Solar

1 Prelúdio


Sentamos à mesa, eu na ponta, e ele a duas cadeiras de distância, os outros quatro observavam de pé. Já tinham escutado milhares de vezes, mas mesmo assim prestavam atenção, como uma criança encara um doce, nem piscavam. Olhou nos meus olhos e disse:

-Preste atenção! — Então começou a contar:

-“Segundo a bíblia, Adão e Eva tiveram dois filhos, Caim e Abel. Caim cultivava grãos, colhia frutas, enfim, cuidava da terra. Já Abel caçava, cuidava dos rebanhos, pescava, etc. Um certo dia Caim teve a ideia de agradar seu Deus, colheu seus melhores grãos, frutos de muito trabalho, e fez uma oferenda a ele. Seu irmão, partilhando de seu amor para com Deus também quis fazer uma oferenda, pegou seu cordeiro primogênito e ofertou. A oferenda de Abel foi aceita com grande alegria, mas as de Caim não! E assim aconteceu por um longo tempo. Caim foi criando uma grande inveja de seu irmão, que se transformou em raiva e depois em ódio!Sendo assim, buscando uma forma de se vingar de toda a indiferença de Deus, ele esperou até o dia perfeito, chamou seu irmão pra longe de todos e sentindo a necessidade de ter o seu sangue, Caim apedrejou o irmão, e a cada golpe sua vontade só aumentava, e só parou quando Abel não respirava mais, afogado em seu próprio sangue. Sua inveja tinha lhe cegado, apavorado, escondeu o corpo do irmão, se lavou e voltou para casa. Perguntavam a ele sobre Abel, alterado respondia não saber do seu paradeiro.”
“Com o tempo alguém descobriu o que Caim tinha feito, e o delatou para Deus. Irado, ele o amaldiçoou, foi condenado a viver até o fim dos tempos para lembrar de sua maldade; por ser o primeiro assassino da história, também nunca mais poderia sentir o toque dos raios de sol sobre sua pele e por todos os momentos do resto da sua vida desejaria sangue, do mesmo jeito que desejou o sangue de Abel. E assim nascia o primeiro vampiro”.

Depois disso fiquei pensativo, e a dúvida não saia da minha mente, então questionei:

-E o que os sete clãs tem haver com isso? — perguntei perplexo, pois acreditava no que estava ouvindo – E por que estão me caçando? Podem me explicar o que está acontecendo!? – indaguei.


Um estalo vindo da mão de Gabriel contra a mesa me assustou, no mesmo instante o homem grisalho levantou-se rapidamente, derrubando a cadeira, e apontando o dedo no meu rosto gritou:

-Cale a boca! Me deixe terminar a porra da história! — franzino e assustado abaixei a cabeça e me desculpei. Gabriel continuou com a história.

“Ao longo dos séculos Caim não conseguia esquecer o que tinha feito com seu irmão, mas, outras tristezas o afligiam. Ele, sendo incapaz de morrer, via todos aqueles que amava morrerem na sua frente. Ninguém, jamais poderia se aproximar. Por medo de se apaixonar, Caim, evitava a tudo e a todos. A solidão corroia seu coração, ele sabia que essa dor nunca iria passar, até o dia em que uma feiticeira ouviu falar de sua lenda e o encontrou. Uma moça, muito bela por sinal, mexia com magia negra e disse que poderia salva-lo da solidão. Por força do acaso Caim se apaixonou por ela, e ela o ensinou a passar sua maldição a quem ele amasse através de pactos de sangue. Ele a amava como um dia amou a Deus, então usou dos truques que ela o ensinara e com uma ferida no pescoço a amaldiçoou.”

“Ela porém, depois de ter ganhado sua imortalidade,e ter se tornado mais forte do que qualquer bruxa em toda a terra, o descartou, o traiu com incontáveis homens, e declarou guerra ao mundo! Caim sentira mais uma vez o ódio em seu coração, perdeu sua fé em toda a humanidade e jurou morte a sua amada. Então usou de magia negra para passar sua maldição a três soldados que o temiam, com a missão de caçar e decapitar a traidora”

- Os soldados amaldiçoados por Caim eram muito poderosos, mas eram sensíveis a luz do sol, assim como seu mestre. Eram rápidos como um guepardo, fortes como cinco rinocerontes juntos...

- Eles conseguiram matar a bruxa? Eles eram como nós somos hoje, certo?- interrompi, estava muito curioso!

- Cala a sua boca moleque! A próxima eu faço você arrancar a própria língua!- prometo que não o interrompo mais.

- Sim senhor!

Gabriel, já de pé, deu a volta na mesa e saiu pela porta da frente, sem dar explicação. Enquanto ele andava para fora todos mantinham suas mentes atentas a história, mesmo que ele tenha parado de contar. Eu pensava se tinha deixado escapar alguma coisa importante, seus rostos assustados começaram a me assustar também.

