Solfejo do amor seguro
1 Único
Notas iniciais
Às vezes, se Sasuke fechasse os olhos e se concentrasse o suficiente, podia vê-la. Era a mesma cena, mas sem som algum. Os cabelos dela ricocheteavam no vento e a boca aberta indicava uma gargalhada. Ele sempre desejava esticar a mão e tocá-la, segurá-la, como se para que não pudesse sumir.
Entretanto, ela sempre sumia. E embora as mãos dele continuassem vazias, sentia-as pesadas como chumbo.
— Ei, está me ouvindo?
Sasuke levantou o braço que cobria o rosto e descobriu Naruto inclinado em sua direção.
Ainda estavam deitados no piso de madeira do quarto. A música do jogo no Xbox e o som do ar-condicionado sussurravam numa combinação sonolenta. Sasuke tentou adivinhar se havia adormecido enquanto Naruto jogava.
— Sua vez.
O segundo controle do console estava quebrado e os dois haviam combinado que se revezariam para jogar conforme perdessem. Depois de jogar sete lutas seguidas, Sasuke perdera de propósito para passar a vez.
— Tudo bem? — Naruto franziu o cenho. — Você está meio estranho hoje...
— Só meio cansado. — Ele deu de ombros.
Naruto apoiou a mão no piso, torcendo os lábios num esgar pensativo. Instintivamente, Sasuke desviou o olhar.
— Certeza? Eu te conheço literalmente a vida toda. Sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?
Não podia. Não queria ter de pôr Naruto na situação de amigo consolador toda vez que pensava na mãe. Mesmo depois de sete anos, ele parecia não saber como reagir – como quase todos ao seu redor – e isso só pioraria se soubesse a história inteira.
Depois do acidente, Sasuke se acostumara a omitir coisas e a selecionar minuciosamente o que podia contar. Havia uma gaveta secreta em seu âmago, abarrotada de segredos intragáveis. Era lá que o acidente que causara a morte de sua mãe estava, logo ao lado de sua paixão pelo irmão mais velho.
Itachi.
Ele engoliu em seco. Por um momento, teve medo de que Naruto pudesse lê-lo tão bem que descobrisse tudo.
— Só estou cansado… mesmo...
— Tudo bem, não precisa falar. Só quero te lembrar que estou aqui.
— Você é muito emotivo.
Sasuke levantou-se com um grunhido e espreguiçou-se com os braços acima da cabeça.
— Não vai jogar?
Uma olhada na tela do hall de escolha de personagem. Uma olhada para o céu que começava a esmaecer além das janelas fechadas.
— Acho que vou para casa. Itachi vai chegar hoje.
O irmão viajara para a Coréia a trabalho na semana anterior. Sasuke não achara exatamente justo, visto que ele havia acabado de retornar para casa depois de um ano de intercâmbio no Canadá, esperando passar todo o tempo possível com Itachi. Porém, reclamar que estava sendo abandonado parecia terrivelmente infantil.
— Jantar em família. — Naruto anuiu, pondo-se de pé.
— É.
Sasuke ponderou internamente. Dizer "jantar em família" evocava a imagem de uma mesa cheia, tanto de gente quanto de comida. Era assim na casa dos Uzumaki, na dos Haruno e nas várias que visitara durante o intercâmbio à convite dos colegas canadenses. Porém, na sua casa, jantar em família era sinônimo de se sentar ao lado de Itachi no balcão da copa – desde que a mãe morrera e o pai se mudara para a Coréia.
— Se fizerem uma sobremesa muito boa, não esquece de trazer um pouco para mim depois — disse Naruto, à guisa de despedida, quando alcançaram a porta da frente.
— Vou pensar no seu caso. — Sasuke sorriu. — Dê um abraço nos seus pais por mim.
— Você mesmo tem que fazer isso. Não aguento mais a minha mãe reclamando sobre não ter visto você ainda.
— Eu volto amanhã — garantiu, balançando a mão para se despedir.
A casa da família Uchiha, uma construção imponente no estilo clássico da arquitetura japonesa, ficava naquela mesma rua, a três quarteirões de distância. Sasuke se lembrava de correr aquela distância nas tardes durante o ensino médio, quando ele e Naruto iam juntos para o dojo. Havia corrido naquelas calçadas ou andado de bicicleta na rua inúmeras vezes. Mas no fim daquela tarde, seu ritmo de deslocamento se resumia a passadas forçosamente contidas.
Se chegasse rápido demais, teria de admitir para si mesmo que não estava se esforçando para refrear seu coração e que era um tolo. Além disso, se Itachi ainda não estivesse lá, seria decepcionante e significaria mais espera.
Ele checou as notificações no celular, ansioso por ler qualquer coisa ligada ao contato de Itachi. Porém, tudo o que encontrou foi uma mensagem de Naruto reforçando o pedido pela sobremesa.
