O que a humanidade conhece atualmente sobre a era mitológica é apenas uma pequena parte do que ela realmente foi. Nos tempos atuais, as antigas divindades não passam de mitos criados por nossos antepassados para explicar os fenômenos da natureza e do comportamento humano, mas durante a era mitológica esses seres extremamente poderosos governavam a terra, muitas vezes com mãos de ferro. Haviam divindades para várias coisas que os humanos conheciam, fenômenos da natureza e sentimentos. Titãs, que outrora dominavam a terra, passaram a ser substituídos por seus sucessores deuses olimpianos no controle do mundo dos humanos, uma nova ordem foi estabelecida. A maioria das pessoas nos dias atuais conhece Apolo como o principal e mais famoso deus do sol, e também o titã Hélio. No entanto, houve mais uma divindade grega solar, aparentemente desconhecida da maior parte da humanidade, oculta dos registros históricos mitológicos. Apenas um pequeno grupo de pessoas sabem da existência dele atualmente.



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Era mitológica


A coroação do jovem Apolo, após o fim de seu exílio, foi um dos eventos mais importantes que o Olimpo já presenciou, pois se tratava de um filho de Zeus ganhando o título merecido de deus do Sol depois de derrotar o usurpador. O olimpo estava de pé graças a ele. Mas Hermes também teve seu destaque, visto que sua ajuda veloz foi de extrema importância. Era quem mais se divertia, depois de Dionísio e Apolo ria ao vê-lo.


Mas enquanto todos festejavam ao seu modo, Atena, com um dos vestidos mais bonitos que já usara, e adornos que acentuavam sua beleza fazia um grande esforço para não transparecer sua tristeza. Seus primeiros anos de vida ela passou junto de Abel. Eram gêmeos inseparáveis. Seu coração foi se despedaçando aos poucos à medida que foi percebendo a verdadeira essência do querido irmão. Foi um processo de várias etapas, mas a que quase matou Atena por dentro foi a forma cruel com que Abel manipulava os humanos.


Atena conseguia esconder como se sentia de todos, menos da figura feminina que se aproximava, também usando um lindo vestido, ornamentos e o olhar de quem parecia ter facilidade em ler pensamentos alheios.


— Sabe que ele vai voltar, não é? — Ártemis, sua irmã mais velha, interrompia o fluxo de pensamentos de Atena de forma nada delicada. — Se não cuidar desse seu coração compassivo e bondoso demais se tornará um problema para todos.


— Sei. — Responde Atena, de forma seca. — Mas já estou tomando providências.


Estava de fato muito feliz pelo irmão mais velho Apolo, mas algo ainda a deixava inquieta. As últimas palavras de Abel causaram um certo incômodo na deusa da sabedoria. Odiava ter maus pressentimentos, ainda mais sendo uma deusa civilizatória. Atena reconhece que demorou demais para tomar uma atitude com relação ao irmão, por isso estava disposta a reparar tal erro cumprindo a vontade de Zeus


— Não confie muito nos humanos, minha irmã. — Alertou Artemis antes das duas seguirem na festa.


Atena reconhece que demorou demais para tomar uma atitude com relação ao irmão, por isso estava disposta a reparar tal erro cumprindo a vontade de Zeus. Tudo sobre Abel deveria ser eliminado e jogado ao esquecimento. Seu nome, rosto, arte, escritos como poemas, epítetos e trechos de obras criados por homens deveriam ser eliminados, sob pena de execução.


Grande parte de tudo relacionado a Abel foi destinado ao fogo da destruição e, consequentemente, do esquecimento, exceto o que estava entre os pertences de um pequeno grupo de refugiados gregos dentro de um navio percorrendo o mar Egeu em direção ao Egito.


…


A calmaria daquela madrugada estrelada, no Porto de Alexandria, no Egito, foi interrompida pela chegada do que aparentava ser um típico navio grego de colonização. Dele saíram algumas famílias e homens sozinhos; alguns com mantos. O grupo desceu do navio sem pressa e no mesmo ritmo caminhavam pelo porto até serem interrompidos por uma luz azul vinda dos céus seguida do impacto do “pouso” do homem no solo e logo se levantando diante deles.


Todos deram alguns passos assustados para trás. Alguns gritando. Diante deles estava um jovem cavaleiro de prata dono de cabelos ruivos ondulados e o olhar sério, porém determinado e com o brilho de um autêntico cavaleiro de Atena.


