Solaris

10 Solaris


A luz solar pousada no meu rosto fez com que abrisse os meus olhos, logo depois olhei em volta e vi que não estava no meu quarto, o cara do trabalho deitado no outro lado da cama comprovava isso.

Senti uma forte dor de cabeça, que provavelmente era por ter bebido muito na noite passada, e me levantei meio tonto. Depois me vesti e fui fazer o café com o que tivesse na dispensa de Luiz — conhecendo bem a figura, provavelmente estaria passando fome.

Eu e Luiz não éramos namorados, nós só ficávamos algumas vezes. Era tudo casual, sem juras de amor e sem aquele sentimento de posse. Já fazia tempo que não tinha uma relação séria com alguém e pra mim estava bom como estava.

Ele se levantou meia hora depois, reclamando do sol da manhã que batia em seu quarto e do calor que sentia ao se despertar. Luiz reclamava de tudo.

— Ainda vou arrumar outro lugar pra morar, porque, puta que pariu... — Praguejou, se sentando na mesa, e levou a caneca de café até a boca. — Nossa, Nicolas, seu café está horrível!

Reclamava de tudo mesmo.

— Fiz mais forte, minha cabeça estava estourando. — Expliquei.

Ele deu mais um gole, mas fez uma careta e resolveu deixar a caneca de lado. — Fazia um tempo que tu não enchia a cara como ontem, até não te reconheci.

Eu era famoso no grupo por ser sempre comedido e responsável, ainda que aprontasse de vez em quando, mas perto dos demais era um santo.

— Uma pessoa especial para mim morreu.

— É? E você tem alguém especial? — Seu humor era ácido.

Desde que minha mãe morrera, eu me tornei mais retraído e quando me envolvia com alguém, era que nem com Luiz, só casualmente. Falavam que eu era o Coração Gelado dos Ursinhos Carinhosos ou qualquer outra coisa gelada e malvada, mas não me importava com o que achavam de mim, até porque eu também não pensava coisas boas deles.

Luiz, por exemplo, era um cuzão.

— Uma senhora que foi muito gentil comigo na adolescência.

— Nossa, Nicolas, só você mesmo pra perder tempo com gente velha na flor da idade.

Eu não esbocei reação nenhuma. Por mais que eu gostasse da dona Déusa, era esperado que Luiz dissesse algo assim.

— Não só na adolescência, eu pretendo ainda hoje viajar até Solaris, onde ela vai ser enterrada.

— E você encheu a cara por isso? Ela é tão importante assim? Ah, cara, por que a Tv ainda está desligada? — Ele se levantou da mesa e passou a procurar o controle no sofá, resmungando.

Na verdade enchi a cara porque recebi a notícia do próprio Miguel, que entrou em contato comigo pela internet. Fazia muito tempo que não nos falávamos e ele ter vindo me procurar fez com que eu tivesse um choque muito grande. Lembrei-me do meu tempo em Solaris, de como odiava aquele lugar e que ainda deixei um namorado pra trás.

Eu e Miguel continuamos namorando pela internet, mas com o passar dos anos e com a morte de minha mãe, nosso contato por essa via também acabou.

E ontem, ele me mandou uma mensagem dizendo que dona Déusa havia morrido e que pretendia voltar para Solaris enterrar a avó ao lado da mãe. Assim como eu, Miguel também deixou Solaris, mas ele não voltou pra capital, mesmo eu morando nela. Talvez naquela altura do campeonato, já não fosse mais importante pra ele, embora meu coração ter se aquecido por ele ter me avisado, porque assim soube que Miguel ainda se lembrava de mim.

Enquanto estive no trem, me perguntei em como estaria Solaris. Já que era verão, era provável que estivesse bem bonita com os campos de girassóis — outro ponto turístico de Solaris — carregados, mas não querendo enganar a ninguém, eu pensava mais em como estaria Miguel.

Miguel foi o meu primeiro amor, afinal.

O velório aconteceria na única igreja da cidade, reencontrei muitas pessoas, principalmente as que julgavam dona Déusa por ter perdido a filha de forma tão trágica e por ter um neto gay que namorava a distância comigo. Todos choravam como se realmente a amassem.

Hipocrisia não tinha limites e em Solaris era ainda pior. Miguel evitava de falar comigo, mas eu fiquei sabendo que durante o nosso namoro a distância, ele estava sofrendo perseguições. Esse foi até um dos motivos que me fizeram distanciar dele.

E falar em Miguel, ele estava de terno e apertava a mão de todos que chegavam na igreja. Recebia os pêsames com um sorriso e contava as novidades.

Estava mais velho, mais forte, mais experiente e continuava gentil até com quem lhe machucou.

Luiz não tinha nada a ver com ele, na verdade, nenhum amigo meu.

Eu só parei pra conversar com Miguel após o enterro. Fazia muito calor e tive que afrouxar a gravata e tirar meu terno, me sentei no sofá da casa de dona Déusa e ele foi até a mim oferecendo uma limonada. Em volta ainda havia algumas pessoas, mas tive a impressão que naquele momento só havíamos nós dois. E não só ali na casa da dona Déusa, como no mundo inteiro.

Ele continuava com o sorriso aparente, que nunca me enganou. Estava triste como Pet Sounds: as melodias eram felizes e as letras tristes.

Fora um rapaz complexo e hoje adulto me parecia que ainda era... e eu queria continuar destrinchando essa complexidade.

Ficamos conversando sobre música.

Notas finais
esse foi o último cap!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!