Solaris
6 Capítulo 6
Miguel era bonito.
Naquela manhã, muitos alunos se reuniram na janela para observá-lo debaixo da árvore na companhia de uma garota. Eu fiquei na minha carteira, esfregando minhas mãos suadas e ansiando a resposta de Miguel.
Por mais que eu estivesse já inclinado para um lado, eu deveria apoiá-lo independente de qual fosse sua resposta. Tratava-se de uma confissão e, se Miguel não correspondesse, a sala toda estaria pressionando e eu tinha medo de ele ceder. De não vir dele. De ele realmente gostar dela. De ele me esquecer.
Estava indo tudo muito bem sendo só nós dois, mas agora ele podia começar a namorar e se afastar de mim. Nunca compreendi porque Miguel ficou ao meu lado quando tinha tudo pra ser o aluno mais popular: bonito, simpático, inteligente e viera da capital. Mas estava sempre perto de mim na encosta do arroio, me observando fumar e esperando com que matássemos aula no bosque, ficando bem longe dos adultos; só na companhia das folhas mais vermelhas que o normal e também do frio, nos sentávamos bem próximos e eu envolvia minha mão na dele, apesar de ambas estarem cobertas por luvas. Miguel me respondia descansando a cabeça no meu ombro e eu me lembrava de Pet Sounds de novo.
Miguel já não me era interessante por que conhecia diversos discos como qualquer garoto da capital, mas porque me trazia um sentimento egoísta e de posse, acreditava veemente que ele era só meu. Que ele tocava as músicas que compunha somente para mim, que ele matava aula somente comigo, que ele segurava só a minha mão e que só eu sabia da morte de sua mãe.
Só eu o conhecia, só eu sabia que seu sorriso era fraco e que ele nunca se envolveria com aquela garota.
As aulas terminaram e nós dois voltávamos pra casa juntos ou até o ponto em que nos separávamos para o caminho das nossas respectivas casas. Miguel morava longe de tudo em Solaris e era normal que em dado momento nos separássemos.
— Miguel... por que não aceitou o pedido de namoro? Ela era bonita.
Miguel andava mirando seus olhos castanhos para os pés. — Mas eu não gosto dela.
— Ham... isso podia surgir com o tempo... tipo o que aconteceu com a gente.
Miguel parou os passos. — Como assim?
Eu também parei de andar. — Nós dois erámos completos estranhos e agora nos damos bem, certo?
Ele piscou os olhos, como se lembrasse de algo. — Você só veio mesmo falar comigo porque era da capital?
— Sim, eu imagino que lá há um cenário alternativo bem forte e pensei que você pudesse conhecer muitos discos. — Abri um sorriso. — E estava certo, né?
Miguel desviou o olhar, como faz quando se sente triste. — Você é bem simples, Nico.
— Como assim?
— Só queria uma companhia pra falar do que gosta.
Bem, seu raciocínio não estava tão errado assim. — E quanto a você? Por que ficou comigo?
Ele deu um sorriso franco. — Enquanto me mudava, eu pensava que seria péssimo ficar num lugar em que eu não encontraria ninguém que gostasse de música. Foi uma surpresa quando você perguntou o que eu gostava de ouvir.
Eu arqueei a sobrancelha. — Você gosta de música o tanto que eu gosto?
— Você não percebeu? — Perguntou, surpreso.
— Mas, Miguel, você sabe como chego a ser ridículo...
Ele riu com o meu constrangimento. — Acredito que se você não estivesse aqui, eu ficaria desse jeito também. — Continuava a rir. — Não ter ninguém pra conversar do que gosta... acho que ficaria o dia todo ouvindo um disco diferente no Spotify também e depois não teria com quem conversar, algo que você passava muito, né?
— Você está me dizendo que se uniu comigo pela mesma razão?
— Essa é uma delas.
Miguel piscou pra mim e voltou a andar. Como estava ainda imóvel, só reagi quando ele já estava alguns passos a minha frente.
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