— Dobe.
Os postes de luz no pátio frontal da residência estavam todos acesos, mesmo que o céu ainda não tivesse chegado ao crepúsculo. Quando Sasuke alcançou os portões gradeados, o segurança na guarita liberou sua entrada prontamente. Uma olhada de relance para a garagem revelou a traseira do carro de Itachi, mas, com uma pontada de frustração, ele se obrigou a recordar de que aquilo não era um sinal de sua chegada. O irmão partira para o aeroporto com um motorista da empresa.
— Bocchan. — A governanta da casa o recebeu à porta, com uma leve reverência de cabeça. — Estamos terminando o jantar.
— Obrigado. Meu irmão já chegou?
Ele olhou para o patamar da escada no fundo da sala com ansiedade.
— Ainda não.
— E alguém mandou notícias sobre ele?
Itachi era costumeiramente relapso com o celular e qualquer meio de comunicação que não fosse seu endereço de email comercial. Quando viajava a trabalho, era mais fácil saber dele pelos assistentes da Akatsuki ou, às vezes, pelo parceiro de viagem.
— Ah, sobre isso...
Sasuke passou pela senhora e pôs-se a caminho da cozinha. As duas empregadas a serviço naquela noite estavam ocupadas na chapa, em meio a firulas de vapor do salmon que grelhavam. O cheiro da carne fez Sasuke fechar os olhos em deleite por um instante.
A governanta parou a seu lado, apertando as mãos no avental que trazia amarrado na cintura.
— Itachi-san mandou uma mensagem há pouca hora, avisando que não chegará a tempo para o jantar — informou em tom quase confidencial. — O vôo atrasou e parece que surgiu um compromisso importante com um dos parceiros da empresa, então ele e Kisame-san irão para lá direto do aeroporto.
Sasuke piscou. Ainda estava atordoado com o cheiro do salmon e a expectativa de receber o irmão de volta. As palavras da governanta demoraram longos segundos para fazerem sentido em sua mente.
— Ele não vem?
A velha senhora ajeitou os óculos, hesitante.
— Sei que você estava ansioso para o jantar, bocchan — disse, como quem pedia desculpas.
Sasuke engoliu em seco. Quis rebater que não, não estava nem um pouco ansioso para o jantar, muito obrigado, numa ânsia por encobrir qualquer sinal que pudesse indicar a menor inclinação de sentimentos enviesados pelo irmão. Porém, os empregados da casa haviam visto ele e Itachi crescerem, enfrentarem a morte de Mikoto e a saída do pai da casa. Sabiam o quanto os dois eram unidos e provavelmente jamais levantariam a menor das suspeitas sobre sua paixonite.
Por um breve instante, parado ali, no corredor entre a cozinha e a adega do pai, Sasuke sentiu saudades do Canadá. Ficar longe das pessoas que o conheciam intimamente e da presença do irmão significara um ano sem precisar se policiar tanto para não parecer estupidamente apaixonado por Itachi. Além disso, no Canadá raramente precisou tocar no acidente com a mãe e ninguém o olhava como se estivesse esperando pela história completa, ou desconfiando da veracidade de seu relato.
— Bocchan?
Sasuke suspirou, frustrado.
Os dois voltaram-se novamente para a cozinha. Na mesa de tampo de pedra, os condimentos para os pratos e as louças já estavam dispostos, prontos para serem levados à mesa de jantar. Sasuke sentiu-se como uma criança para quem tinham feito uma festa de aniversário elaborada e nenhum dos convidados aparecera.
— Quando terminarem, estão dispensadas. Vou jantar mais tarde.
Ele deu as costas à cozinha e às empregadas e quase arrastou-se até em direção à escada e depois ao primeiro andar.
Os abajures do corredor estavam acesos, criando uma atmosfera acolhedora, muito embora a casa se parecesse mais com um hotel do que com um lar. Sasuke moveu-se automaticamente para o quarto do irmão, quase como se esperasse encontrá-lo remexendo nas malas à procura de um presente que trouxera especialmente para ele. Porque era assim que estava acostumado a encontrar Itachi depois de suas viagens.
Porém, ao que parecia, um ano havia mudado em muito os costumes da casa. Quando Sasuke tentou girar a maçaneta, o quarto revelou-se trancado.
Foi como se o quarto refletisse o irmão. Sasuke mal conseguia se lembrar de ter encontrado aquela porta trancada alguma vez na vida. Itachi sempre esteve pronto para recebê-lo, aberto para conversar ou disposto a simplesmente ficar ao seu lado em silêncio, o que quer que precisasse. E então, de repente, não estava mais livre para refeições, ou para buscá-lo no aeroporto depois de um ano sem vê-lo, ou com a porta aberta...
Sasuke deixou que a mão escorregasse da maçaneta sem emoção. Estava mais do que acostumado com estar sozinho naquela casa, muito embora os amigos o visitassem com frequência. Mas definitivamente não estava acostumado a ficar sem o irmão.