O traje prateado de Altair de Águia, refletindo a luz do luar, cobria seu corpo tanto quanto algumas armaduras de bronze, apesar da diferença de resistência, temperatura de congelamento e durabilidade. Na cabeça uma tiara diadema com duas pequenas tiaras juntas nas extremidades que ficavam na lateral da cabeça e uma águia adornando o topo, no ombro esquerdo duas ombreiras sobrepostas, o peitoral com uma placa triangular que cobria mais o peito esquerdo, um mangote com adorno de águia cobria o braço esquerdo, no outro ele usava apenas uma luva preta na mão. Usava botas articuladas e as grevas cobriam os pés e as pernas. Os joelhos devidamente cobertos.


— Escutem bem… eu sou Altair de Águia, cavaleiro de prata do Santuário de Atena. Eu não quero machucar nenhum de vocês, pois sei que são todos civis.


Altair estava calmo, tentou conversar com aquelas pessoas, na esperança de não precisar usar força desnecessária. Mas só o que recebeu em troca foi mais hostilidade. Aquelas pessoas xingavam, gritavam, alguns jogavam pedras ou qualquer objeto que se encontrava perto deles


— Deixe-nos em paz, não voltaremos para a Grécia. — Disse uma mulher antes de tacar uma pedra na direção dele que foi pega com uma só mão pelo cavaleiro de prata.


— Bem, como eu ia dizendo… — Prosseguiu Altair, segurando-se para não perder a paciência. — Se todos vocês retornarem eu prometo que Atena os perdoará. Poderão viver tranquilamente em Rodório, perto do Santuário e sob a proteção de Atena.


O Grande Mestre do Santuário de Atena foi bem claro quando o designou para aquela missão; não os ferir, e sim convencê-los a desistir de adorar Abel e voltar para casa. Mas parecia que estava falando com as paredes.


A fala de Altair apenas enfureceu mais ainda aquelas pessoas. Alguns homens avançaram contra Altair, mesmo ele sendo um cavaleiro de prata. Foi extremamente fácil para o ruivo desviar-se dos golpes e também contê-los, derrubando-os no chão, sem feri-los.


— Já chega. Estão assustando suas famílias. — Gritou Altair, reparando nos rostos assustados das outras pessoas alí presentes e começando a perder a paciência. — Venham comigo agora, eu lhes garanto que Atena os perdoará. Porém este é meu último aviso, quem não se arrepender e retornar para Atenas será morto por Zeus.


— Zeus não tem poder nenhum aqui. Ele está muito ocupado com seus afazeres no Olimpo, castigar a humanidade e desonrar nossas mulheres.


Uma voz masculina e madura conhecida ergueu-se e chamou a atenção de Altair. De repente o dono daquela voz surgiu entre aquelas pessoas, trajando um manto preto.


“Essa voz…” — Altair vasculhou o local com os olhos, como uma Águia procurando uma presa, procurando a origem daquela voz até ver o homem do manto preto, que deu alguns passos à frente da multidão em direção a Altair.


— Estamos no Egito e protegidos por um poderoso feitiço. Você e seu santuário não tirará nenhum dos devotos de Abel daqui.


O homem tirou o capuz, revelando seu rosto tão conhecido no santuário daqueles tempos.


— Humpf… — Altair fitou o rosto do homem sem surpresa nenhuma e muito desprezo. — Seth de Gêmeos. Eu sabia que o encontraria aqui.


— Seth de Faetonte… — Corrigiu o mais velho, de cabelos num tom avermelhado mais intenso que os do jovem Altair e compridos, parecendo uma cascata de sangue. O cavaleiro, aparentando exatos vinte e sete anos só pelo rosto, removeu totalmente a capa que o cobria com um único movimento de mão, revelando sua nova vestimenta.


A armadura de Seth cobria bem mais o corpo do que a do jovem. Era reluzente, de cor avermelhada e com detalhes alaranjados nas extremidades das ombreiras e mangotes. Na cintura havia um cinto preto com a figura do sol cravada ao meio. Seth havia se tornado o cavaleiro da coroa do sol de Faetonte e um dos servos mais poderosos de Abel.


— O santuário sabia. Bem, se não quiser dizer suas últimas palavras aqui, esta noite. Renda-se agora e jure fidelidade ao Supremo Deus Sol Abel.


— Eu não vim aqui jurar fidelidade ao falso deus sol. Eu vim te derrotar. — Disse Altair com convicção.


