Solaris
4 Capítulo 4
Cada vez mais fazia frio na minha cidade. Era normal acordar e encontrar uma garoa dominando o cenário mais bucólico que urbano. Às vezes andava com o zíper até o talo e, por mais fina que fosse a chuva, era contínua e eu era obrigado a levar um guarda-chuva comigo. A neblina também me atrapalhava a enxergar ao meu redor, nem as folhas vermelhas conseguiam se sobressair daquele cenário fosco, uma pena porque elas eram o "ponto turístico" de Solaris.
Mas naquele dia não chovia e eu parei para fumar na costa do arroio. Costumava encontrar Miguel lá e, dependendo do nosso humor, nós íamos a aula ou a matávamos.
Fazia um mês que Miguel morava em Solaris e, de uma forma estranha, ele preferiu ficar com o aluno estranho da turma. Não sei porque decidiu ficar comigo, ele não tinha a mesma fixação por discos que eu tinha — era compreensível eu segui-lo o tempo todo, porque Miguel era o único em que eu podia conversar sobre o que tanto queria.
Mas ele nunca me disse o que levou sua família a se mudar pra um fim de mundo como Solaris.
— Sua cidade não é tão ruim assim.
Ele disse com aquele sorriso estranho e aparente, enquanto esfregava os braços cobertos por um suéter de lã.
— Você está disposto a me provar que não?
Estávamos na encosta do arroio e pensávamos em matar aula.
Miguel não me respondeu, porque senão ele teria que me dizer como era sua vida na capital e ele sempre evitava falar do assunto.
— Você é cheio dos mistérios, Miguel. — Assoprei a fumaça do cigarro que fumava para cima. Da boca de Miguel saía outra fumaça, mas era da sua respiração condensada.
— Nico... — Ele me chamava de "Nico" por conta da Nico e do The Velvet Underground no primeiro dia de aula. — Você diz que pra gostar de músicas estranhas devemos ouvir o disco mais de uma vez, certo?
— Sim, o que tem?
— Você é assim com outras questões na vida? Você passaria da primeira faixa em relação a alguém?
— Quê?! Tô entendendo nada...
— Você... — Deu uma pausa. — Está disposto a aceitar o diferente?
— Ainda não peguei.
Miguel respirou fundo, me parecia bem nervoso. — Eu sou diferente.
— Sim, você veio da capital, é normal que seja diferente e não tenha sotaque. — Eu nem terminei de dizer o que queria e ele passou a andar no sentido oposto do arroio. — Aonde você vai?
— Vou pra escola.
O quê?! Ele está ofendido?
— Miguel, me espera! — Tive que correr para pegar em seu braço. — Seja lá o que você está me dizendo... mas se um dia você quiser me contar o que te chateia, eu vou ouvir e não vou te julgar. Até porque, eu também sou diferente e você passou da primeira faixa comigo, certo?
Seus olhos castanhos brilharam, até pensei que iria chorar. — Eu te amei desde a primeira ouvida.
E me abraçou. Eu o respondi e notei que chorava.
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