Teve um déjà-vu do dia em que o pai havia deixado a casa. Fukaku não se dignou a se despedir apropriadamente dos filhos, agindo como se estivesse apenas indo até a cidade vizinha. Sasuke se lembrava de como se trancara no quarto para esconder o choro compulsivo de quem tinha a sensação de estar destruindo a própria família.
Nem mesmo Itachi parecia querer sua companhia.
— Eu também não iria querer… — sussurrou para o corredor.
Sasuke sacudiu a cabeça, sentindo como se seus segredos engavetados estivessem subindo para fazer peso em seus ombros. Resignado, dirigiu-se para o próprio quarto para tomar banho. Depois, esperaria pelo irmão na sala, assistindo a algum dos muitos animes recomendados por Naruto.
— Ah, eu vi isso. Pensei que ela não fosse mais te deixar em paz.
A risada de Itachi chegou muito vagamente aos seus ouvidos. Mesmo assim, Sasuke percebeu que havia mais alguém lá.
— A coitada não conseguiu resistir ao meu charme e olha que eu nem fiz nada.
Ele se sentou, grogue do sono. O celular escorregou do seu colo para o chão, junto com o controle da TV.
— Mas eu tenho culpa?
As vozes vinham da cozinha, oscilando em tons altos demais para aquela hora da noite. Ainda que não tivesse visão do cômodo, Sasuke reconheceu que a companhia de Itachi era Kisame.
Num movimento ágil, a despeito do corpo mole, ele desceu do sofá e encaminhou-se para a cozinha. Não sabia se era a vontade de ver o irmão ou o receio pela presença de Kisame que o impelia.
Kisame era uma ameaça desde que conseguia se lembrar. O amigo mais próximo de Itachi – seguido de perto pelo primo Shisui, que não entrava naquela conta. Estava sempre cheio de toques, comentários que arrancavam as mais diversas reações de Itachi e sussurros. Era declaradamente bissexual e não se importava em esconder os flertes animados e despretensiosos que mantinha com os colegas de trabalho.
— As empregadas vão ouvir.
Quando chegou ao umbral da cozinha, Sasuke deteve-se.
— Elas eu não sei, mas o seu irmãozinho… — Kisame abriu um sorriso largo, erguendo uma lata de cerveja. — E aí, Sasuke-kun?
Itachi estava de costas para a porta, sacudindo os ombros em meio a uma risada. A mão livre de Kisame segurava seu braço com intimidade. Na mesa, o tacho de sukiyaki estava destampado, bem como a travessa das verduras e a da carne, e duas tigelas estavam sujas ao lado dele, indicando que haviam sido servidas. O relógio digital no visor do microondas indicava que era tarde ou cedo demais para servir a comida do jantar.
Kisame terminou a cerveja de uma vez e abandonou a lata na mesa para atravessar a cozinha. Antes que Sasuke pudesse se esquivar, ele tomou seu rosto nas mãos gélidas e fortes.
— Olha só para você! O Canadá te envelheceu uns três anos! Você era mais bonitinho quando tinha covinhas.
Itachi riu, mas Sasuke não achou graça.
— É bom ver você também — resmungou, desvencilhando-se.
— É, o mau-humor não mudou.
Kisame gargalhou, acompanhado de uma contida risada de Itachi.
— Itachi continua sendo o Uchiha mais bonito, mas você está no páreo.
— Kisame, por favor.
Sasuke percebeu um leve rubor no rosto do irmão, enquanto os dedos ajeitavam uma mecha do cabelo solto. O ciúme o golpeou como se uma bola tivesse acertado-lhe a barriga.
— Estão jantando?
— Na verdade… — Kisame afastou-se para apanhar o blazer no encosto de uma das banquetas. — Acabamos de comer. Só entrei para beber um copo de água, mas não resisti.
— Água que passarinho não bebe — Sasuke resmungou novamente, percebendo que o irmão também tinha uma lata.
Itachi e Kisame gargalharam com gosto, fazendo barulho demais.
— Bom, eu já estou de saída. Gostei de te ver, Sasuke-kun.
— Vou te levar até a porta. — Itachi correu as mãos pelos cabelos e os enrolou num coque antes de deixar a cozinha.
Sasuke manteve-se estático, arregalando os olhos para o nada. Mal podia acreditar no rumo que seu plano de um simples jantar de boas-vindas ao irmão havia tomado. Como se não bastasse o atraso e a falta de mensagens, Itachi ainda achou de bom tom trazer Kisame para casa – um intruso no momento que deveria ser deles.
— É sério, fale mais baixo. — A voz de Itachi chegou até seus ouvidos, ironicamente alta.
Devagar, Sasuke voltou para a sala a fim de recuperar o celular. Talvez mandasse uma ou quinze mensagens revoltadas para Naruto.
