Solarestival
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
Tudo estava tão perfeito naquela noite que ela mais parecia um sonho do que realidade; Solarestival nunca estivera tão magnífico desde sua construção. Rosas vermelhas desciam pelos pilares do palácio, perfumando o salão iluminado onde dançavam os senhores de casas nobres, suas vestes ricas e coloridas se misturando em sintonia com o ritmo da música. As mesas cobertas por um brilhante tecido negro eram fartas de doces e quitutes, e os vitrais atrás delas ostentavam as figuras heroicas de dragões e dos reis e rainhas da dinastia Targaryen.
Todos tinham semblantes felizes e descontraídos, afinal, aquela era uma festa de comemoração ao mais novo membro da família que estava para nascer, "O príncipe que foi prometido" seria da linhagem de Aerys e Rhaella, foi o que disse a bruxa que Jenny de Pedravelhas trouxe à corte. Nunca concordou com aquilo.
O que aconteceu naquele momento ninguém soube ao certo, e quem viu não viveu para contar a história; mas Duncan estava lá quando os risos se transformaram em gritos de pavor e o fogo consumiu Solarestival.
A explosão de labaredas verdes parecia quase sobrenatural, as chamas crepitavam violentamente, devorando os estandartes do dragão de três cabeças de uma forma quase irônica. As pessoas corriam desesperadas para fora, caindo e tropeçando por cima das outras em sua agonia. Sor Duncan correu contra a multidão, a fumaça tomava conta do ar e as exclamações aflitas enchiam seus ouvidos, mas ele só conseguia pensar em uma coisa; Aegon.
Quando finalmente o encontrou, o rei não parecia mais ele mesmo. O rosto contorcido de dor nunca fora algo que Dunk viu nele com frequência, muito menos estando unido a uma tão deplorável situação; o cabelo prateado ficara chamuscado pelo fogo e as roupas grudadas dolorosamente à carne queimada das feridas dele.
— Eu não quero morrer, Dunk... – Aegon falou com uma voz vacilante, cheia de angústia e arrependimentos. Os olhos violetas lacrimejavam, e Duncan soube que não era apenas por causa da fumaça.
— Você não vai morrer. – O cavaleiro o ergueu, apoiando-o com um braço firme enquanto buscava a saída. O Targaryen parecia prestes a cair, tossindo mais do que respirava. — Eu não vou deixar!
A fumaça escura e densa impossibilitava que vissem sequer cinco palmos a frente e o calor do fogovivo fazia com que se sentissem dentro de uma fornalha, sendo queimados vivos. Lentamente, os passos do cavaleiro foram diminuindo, respirar se tornava cada vez mais difícil conforme avançavam, mas ele se obrigou a seguir em frente. Tinha feito um juramento; jurou diante dos homens e dos deuses que daria sua vida à Guarda Real, para defender e proteger o rei, mesmo que isso significasse a morte. Que tipo de Senhor Comandante ele seria se deixasse seu rei morrer?
— Majestade. – Olhou para ele novamente, os olhos quase fechados e as pernas fracas do homem deduravam que ele estava perto. — EGG!
Naquele instante nenhuma formalidade importou, tudo o que conseguiu ver no homem moribundo ao seu lado foi o garotinho petulante de cabeça raspada que conheceu na adolescência, e ele estava morrendo. Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto do mais velho; o menino que ele viu crescer, que viajou por todos Sete Reinos ao lado dele e o nomeou "Sor Duncan, o Alto" da Guarda Real, agora padecia lentamente em seus braços, sem que pudesse fazer nada para salvá-lo.
Nunca se sentiu tão desgraçado, tão imprestável, quanto naquele momento, as lembranças de um passado no qual era apenas um cavaleiro andante voltando para atormentá-lo. Baelor Quebralanças morreu por causa dele, viu Pequeno Duncan nascer e acompanhou cada passo da vida do jovem Príncipe das Libélulas, mesmo assim, não conseguiu protegê-lo; se perdesse Egg, nunca iria se perdoar.
"Que os deuses me castiguem", pensou.
A estrutura do palácio tremeu e os belos vitrais explodiram, liberando línguas de fogo tão altas que fizeram Solarestival parecer uma pira funerária, cremando todos aqueles que não escaparam da morte certa dentro de suas paredes. O teto começou a ruir, e com ele Sor Duncan; caído no chão, com o manto branco ardendo em chamas, todas as memórias das aventuras que teve junto com Aegon passaram diante de seus olhos, até mesmo as mais bobas que na época o fizeram rir.
Uma vez enquanto descansavam, o menino havia falado entusiasmado sobre o ovo de dragão que tinha, e sobre como esperava que um dia a casca rachasse e revelasse um glorioso dragão. E ele tentou, mas a que custo? Os dragões estavam todos mortos e nem todo o fogovivo e feitiços do mundo poderiam mudar isso.
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