Fiquei curioso e entusiasmado com essa lenda, mas o clima da sala é totalmente diferente do meu. Sy era o mais frio, parecia que presenciara seu próprio corpo morto. Perguntei:

- No que estão pensando?

Suas cabeças viraram tão rápido que nem percebi, eles olhavam para mim com olhares de reprovação. Meu medo aumentava. Eles se mexeram. O que vão fazer? Se aproximaram da mesa e se sentaram. Suspirei aliviado. Edward sentou-se na ponta contrária a minha, colocou suas mãos encima da mesa, inclinou seu corpo para frente e juntou os dedos, e prosseguiu com a história.

- Os soldados de Caim eram diferentes de como somos hoje, eram dez vezes mais fortes que qualquer vampiro que você ou nós conhecemos- e acrescentou – e Caim tinha o dobro do poder dos três soldados juntos...

- Como assim? Isso é impossível! Sendo assim Caim deveria estar vivo!

- Nunca dissemos que ele morreu. Você poderia, por favor, parar de atrapalhar?

- Desculpa...- Quase fiquei sem língua nesse momento.

- Tendo enviado seu soldados, desapareceu, e nunca! Nunca mais foi visto. – parou um instante, e todos se mexeram como se alguma coisa estivesse os incomodando, e Edward continuou;

- A batalha entre a bruxa e os vampiros foi brutal, dizem que durou mais de semanas para acabar. Mas ao final o objetivo foi alcançado, a bruxa foi decapitada. Foi sepultada com sua cabeça ao contrário e seu caixão apontado para baixo. Apesar de ter sido uma luta muito intensa poucos humanos sabiam, mas para evitar que o segredo de Caim seja revelado, muitas vidas foram sacrificadas...

Edward e eu ficamos a noite toda conversando sobre histórias, lendas e boatos, os outros foram caçar assim que a principal história tinha acabado de ser contada. No fim das contas, os três soldados se separaram no inicio da idade média, cada um deles tinha seus descendentes de maldição, e seus descendentes seus próprios, e assim prosseguia. Milhares de vampiros existem atualmente, não são difíceis de se encontrar, apesar de serem criaturas das trevas, gostam de viver em bandos. Em muitas regiões esses vampiros que vivem juntos fazem acordos de áreas de caça. Guerras entre nossa espécie são evitadas graças a acordos entre bandos; dizem que ao norte do continente Europeu existem cidades povoadas somente por vampiros, que sobrevivem de rebanhos e turistas.

Fiquei com dúvida se tal coisa é possível, mas atualmente acredito em qualquer merda que me falarem, pois, semana passada eu era apenas um humano comum que nem em si mesmo acreditava.

“Terça – feira, madrugada, perto das duas da manhã, voltava para o seu “apartamento”. Estava escuro, como de costume, os postes perto daquela região foram quebrados semanas atrás, porém estava quieto de mais, nenhum ruído a não ser seus pés. Mas o pobre coitado conseguia nem saber com qual pé estava pisando, cansado, sujo de suor e whisky barato. Uma preza fácil. Morava sozinho e não tinha nenhum amigo, só lhe restara lutar contra o cansaço e perder o resto de sua dignidade de pouco á pouco, mas tinha o bom senso de perde-la em sua casa e não como um bêbado jogado à rua. Suas pernas bambeavam, e a cabeça girava. Uma Preza fácil. “‘Cadê’ as minhas chaves? Onde eu deixei essa bosta”, murmurava enquanto revirava seus bolsos, não conseguia encontrá-las. Preza fácil. Encostou sua cabeça na porta estava prestes a chorar, suas pernas bambearam outra vez, só que dessa vez não se agüentou e desabou de joelhos no chão, a primeira lagrima surgia em seu rosto, e essa lagrima puxou o seu pranto, chorava desesperadamente. Batia sua cabeça contra a porta repetidas vezes, se castigando por tudo. O som das pancadas ecoavam, só que ninguém ouvia o som do seu pedido de socorro. Uma preza fácil. Até que, com o resto de força que lhe restara, deu um ultimo golpe na porta.

O golpe quebrara o vidro, o vidro lhe cortara a testa, e sua testa jorrava sangue... E o sangue chamou aquelas criaturas nojentas que já o observavam. E depois do sangue o desmaio... Mesmo estando inconsciente a dor o torturava! Algo obscuro entrara em seu corpo, causando extrema agonia! Seu corpo tremia como um terremoto de mais alta escala, se contraia e esticava, se debatia... Mas não lutava contra, pois era inútil lutar, a dor o sucumbia, o mal rasgava cada pedaço de sua carne! Cada extremos de sua alma eram brutalmente esmagados... Mas ele gostou disso...”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.