— Não podemos falar disso agora.
Sasuke desviou o olhar para a porta. Itachi estava dois passos para fora, aguardando Kisame terminar de se calçar.
— Sasuke pode ouvir. Não tenho energia para enfrentar as reações que isso iria gerar.
Ele se abaixou depressa, escondendo-se rente ao sofá para que o irmão não desse conta de sua presença. Lá fora, Kisame disse alguma coisa que não pôde entender, ao que Itachi respondeu com um “boa noite” enfático. A porta foi fechada pouco depois e um longo suspiro do irmão sibilou pela sala. Os passos dele, preguiçosos, caminharam para a cozinha, mas voltaram em direção à escada prontamente.
— Ah! — Itachi o encontrou, parando com um pé no primeiro degrau. — Você ainda não foi dormir?
— Achei que pudesse te fazer companhia no jantar.
Itachi aproximou-se com um bocejo. Rodeou o sofá oposto e a mesinha de centro com tampo de vidro até parar à sua frente. Então, abaixou-se e levou dois dedos até sua testa num gesto terno e familiar.
— Da próxima vez eu juro que cumpro o horário de voltar para casa, está bem? — Ele sorriu, os olhos levemente fechados. — Sinto muito por não ter jantado com você.
Sasuke o fitou fixamente. Queria reclamar, esbravejar, expressar todo o seu descontentamento por estar sendo jogado para escanteio. Porém, os músculos arrefeceram com a proximidade de Itachi.
Como sempre acontecia, Sasuke sentiu como se pudesse perdoar o irmão por qualquer coisa se soubesse que ele o tocaria daquela forma depois.
— Tudo bem… — bufou, encolhendo-se contra o sofá para refrear o formigamento na pele.
— Eu preciso muito dormir agora. — Itachi bocejou novamente, como se para atestar o que dizia. — Mas vamos conversar amanhã. Eu trouxe um presente para você, uma camiseta daquela banda… Hm, BTS? Enfim, amanhã eu te mostro.
O irmão o beijou sobre a franja, no canto da testa, e levantou-se.
Sasuke lutou contra o impulso de agarrar-se a ele, de declarar que dormiriam juntos, como faziam quando eram mais novos. Como fizeram durante um ano e meio depois da morte da mãe.
Não foi sua culpa, otouto.
— Boa noite, otouto. — Itachi o fez voltar a si, já no patamar da escada. — Não demore muito para se deitar.
A sala voltou a ficar em silêncio, velada sob o leve tique-taque do velho relógio cuco de mogno. Sasuke tombou a cabeça sobre o assento do sofá e fechou os olhos.
Era como se Itachi tivesse fechado mais uma porta em sua cara.
A manhã encontrou Sasuke encolhido ao redor de seu bom e velho dinossauro de pelúcia. As cobertas haviam escorregado para o chão e um arrepio subiu por suas pernas expostas, eriçando seus pelos. Na mesa de cabeceira, o celular vibrava continuamente, piscando o nome de Naruto na tela.
Sasuke pressionou a têmpora com a ponta dos dedos, tomando ciência de como e onde estava. A madrugada com a visita inesperada de Kisame à cozinha e o modo como Itachi ria de tudo o que ele falava parecia algo distante, como um sonho. Se não pensasse muito sobre isso, poderia jurar que ainda estava no Canadá.
Entretanto, mesmo em outro continente, não havia como ignorar a ameaça de Kisame.
Com a frustração revivida, Sasuke desceu da cama e se trocou no banheiro do quarto. Tentou adivinhar se Itachi já teria saído para o trabalho e no quão solitário seria tomar o café da manhã sozinho, mais uma vez, na enorme mesa da sala de jantar.
A ideia de ir até a casa dos Uzumaki para a primeira refeição do dia surgiu tentadora em sua mente. Mas Sasuke se resignou a permanecer em casa com os fantasmas silenciosos das pessoas que haviam o deixado.
O cheiro que vinha da cozinha indicava que tinham requentado o salmão do jantar. Sasuke espreguiçou-se, andando sem muita vontade até a cozinha.
— Eu estava mesmo pensando em acordar você para tomarmos café juntos.
Itachi sorriu para ele, com uma espátula na mão e o frasco de orégano na outra. No fogão, um ovo estalava na frigideira.
Sasuke ergueu as sobrancelhas, desconfiado. Teve receio de que estivesse ainda adormecido, sonhando com projeções do subconsciente carente pelo afeto do irmão. Mas a silhueta de Itachi em mangas de camisa e calça social, com o avental com estampa de galinha preso à sua cintura, estava perfeitamente realçada na luz esmaecida que entrava pela janela basculante.
— O que foi? — Itachi franziu o cenho com um sorriso quase nervoso.
— Nada… — Sasuke murmurou, subindo na banqueta do meio à bancada gourmet. — Pensei que a obaa-san iria preparar o café.
