Soldado Ferido

1 Capítulo 1 - Único


Notas iniciais
Realmente, espero que esta crônica corresponda às suas expectativas.
O meu principal objetivo em publicar histórias, é melhorar enquanto escritor amador, portanto peço que, se possível, me apontem possíveis erros e/ou formas melhores de se escrever, em geral.
Uma coisa que já me alertaram é minha formalidade um tanto excessiva ao escrever. Não se enganem, eu estou tentando escrever o mais descontraidamente possível.

Pisquei os olhos rapidamente na esperança de melhorar a qualidade da minha visão debilitada pela poeira, mas, como em qualquer coisa que eu faço, o arrependimento vem logo em seguida. No meu limitado campo de visão tudo poderia ser terrivelmente resumido a sofrimento, este proveniente dos pobres corpos arremessados ao chão, pela força de projéteis que rumavam destinos incertos. “Pertenço eu à realidade igual a esta?” Pensei enquanto tentava, sem sucesso, pôr-me novamente de pé, caindo de forma ridícula ao chão com corpo virado para baixo. Minha função era lutar por uma causa maior, que, considerando a força inimiga exageradamente grande, certamente custaria minha vida. Qual seria esta importante causa? Pouco importa para mim, um corpo estirado em seu leito esperando, sem muito se mover, o fim, sentindo uma preguiça que se parecia com a dor no seu mais puro significado.

Forcei meu olhar novamente para o ferimento fatal que carregava na perna esquerda, eu não queria ver o buraco que enterrava profundamente a maldita bala, mas a dor física forçava-me a tal feito. A poça de sangue em mim tornara-se agora um rio, manchando o uniforme verde, o qual, num passado próximo que me parecia distante, esforçava-me dedicadamente para limpar.

Qualquer coisa à minha volta insistia em fazer barulhos irritantemente desnecessários ou, também desnecessariamente, fedia da pior forma possível, mas o que mais me surpreendeu foi o fato de meu coração conseguir fazer um barulho superior a qualquer outra distração, ritmando, cada vez mais devagar, a quantidade de tempo que me restava de tal miserável vida. Pouco tempo.

Gemi de susto e incômodo quando, próximo a mim, uma granada havia sido detonada, liberando estilhaços mortais que atingiam tudo em seu raio de alcance. Agradeci ironicamente a Deus pela nova “benção” que ele mandou através do explosivo, atingindo agora dolorosamente a minha perna direita, tornando-me oficialmente fora de ação. Quantas vezes pedi ao grande e piedoso senhor alguma ajuda que se tornava necessária, e ele simplesmente tornava meu desafio apenas mais difícil e desgastante? Teria eu algum lugar no cobiçado espaço chamado paraíso? Apesar de minhas esperanças, eu sabia que assassinos não tem espaço reservado lá em cima. Uma lágrima escorreu do meu rosto quando eu cheguei à conclusão de que eu havia sido condenado ao inferno, não só agora, mas desde o começo de minha vida.

Lembrei com tristeza das pessoas que eu mais amava: Minha esposa, que morrera tragicamente no seu primeiro parto, meus pais que me enfiaram em um orfanato aos dez anos, e minha única filha que, aos seis anos, foi levada de minhas mãos por um malfeitor que me cobrara uma exorbitante quantia em nome de seu resgate.

Eu jamais conseguiria pagar tal quantia. Vendi cada resto de propriedade que eu tinha arduamente conseguido sozinho ao longo de minha vida, mas, para o meu desgosto, não chegava sequer a metade do exigido. Lembro-me de chorar ajoelhado perante o sequestrador, oferecendo todo o meu dinheiro e minha própria vida, para libertar meu frágil bebê, mas o infeliz recusou minha oferta, ceifando diante de mim, a vida de meu maior orgulho, ainda levando consigo meus bens em dinheiro. Recordo-me também a vontade constante de cair em prantos, que eu segurava com todas as minhas forças restantes, a cada segundo.

Parei de recordar tais momentos, eu não precisava sofrer mais.

As lágrimas escorriam involuntariamente pelos meus olhos enquanto eu questionava, pela milionésima vez, a razão de minha vida.

Dentre as pessoas portando armas, corpos sem valor, veículos de guerra incendiados e o próprio cheiro da morte, comecei a distinguir uma forma feminina que trajava um longo vestido impecavelmente branco, contrastando com a cena. Ela andava descalça, aparentemente alheia aos acontecimentos ao seu redor com passos frágeis em minha direção exibindo um brilho branco estranhamente acolhedor, seu jeito me parecia familiar, apesar de suas feições encontrarem-se indistinguíveis.

Ela ajoelhou-se ao meu lado convidando-me, silenciosamente, a ficar de pé. Sua face não se movia, mas, eu conseguia entender perfeitamente o que era dito:

–Esperamos por você – Afirmou o ser misterioso, cujo rosto se tornava cada vez mais claro – Já é capaz de se levantar?

Apesar de surpreender-me com o fato, não sentia nenhum medo. Minha dor estava desaparecendo conforme meu coração desacelerava rumo ao seu descanso eterno, esforcei-me para ver o rosto, mas minha visão agora foi embora, deixando-me de olhos fechados num movimento involuntário.

Eu continuava a vê-la! Como pode ser possível? Meus olhos estavam definitivamente fechados, mas sua imagem ainda pairava em minha frente sobre o vasto nada. Ela tocou a minha face ferida pelo sofrimento e todas as minhas inseguranças foram embora. Notei a chegada de um casal vestido da mesma forma, e, em seguida uma pequena menininha também se juntava sorridente, àquele momento incomum.

De repente todas as faces se tornaram reconhecíveis: Meus pais sorriam para mim juntos, minha esposa acariciava-me no rosto com sua mão macia, e minha pequena filha brincava com meus cabelos como de costume.

Olhei para todos com uma mistura de emoções indescritíveis, senti um pequeno empurrão de dentro do meu corpo para fora e me levantei, exibindo o mesmo brilho que meus familiares.

Saí de meu corpo antes de meu coração suspirar pela última vez, só então compreendendo a real benção que me foi dada. Finalmente, eu estava ao lado de quem eu mais amava, para toda a eternidade.

Que fique lembrado: A única vez em minha vida que eu tive vontade de chorar por extrema alegria, foi depois de esta mesma ter um fim. Um fim não, um novo começo.


Notas finais
Alguém está lendo esta fic?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!