— E eu suponho que também deseja salvar essas pessoas não? — Pergunta Seth


— As que quiserem ser salvas. — Altair responde com uma voz baixa, porém carregada de uma certa raiva.


Logo começou uma certa agitação com algumas pessoas falando algo como Abel ser o único salvador e que não voltariam jamais para o lugar em que foram ameaçados pelos olimpianos.


— Abel já os salvou, como pode ver. Talvez você seja nosso último inimigo. — Disse Seth confiante.


Impressionante, pensou Altair. Desde a queda de Apolo parecia que as coisas mudaram pra pior. Abel se aproveitou para tomar o lugar do irmão, roubando o sol para si e começando a angariar cada vez mais devotos e seguidores. Então surgiram os templos, orações e oferendas cada vez piores. Aquelas pessoas passaram por uma lavagem cerebral


— Como um povo pode se dizer salvo por um deus que pede tantos… — O jovem ruivo faz uma breve pausa, enojado só de lembrar dos rumores que ouvira. — sacrifícios?


— Ora, Altair, somente agora se coloca contra sacrifícios aos deuses? — Responde Seth friamente.


— Eu fui mandado aqui sob ordens claras de Atena para trazer essas pessoas de volta à Grécia sem nenhum arranhão. Mas quanto ao senhor, Seth, receberá a devida punição por sua traição ao santuário, à Atena.


Um silêncio se fez entre os dois, dando espaço só para o som do vento, que soprava, agitando os cabelos dos dois guerreiros e as ondas do mar, perto deles. E também do burburinho da pequena multidão de passageiros do navio. Seus cosmos se elevavam e aquelas pessoas podiam testemunhar, pela primeira vez, seu brilho e a intensidade. Era bem raro civis verem cavaleiros em ação; a maioria acreditava que eles não passavam de lendas.


Durante a discussão, as pessoas iam se afastando aos poucos, Seth sinalizava com uma das mãos para que eles deixassem o campo de batalha imediatamente, mas os olhos de Altair eram rápidos. O golpe de meteoro que disparou com raiva próximo àquelas pessoas danificou bastante o solo. O ruivo procurou ser cuidadoso, porém precisava cumprir sua missão.


— Parem onde estão. — Altair grita — Não permitirei que fujam para os confins do Egito tentar ressuscitar aquele deus maligno com sua magia negra.


Seth rapidamente se coloca novamente diante do cavaleiro de prata com um salto.


— Seu inimigo sou eu, meu jovem. Enquanto eu estiver aqui você não os tocará.


Ambos ficaram em silêncio durante alguns longos segundos, colocando-se em posição de ataque, opostos um ao outro. Cosmos ascendentes. As pessoas se assustaram e correram, aproveitando-se da distração dos guerreiros.


Os olhos de Altair brilharam em um azul claro intenso e a figura de uma Águia surgia atrás dele enquanto ele saltava e atacava Seth com seus meteoros furiosos e luminosos cortando o ar na direção do inimigo, que por ser mais velho e ter experiência soube se esquivar da maioria e bloquear alguns outros com apenas uma mão.


Altair não ficou nem um pouco surpreso enquanto disparava os meteoros, conhecia como ninguém a força e o poder do seu mestre.


— Formidável, Altair. Mas agora é minha vez. — Disse Seth, anunciando sua ação, porém foi surpreendido por uma luz azul mais intensa. Altair investiu em uma técnica surpresa atacando com o cosmo canalizado no pé direito. A imagem de uma águia surgia atrás do jovem, simbolizando sua constelação protetora.


— Lampejo da Águia.


Os inúmeros chutes do cavaleiro de prata atingiram o rosto e peito, desequilibrando-o e consequentemente derrubando-o no chão pela surpresa e força do golpe.


— Formidável, jovem Altair. — Uma certa quantidade de sangue saía da boca de Seth e ele a limpava com uma mão enquanto se levantava. — Mas agora é minha vez.


Seth concentra uma pequena quantidade de seu cosmo na mão direita, emitindo um brilho dourado.


— Rajada solar. — Seth dispara um feixe contínuo de energia dourada na direção de Altair, o atingindo e derrubando-o no chão. O rapaz ruivo atinge o solo, caindo de costas com algumas queimaduras na superfície da sua pele.


— Ugh… o senhor continua muito forte, porém eu não conhecia essa técnica. Como aprendeu isso?


— Humpf… Seu cosmo se fortaleceu muito desde a última vez que lhe vi, rapaz. Mas é hora de terminarmos essa brincadeira.