— Você prefere os ovos dela aos meus?
— Ela não tem ovos.
— O quê?
Sasuke engoliu em seco, só então se dando conta do que havia dito. Internamente, amaldiçoou Naruto e Kiba pelas malditas piadinhas que começavam a contaminá-lo.
Preparou-se para receber um sermão de Itachi, mas o irmão apenas riu e voltou a atenção para o ovo.
— É esse o tipo de coisa que você aprendeu no intercâmbio? Pensei que tivesse te mandado para estudar engenharia de gestão.
Itachi movia-se precisamente, remexendo o ovo com a espátula. Sauke reparou nas mangas enroladas cuidadosamente acima dos punhos, nas escápulas criando relevos sob a camisa. Podia simplesmente descer da bancada, ir até ele e encaixar os braços ao seu redor.
— Ainda nem conseguimos conversar sobre o intercâmbio.
Sasuke pestanejou.
— Acho que vou ter que marcar um horário para te pegar emprestado com o Kisame. — Ele desviou o olhar para o chão.
— O quê?
A boca do fogão foi fechada. Itachi apanhou a frigideira pelo cabo e deslizou o ovo para um prato que esperava na bancada da pia. A música
— Desde que eu voltei, a gente mal se falou. Era mais fácil conversar com você quando eu estava do outro lado do mundo. Acho que você gostou de não ter que me ver aqui e agora não quer ficar comigo.
— Está falando sério? — Itachi apoiou uma mão na bancada. Seu semblante era um misto de divertimento e incômodo. — Você acha que eu estou fugindo de você?
Sasuke tornou a olhar para o chão. Parte dele sentia como se estivesse fazendo drama demais, agindo como uma criança mimada. No entanto, a outra não conseguia abrir mão do que já havia armado.
— Você nem foi me buscar no aeroporto.
Naruto e Sakura assumiram a tarefa de trazê-lo para casa e fazer um pequeno encontro com os amigos para recepcioná-lo. Itachi só o encontrou na manhã seguinte ao seu retorno, mal parando em casa nos dias que se seguiram.
— Então esse é o problema? — Itachi soou chateado. — Eu te expliquei que houve um imprevisto.
Ele trouxe o prato com o ovo e o serviu com delicadeza. Sasuke não fez menção de provar a comida.
— Desculpa, otouto. Achei que você fosse querer mais liberdade depois de tanto tempo longe. Kisame e Deidara me disseram que sou protetor demais e que deveria te dar mais espaço.
Sasuke não olhou para o irmão, mesmo quando Itachi aproximou-se demais e deixou um beijo no topo de sua cabeça.
— Eu tenho que ir agora, mas vamos conversar sobre isso quando eu voltar. Tudo bem?
Itachi pendurou o avental no suporte ao lado do batente da porta e asseou as mangas da camisa. Então, com movimentos contidos, retirou-se da cozinha silenciosamente.
— Itekimasu.
Sasuke não respondeu. Escondeu as mãos sob as coxas e encolheu-se contra si mesmo, sem saber ao certo o que fazer ou como se sentir.
No entanto, não precisou ponderar muito sobre isso. Num turbilhão barulhento, Naruto irrompeu na cozinha. Estava de costas, despedindo-se de Itachi com um aceno, o moletom laranja escorregando pelos braços.
— Eu cheguei a tempo para o café? — O amigo sorriu largo, apoderando-se de seu prato intocado. — Nossa, nem acredito! O Itachi-san que fez? Que sorte!
— Bom dia para você também.
— Você não parece que está num bom dia. — Naruto empurrou o prato de volta para ele, ressabiado. — Brigou com seu irmão?
— Você não tomou café em casa? — Sasuke revirou os olhos, descendo da banqueta.
— Vamos dizer que hoje a minha mãe resolveu cozinhar e vamos dizer também que tudo passou um pouco do ponto.
Sasuke traiu-se quando o rascunho de um sorriso se desenhou em sua boca. Mas se conteve.
— Pode comer o ovo se quiser — ofereceu, displicente. — Vou preparar um cereal.
— Ah, eu te amo, Sasuke-chan! — Naruto grunhiu de alegria.
Embora Sasuke tivesse passado meses sonhando com os ovos mexidos do irmão, pareciam agora sem importância. E diante do andar dos acontecimentos desde seu regresso, recusá-los era seu modo de bater a porta na cara de Itachi.
— Ah, droga! Esqueci de dar oi para a sua mãe!
Naruto saiu depressa pela porta que dava para o jardim, limpando a boca no dorso da mão. Os anos de amizade fizeram aquela casa um pouco sua também, de modo que não havia cerimônias quanto seu transitar entre os ambientes. Assim, Sasuke limitou-se a se ocupar com seu café da manhã.
