amor que aquecia seu coração todas as manhãs, o sol de seus dias e a estrela de suas noites, sua razão de viver. Amyoma era tudo que ele tinha, seu mundo seria vazio sem ela... Como poderia aceitar que aquela vida tão linda e inocente em seus braços lhe fosse roubada? Não. Ele vivia por Amyoma e por ela, morreria!
— Amyoma... — ele disse em voz baixa e o olhar dela subiu até o rosto dele. — O que mais ele disse? — Disse que minha morte será o fim dos quatro reis. Disse que nada no reino será do mesmo jeito. Mas ele disse que eu serei novamente a esperança... Tomo assentiu. De algum modo, seu raciocínio acompanhara o do sábio Ryozaly. — Eu disse que não queria mais ser princesa... — E o que ele disse? — Ele disse que eu não seria... Que dessa vida, eu levaria as lembranças e nada mais... — Dessa vida? — É. Mas ele disse que minhas lembranças ficariam adormecidas numa nova vida e que um dia despertariam. E nesse dia eu retornaria e tiraria o povo da escuridão, consertando os erros e iniciando uma nova era para todos. E nessa nova era, eu poderia viver feliz para sempre com meu cavaleiro e os reis também encontrariam a felicidade... — Mas então, você tem que voltar, não é? — Ele me disse um modo... Mas não sei como faria... — Que modo é esse? — Ele disse que há uma poção que me faria renascer... Mas eu devia tomá-la entre as duas vidas... E alguém... Eu teria que... — ela não conseguia dizer, seu choro voltara descontrolado e ela soluçava muito. Os olhos de Tomo também não estavam mais secos. — Eu vou. — Vai o quê? — ela perguntou, confusa. — Minha vida é sua... Desde o início dos tempos... Por que me recusaria a devolvê-la a você? — O que está dizendo, Tomo? — Que se for pra você viver, eu lhe dou a minha vida... É isso que teria que fazer, não é? Amyoma afundou o rosto na curva do pescoço de Tomo. — Eu não quero... Não quero viver sem você! Voltar sem ter você aqui... — Sua missão se estende muito além dessa vida, meu amor! Não é algo que você deva desistir por mim... — Não, Tomo! Eu não vou querer viver sem você... — Você não se lembrará de mim em sua nova vida... — Como pode aceitar isso? — Eu não posso! Amyoma, imaginar minha vida sem você é insuportável pra mim... — E sem você comigo também será insuportável! — Mas você não se lembrará, enquanto eu me lembraria de tudo! Não seja injusta com nosso amor... Os dois se encaravam, as lágrimas de um sendo as lágrimas do outro, como se os dois fossem um só e neles batesse o mesmo coração, um coração que sangrava, mutilado pela dor da separação inevitável. — Além do mais... — ele tentou ser forte e firme em sua decisão — não pode contar aos outros e ainda precisa voltar. Não temos escolha... Em sua sabedoria, Ryozaly sabia que você me contaria e sabia que eu morreria sem hesitar por você. Amyoma afundou o rosto no peito de Tomo e os dois se abraçaram muito forte, tentando matar a saudade que já nascia no coração dos dois. — Eu estou com medo... — Amyoma sussurrou, entre lágrimas e Tomo e os dois se abraçaram muito forte, tentando matar a saudade que já nascia no coração dos dois. — Você não tem que temer, meu amor, eu sempre irei protegê-la! — seus lábios se uniram num beijo tímido. Amyoma adormeceu nos braços de Tomo e ele a cobriu antes de sair pela janela, zonzo pelo peso da tristeza profunda, enjoado pelo vazio que a saudade causava, amargurado por não poder escolher outro caminho e impotente por não saber se aquela tinha sido a última vez que teve a amada nos braços.
Notas finais
mereço reviews???
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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