— Concordo. — Altair balbucia enquanto se levanta após o golpe e se põe novamente de pé, dando uma encarada profunda nos olhos do homem. — Pra começar, que tal ser franco comigo e dizer o verdadeiro motivo que o levou a trair Atena?


— Quer saber? Eu já havia traído Atena antes mesmo de Abel se levantar contra o Olimpo e a velha ordem de Zeus. — respondeu Seth.


— O que? antes mesmo de matar seu irmão Osíris?


— Abel veio bem a calhar, para me ajudar a concretizar meus planos, e serei eternamente grato a ele. Bem, eu já disse tudo o que precisa saber. Não há mais o que conversar. Tem alguém me esperando.


— Espera… quem está te esperando?


— A família que Abel possibilitou que eu tivesse e que Atena e seu santuário queria impedir.


— Família? o que quer dizer com isso? seus seguidores ou… — Altair não completou a frase, pois a demonstração do poder do adversário o chocou.


Seth posicionou seus dois braços para cima e cruzados, como quando preparava-se para executar a Explosão Galáctica. Porém ao invés do tecido quadriculado do espaço tempo abrindo-se atrás dele, como um véu revelando galáxias e planetas, Altair viu o tecido se abrir para a passagem de uma energia na forma de uma carruagem solar muito luminosa.


As pessoas que estavam ao redor olhavam com espanto e admiração para a fonte luminosa acima de Seth, que imediatamente se dirigiu a elas.


— O que vocês ainda estão fazendo aqui? Por que ainda não seguiram rumo à cidade perdida? — O homem gritou para seus seguidores de forma bem agressiva, gritando bem alto.


Instantaneamente aquelas pessoas, antes paralisadas de tão impressionadas, testemunhando pela primeira vez uma luta entre dois cavaleiros, começaram a se afastar correndo do cenário da batalha. Altair tentou uma última vez contê-los, ameaçando veementemente.


— Parem, entendam que eu não quero o mal de vocês. Atena não quer o mal de vocês. — Altair gritava e corria até eles, tentando conversar — Pelo amor que sentem pelas suas famílias, esqueçam Abel, por favor, ele é mentiroso e só quer usar vocês. Não sigam Seth, por favor. Acordem.


Enquanto Altair movia-se na direção deles, Seth foi mais rápido e disparou seu golpe em cima do jovem cavaleiro.


— Invocação da Quadriga Solar.


A grande energia, na forma de uma carruagem de fogo, avançou pra cima de Altair em altíssima velocidade e o acertou em cheio, explodindo e desintegrando instantaneamente o corpo do pobre rapaz, que mal havia completado 19 anos. O cosmo de Altair se apagou para sempre e restou somente a armadura de prata de Águia, que ao tocar o solo voltou à sua forma original com suas peças se encaixando entre si e formando o animal símbolo da constelação.


Um de seus últimos pensamentos foi sobre essa tal família de Seth, quem era e de onde vinha. Altair sabia que os cavaleiros de Atena eram proibidos de se casarem e terem família, pois deviam se dedicar ao máximo a proteger Atena.


Diante da armadura de prata, Seth olhava para seu reflexo nela. Sua expressão era neutra, sem nenhum remorso por sua ação. Aquilo foi consequência da escolha dele por Atena, ao invés de Abel. Dizia para si: Era um bom garoto, uma pena que não soube valorizar seu mestre como devia. Acrescentaria muito no exército da Coroa do Sol.


Seth seguiu seu caminho até encontrar se com seus seguidores mais à frente. Ao alcançá-los, uma mulher jovem, vestindo um manto marrom escuro, correu até seu abraço e sendo correspondida no gesto, não se importando com aquela armadura que cobria seu corpo. Logo depois um garotinho ruivo de uns sete anos veio correndo em seguida para unir-se aos dois naquele abraço em família. Muito orgulhoso de seu pai.


O destino final daquelas pessoas, lideradas por Seth de Faetonte, antigo cavaleiro de Gêmeos, carregando consigo seus pertences como suas vidas, era uma cidade perdida em meio às areias do deserto, onde as ruínas de um antigo templo guardavam o motivo daquela peregrinação e da batalha mortal entre aqueles cavaleiros.


Um grande obelisco em meio às ruínas com o selo de Atena colado bem no meio, para conter a alma latente do perverso Abel. O resultado de uma intensa batalha entre deuses. Entre irmãos.