Ele mesmo havia visitado o altar com a foto da mãe, religiosamente erguido em uma capela protegida pela roseira favorita dela, apenas uma vez desde sua volta. E antes disso raramente ia até lá. Não tinha o direito.
Com a caixa de cereal na mão, Sasuke se perguntou se seria um bom contexto para revelar a Naruto a verdadeira história por detrás do acidente. Talvez saber que ele é quem estava ao volante, aprendendo a dirigir antes da idade legal com a mãe no carona, não fizesse diferente para o melhor amigo. Talvez Naruto achasse perfeitamente normal que ele tivesse ficado nervoso com a proximidade do caminhão, que tivesse virado o volante para o lado errado. Talvez Naruto, assim como Itachi, afirmasse que ele era inocente, que o caminhoneiro fazendo a conversão proibida era o verdadeiro culpado.
Mas o que acontece se ele achar que sou um assassino? O que acontece se ele me culpar como meu pai me culpou?
— Caramba, as rosas já estão quase todas abertas de novo! — Naruto estava de volta, avançando sobre o ovo já frio. — Vim aqui no mês passado e mal tinha dois botões na roseira dela.
— Naruto… — Sasuke respirou fundo, apoiando a caixa de cereal na bancada com mais força do que o necessário.
— Estou ouvindo — a voz dele soou abafada pela boca cheia.
Sasuke encostou a lombar contra o armário sob a bancada, cruzando os braços. Estava buscando segurar a própria mão, ao mesmo tempo que tentava adivinhar o que mãe lhe diria se estivesse ali.
— Sasuke?
— Não é nada... — desconversou, voltando a encher a tigela com o cereal.
— Caramba, você está estranho desde ontem. E nem me respondeu!
O cereal transbordou na tigela, espalhando cristais de açúcar.
— Bom, de qualquer jeito, come logo. O Lee e os outros já devem estar chegando no dojo.
— No dojo? — Sasuke arqueou uma sobrancelha.
— Você nem sequer leu as minhas mensagens?! — Naruto exasperou-se. — O Lee conseguiu a chave do dojo com o Gai-sensei para treinarmos um pouco. Vai ser bom para você desenferrujar.
Sasuke voltou-se para o amigo, apático. A bem da verdade era que estava inclinado a se fechar no quarto pelo resto do dia, ocupado com a tarefa crucial de sentir pena de si mesmo. Talvez, se tivesse um átimo de força de vontade, terminasse de submeter os documentos do intercâmbio no sistema da Universidade de Konoha. Com muita boa vontade poderia começar um livro e esquecer que precisava comer, beber água e ir ao banheiro.
— Ah, não me venha com essa cara de pinscher. Nós vamos treinar! — Naruto engoliu o que restava do ovo depressa e pulou da banqueta. — Anda, se troca logo!
Havia a opção de protestar, bem como a opção de simplesmente sair correndo escada acima e se trancar no quarto. Porém, desde que eram crianças, Naruto sempre vencia naquele tipo de situação. O único remédio era subir até seu quarto e se deixar arrastar para o dojo.
Mentalmente, Sasuke planejou que retornaria para casa tão logo o treino com os amigos terminasse. Entretanto, seus planos foram por água abaixo. Os amigos o sequestraram pelo dia inteiro. Visitou a família de todos, sendo entupido de comida, e no final da noite foram parar no saudoso Ichiraku Ramen, com direito a generosas doses saquê.
A noite terminou relativamente cedo, porque metade do grupo tinha compromissos cedo pela manhã. Sasuke agradeceu pela sorte de não precisar criar desculpas para escapulir, mesmo que estivesse se divertindo. Seu âmago ainda urgia para que regressasse à casa, para Itachi.
Kiba e Naruto o levaram para casa de carro, numa viagem rápida. Sasuke despediu-se dos dois com uma pressa discreta, rindo com eles enquanto aguardava até que o portão fosse aberto. Uma vez dentro da propriedade, testou o equilíbrio de suas pernas, descobrindo, com alívio, que o efeito do álcool havia passado por completo.
Um sorriso ameaçou erguer os cantos de seus lábios quando descobriu que o carro de Itachi estava na garagem. Porém, censurou-se. Embora ainda não fossem nem dez da noite, o fato de o irmão estar em casa não significava que poderiam passar um tempo juntos.
Ele entrou na casa tentando fazer o mínimo de barulho possível. Teve a sensação de estar de volta ao ensino médio, quando as saídas com os amigos fugiam do horário combinado com o irmão. Mas já era adulto e Itachi não estava exatamente acompanhando seus horários – ou cumprindo os dele.
— Tadaima — disse para ninguém, livrando-se dos tênis na saleta.
As únicas luzes acesas eram as das sancas no teto e de dois abajures de chão. Tudo estava silencioso e deserto. Quando Sasuke passou na cozinha para um copo d'água, descobriu que as empregadas já haviam se recolhido. Um bilhete na mesa dizia que seu jantar estava separado dentro do microondas.
