Solaris
8 Capítulo 8
Estávamos no quarto de Miguel, mexendo nos nossos respectivos celulares. Eu tinha a cabeça repousada no colo de Miguel, mas levantei meu torso ao ver o artista mais escutado no lastfm dele.
— Taylor Swift?!
De todos os artistas do mundo, logo Taylor Swift? Eu imaginava que na sua biblioteca teria The Smiths, Radiohead, Fleetwood Mac ou Flaming Lips, mas Taylor Swift? Logo o artista que representava a indústria da música atualmente?
Ele deu uma risadinha com minha reação.
— Qual é o problema?
Eu balancei minhas mãos, pensando se não era óbvio. — Você sabe que ela faz música comercial, certo?
— Sim, qual é o problema?
Como ele repetiu a pergunta, eu também balancei as mãos novamente com um olhar "mas não é óbvio?". — As músicas dela não são sinceras como as de Brian Wilson, são pra vender...
— E deixa de ser música, Nico?
Eu pisquei os olhos, muito confuso. — Não te incomoda ouvir algo que não foi ela quem fez?
Miguel soltou um suspiro. — Não há problema em ouvir música comercial, porque se você parar para pensar, até as músicas independentes são comerciais. — Isso era verdade, todo mundo precisa de dinheiro afinal. — E quanto a autoria... se não for dela, isso não mostra que ela não se esforçou, só por ser o rosto dos negócios já é bastante desafiador. — Eu tive que concordar com isso também. — E tu tá ligado que o trabalho dela mudou bastante, né? Ela é compositora também e cada vez mais entrega uma parte dela nos seus discos. Senão, tudo de si.
— Ham... entendi. Foi mal.
Ele riu e disse "Tudo bem", mas me lançou uma pergunta que me incomodou.
— Você se sente especial por ouvir coisas que ninguém de Solaris escuta?
— Ham... — Pigarreei, não tinha como não contar a verdade, porque estava estampado na minha cara. — S-sim... eu acho que sou mais sensível por pesquisar em vez de esperar vir de mão beijada por ser o que todo mundo está ouvindo e comentando.
— E essas músicas que você corre atrás por conta própria são mais difíceis de digerir, exigindo mais paciência — ou essa "sensibilidade" — pra passar da primeira faixa caso se trate de um álbum?
— Isso! Você também já pensou assim?
Ele balançou a cabeça, ponderando. — Mais ou menos... pensava assim até um dia eu entender que discos aclamados podem ser ruins também.
— Você tá falando de The Velvet Underground and Nico, né?
Ele fez "sim" com a cabeça, enquanto dava aquele sorrisinho idiota. Não me restou outra opção além de batê-lo com o travesseiro, mas Miguel o tirou das minhas mãos e me puxou para um beijo que me fez deitar sob ele. Assim que nossos lábios se separaram, ele me encarou com um olhar carregado.
— Você é especial porque tudo o que queria era poder falar de algo tão simples com alguém.
— Ham? Como assim? — Eu estava incomodado por estar acanhado e ainda sentia o peso do seu corpo sobre o meu. — Era pra eu pensar em sexo como todo adolescente?
Resposta horrível que eu dei, porque ele fez um olhar malicioso e passou a me tatear.
— Você só quer ficar no "pensar"?
Eu me debati e saí de baixo de Miguel. — Sua vó! Sua vó pode entrar...
Miguel ria da minha cara pálida e minha vontade de lhe acertar só aumentava.
— Ela sabe que sou gay.
— S-sabe? Ela sabe de nós dois?
— Não, não contei. Eu preciso saber antes se você se sente confortável.
Voltei a me sentar na cama. — Não tem como se sentir confortável...
Ele envolveu meus ombros com o seu braço e nossas testas bateram de leve uma na outra. — Sim, porque somos dois garotos.
Subitamente, comecei a chorar.
— O que houve Nico? — Miguel tentava enxugar minhas lágrimas com os dedos.
— É porque... eu pensei que quando achasse alguém em que eu pudesse amar tanto... eu finalmente me sentiria parte de algo ou menos sozinho...
— Você se sente sozinho por amar um garoto?
— Infelizmente sim, porque ainda me sinto uma peça que não se encaixa...
Miguel ficou alguns segundos em silêncio, ele devia estar pensando para nós dois nunca nos encontrarmos de novo ou qualquer outra estupidez como essa. Então, ele apertou minha mão.
— Uma vez te fiz uma pergunta...
— Se eu tô disposto a aceitar o diferente...
— Isso. Eu não imaginava que nós dois estaríamos juntos, eu só não queria que você deixasse de ser meu amigo. — Ele deu uma pausa e molhou os lábios para continuar. — Mas como estamos juntos, eu acho que não posso te exigir a ficar do meu lado quando as coisas vão piorar daqui pra frente... você precisa estar atento: por mais que escondemos nossa relação, uma hora surgirão boatos e não só os nossos colegas, mas como também sua família ficará sabendo.
Eu saí do quarto de Miguel pensativo e encontrei sua avó na varanda, sentada na cadeira de balanço com o Soneca — o gato — dormindo em seu colo. Fiquei parado alguns minutos pensando que ela provavelmente já achava que havia algo entre mim e Miguel.
— Miguel tem andado mais feliz. — Ela disse repentinamente, quando me virei para ir embora. — Você costumava vir pra cá só quando estava triste.
Isso era verdade, eu costumava vir para tentar levá-lo a escola — sem sucesso — e para entregar as matérias dos dias que faltou.
— Sim.
Soneca pulou de seu colo e ela se levantou, nesse instante fiquei nervoso como nunca. Estava claro que ela queria me dizer algo e eu tinha mais certeza disso quando ela caminhava em minha direção.
Seu nome era Déusa e quando esteve perto de mim o bastante, ela tocou o meu rosto com um sorriso afetuoso, depois deixou a mão repousada no meu ombro.
— Aquela criança já sofreu muito com a morte da minha filha. — Ela chorou, devia ser difícil pra ela também sendo a mãe. — Fico feliz por você ser prestativo e ter me ajudado sempre que entrei em contato.
— Não foi esforço nenhum, Dona Déusa. — Eu ficava acanhado em situações como essa. — Miguel é meu amigo.
Ela voltou com aquele sorriso gentil. — Fique sabendo que estarei ao lado de vocês.
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