Ele subiu para o primeiro andar, checando as últimas notificações do celular. Lá em cima, a única fonte de luz vinha pela fresta da porta do quarto de Itachi.
Sasuke hesitou. Havia ignorado o irmão o dia inteiro com maestria. Porém, lá estava a urgência de tê-lo por perto novamente. Um beliscão agridoce em seu lado infantil, que rapidamente passava para seu lado apaixonado-pelo-irmão-mais-velho.
Antes que percebesse, estava já empurrando a porta do quarto de Itachi.
É só pedir um beijo de boa noite e ir dormir.
A cama de Itachi estava vazia e ainda arrumada. Mas a porta para o banheiro da suíte estava ligeiramente aberta. Sasuke estranhou, aproximando-se pé ante pé.
— Nii-san? — chamou baixo.
Não obteve resposta, mesmo podendo ouvir o som de água correndo.
— Eu vou entrar, tudo bem?
O box de vidro estava vazio e as roupas de Itachi estavam largadas pelo chão. Do outro lado do cômodo, a banheira, cheia até a borda, derramava água para o piso aos borbotões. O barulho suave do motor indicava que o registro permanecia aberto. Dentro dela, estava um Itachi adormecido num emaranhado de cabelos molhados.
Sasuke apressou-se para fechar o registro, tomando cuidado para não escorregar no piso molhado.
— E você se gaba de ser o irmão mais velho. — Deu um muxoxo, inclinando-se sobre o irmão para sentir-lhe a temperatura. — Vai acabar ficando doente desse jeito.
Então, com um estalo, Sasuke deu-se conta dos pormenores da situação. Itachi estava nu, completamente exposto sob a água quente. Tão logo isso lhe ocorreu, as bochechas enrubesceram.
Não ouse olhar. Não ouse!
— Nii-san, ei! — chamou, apertando o ombro do irmão. — Você não pode dormir aqui.
Um arrepio subiu e desceu por sua espinha com a sensação do corpo de Itachi. Gostava de como seus dedos se encaixavam no relevo dos músculos, da sensação de que tinham sido cortados do mesmo bloco de escultura.
Sasuke inclinou-se até os lábios resvalarem no lóbulo da orelha de Itachi.
— Nii-san…
De supetão, Itachi empertigou-se dentro da banheira, derramando mais água. Sasuke afastou-se num pulo, mas não foi rápido o bastante para evitar ser molhado.
— Argh, nii-san!
Itachi contorceu-se para encará-lo, levemente perdido no que estava acontecendo.
— Eu dormi?
— Se estava tão cansado assim, por que não tomou uma ducha? — Sasuke suspirou, despindo-se da jaqueta jeans molhada. — Era melhor do que ficar dormindo dentro da água.
— Por que você está falando como se fosse o irmão mais velho? — Itachi riu. Indiferente, encheu as mãos de água para lavar o rosto. — Não me lembro de ter passado o posto.
Sasuke o observou escorregar as costas pela banheira até estar com a cabeça submersa. Mal percebeu que estava prendendo a respiração para não se trair quanto à visão do corpo do irmão.
— Otouto? — Itachi chamou, entremeando os dedos pelas madeixas molhadas. — Já que você está bancando o irmão mais velho, pode me ajudar?
De costas para ele, Itachi ergueu um frasco de shampoo do suporte na parede. Sasuke engoliu em seco, registrando, a contragosto, o leve tremor nas mãos.
— Sasuke? — O irmão olhou por cima do ombro.
Ele tomou o frasco e despejou o shampoo na mão. Itachi recostou-se na banheira, fechando os olhos com um suspiro quando seus dedos encontraram o couro cabeludo dele.
— Eu me lembro de ter te dado banho muitas vezes, mas acho que você nunca fez isso para mim. — Itachi riu, subindo os braços para as bordas da banheira.
A água ainda estava pingando para o chão em gorgolejadas esporádicas. Sasuke fez o possível para se concentrar no som, ignorando a tentação de espiar a nudez de Itachi.
Lavou o cabelo do irmão com devoção. Por mais de uma vez, foi obrigado a morder os lábios para esconder o sorriso abobado e teve de recordar todas as piadas estúpidas que ouvira de Kiba mais cedo para que o formigar em seu baixo ventre não se tornasse algo preocupante.
— Eu senti sua falta, otouto… — Itachi suspirou, arrepiando-se quando Sasuke desceu a mão pela curva de seu pescoço. — Senti muito.
— Não parece — Sasuke murmurou, ajoelhando-se no piso molhado para ter mais apoio. — A impressão que tenho é que você está fugindo de mim desde que voltei.
Ficaram em silêncio por longos minutos, tantos que Sasuke pensou que o irmão havia adormecido de novo. Suas mãos ensaboadas percorriam o peito de Itachi delgadamente quando ele o segurou pelo pulso.
— Acho que, se eu for realmente sincero, estou mesmo fugindo de você, Sasuke.
— O quê?
Sasuke ofendeu-se. Uma coisa era suspeitar daquilo. Outra, muito diferente, era ouvir a confissão da boca de Itachi.
— Pensei que conseguiria me livrar desses sentimentos enquanto você estivesse longe. E acredite, eu tentei com muito empenho. — Itachi respirou fundo, remexendo-se na água com desconforto. — Mas bastou ter ciência de que você estava voltando para eu reconhecer que falhei.
Ah, não. Sasuke soltou-se dele, temeroso do rumo que a conversa tomava. Se Itachi lhe dissesse que na verdade o culpava pelo o que havia acontecido à mãe, não suportaria.
— Espera, me deixa terminar.
Itachi o segurou novamente, ficando de pé na banheira. Sasuke sentiu cócegas na ponte do nariz, o prenúncio do choro.
— Estou fugindo de você, sim, porque não acho de bom tom um irmão mais velho pensar no irmão mais novo como eu penso. — O olhar de Itachi era doloroso. — Estou sinceramente enojado de mim mesmo. Mas pensei muito sobre isso e acho que a melhor saída é contar logo para você.
Sasuke congelou. Instintivamente, deu um passo para trás, escorregando na água. Teria caído se Itachi não o segurasse com firmeza, colando-o a seu corpo e molhando o restante de suas roupas.
A respiração do irmão, rente ao seu pescoço, era pesada e descompassada. Sasuke deixou um gemido abafado escapar de seus lábios, derretendo-se entre os braços de Itachi.
— Você vai me perdoar se… — Itachi pôs as mãos em seus ombros, afastando-o apenas o suficiente para que pudessem se encarar nos olhos. — Se eu disser que estou apaixonado por você?
Dentro de Sasuke, a gaveta dos segredos intragáveis foi escancarada. Ele ficou paralisado, perdido, com a sensação de que Itachi falava em grego.
As mãos do irmão escorregaram por seus braços, soltando-o.
— Se você for capaz de simplesmente não me odiar, já vai ser um alívio — Itachi sussurrou, comprimindo os lábios.
Sasuke ergueu a mão, fazendo menção de tocar o irmão, mas mudou de ideia. Apoiando-se na parede, passou para dentro da banheira e só então tomou o rosto úmido de Itachi entre as mãos ainda pegajosas do sabonete líquido. Perscrutou os olhos escuros, a mandíbula endurecida pelo nervosismo, as narinas contraídas por prender a respiração.
Então, com um sorriso suave e um menear de cabeça, arrebatou os lábios de Itachi num beijo.
— Eu tive medo que você fosse dizer que me odiava, que estava melhor quando eu estava longe… — Suspirou, colando a fronte a do irmão. As mãos vagaram para a nuca de Itachi, enquanto os polegares ocupavam-se em desenhar círculos em sua pele. — E aí você me surpreende me dizendo o que eu mais queria ouvir.
Ele o beijou novamente, afoito por aproveitar o momento. Itachi o correspondeu com cautela num primeiro momento, evoluindo depressa para uma intensidade voraz. Sasuke grunhiu entre os lábios, empurrando-o contra os azulejos úmidos do vapor da água. O desejo se alastrava por seu corpo como lava, impelindo-o a percorrer todo o torso de Itachi.
Entretanto, foi obrigado a se deter para gargalhar quando sentiu algo o cutucando na altura da barriga.
— Uau, Sasuke, conseguiu arruinar o clima, seu estraga-prazeres — Itachi esbravejou, sentando-se depressa na água numa tentativa de se esconder.
Sasuke gargalhou com mais gosto quando encontrou o rosto avermelhado do irmão.
— Não era assim que eu tinha planejado essa confissão.
Devagar, apoiando-se na banheira, Sasuke voltou para o piso. Buscou uma toalha na barra do box e a passou para o irmão, cuidando para não encarar seus olhos ou seu colo.
— Onde você está indo? — Itachi perguntou, indignado.
— Você precisa se secar e se vestir logo, já deve ter passado tempo demais pelado.
— Sasuke!
Jocoso, Sasuke voltou apenas para tocá-lo na testa com a ponta dos dedos indicador e médio.
— A gente pode falar sobre isso amanhã, nii-san, não é como se eu fosse fugir de você também.
E podiam mesmo, Sasuke se dava conta só então. Não importava quanto tempo passasse longe do irmão, ou quantos compromissos inadiáveis Itachi tivesse, um sempre voltava para o outro. Não era preciso pressa, desespero ou medo. Não quando um sempre fora sinônimo de segurança para o outro.
— Mas só para deixar claro — ele inclinou-se, deitando um beijo pouco casto no pescoço do irmão —, eu sinto o mesmo.
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